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domingo, 31 de maio de 2026

E livros ? Também, incluindo poesia, BD e enciclopédia.


Livros em espera ou apenas iniciados.

The still point, Amy Sackville (trad. francês: Là est la Dance)

Portobello, 2010

"Still point' é um ponto fixo, o Pólo Norte, que não se movimenta durante a rotação diária. A narrativa recorda a vida de Edward Mackley, explorador (ficcional) do Ártico que, em rota para o Pólo desaparece subitamente na paisagem de gelo, sem deixar traços. 

New York Times: Sackville agita a linguagem como uma varinha mágica ... a sua prosa recorda-nos o prazer de ser transportados para mundos longínquos apenas pela palavra escrita; a proeza parece mágica, não técnica.

The Guardian: Os dois mundos do gelo e do calor, separados por um século, no cuidado equilíbrio de uma prosa requintadamente contida.

Bagatelles, Jenny Erpenbeck

Albin Michel, 2004

Tradução francesa de 'Tand ' (Bugigangas), são dez contos de 2001. Tema: a inexorável marcha do tempo e a inevitabilidade de, tal como as pessoas, as suas obras desparecerem também um dia. Bagatelas.

Tand, Tand/ Ist das Gebilde von Menschenhand! 
(Tralha, tralha ! É o que constrói a mão dos homens. )

Conversation Poems Coleridge

Extracto (traduzido):

Minha pensativa Sara ! a tua face assim reclinada

sobre o meu braço, ainda mais doce torna

estar aqui sentados junto à nossa casita, recoberta

de branco Jasmim florido, e densa folhagem de Mirto,

(aí estão sinais de Inocência e Amor !)

e olharmos as núvens, tão belas há pouco na luz da tarde,

entristecendo devagar, ver surgir a estrela da alvorada,

serenamente luminosa (tal como a Sabedoria) 

a brilhar no lado oposto!  Como são refinados os aromas

emanados daqueles feijoeiros! e o mundo tão apressado !

O murmúrio sussurrado do mar distante

Fala-nos do silêncio.

                                                                      [início do poema A Harpa Eólica]

BD J'ai toujours rêvé d'être un fermier, Jean Harambat

Dargaud, 2026

Uma evocação bucólica das paisagens e dos trabalhos rurais, em tintas sfumato - ocre, beige, verde água - e destreza no traço.

E o mais vistoso para o fim:

PETIT LAROUSSE 2027

Se quer saber sem browsear
é só abrir e folhear.

Um gozo, estético e táctil.

Duas consultas 'modernaças' a termos ingleses incorporados no francês:




Uberizar? Uberização ?? Credo, livra ! Estes franceses...


quinta-feira, 1 de setembro de 2022

Sempé: as ilustrações para o Sr. Sommer de Süskind


Não segui a carreira de Jacques Sempé desde cedo, só há poucos anos o descobri no Le Point e desde então procurei conhecer mais obra dele. É Arte, aquilo que Sempé fazia, obras únicas e inconfundíveis, respirando ironia e ternura num traço imprevisível, nada óbvio.

O prazer de 'voar' com a ventania, encosta abaixo

Ou subir às árvores e ver a extensão do mundo

Foi ao ler a História do Sr. Sommer de Patrick Suskind que tive um dos melhores contactos com Sempé, pelas 24 aguarelas com que ilustrou a narrativa do estranho senhor, que vendo bem nada tem de estranho - é o nosso desespero de vida.


Com mochila às costas e empunhando um cajado, ele anda pelos caminhos em volta do lago sem destino nem propósito, num passo rápido, como uma sombra. Toda a descrição parece uma historinha infantil, com um personagem excêntrico que de início faz sorrir.



Muitas vezes o jovem narrador, nos seus passeios a pé e depois de bicicleta, avista o sr. Sommer na sua permanente corrida para sítio nenhum.


O encontro mais dramático aconteceu uma vez, de carro com o pai, durante uma violenta tempestade de granizo.

