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quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Bialowieża, a única e fabulosa floresta virgem que resta na Europa



A floresta está na ordem do dia. É um dos bens mais sagrados do planeta, porque daí advém a saúde de todo o ecossistema que nos sustém vivos. E embora dele façam parte espécies animais, não são tão imprescindíveis como uma abundante floresta primária, ou virgem. Na Europa há muitos parques florestais saudáveis e bem tratados; mas floresta virgem só há esta - Bialowieża, na fronteira polaco - bielorussa.

Parque Bialowieża (Polónia) / Belovezhskaya Pushcha (Bielorússia)


É uma floresta mista. Abetos, pinheiros, amieiros e carvalhos fazem cerca de 80% das espécies arbóreas. Mas não faltam bétulas e faias, freixos e ulmeiros, choupos e álamos. Algumas com três séculos, há um carvalho com seis. Uma riqueza imensa em 3 085 km2 (308 580 ha), quatro vezes a área do nosso Gerês.


A maior valia está caída no chão: troncos, ramos e folhagem com muitos séculos de acumulação constituem um espesso tesouro vegetal, em parte sobre terreno húmido ou água lacustre.


Tronco de carvalho secular.


Musgos de Outono

Uma das plantas mais expandidas no tapete rasteiro é o alho-dos-ursos, allium ursinum, que quando floresce cria esta beleza toda:


E no Inverno,
Que troncos magníficos.

Para muitos, a diversidade da fauna também é um tesouro. Mesmo tendo dúvidas, confesso que é como uma animação bonita ver a floresta cheia de vida animal:

Pica-pau

Pisco de peito ruivo

Narceja-real dos pântanos

Furão

Castor

Raposinhas

Lince


Alce

E para acabar em beleza:

 ainda: lontras, javalis, lobos e bisontes !

Ui.


O que seria boa ideia era recriar mais áreas de floresta primária espalhadas pela Europa; em Espanha (segunda maior área florestada na UE) e França, e talvez alargar e enclausurar as Ardenas (60 000 ha), e ampliar as florestas do Trentino/Alto Adige. Ah, se eu fosse ministro europeu para as Florestas...😉

Sem ser animista, penso que o que a Natureza oferece aproxima-se muitas vezes de Arte, sem autor mas com inebriante e muito complexa beleza; talvez não haja 'inspiração' de qualquer génio, mas há um trabalho de milénios que nenhum artista humano alcança. A floresta europeia é um dos exemplos, para nosso enlevo.

Uma visão rara na Europa. Que o turismo desregrado não venha a dar cabo disto também.

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NOTA: em bom rigor geográfico, dir-se-ia que a maior floresta virgem europeia é a floresta de taiga dos montes Urais, com 12 500 km2, mas menos rica - abetos, lariços, pouca fauna.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ditadura = iliberalismo



Navegamos à vista, sem rumo, num mar aberto e livre mas junto às costas fatais da ameaça totalitária.  Acontece que estas costas sabem iludir os navegantes com verdura e nevoeiro a disfarçar negras arribas e rochedos.

Os candidatos a ditadores já aceitam ir a votos. Manobram como podem, e acima de tudo mal se vêem a controlar o Estado tornam-se absolutistas e até são tentados a nomear herdeiros. Mas continuam sempre a reclamar-se democratas, e defensores dos direitos humanos. Democracia e direitos tornaram-se a vegetação que cobre as arribas, um argumento irrecusável, consensual, mesmo que muitas vezes aberrante. A Coreia do Norte é a única excepção que se assume ditadura à antiga, férrea e tenebrosa. Os outros - Orbán da Hungria, Maduro na Venezuela, dos Santos em Angola, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia... - são caudilhos pós-modernos, cautelosos e ardilosos, com gosto pelos media e até pelas redes sociais, apoiados num aparelho de Estado com poderes excessivos que lhes garante eleições (e referendos) favoráveis.

Não, ir a votos já não basta para ser democrata. É preciso que o Estado continue limitado nos seus poderes, e que haja fortes contra-poderes: oposição livre e vigorosa, tribunais independentes, economia de mercado. É preciso, e cá chegamos, que haja LIberalismo !

