É um poema bem conhecido de Samuel Coleridge (1772-1834) poeta romântico, contemporâneo da máquina a vapor e do início da industrialização, antecessor de Thomas Hardy (1840-1928). Viveu o início da Pax Britannica (1815-1914) que precedeu a era victoriana, em que a Europa Ocidental esteve em paz quase um século, período de prosperidade e de florescimento das artes. Isso favoreceu a esperança no futuro, uma mentalidade positiva romântica - o completo inverso de hoje - que se reflecte no desejo do regresso à Natureza, uma Natureza deificada, como Colerige conheceu no Lake District.
Referi Thomas Hardy porque ele admirava Coleridge e em particular este poema, que o emocionava intensamente. Soube isso com a leitura de Winter, o livrinho de que acabei de ler.
Há imensos estudos sobre o significado de Frost at Midnight, de 1798, fáceis de encontrar na net. O que não há é boas traduções, pelo menos em português ou espanhol (castelhano). Aventurei-me , esforcei-me, e este é o resultado. Durante a tradução, curiosamente, fiquei a gostar ainda mais do poema. Genial. Mesmo que invoque Deus, fá-lo numa perspectiva neo-platónica, menos mal.
Nota: a palavra 'stranger' (que traduzi como estranho, visitante) é uma referência ao termo popular que designa a luzita azul quase extinta sobre as brasas, prenúncio de alguém ainda desconhecido que está a chegar.
A Geada prossegue no seu ofício secreto
sem ajuda de vento algum. O canto da coruja
soou alto — e ouçam! Tão alto outra vez.
Os residentes da minha casita, que descansam,
deixaram-me nesta solidão, que propicia
mais abstrusas reflexões; excepto que, ao meu lado
a minha criança de berço dormita serenamente.
Mas que calma ! Tanta calma que até perturba
e irrita o pensamento, com essa estranha
e extrema quietude. Mar, colina e bosque,
que povoada aldeia ! Mar, e colina e bosque,
com todos os múltiplos cursos da vida,
inaudíveis como sonhos ! A ténue chama azul
paira sobre as brasas da lareira, já não treme;
só a fina película, que dançava sobre a grelha,
ainda ali trepida, única coisa palpitante.
E penso: a sua agitação neste sossegado ambiente
dá-lhe uma leve afinidade comigo, que vivo,
tornando-a uma forma companheira,
cujos míseros tremores e caprichos a mente ociosa
interpreta conforme seus humores, a toda a volta
buscando eco ou espelho de si mesmo,
e faz do Pensamento brincadeira.
Mas, ah! Quantas vezes,
quantas vezes, na escola, de mente crédula
e cheia de presságios, eu observei as grades
à procura daquele trémulo 'visitante' ! E tantas vezes
sem fechar as pálpebras, eu já sonhava
com a doce terra onde nasci, e a velha torre da igreja
cujos sinos, única música dos pobres, soavam
da manhã até à noite, todo o dia de festa ao sol quente,
tão doces que me inquietavam e assombravam
com um prazer selvagem, soando aos meus ouvidos
como sons articulados de algo que está para vir !
Assim olhava eu, até que esses sonhos suaves
embalavam o meu sono, e o sono prolongava os sonhos!
E sntão eu ruminava toda a manhã seguinte
receoso diante do rosto severo do preceptor, de olhar fixo
a fingir atenção ao livro que flutuava.
Excepto se a porta se entreabria e eu podia lançar
uma espreitadela furtiva, o coração em sobressalto,
pois ainda esperava ver o rosto do 'estranho',
um conterrâneo, ou uma tia, ou uma irmã mais adorada,
parceira de folias quando ainda vestíamos de igual !
Querida criança, que dormes no berço a meu lado,
teu suave respirar ouço nesta calma profunda,
preenchendo os intercalados espaços
e as pausas momentâneas do pensamento !
Meu bébé, tão bonito ! que o meu coração vibra
com terna alegria, só de te contemplar,
e pensar que hás de aprender tão vastos saberes,
e em outras distantes paisagens ! Pois eu fui educado
na grande cidade, fechado em claustros escuros,
e nada de belo via senão o céu e as estrelas.
Mas tu, meu filho! hás-de vaguear como uma brisa
pelos lagos e as praias de areia, sob as escarpas
de antigas montanhas, e sob as nuvens
que espelham no seu bojo os lagos e as praias
e as montanhas: assim, verás e ouvirás
as formas adoráveis e os sons inteligíveis
daquela língua eterna, a que o teu Deus
pronuncia, ele que desde a eternidade proclama
estar em tudo, e todas as coisas n’ele.
Grande Professor universal ! Ele dará forma
ao teu espírito, e ao dar, o fará querer mais.
Deste modo, todas as estações te serão doces,
quer o Verão ao revestir a terra
de verdura, ou o tordo ao pousar e cantar
entre tufos de neve sobre o galho seco
na macieira coberta de musgo, enquanto palha fria
fumega derretida ao sol; quer as gotas de orvalho caiam
mal se ouvindo entre os transes do trovão,
ou ainda o ofício secreto da geada
as pendure em agulhas de gelo, silenciosas,
brilhando serenas à serena Lua.
Samuel Taylor Coleridge
[tradução minha]
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Este poema faz parte de uma colectânea intitulada "Conversation Poems"











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