Mostrar mensagens com a etiqueta piano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta piano. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 12 de março de 2026

Mel Bonis, francesa, pianista e compositora da viragem de século XIX-XX


"Mel" Bonis (Marie Hélène Mélanie Bonis) foi uma pianista e compositora francesa tardo-romântica, da transição do século XIX para o XX. Escreveu mais de 300 peças, sonatas para piano, piano e flauta, trios e quartetos, órgão e até sinfonias e música coral. Ignorada durante décadas, voltou a ser mais celebrada desde o início do século XXI, com várias gravações onde se reconhece o seu talento.

Começo com uma alegre 'dança' para piano: Valse Lente, op. 36

Mélanie Bonis nasceu em Paris em 1858; aprendeu piano contra vontade dos pais, com os contemporâneos César Frank e Debussy. No Conservatório encontrou o barítono e poeta Amédée Hettich, que desde então será o seu melhor amigo com quem partilha a paixão pela música.

Em 1883 é forçada pelos pais a um casamento que lhe desagrada, mas que lhe proporciona uma vida luxuosa. Passados uns anos, reencontra o amigo Hettich que a estimula a retomar a vida musical, e consegue publicar muitas das suas partituras. 

Sérénade  op. 46, 1899

Mélanie Bonis sofre um conflito violento entre a sua vontade e os preconceitos religiosos, escondendo a sua relação com Hettich tal como esconde o seu nome com o pseudónimo 'Mel' Bonis.

Em 1899, nasce uma filha de Hettich e Bonis, Madeleine. Os anos seguintes são dos mais fecundos da carreira da compositora, que projecta na música a alegria e sensibilidade que não consegue em casa. 

É desta altura o Prélude op.10
Recentemente obteve algum sucesso na interpretação na guitarra de Rosie Bennet. É uma das minhas favoritas:


Em 1910 Mel Bonis é premiada pela Societé des Compositeurs de Musique. Entra para a Sociedade, onde está na companhia de Fauré e de Saint-Saëns. É um período de sucesso, com muitos concertos nas melhores salas do país.

A boa disposição nota-se neste L'oiseau bleu  op. 74, de 1905, poema de Amédée Hettich :

De  1913, uma obra excelente, mais elaborada, ainda antes da guerra:

Il pleut , op.102

As últimas obras, em parte por causa da guerra, perdem a alegria e tornam-se mais religiosas. São composições para órgão ou música coral.

De 1923, Au crépuscule, op. 111 dedicado à filha Madeleine

Em 1927 dá o seu último concerto. Em casa, nos seus últimos anos, Mélanie remeteu-se a uma melancolia religiosa.

Adoro Te op. 149, coral, 1933

Termino com a Danse Sacrée op. 38, uma pequena composição precursora que lembra a música dos actuais compositores de piano (Einaudi, Wim Mertens, Yann Tiersen...) - será que eles a 'plagiaram' ?


Merece bem ser mais tocada em palco.


domingo, 4 de agosto de 2024

A 'Allemande' da Suite francesa nº4 de Bach, em audição comparada

As suites francesas de Bach deviam ser ensinadas na escola, a sua estrutura, a base tonal, o contraponto, os conceitos de harmonia, melodia e ritmo, e sobretudo a habilidade criativa do compositor; Património da Humanidade é uma classificação bem aplicada.

Escolhi a Allemande da suite BWV 815 como poderia ter escolhido outras; acontece que por acaso (ou)vi no Mezzo Live David Fray interpretando em 'encore' esta peça e fiquei em êxtase, mesmo já a tendo ouvido algumas dezenas de vezes. 

A Allemande começa com arpeggios em crescente que gradualmente divergem harmonicamente. O ritmo e as pausas são parte essencial do estilo de cada interpretação: quem está ao piano define um modo, a interpretação é uma recriação. Começo por uma bem antiga, quando ainda não se tinha generalizado o estudo histórico para aproximar o que seria o estilo interpretativo da época.

Sviatoslav Richter, consegue intensidade com rapidez, em 2.20 min,

András Schiff é brilhante mas parece que ligou o turbo e corre pelas teclas vertiginoso, sem pausas: 2.13 !
Gosto muito de Murray Perahia, pausado e meditativo, já próximo do ideal para piano com o tempo de 2.50 min

Agora no cravo: Pierre Hantai, a perfeição é eterna... 3.23, tempo ideal.

O cravista Richard Egarr é lento mas majestoso, em 3.34 !