Pois. Orbán disse, e com razão, que a Hungria é uma Democracia iliberal. Democracia agora dá para tudo - Trump e LePen são democratas, tal como Putin e o premier chinês Li Keqiang. Não são é Liberais, são chefes de um Estado absolutista, nacionalizador, não dão espaço de liberdade para a sociedade civil. O Liberalismo é actualmente a única alternativa à novi-Ditadura. Ser anti-liberal é nacionalizar, ter a oposição e os media sob controle, reforçar o poderio do exército - e isso é uma Ditadura.

Há evidentemente uma culpa da "extrema-esquerda" nisto tudo. Clamando contra o liberalismo, o Imperialismo, a Globalização e a soberania Europeia, abrem campo às ditaduras todas, aos "fascismos" de esquerda ou de direita, disfarçados ou assumidos. LePen é filha de Robert Hue e de Mélanchon. Trump está grato às esquerdices de Clinton e Sanders; o  Bloco de Esquerda admira Chávez e Mélanchon; o PC de Jerónimo Sousa admira a Coreia do Norte e até a Rússia, o contrapeso anti-democrático e estratégico que ainda lhes dá esperança.

Que viva o Liberalismo, digo eu, regulado, claro, com um Estado Social decente, mas liberalismo sério - como nos paises escandinavos, na Áustria, no Canadá, na Nova Zelândia.

E se a direita radical (que não é "extrema-direita")  ameaça agora as democracias liberais europeias, não esqueçamos a ameaça que foi durante décadas a esquerda radical, sempre à espreita do momento certo para o seu terrorismo anti-liberal, anti-globalização, anti-europeu. O alerta em mar costeiro é para as várias falésias negras do rochoso litoral.



Disso sei eu, por lá andei.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Califado kaput


Pensei que ia festejar a "limpeza" de Mosul, como se fosse possível uma guerra limpa. O número de vítimas civis é assustador.

Sem festa, sem alegria, sinto ainda assim uma alívio pelo desaparecimento do pesadelo 'daesh', apesar de tudo é uma vitória das forças democráticas (+ ou - ) e civilizadas (- ou + ). Oh, que maldita realidade esta tão pouco maniqueísta, em que os bons são tão maus, sem que os maus tenham nada de bondade.

Vejamos o lado positivo. Não me parece que haja espaço para nascer outra organização islamista deste calibre. Não vai haver quem queira ser "califa no lugar do califa" (René Goscinny, Iznogoud). Os sunitas radicais vão ficar incapacitados por longos anos, e tirando talvez ataques talibãs no Paquistão, o terrorismo islâmico vai decrescer. Se algum perigo está a espreita, vem da possível mas improvável coligação Irão-Rússia-(Turquia), tão incoerente que até custa a acreditar.

No lado de 'cá', Trump e LePen são a paranóia que se segue. A União Europeia até tem uma boa oportunidade de ganhar peso político, financeiro e negocial, assim queiram os países mediterrânicos e nórdicos aliar-se entre si sob liderança alemã, que remédio. Assim queira a liderança alemã desvalorizar ainda mais o euro e promover o federalismo. Com entusiasmo. É contra a corrente que se deve fazer o maior esforço, não é ? Se prevalecerem os nacionalismos, como parece ser o caso do Reino Unido e França, adeus Europa. É o que querem os extremos, tanto à direita como à esquerda.


Bom. Morra o ISIS, morra, Pim !
Celebração cumprida.



segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Canção do entardecer, de Zoltán Kodály: beleza incómoda ?



Canção do Entardecer (Esti Dal) de Zoltán Kodály


Como muitas outras obras, este cântico levanta o eterno e estéril problema de se apreciar devidamente obras de referência religiosa explícita, sendo um ateu irredutível como eu.

Na maioria dos casos, ignoro o texto, só tomo conhecimento dele se for indispensável (Mahler, por exemplo, ou Brahms), tentando colocar as coisas em perspectiva histórica e civilizacional. Em regra aprecio a música-pela-música, o que basta por completo se for genial. Mas no caso de um poemazito de paixão cristã como este ? A obra é de 1938, já não havia 'necessidade' histórica,  a não ser como contraponto ao nihilismo centro-europeu. Tal como sucede com a música de Arvo Pärt, ainda mais recente, a minha dificuldade de lidar com esta religiosidade aumenta na medida em que a obra é contemporânea (mas a música de Pärt é genial).