"Mas agora, conduzindo debaixo de chuva, na estrada rural coberta de granizo, seguindo a par do senhor Sommer, o meu pai tinha gritado pela porta aberta do carro uma frase feita: «Está a pôr a vida em perigo!» Então o senhor Sommer deteve-se. Creio que foi ao ouvir «jugarse la vida», e parou tão bruscamente que o meu pai teve de travar a fundo para não o deixar para trás. E então o senhor Sommer passou o cajado da mão direita para a esquerda, voltou-se para nós e, com voz clara e forte, golpeando o chão várias vezes com fúria e desespero, gritou: "De uma vez por todas, deixem-me em paz!" E mais não disse. Só isto. De imediato bateu com a porta que lhe tínhamos aberto, voltou a trocar a vara para a mão direita e seguiu caminhando sem olhar para para trás."

A tonalidade trágica vai crescendo ao mesmo tempo que o narador cresce de criança para adulto. A fantasia inicial acaba por dar lugar à celebração da morte.


Jacques Sempé trabalhou para várias publicações, mas talvez a "obra prima" seja Enfances:





sexta-feira, 30 de julho de 2021

Leituras e DVDs para este Verão


Não tenho nenhuma leitura recém-publicada, é tudo livros com meses ou anos. Só exceptuo os dois que já li e de que aqui falei, Another Time, Another Place de Victoria Crowe e Encre Sympathique de Modiano. 

Contos. Farto de Tchekov, que está largamente sobrevalorizado, volto a um outro, subvalorizado, Alistair Maclean. The Lonely Sea junta alguns contos de marinheiros (marinha de guerra ou pescadores), sempre às voltas com os perigos do mar. 

Por exemplo, They Sweep the Seas, um dos melhores contos, é a descrição do processo de varrimento do mar à procura de minas (minesweeping), depois da 1ª Grande Guerra, no Mar do Norte ao largo da Escócia. Duas traineiras saíam do porto - talvez Tarbert ? - diariamente pela manhãzinha, fosse qual fosse o estado do mar, e chegando à zona destinada para esse dia lançavam um cabo de aço de uma para a outra, com pesos devidamente colocados para fazer arrastar o cabo abaixo da superfície das águas; todas estas operações exigiam uma mestria extrema na manobra das traineiras que só os melhores dominavam: uma precisão de centímetros, estivesse mar calmo ou agitado ! 

Havia acidentes fatais - se a mina explodia perto de uma das traineiras, se o cabo partia e no ressalto cortava algum tripulante - e sucessos festejados, se a mina era desactivada. Cada caso de sucesso ficava registado com uma marca na madeira, um V. MacLean conta estes detalhes da vida marítima no início do século XX com muita vivacidade e humor, num inglês que dá gosto ler.

Para relaxar, BD: mandei vir os dois volumes de Faut pas prendre les cons pour des gens, 'Não se pode tomar os parvos por pessoas', humor sarcástico francês numa edição de Fluide Glacial, a bater sobretudo nos novos códigos morais do inicio deste século.  

Um exemplo: a máquina self-servive para obter diplomas:

Nem por seres diplomado deixas de ser um parvo.

Quanto ao Anomalia, L'Anomalie, de Patrick Teller, ao contrário do que dizem o Expresso, o número de vendas e um prémio imerecido, é um livro completamente idiota, mal escrito, que pirateia ideias já muito repetidas e melhor exploradas da ficção científica numa prosa vulgar submetida aos códigos mais vulgares dos tempos que correm, tudo num pacote multiqualquercoisa e inclusivo, aborrecido. Não há um personagem que seja com consistência, tudo esboços de marionetes, não admira que se fale de duplos; e o enredo mesmo sendo básico está baralhado sem estilo nem coerência. Um flop.

Estou ainda à espera do novo Ishiguro, Klara e o Sol.

Filmes em DVD: uma escolha bastante óbvia é rever todo, ou quase, o Eric Rohmer, reeditado em HD; Genou de Claire, Pauline à la plage, L'amour l'après-midi (malandreco) e os quatro Contes, em particular o lindíssimo Conte d'été.  