----------------------------------------------------------------------
Em extra, outro exemplo, a Gigue da Suite nº5 BWV 816 com András Schiff:

terça-feira, 21 de maio de 2024

Sokolov na CDM: a peregrinação anual e os 'encores'


Grande concerto sem dúvida, Grygory Sokolov ontem na CDM . Terminou - nem acredito  na minha sorte ! - com a BWV 639 (Ich ruf zu Dir), composta para órgão, numa sentida e bela interpretação.


Foi mais ou menos assim:
Um belo concerto, começando com 4 Duetos de Bach, avançando até Schumann - a obra prima Waldszenen (Cenas da Floresta), op 82 - e voltando às origens ao terminar. Uma das mais conseguidas presenças do pianista nesta sala e um dos poucos concertos imperdíveis deste ano.

À falta de uma gravação de Sokolov, deixo Maria João Pires com as Waldszenen

Já agora, também me agradou imenso saber que Sokolov adoptou a cidadania espanhola !  Não deixo de admirar esta atitude radical, sobretudo quando comparada à indefinição ambígua de outros ou, ainda pior,  à acomodada pactuação com o regime russo. Grigory Sokolov ofereceu ainda toda a receita do seu recital na Vienna Konzerthaus a 13 de Março para apoio humanitário aos ucranianos.

E termino com a versão original para órgão da BWV 639.
Este pequeno prelúdio tem uma aura especial associada a outra obra de arte mais moderna: foi usada por Andrei Tarkovsky na banda sonora do seu opus magnum Solaris. Ver  aqui.

terça-feira, 10 de maio de 2022

Mais música para esta Primavera.

Chegaram estas semanas alguns CDs que fui encomendando, com receio de que se perdessem (os que vinham de UK). Um dos melhores veio do coro do Keble College, de Oxford, um colégio admirável, imponente, a Nordeste junto ao Museu de História Natural.


Ainda hei-de lhe dedicar um post.

A Capela

CDs

Resurrexi, Páscoa em Viena
CRD, 2022

Música de Mozart e Haydn, pelo coro do Keble College e o grupo Instruments of Time and Truth. Excertos da rara Spaur-messe de Mozart alternando com excertos de Haydn, executados como eu gosto, na escola de recriação do barroco mas com grande perfeição técnica e detalhe.

- uma obra que não tinha ainda em disco:

Messe des Morts de Jean Gilles
(para o serviço fúnebre do funeral de Rameau)

Collegium Vocale de Ghent,
Capriccio Stravagante, dir. Skip Sempé (2014)

Grande Jean Gilles ! Uma abertura espectacular (Introit/Kyrie), que os músicos e o côro desempenham na perfeição: impacto, pausas, fraseado, quase estonteante. Notável também o Agnus Dei, Uma obra complexa que rivaliza com a música sacra de Handel, podem crer. 

Concertos para Violoncelo
Carl Phillip Emanuel Bach

O sempre estimável J. Queyras com o Ensemble Resonanz num disco muito 'doce' de 2018 - os andantes, sobretudo, são companhia suave e aveludada para momentos de sossego. O H439 para violoncelo, cordas e baixo contínuo é uma obra prima. 

----   Piano, agora ----

Schubert, Impromptus D935 e o quase-concerto D487

Um disco surprendente de 2007 com obras de Schubert pelo pianista alemão Sebastian Knauer, que consegue a proeza, por exemplo, de ser mais poético, impressivo e firme nos D935 que Maria João Pires. Talvez seja a melhor interpretação de sempre! Genial, este Knauer, atenção a ele. Diz o Gramophone: "uma maravilha de eloquência robusta e mestria infalível, livre de caprichos e de maneirismos". Mas surpresa a sério é o Adagio e Rondo Concertante D487, a obra em que Schubert mais se aproximou do Concerto para Piano - talvez seja um esboço - que Knauer arranjou para cordas. Soa com obra nova!

Brahms / Lupu

Finalmente consegui a gravação histórica dos Intermezzi de Brahms por Radu Lupu, que só tinha em vinil riscado. O sublime 118 nº2 nunca me emocionou tanto.
--------------------------------------

Fica aqui música do Diligam te, Domine de Jean Gilles, Inclinavit coelos
Canta Veronique Gens.

'Inclinavit caelos, et descendit, et caligo sub pedibus eius.'
          Inclinou os céus, e desceu; e as trevas trazia sob os seus pés.

Assim descem os mísseis russos.

quarta-feira, 20 de abril de 2022

Radu Lupu, poeta do piano, supremo em Brahms.


Radu Lupu, pianista romeno entre os melhores de sempre da História da Música, era um personagem introvertido, de poucas palavras, modesto, quase severo. Nunca cultivou o estrelato, como Sokolov ou outros (e outras). E contudo, quando se sentava a tocar, o piano soava diferente, Brahms era outro Brahms, único, para escutar como pela primeira vez. 