Não tem explicação porque me arrepio todo com esta Canção do Entardecer num "flash mob" filmado em Budapeste (no fim deste post).  Sinto que o momento deve ter sido único, sublime, fora deste mundo, cósmico. E contudo, se o texto fosse em português, quanto me incomodaria ! Compor obra de fé nos dias de hoje é mesmo estranho.

Cioran escreveu que, sem Bach, Deus seria um tipo de terceira ordem. Mas Bach certamente não pensava asssim - e compôs toda a sua obra para a glória de Deus. Handel, Vivaldi, Mozart, Beethoven, Bruckner, e agora Gorecki, Gubaidulina ou Pärt, escreveram algumas das mais inspiradas, empolgantes e entusiásticas odes à fé e à divindade cristã.

Os maçons iludem esta questão com um ersatz - veneram uma inteligência divina abstracta, espécie de causa primeira, sem a nomearem Deus. Um recurso manhoso que os dispensa de rezar ou prestar culto. Mas o que todos esses compositores sempre compuseram em honra a Deus foram justamente rezas e cânticos de culto. Liturgias. O Deus deles é aquele mesmo que é representado na Terra pela igreja e pelo clero. Isso torna as coisas mais dificeis, mesmo para maçons.

Há um grupo islandês que faz música aparentada com a dos Pink Floyd - os Sigur Rós (que aliás gosto de ouvir) - e que recorreu a outro truque para a sua música celestial, cósmica, planante e de sonoridade litúrgica: inventou uma linguagem fictícia. Com base nos antigos escritos nórdicos (sagas), criou palavras e frases sem significado que valem como 'tra la la' mas são articuladas como frases verdadeiras, É como ouvir esperanto. Assim, a música vale por si, o canto vale como música, o texto é só mais um elemento sonoro.

Uma solução, para mim, pode ser: ouvir os Requiems e as Oratórias e as Missas como se fossem cantados dessa maneira, numa linguagem cifrada desse tipo. Sem significado. Et incarnatus est é o mesmo que tse sutanracni te. The Lord is My Shepherd equivale a drehpehs ym si drol eht.

Não faltará quem pense que assim não se pode apreciar a obra na sua globalidade, no seu contexto, na sua identidade, na sua 'alma'. Tal como na pintura, onde um Rafael só pode ser apreciado por quem domina e compreenda a mensagem bíblica. Discordo, a atitude ateia é também cultural, é uma conquista de cultura e civilização de que não abdico, e é perfeitamente compatível com a compreensão dos textos sagrados. Eu não acuso os crentes de não serem capazes de apreciar Paul Klee.

Portanto, reivindico todo o direito de me emocionar e maravilhar com Rafael ou a Missa Solene, sem precisar de deus para nada.

Esti Dal de Kodály em Budapeste, 2013




sábado, 17 de maio de 2014

Arvo Pärt sobre a questão da Ucrânia: Ucrainae Fratres


Soube pelo "The Rest is Noise" de Alex Ross que Arvo Pärt, o compositor estoniano, deu uma entrevista ao New York Times onde refere a acção de Putin na Ucrânia nos seguintes termos: "It cannot be called anything else but a crime.

Diz ainda Pärt,

I am very critical of Putin’s government and absolutely shocked about the latest events in Ukraine.” [Mr. Putin] “spread around him massive amounts of hostility and aggression, which has its own dynamics and can now only grow. You cannot take it back anymore. There is no control over it today.

Mais ainda o admiro.

Fratres, pois claro. Ucrainae Fratres.
Orq. sinfónica nacional da Estónia, dir. Paavo Järvi

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ave Maria de Bruch, triste como os tempos que correm


[dedicado a uma Ucrânia livre e em paz]

Parece música a gotejar, ou a escoregar lentamente pelo vidro da janela.
Um especialista do violoncelo lacrimoso, Max Bruch. Faz chover dentro quando chove fora.

Obra de 1892, esta Ave Maria para violoncelo é sem palavras. Com muita sabedoria, Bruch constrói um crescendo em ciclos e contraciclos, até o climax - aos 6:58 - retomado depois em conclusão.