São filmes de Verão por excelência, quentes, tolos (silly season ) e finalmente melancólicos, mas com personagens e diálogos de antologia. Que saudades dos tempos em que 'tudo' era permitido mas havia decência e contenção.


sábado, 13 de agosto de 2016

O Leopardo das Neves, um gato bonito que vive nas alturas


Himalaias, para refrescar.

Acabei de ler "Terra de Sonhos", uma manga do japonês Jiro Taniguchi que o Público recentemente editou. A última das histórias é de longe a melhor - as outras desgostaram-me muito: relata duas expedições de escalada do Annapurna (Nepal), e nela surge várias vezes o Leopardo das Neves dos Himalaias, numa aparição hipnótica, endeusada, entre os picos gelados. (Sabe bem, picos gelados, com este hórrido e diabólico calor)



Esse belo animal, já classificado e protegido, é bastante difícil de avistar. Não se deve confundir com outro leopardo das florestas da Ásia central e Irão, maior e mais perigoso. O felino conhecido como Leopardo das Neves (Uncia uncia) vive entre os 2000 e os 3000 m de altitude mas nunca subiria, como na história de Taniguchi, às neves eternas, aos mais de 5000 m; habita a Mongólia (Altai) , Sibéria (oeste do Baikal), Cazaquistão, Tajiquistão, Paquistão (Pamir), Nepal (mais numerosos), Butão, Tibet; frequenta zonas alpinas escarpadas e rochosas, ou florestadas de coníferas; alimenta-se de caprinos da montanha, animais de rebanho e pássaros, e é mais pequeno que o congénere africano, menor também que a pantera ou a onça.

É um gato grande, mais do que um leopardo, até porque em vez de rugir, emite um miau agudo e prolongado, lancinante. Durante o Inverno o seu habitat são terrenos nevados, onde sobressai magnífico sobre o fundo branco !
Não tão grande como a onça ou a pantera, o Leopardo das Neves vence na família felina pela cauda longa e felpuda, que ajuda ao equilíbrio nas escarpas.


É um gato muito arredio, vive solitário e evita os humanos; só se arrisca a sair pelo crepúsculo ou de madrugada, com pouca luz - talvez por ser demasiado visível contra o branco da neve à luz do sol.


Olhos cinza-esverdeado, côr rara.

Li que há umas centenas deles em cativeiro, e é descrito como um animal pacífico, calmo e dócil, amigo do tratador, e apreciador de festas no pêlo, :) um verdadeiro gato.

É estranho, mesmo assim, que se refiram números da ordem das centenas ou milhares de indivíduos (total: ~ 3000 - 6000, estimativas contestadas) e que sejam tão raros fotografias ou filmes de qualidade que o mostrem. Isso alimenta o mito, claro, as lendas são muitas e isso convém aos contadores de histórias :). Ah, a maior densidade de Leopardos das Neves é ... no Annapurna !

O melhor documento que encontrei, da National Geographic, é recente - de Abril de 2015, com algumas boas imagens.
http://photo.nationalgeographic.fr/le-leopard-des-neiges-un-felin-discret-et-menace-4792?v=2#un-corps-d-athlete-77298
Habitat do Leopardo das Neves


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E foi mais um momento David Attenborough, é Agosto e sabe bem o encosto.


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Leituras leves para Agosto


Faço uma breve interrupção no relato da minha viagem para escrever sobre o que tenho para ler neste próximo mês. Não falo de grande literatura -  silly season obriga - mas sim de coisas ligeiras sem deixarem de ser enriquecedoras e de muito boa qualidade.

Começo pelas publicações da imprensa periódica. Do Público, juntei duas BD, Jonathan de Cosey  e uma manga japonesa de Taniguchi, 'pai' do género - Terra de Sonhos. Ambos dentro do melhor que se faz nas histórias aos quadradinhos: enredos ilustrados com poesia e requinte.