Escrevia o N.Y. Times sobre um concerto em 1996:

"É difícil descrever exactamente o que acontece quando os dedos de Radu Lupu descem sobre o piano. Não há gestos espaventosos, nem proezas técnicas deslumbrantes, nem sequer noções interpretativas inovadoras. Não há uma grande personalidade a lançar a música contra os ouvintes. Acontece que o piano produz uma tonalidade narcoticamente bela; linhas solitárias ou a abertura de intervalos ganham uma aura luminosa. Há subtis sombras dinâmicas, uma lúcida voz interior, ritmos bem volteados e fraseados que cantam  — e nada mais para além disso a não ser, estranhamente, a música em si mesma.
                                                                                                            [tradução minha]

Uma das obras que mais cultivava era o Intermezzo op.117 de Brahms, muitas vezes oferecido como encore a terminar o concerto.


Foi com o op. 117 que encerrou o seu concerto de despedida.

Outra obra em que se excedia era a
(a partir de 7:34):

"Um La acima do Dó central soa diferente com Lupu. Brilha com uma luz interior."



terça-feira, 7 de setembro de 2021

Leif Ove Andsnes numa gravação excepcional de Mozart


Acontecimento editorial na música: o recente CD "Mozart Momentum 1785", com o pianista Leif Ove Andsnes (a quem já aqui me referi com entusiasmo a propósito de Beethoven) e a Mahler Chamber Orchestra é uma proeza de bem fazer música, mais ainda por ser realizado em plena crise da pandemia. 

O título significa um tributo às obras que Mozart compôs em 1785 - um ano mirabilis ! São dois discos, nesta edição em CD da Sony; se o primeiro, com os concertos nº 20 e 21 (K466 e K467), já é muito bom, é no segundo que encontro as maiores maravilhas.

O quarteto K478, a Música para Funeral Maçõnico K 477 e o genial concerto nº 22, K482, o mais beethoveniano dos concertos de Mozart, são de tal modo executados e bem gravados que me parecem recomendações definitivas. A revista Gramophone não poupa elogios e com razão: é um disco notável

Só resta sublinhar que a impecável execução não traz nada de realmente novo, não é uma imterpretação que surpreenda ou quebre paradigmas. Simplesmente perfeita.

Excerto: Mozart, Piano Concerto No. 20 , K. 466 - II. Romance



--------------------------

Atenção: Leif Ove Andsnes vem brevemente à Gulbenkian !

quinta-feira, 4 de março de 2021

A mais famosa das Allemandes - audição comparada da BWV 828


Numa peça para piano com menos de dez minutos, uma diferença de três ou quatro minutos é enorme, colossal. Mas é o que separa Glen Gould de Murray Perahia ou Sokolov na Allemande da Partita nº4, BWV 828 de Bach. Alguma está errada, alguma é obviamente uma 'má' interpretação? Não. Mas torna-se evidente aqui o grau de liberdade da interpretação, a contribuição do intérprete para a obra que escutamos. Nem todo o génio é de Bach portanto, há um traço que pode ser bem forte deixado, neste caso,  pelo pianista.

Uma Allemande é uma dança instrumental barroca, muitas vezes parte de uma sequência que pode incluir Courante, Gigue, Bourée, Sarabande, etc. Foi prática comum de compositores como Couperin, Rameau, Purcell, Bach ou Handel.  Na Partita nº 4 de Bach, o início é uma Abertura à Francesa no estilo da corte de Louis XIV, pomposo como uma procissão cerimonial, a que se segue uma fuga contrapuntística em três partes que parece já transitar para a dança.

A Allemande vem logo depois, num tempo muito fluído que permite por um lado ouvir as progressões harmónicas sob as ornamentações da melodia; e por outro lado esse contraponto de cadências curtas da mão esquerda exerce um controle sobre os longos delírios das frases melódicas, que esvoaçam constantemente numa grande variedade de ritmos. 

Começo com duas interpretações modelo, que são as minhas favoritas: Maria Tipo, já lá vão 30 anos, e Murray Perahia, talvez o melhor das últimas décadas. Subtilidade nos dedos, evasão e entrega, e a capacidade de nos fazer sentir o que sentem. Ah, e as pausas, o silêncio!

Maria Tipo, 8:42

Murray Perahia, 9:20
Que grande interpretação !

Dentro dos 8 - 10 minutos há muitas outras boas gravações, como a de Ângela Hewitt (9:24).