Max Bruch - Ave Maria para Violoncelo e Orquestra op. 61 
Julius Berger - violoncelo
Orquestra N.R.S da Polónia
dir. Antoni Wit

sábado, 25 de janeiro de 2014

Euromaidan

Ora aí está o que é um povo digno e corajoso. Não se escudam com militares. Não combatem múmias. Enfrentam um dos estados mais poderosos e (ainda) repressivos do mundo. E sabem que a liberdade pode não lhes trazer enriquecimento.
À beira disto, o 25/4/74 é uma comédia.














domingo, 8 de dezembro de 2013

sábado, 22 de setembro de 2012

Salve, Pen Club

O maledetto (venho de ouvir o Rigoletto...) Acordo Ortográfico da L.P. foi tchumbado, com t meu de "toma lá e embrulha", pelo Pen Club internacional: ameaça à língua portuguesa.
PIM !

Excertos:
 “tentar centrar uma língua em prioridades administrativas e/ou comerciais é enfraquecê-la ao atacar a sua complexidade e criatividade inata, a fim de promover métodos burocráticos de natureza pública e privada”.

“Duvidamos muitíssimo que essa proposta de estandardização produza outros efeitos além de burocratizar os textos usados nas escolas, separando assim os alunos da real criatividade da língua portuguesa, nos planos regional e internacional”.

Mais, aqui

[achei que a notícia justificava um intermezzo nas sereníssimas reportagens]

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Uma outra Linha do Tua


Eis o que podia ser a Linha do Tua se fôssemos um país rico e civilizado:


O rio, as encostas, igualzinho ao Tua , não é ?


Mas um combóio assim, era bom demais...

 
Pois, estamos nos antípodas mesmo, a linha parte de Dunedin, uma das cidades mais bonitas da Nova Zelândia, e corre a garganta e o vale do rio Taieri. Visitados por gente de todo o mundo...

Só podia ser Portugal de pernas para o ar.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

marsilea quadrifolia

Descobri, descobri a razão de todos os nossos males, porque esta nação anda sem sorte nenhuma, porque vamos de luxo a lixo, de AAA+ a ZZZ-, de +5% a -5%, de TGV a velocidade boa, de raça de descobridores a raça de caloteiros, de ínclita geração a geração à rasca:

Deixamos extinguir o trevo de quatro folhas!


Embora sob protecção legal,

Decreto-Lei nº 140/99, de 24 de Abril – Anexos B-II, b) e B-IV, b).
Decreto-Lei nº 316/89, de 22 de Setembro – Anexo I.
Directiva 92/43/CEE – Anexos II, b) e IV, b).
Convenção de Berna (Convenção Relativa à Conservação da Vida Selvagem e do Meio Natural daEuropa, 1979) – Anexo I.

foi já demasiado tarde!

Abundância
Número de efectivos muito reduzido.
Em Perigo de Extinção
Ramos Lopes & Carvalho, 1990. - Pois, 1990, foi por aqui que começou o declíneo!


Distribuição em Portugal Continental
No rio Douro, próximo da foz do rio Corgo. Apesar de intensa prospecção, desde 1994, foi localizada apenas num local na margem do Douro, em Trás-os-Montes.

Mais concretamente, na Foz do Corgo! Eis a localização do tesouro!


Vamos lá, gentes, cultivar o quadrifólio por todo o país!

domingo, 11 de setembro de 2011

Em nome do Islão


Não me venham dizer que foi tudo uma tenebrosa conspiração.

Não me venham dizer que a maldade humana não tem côr, raça, religião ou época.

Massacres premeditados a frio e assumidos, contra pessoas, só porque por acaso habitam edifícios simbólicos, num país simbólico, que de tão modelar e exemplar abertura, democracia e defesa de valores se transforma, para tiranos e cretinos, em culpado e demónio de todas as causas:

Não: a maldade foi estúpida, feia, negra, árabe, islâmica, bárbara no século XXI. Veio das areias secas do deserto, onde a verdura estiola. Não tem perdão.

Árvores para cada vítima, cada sobrevivente, cada humano de Nova Iorque. A beleza vence.


Nunca Sounds of Silence soou tão comovente:


[hoje, há pouco, no Ground Zero]

domingo, 19 de setembro de 2010

Tua: um rio, uma linha

é uma foto-reportagem de José Miguel Ferreira, uma homenagem à condenada (?) linha do Tua, uma das mais belas ferrovias da Europa, a que já me referi várias vezes neste blog. Imagens belíssimas,

aqui:
http://www.rr.pt/informacao_detalhe.aspx?fid=92&did=119982