Franceses: do L'Express, fiquei com uma edição comemorativa do humorista Gotlib, que muito me divertiu nos anos 80, mas até salivei com o "Long Cours" do Le Point: um dossier fresquinho e com bons autores - Sylvain Tesson, Michel Onfray -  L'Aventure des Pôles, sobre o passado e o presente das duas regiões polares, incluindo Gronelândia, Baffin, Kerguelen... terras do meu imaginário.

De Inglaterra, além de (poucos) livros sobre os locais que visitei, trouxe uma edição abreviada mas de boa qualidade e muito bem ilustrada do célebre Book of Kells. Há uma edição integral, limitada, em fac-simile, a 18 000 £ - era pesada :D e preferi esta.

E não resisti a este Age of Wonder do biógrafo Richard Holmes, hino à civilização e ao progresso científico nos finais do séc XVIII - séc. XIX, referindo em particular Herschel, o astrónomo-músico de quem aqui falei recentemente. Prémio da Royal Society para livros científicos em 2009, traduzido pela Gradiva (A Era do Deslumbramento).
How the Romantic Generation Discovered the Beauty and Terror of Science.

Tenho sempre os livros 'sérios' de cabeceira, claro. Fica para outra oportunidade.
Boas leituras.


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Apesar de bastante afluência (49 neste momento) não tive uma única resposta à minha pergunta no post anterior. Vou assumir que quem cala, não consente, ou pelo menos é indiferente, e passarei adiante.


terça-feira, 22 de março de 2016

Hergé e os bombistas - Vive la Belgique !


O primeiro contacto que tive com o conceito de "terrorista" foi com Hergé, no "L'Oreille Cassée", que se passa numa república fictícia da América do Sul. Chamavam-se "bombistas", eram mais ou menos anarquistas a soldo da facção da tropa na oposição que queria derrubar a tropa do governo, ou vice-vera, visto que os regime militares alternavam em grotescas ditaduras.

Era tudo tão longe, tão longe da Europa. As bombas estouravam com alguma frequência, para "desestabilizar", ou em atentados direccionados a algum general incómodo. Hergé tratava o tema em caricatura, claro. O corporal Diaz era uma anedota: queria vingança do general gorila Alcazar, que o tinha demitido.

La liberté ou la mort, slogan tão desgastado.

Mudança da hora...

E como este, há outros fiascos hilariantes. Visto de Bruxelas, hoje, este bombista é quase um romântico. Felizmente, Hergé nunca veria a sua Bélgica massacrada por Caporais Diaz lunáticos de Maomé, mil vezes mais mortíferos, sem alma nem pinga de compaixão.

Vive la Belgique !

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Os melhores do ano, aqui neste meu Livro.


Tudo quanto é jornal e revista elege os seus melhores do ano, mais estrelas menos estrelas, listas para compra e oferta "segura", como se tal houvesse.

Desalinhado com o gosto padrão dos "críticos", aqui fica o meu gosto - muito parcial e enviesado, claro - em escolhas aos pares, muitas delas já aqui referidas ao longo do ano.

Uma espécie de prenda de Natal.
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Filmes do Ano :

'Leviatã'
de Andrey Zvyagintsev

O autor de O Regresso, The Banishment e Elena é talvez o maior cineasta do nosso tempo - dizer "génio" parece-me adequado. Mais aqui.

O Regresso a Casa
Zhang Yimou
Serena melancolia também na China, filmada por um esteta da elegância e do colorido. Mais aqui.

- menção especial para o melhor filme de animação, O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata, emocionante e épico.

Discos (CD) do ano :

Haydn, sinfonias nº 31, 70, 101
Robert Ticciati com a Scottish Chamber Orchestra


Leif Ove Andsnes
Beethoven, concertos nº 2 e 4 para piano

É o 3º volume da "Beethoven Journey" de Leif Ove Andsnes - e mantém a mestria de piano e de orquestra que fazem destes 3 CDs uma primeira escolha. À Mahler Chamber Orchestra cabe parte do mérito.

- uma menção especial para a 9ª de Bruckner de Claudio Abbado com a Lucerne Festival Orchestra, formidável e arrebatadora.