Vamos aos extremos. Glen Gould baixara para 6:25 na sua interpretação tardia ao vivo, uma coisa estranha, com acentuações fora da norma, parece um autómato avariado, ou um génio, conforme.
Glen Gould 6:25


Nelson Freire, que não nasceu para tocar Bach, ainda desce mais para  6:11 minutos , mas é um desastre:
Bach 'sempre a andar', missão cumprida.

No outro extremo, lentidão, um dos piores é Sokolov. Não consegui uma gravação online, fiquem com David Fray nuns exasperantes 11.37. 


A diferença para Gould é de quase 5 minutos, metade do tempo médio 9:30 ! Só pode estar errado.

Agora para contrastar, no cravo, com 6:22 (tal como Glen Gould); naturalmente, menos meditativo.  Há quem passe dos 10 minutos mesmo ao cravo.



Tudo o que sucede com a Allemande sucede com o resto da Partita, aliás com todas as Partitas de Bach. Trabalho de casa !



segunda-feira, 9 de março de 2020

O Piano de Siena, muito rico e viajado


Foi no The History Blog que encontrei esta notícia do 'Piano de Siena'.


É um piano único e com uma história de vida invejável. Visualmente também é uma obra de arte: a caixa de madeira de cedro esculpida está decorada com relevos de frutas, grinaldas, pássaros, anjos músicos, grifos, leões, tábuas dos Mandamentos; e ainda retratos de Handel, Mozart, Gluck, Cherubini e do inventor da notação musical Guido Aretino.


A sua construção foi iniciada em Turim pelo fabricante de cravos Sebastiano Marchisio em finais do século XVIII. A intenção era criar um instrumento com o poder de martelo do pianoforte, mas substituindo o som agreste pela sonoridade mais gentil e delicada do cravo. Mas Marchisio apenas conseguiu completar a caixa em cedro do Líbano, e antes de morrer ainda elaborou um desenho completo do projecto. Parece que Marchisio teria arranjado a madeira de cedro numa igreja em Siena destruída por um terramoto; e corre até uma efabulação a contar que seria proveniente de traves do templo do rei Salomão...

Os filhos de Marchisio, Giacomo e Enrico, prosseguiram com o piano mas não o terminaram, deixando a tarefa aos descendentes; foi finalmente completado em 1825, já com alterações ao desenho original - mais teclas, mais cordas - e produzia de facto um som inédito. O piano, já então conhecido como 'de Siena', ainda seria objecto de melhoramentos e mais decorações, tendo sido finalmente apresentado ao mundo na Exposição Universal de Paris em 1867, no pavilhão italiano.


A cidade de Siena, vaidosa de ter dado madeira e nome ao requintado objecto, conseguiu que o piano fosse oferecido ao coroado Humberto de Sabóia no seu casamento com a prima Margarida, em 1868; e assim o piano acabou de volta a Turim, como brinquedo da corte. Franz Liszt foi um dos célebres pianistas que por essa altura nele tocaram. Com a unificação de Itália, o piano foi levado para concertos no Palácio Quirinal, onde ficou por 70 anos. Não se sabe por onde andou depois na 2ª Grande Guerra, talvez levado pelos alemães, a verdade é que apareceu sob as areias de El Alamein, no Egipto, descoberto por uma equipa inglesa de caça-minas à procura de bombas enterradas no deserto. Um qualquer oficial estúpido das tropas de Rommel tinha-o roubado em Itália, e na aflição da derrota escondeu-o sob as areias.

Quando o piano foi içado para fora da cratera pelos soldados incrédulos, ninguém dava nada por ele. Estava empanado de areia, com o estuque pintado a descolar, e foi depositado num armazém de Salvados na Palestina. Em 1943 foi comprado por um israelita negociante de velharias, que fez alguns restauros sem cuidado, estragando partes da decoração. Foi sendo utilizado em concertos em Israel, até que em 1953 viajou para os Estados Unidos.


Siena, Turim, Paris, Roma, El Alamein, Tel Aviv, Nova Iorque... tão viajado instrumento acabaria por chegar às mãos de Arthur Rubinstein, entre outros. E foi na América que nasceu o boato da madeira do templo de  Salomão.

Em 1970, o piano regressou a Israel para continuar em uso, sempre aclamado pela sua sonoridade ímpar. O que consegui ouvir no youtube soou-me a uma mescla desequilibrada e desagradável de cravo e pianoforte.

Está à venda por mais de um milhão de dólares, mas parece que ninguém o quer.

