A maioria nem dá conta, mas é real e permanente: vivemos numa ensurdecedora, insuportável barulheira. Quero dizer, nas cidades do mundo 'civilizado'. Ruído de obras, ruído dos escapes, ruído das combustões, chiadeira das rodas de metal nos carris, buzinas, sirenes, tudo isso por construção nossa, mas nem sequer é o pior. A chamada música, que deixou de o ser, constituída por ruído, batuque, esganiço, arroto gutural, frases rasgadas, sol-e-dó de fancaria - poluição em muitos decibéis. Na rádio, no smartphone, no festival, na TV, na praia. Toques de chamada, notificações de SMS, gritaria de reels. Barulho humano que imita barulho de máquina. Mas nem sequer é o pior. Os debates, os painéis, os confrontos, as campanhas, as reportagens, os relatos, cacofonia humana, intragável matraquear de vozes, vozes como robots. Chinfrineira.
“Silence? What can New York - noisy, roaring, rumbling, tumbling, bustling, story, turbulent New York - have to do with silence? Amid the universal clatter, the incessant din of business, the all swallowing vortex of the great money whirlpool - who has any, even distant, idea of the profound repose ... of silence?”
Walt Whitman
Silêncio? O que pode Nova Iorque — barulhenta, estrondosa, ressonante, agitada, arrebatada, turbulenta — ter a ver com o silêncio? Por entre o ruído universal, o clamor incessante dos negócios, o turbilhão que tudo engole — este grande turbilhão de dinheiro —, quem pode ter alguma, ainda que distante, ideia do repouso profundo... do silêncio?
Consegue-se uma pausa, sim - nem sempre - noite dentro. Numa igreja. Num Museu. Como na guerra, a pausa, o cessar fogo, é temporário; rapidamente é retomada a inevitável chacina sonora diária. Massacram-nos os olhos com vídeos, massacram-nos os ouvidos com audios. Ódios audios.
Eu sei que o silêncio pode servir as tiranias. Pode ser o igual da mentira, da ignorância. No deserto ártico, deve ser assustador. Há certamente que fazer barulho quando é radicalmente necessário. E, como dizia Wisława Szymborska,
" Quando pronuncio a palavra silêncio, destruo-o."
De certa maneira, destruindo assim o silêncio não o anula, torna-o até mais desejado.
In the Museum of Silence
For the full effect we encourage
you first hear its opposite -
in this room are the drawers of sound.
Highway traffic. The demands
of children. A rock festival.
A prison wing.
Through the double doors
you'll find the hush
that falls with snow.
Upstairs we have replicated
the British Library
and a Spanish cathedral.
And the exhibition progresses
you'll hear the different qualities
of silence, its range of depths.
Our archive has recordings
from across the globe:
Arctic quiet from Baffin, the scorched Sahara.
We gave samples from below the ocean
and from caves within the earth.
And from outer space.
Our final chamber is wired straight
to the Himalayas. We recommend
you lie down in there and listen.
Visitors can sign the guestbook
before they leave.
Grace Wells in Dark Mountain, vol. 6
Tradução minha:
No Museu do Silêncio
Para pleno efeito, aconselhamos
que comece pelo seu contrário -
nesta sala, estão as gavetas do som.
Tráfego de estrada. Perrices
de crianças. Um festival rock.
Ala de uma prisão.
Passando a porta dupla
encontrará o sussurro
que desce com a neve.
No andar de cima, replicámos
a Biblioteca Britânica
e uma catedral espanhola.
Ao prosseguir na exposição
vai escutar diferentes qualidades
do silêncio, a extensão da sua escala.
Temos no arquivo registos
vindos de todo o Globo:
sossego Ártico em Baffin, o abrasador Sahara.
Amostras do profundo oceano
e cavernas no interior da terra.
E do Espaço em redor.
A última câmara está ligada
em directo aos Himalaias. Recomendamos
que se deite a repousar, e escute.
Os visitantes podem registar a presença
antes de sair.
Haja, pelo menos, o silêncio necessário para a leitura.

“I don't think --"
"Then you shouldn't talk", said the Hatter.”
Lewis Carroll