Livros do Ano :

A obra que mais gosto me deu ler este ano foi "A Noite dos Tempos" de René Barjazel, publicado em 1968. Quanto a livros publicados em 2015, deixaram marca estes :

Windows of the World
50 autores, The Paris Review
com desenhos de Matteo Pericoli
      
Belíssimos textos, ilustrados com cuidado e inspiração, ou vice-versa.

O Meteorologista
Olivier Rolin
      
Fundamental para perceber "aquilo tudo" que lá se passou. Triunfo dos Porcos, 1984, Gulag, um imensurável crime que é costume menorizar. Para mais, escrito com elegância e (relativa) contenção.

Aconselho o original em francês, porque esta tradução é em mau acordês.

BD
Não passei a vista por nada que se compare a

      
La Lune est Blanche
François e Emanuel Lepage
Aqui escrevi sobre ele.


Museu do Ano

Dos que visitei, fiquei extasiado neste:


Villa Farnesina, Roma



É de ir a correr.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

La Lune est Blanche, dos irmãos Lepage:
uma leitura de Verão diferente.



Para quem gosta de banda desenhada e de aventura, esta narrativa gráfica é imperdível. Estive uma semana agarrado às vinhetas e ansioso por seguir lendo. Passa-se na Antártida Oriental, centra-se numa expedição de 12 dias entre a base litoral francesa Dumont d'Urville e a base interior franco-italiana Concordia, junto ao Dome-C *, numa zona crítica de altitude (3 233 m) e de frio extremo (-30º a -80º C) .

O desenho de Emmanuel Lepage é bastante bom, parte dele baseado em fotografia do irmão François, resultando nalgumas pranchas espectaculares.


A primeira parte relata a viagem desde Hobart (Tasmânia) até à base francesa na costa antártica, a bordo do modesto Astrolabe, um navio polar francês de fundo chato e pequena tonelagem, muito resistente e capaz de quebrar gelo fino, mas muito desconfortável também.

O Astrolabe chegando à zona polar do Antártico.


O enredo está bem desenvolvido, consegue alguma expectativa e algumas surpresas, mesmo que seja brevemente entrecortado por notícias históricas - Amundsen e Scott, Shackleton, Charcot... - que expõem em poucas páginas as longuíssimas viajens e desventuras dos primeiros aventureiros do Antártico.

O James Caird com Shackleton à deriva na tempestade, ilustração de E. Lepage.

Depois de várias tentativas, o Astrolabe consegue furar a placa de gelo e atingir o destino, com largo atraso. Na Dumont d'Urville, o atraso provoca alterações desagradáveis nos planos de expedição. O mau tempo complica ainda mais.


O desenho tem momentos muito bons.


Na segunda parte, central, acompanhamos o raid, um combóio de transporte e de reabastecimento que terá de percorrer 1 200 km na planície gelada, contornando múltiplos obstáculos; tractores de grande potência e tracção por lagartas rebocam vários contentores sob tempestades de gelo, ventos catabáticos, visibilidade zero, veículos atolados na neve mole... e frequentes avarias mecânicas. Uma cavalgada infernal, não fosse o fascínio do território.


A última parte passa-se na base Concórdia, de construção recente (2005), situada à latitude 75º 06' S. Limita-se a descrever a chegada, a vida na base e a partida de avião (o último do ano) dos que não ficam a passar o Inverno. É talvez a parte menos conseguida, uma colecção de retratos e instalações.


A base num dia de Verão antártico. "-37.2 ao nascer o dia" seria um bom título.

O título do livro surge quando um dos autores se afasta alguns metros do raid  procurando a solidão total, com 360º de deserto gelado à sua volta: num raio de 600 km não há alma viva. É como se estivessem na Lua, só que esta Lua é branca.





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La Lune est Blanche
François & Emmanuel Lepage

BD, 256 páginas
ed.  Futuropolis.



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* Dome A,  Dome C,  Dome F são as designações comuns dos cumes mais altos da Antártida. Não são picos mas cimos de encosta suave.