Mais:
https://www.youtube.com/watch?v=oNW_sPsl-Ag
Fonte:
http://www.thehistoryblog.com/archives/58007


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Khatia Buniatishvili, Porto - Casa da Música, Sonatas de Beethoven assim-assim


A pianista Khatia Buniatishvilli deve ter a maior corte de admiradores e fan club Facebook de sempre na música clássica. Nem a Callas, nem a Joyce, nem a Netrebko. A verdade é que ela cultivou o estrelato, a sua imagem tanto quanto os seus talentos, tirando proveito da bela figura e de roupagens vistosas tanto quanto do virtuososmo pianístico.

Resultado: é chamada para quase todas as salas, festivais e comemorações. Ainda há pouco esteve ao vivo em Paris frente à Notre Dame num concerto de homenagem. Acham Ronaldo popular e um chamariz de povinho? Nem imaginam como é Khatia na natal Geórgia ! Dedicam-lhe um culto de diva, um culto frenético de multidão (sobretudo jovens), quase como eram os Beatles na era da beatlemania.

Claro que Khatia é uma grande pianista, e eu aguardava com expectativa a oportunidade de a ouvir ao vivo. Vamos à música que ela produziu na Casa, com sala esgotada.

O programa compunha-se de quatro sonatas de Beethoven:

- nº 17, op.31 nº 2, “A tempestade
- nº 14, op.27 nº 2, “Ao luar
- nº8, op.13, “Patética
- nº23, op.57, “Appassionata


A Khatia não lhe falta técnica, agilidade, força expressiva. O que lhe falta, e nota-se muito, é saber deixar respirar a música, deixar respirar a escrita do compositor. É geralmente excessiva nos contraste dinâmicos - pianíssimos quase inaudíveis, fortes tão bruscos e violentos que as notas se atropelam e deixa de se ouvir o dedilhado ou o contraponto. Os tempos também são algo frenéticos, ora como se houvesse pressa e urgência - não há sobretudo pausas onde são necessárias para dar fôlego, ênfase, pathos - ora exagerando no sentido contrário nos movimentos lentos, com um vagar lânguido que faz perder toda a expressão mesmo que as teclas apenas afloradas possam criar algum ambiente de contricção interior. No conjunto, o que sobressai é alguma rudez e impolidez, no mínimo. A nº14 "Ao Luar" foi um desconsolo.

Mas pode parecer que foi um concerto falhado. Não, houve bons momentos; gostei muito por exemplo da nº 23 "Appassionata" - belíssimo andante - em que a georgiana construiu uma filigrana delicada e intensa. Haverá ainda alguma imaturidade, mas Khatia está na casa dos 30, pode vir a ser bem melhor pianista, assim a aspereza actual seja amaciada com sensibilidade.

Por enquanto, assim-assim.
Deixo uma grande (outonal!) interpretação do genial Andante da nº 23: Evgeny Kissin




segunda-feira, 27 de maio de 2019

David Fray e o seu Bach aquático, fim da temporada CdM


Terminou a temporada Primavera/Verão da Casa da Música com um concerto de David Fray, pianista francês que trouxe Bach (o seu eleito) e Mozart. Digo 'terminou' porque o resto que lá vem é para mim ruído ('the rest is noise') par não dizer pior - obras menores, desagradáveis ou dispensáveis.

O BWV 1055 que Fray toca no piano é o seu cartão de visita, e saiu uma perfeição deslumbrante.



A maneira de tocar Bach de Fray lembra-me Glenn Gould, pela fluência e sensibilidade, como se fossem os dedos a cantar espontaneamente sobre as teclas, é um rio de música que corre em meandros mas sem o mínimo dramatismo. Sabe bem ouvir esta música na Primavera.

Já Mozart saiu menos bem sobretudo da parte da orquestra; Fray não é um experimentado nem prestigiado director, e Mozart já precisa de outra habilidade na criação de tensões e dinâmicas na orquestra. Ainda assim foi mais que mediano, e as ovações foram premiadas com um encore de Bach.

A acompanhar Fray não esteve a Orquestra Barroca, mas uma secção reduzida da orquestra da CdM, possivelmente uma formação pouco frequentemente utilizada que me pareceu apenas mediana; mas pode ter sido pela falta de um bom maestro.


Acabou assim um ciclo realmente excelente na Casa da Música, depois do Stabat Mater de Pergolesi com Rowan Pierce,  do clarinete de Mozart por Widman, de Sokolov e da 5ª de Mahler de Elihabu Inbal.  Já não espero nada deste nível do resto da temporada depois do Verão.


quarta-feira, 17 de abril de 2019

Mozart por Oliver Schnyder e a Camerata Bern: refrescante e cristalino


Foi um acontecimento discográfico em 2008. Oliver Schnyder já tinha as melhores gravações modernas dos concertos para piano de Haydn com a Academy of SMIDF, e de Mendelssohn com o Musikkollegium Winterthur.

Mas excedeu-se, ele e a sedosa orquestra Camerata de Berna; este disco foi uma uma redescoberta: ouve-se uma versão espartana dos concertos nº12, 13 e16, só com orquestra de cordas (sem sopros nem metais). Mozart escreveu que assim obrigava a assistência a 'maior atenção'. Poderá não ser ao gosto de todos, eu acho o som de uma macieza sedutora e a fabulosa escrita para cordas devidamente valorizada.

Do nº 13, os dois últimos andamentos:




A minuciosa precisão dos pequenos apontamentos de orquestra !

Do nº 12, o Allegro inicial:



Por último, a engenharia da gravação é perfeita, a qualidade sonora dá gosto ouvir. Passados 11 anos.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

39, o número que não tem nada de especial. Ou terá ?


Há muito tempo tive uma elevada frequência de 23 visitas aos meus posts. Era estranho, mas 23 é um número interessante. Agora ando assolado de 39s. A maioria das vezes passo dos 70, muitas dos 100; mas os 39 acontecem com bizarra frequência.

Ora 39 é um número sem graça nenhuma. Não tem nenhuma propriedade matemática assinalável. A única gracinha é ser soma das potências de 3,

                                        39= 31 + 32 + 33

É o número atómico do Ítrio (Y39), que nunca é encontrado na Natureza a não ser em doses minúsculas de minérios raros, combinado com outros elementos. Usa-se nos LED, nos lasers, nos tubos de cátodos da TV e como filtro de micro-ondas. A exposição ao Ítrio é perigosa. Nada de interessante.

Só me lembro de uma celebração deste número:
A de Hichcock, claro.

A canção 39 dos Queen é abaixo de medíocre, mas na música há finalmente algo de notável, como esta sonata de Haydn - e qualquer motivo serve para ouvir o piano de Richter.

Haydn, sonata op. 39, Sviatoslav Richter



sexta-feira, 28 de abril de 2017

A 111 de Sokolov, na CdM


Não vou dar novidade nenhuma dizendo que o concerto de Grigory Sokolov na Casa da Música, no passado dia 25, foi extraordinário, único, e enriquecido com sete muito aplaudidos encores.

Não compreendi ainda as razões da popularidade de um pianista de presença sóbria, discreta, que só ao piano se torna espantosamente expressivo, mas sem ceder ao gosto público por obras reconhecidas ou fáceis - pelo contrário, opta com frequência por obras raramente executadas. Possivelmente é a sua presença anual regular e o brinde dos 'extras' que explica o entusiasmo do público, onde ouvi uma enorme variedade de línguas europeias, desde os óbvios provenientes da Galiza às comunidades germânica, britânica, da Europa do Leste.

O programa deste ano era um luxo:
Mozart
- Sonata nº 16, K. 545
- Fantasia e Sonata K. 475/457
Beethoven
- Sonata nº 27 op.90
- Sonata nº 32 op. 111

A nº 32, op. 111 é, junto com a nº 31, op.110,  obra-prima de culto; uma sonata extasiante, onde Beethoven já sem ouvido se exprime numa variedade enorme de matizes, desde a tristeza e sofrimento à alegria e finalmente à meditação. É 'completa' no sentido de uma totalidade intocável, perfeita, arrebatadora.


[Arietta aos 9:07]

Diz Alfred Brendel , citado no programa de sala, sobre o final da Arietta :
"... o silêncio que se acaba de abrir é mais importante do que o som que nos conduziu até ele".
Como se Beethoven nos dissesse adeus, com um sorriso suave.

Mérito raro, que uma composição musical atinja tal nível que só o silêncio a pode superar. Parece-me que estou perante o Mestre da Música de Joseph Knecht, no Jogo das Contas de Vidro de Herman Hesse, que alcança no silêncio a sabedoria da compreensão do mundo.

E a propóssito, nada melhor para encerrar que um extracto do poema Lamento, desse mesmo Knecht :

Não nos foi dado ser, em permanência.
Um rio somos, que flui e se adapta a qualquer forma
Atravessando o dia e a noite, a gruta e a catedral,
Sempre impelidos pela angústia de ser.


                                    ― Hermann Hesse, Jogo das Contas de Vidro


sábado, 18 de março de 2017

O adagio do duplo de Mendelssohn para um bom fim-de-semana


Mais uma vez, o meu fraquinho por Mendelssohn. Felizmente vão aparecendo boas gravações de obras que têm sido menorizadas injustamente, por exemplo este CD dos concertos para piano com o excelente Oliver Schnyder, que vai rodando no meu player:


Hoje proponho aqui o duplo para piano e violino, uma aventura em que Mendelssohn quis talvez medir-se com o triplo de Beethoven... não chegou lá, claro, mesmo assim há um apurado trabalho instrumental e a fluência orquestral e melódica única de Mendelssohn. Nada de revolucionário, antes uma beleza romântica muito convencional, ou convencionalmente sublime.

M. Argerich, G. Kremer
Concerto para Violino, Piano e cordas em Re,
-Adagio-






quinta-feira, 9 de março de 2017

Beatrice Rana na CdM com as Goldberg


Já se sabe que Gould, no piano, e Pierre Hantaï no cravo, são inigualáveis nas variações Goldberg de J. S. Bach. Mesmo que outras razoáveis interpretações tenham surgido - Murray Perahia, András Schiff ... - essas duas referências ainda são as que mais volto a ouvir.

Beatrice Rana é uma jovem italiana, menina prodígio desde os 9 anos, que se anuncia como possível grande pianista dentro de poucos anos. Riccardo Chailly dirigiu Schumann com ela no La Scala. Rana teve a coragem de realizar uma série de concertos pela Europa apresentando como programa 'apenas' as Variações. E toca-as sem pauta, aos 23 anos !  Segue-se mesmo uma gravação em disco.

Fiquei sentado no côro da Casa da Música, sobranceiro ao piano e com uma vista excelente, teclado e mãos, e pude observar os difíceis cruzamentos de mão nas variações a duas partes. A ária de abertura foi sublime.


Continuou muito bem na 1ª e 2ª variações. Depois pelo meio, as coisas correram mal. Excessivamente rápida, e por vezes acentuando mais o dedilhado à esquerda que a melodia à direita, o que prejudica o seguimento da 'narrativa' que são estas 30 variações. Algumas variações foram totalmente perdidas (a genial 8ª, a incrível 23ª, que pena...), como se Rana não lhes desse importância e as despachasse de qualquer maneira. Nunca martela as teclas sem dó nem piedade, como Burmester; mas tocou com suave, maçadora indiferença.

Felizmente voltou ao melhor a partir da 27ª. A quodlibet esteve muito bem, com algum romantismo, em ritmo pausado e acentuando devidamente; e a da capo esteve ainda melhor que de ínício, perfeita, de ir ao céu, terminando nas nuvens...

Não é Gould, mas pelo menos na ária desafia a primazia do mestre.

Para contrastar, ouçamos no cravo, por Pierre Hantaï:




E agora um extra... para quem como eu gosta de guitarra, aqui fica uma transcrição muito bonita da ária (1997). Toca o húngaro Jozsef Eötvös:



P.S. Hoje saiu no Público a opinião de Diana Ferreira. O título "Bach à Italiana" já é enganador, porque o virtuosismo de Beatrice Rana é bastante sóbrio, alemão mesmo. Depois, mente logo no subtítulo, "sala quase cheia": na minha posição a visão da sala era total, e estava quase vazia ! Finalmente, a autora ficou particularmente satisfeita com as variações nº 8, 15, 21 e 25 - justamente algumas das mais falhadas, que Rana tocou com menos empenho e rigor. Mas quem quer saber ? Qualquer coisa serve, só é preciso encher papel e marcar presença. Jornalismo.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

András Schiff na Gulbenkian: um programa quase perfeito



Nesta quinta-feira peregrino a Lisboa, direitinho ao auditório da FCG, para um concerto clássico, mas mesmo muito clássico, com um pianista de excelência - András Schiff - e uma orquestra não permanente, de sua criação e direcção, que é uma incógnita. Já li coisas melhores e piores sobre o desempenho. Pelo menos é uma variante sobre as nacionais.

Cappella Andrea Barca
András SchiffPiano / Direcção

Joseph Haydn, Concerto para Piano, Hob.XVIII:11
W A Mozart, Sinf. nº 38, K. 504, Prague

Joseph Haydn, Sinf. nº.101, Hob.I.101, "O relógio"
W A Mozart, Concerto para Piano nº 23, K. 488


Na verdade tenho mais expectativas sobre a primeira parte - são duas obras pouco tocadas e de que gosto muito; mas exigem uma sensibilidade especial à técnica barroca, que não me parece o forte de András Schiff.

No nº 23 de Mozart, a terminar, espero contar com o seu virtuosimo ao piano. E quem sabe alguma Sonata em extra.

Porquê, Lisboa ? mais uma vez: porque a Casa da Música está um pavor de programação. Não irei lá tão cedo - ainda volto a Lisboa primeiro para a Ana Bolena no S. Carlos.

Schiff e a Cappella Andrea Barca em vídeo promocional:




-----------------------
Se não chover muito, talvez vá dar uma vista de olhos ao MAAT. Os pastéis são ali ao lado...



quarta-feira, 22 de junho de 2016

Mozart filho, Franz Xaver


De Mozart (Wolfgang) é mais ou menos conhecido o pai, Leopold, que compôs belas obras barrocas, serenatas e sinfonias, e algumas peças simples para guitarra. Certamente o filho beneficiou de ouvir música em casa desde criança.

Bourée, de Leopold Mozart (int. amador)

Já o filho mais novo de Mozart e Constanze, Franz Xaver Wolfgang Mozart, é menos conhecido. Herdou o nome próprio do grande amigo do casal Mozart, Süssmayr (Franz Xaver Süßmayr). Ouvi há pouco na Radio Suisse Classique o Concerto para piano e orquestra nº 2 op.25 de 1818. É uma obra virtuosística, já em pleno romantismo, com uma parte solista muito elaborada, bem disposta, mas pouco intensa, de orquestração modesta.

Franz Xaver foi compositor, pianista, director de orquestra e professor de música. Contudo, viveu sempre colado à imagem do pai Mozart, modelo que idealizou e queria imitar. Morreu só, sem família, e alguém lhe escreveu no epitáfio:

«Was würde wohl mein Vater sagen?»
War dich zu hemmen schon genug.

 "Que teria dito o meu Pai?"
Bastava isso para o inibir.


O concerto para piano nº 2 vale a pena ser ouvido pela parte solística, em particular o Rondo, ou para reconhecer aqui e ali, sorrindo, a herança paterna.

Rondo: Allegreto aos 17:46, o mais mozartiano.




quarta-feira, 12 de agosto de 2015

John Field muito suave, noite dentro


John Field (1782 ? -1837) nasceu em Dublin, mas foi na Rússia, onde se instalou em 1802, que fez a sua carreira de pianista e compositor, em famosas temporadas de concertos em Moscovo, S. Petersburgo e cidades bálticas.

John Field era um especialista em nocturnos: muitos, como este, eram andamento central dos seus concertos para piano.

Nocturne No. 16 in F Major, H. 62a
Miceal O'Rourke, pn
London Mozart Players, dir. Matthias Bamert




Hoje era música assim que me apetecia ouvir - como um gato enrodilhado numa pauta de música noite dentro.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hummel, para piano e violino, op. 17


Voltando à música: cá está uma grande obra injustiçada. Um concerto para dois instrumentos solistas não é para qualquer um. Mozart fez um (flauta e harpa), Beethoven atreveu-se mesmo até três instrumentos (triplo concerto), Brahms tem um duplo mas menos conseguido. Johann Nepomuk Hummel, aluno de Mozart, era contemporâneo e amigo de Beethoven, e um compositor meritório prejudicado pelo brilho maior do genial colega. Mas este concerto é extraordinário, de uma escrita muito burilada e bem conseguida mesmo que sem grande complexidade. Falta-lhe em emoção e intensidade (nisso Beethoven é inexcedível) o que lhe sobra em técnica e muito trabalho. Se fosse necessário, bastavam estes dois para provar que Arte é trabalho, sim, mas não só - não só de modo nenhum.

O que Hummel consegue no 'duplo concerto' op. 17 de 1805 é um contagiante, agradável, requintado divertimento. É um gosto com sorriso ouvir o diálogo entre piano e violino esculpido e rendilhado em múltiplas variações, com muita mestria na parte de piano. No fundo, mais próximo da música antiga que da romântica. Soa imenso a Beethoven mas de forma mais académica (brilhantemente académica), prazenteira, como se nos estivesse a dizer 'olhem como eu me divirto a compor, olhem que voltas eu dou à música, olhem como eu  gozo a variar mais um bocadinho'.

Se o inicial Allegro já é admirável, o Andante é talvez um ponto alto, com o tema a ser desenvolvido em seis variações pelos dois solistas, mas não só - há pequenos apontamentos de oboé, violoncelo e trompa, num inesgotável fluxo de ideias decorativas, como se diz no livrito do CD. As ressonâncias mozartianas entrelaçam-se de forma engraçada com as beethovenianas.

Porque não é tocada esta obra em concerto? Sobretudo porque precisa de dois solistas, o que sai caro, e de ser bastante ensaiada. Com a sua meia hora, ocupa uma das partes do concerto. Seria ideal para complementar o triplo de Beethoven.


London Mozart Players
Dir. e piano: Howard Shelley
Hagai Shaham, violino

I. Allegro con brio 00:00
II. Theme & Variations: Andante con moto 14:17
III. Rondo 23:58