domingo, 18 de agosto de 2019

Visitações em baixo :( , fingimento em alta


Ai ai, isto corre mal, por este andar fecho o Livro da Areia e vai para a prateleira. Não vem cá ninguém. Ando entre as 15 - 25 visitas, uma miséria, depois de uma temporada com o dobro disso.

Culpa minha (posts desinteressentes) ou simplesmente mudança de hábitos de quem cá vinha até há pouco? Silly Season ?


Na já terminada releitura de Ivanhoe, dei com esta citação de uma "old play", que afinal é apenas um poemazito moral escrito por Scott :

Say not my art is fraud—all live by seeming.
The beggar begs with it, and the gay courtier
Gains land and title, rank and rule, by seeming;
The clergy scorn it not, and the bold soldier
Will eke with it his service.—All admit it,
All practise it; and he who is content
With showing what he is, shall have small credit
In church, or camp, or state—So wags the world


          Não digas que é fraude a minha arte - todos vivem de fingir.
          O pedinte é assim que pede, e o cortesão
          Ganha terras e títulos, posição e poder, fingindo;
          O clérigo não desdenha, e o forte soldado
          Assim se poupará em serviço. - Todos o admitem,
          Todos o praticam; e quem está contente
          De se mostrar tal como é, não terá grande crédito
          na igreja, em campo, ou no estado - Assim corre o mundo.

[tradução minha]

Algumas coisas nunca mudam.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Pompeia em Oxford - a 'Última Ceia'



O excelente Ashmolean de Oxford exibe até Janeiro "Útima Ceia em Pompeia", reunindo espólio do museu com objectos provenientes de Itália (Nápoles, Pompeia e Paestum) com que pretende ilustrar os hábitos quotidianos da cidade - trabalho, lazer, comidas e bebidas - nas vésperas da erupção. Não irei até Oxford, mas não deixo de dar novas aqui e documentar um pouco.


Desde o século IV que Pompeia, antes povoada em parte por gregos e etruscos, estava assimilada e integrada no espaço romano. A cidade de Pompeia era um paraíso meridional para os romanos: terras férteis de vinha e olival de um lado, e a baía de Nápoles, de pesca abundante, do outro, forneciam fartura de vinho, azeite, peixe e moluscos. A cidade podia até exportar os seus produtos para todo o Império.
Garrafa de vidro com azeite de há 2000 anos, ainda fechada.

As evidências desta  prosperidade ficaram soterradas sob camadas de cinza - restos de mesa no triclinium, comida carbonizada na cozinha, cenas de festim em frescos e mosaicos. A moradia mais refinada - a villa - resistiu melhor ao fogo e às cinzas, e muitas das suas paredes revestidas de belos frescos revelam cenas da vida doméstica. No século XIX , os arqueólogos victorianos atribuiram nomes romantizados a essas moradias - casa dos Mistérios, casa dos Amantes Castos, casa do Fauno, casa do Poeta Trágico; são dessas casas a maioria das decorações em exposição. Algumas peças já as tinha visto há anos em Madrid, numa outra magnífica exposição de que dei conta aqui.

"Tablinum" da casa de Marcus Lucretius Fronto, Pompeia, 35-45 AD

Casa dell'Efebo

A estátua de bronze - um requintado suporte de lamparina - veio da Casa do Efebo.


Isis Fortuna protegendo um homem cercado de agathodaemones (espiritos-serpente benfazejos das vinhas e campos de cereais):


Um dos frescos mais significativos é este da distribuição de pão na casa do padeiro (AD 40-79):
O fresco foi descoberto no tablinum (escritório ou sala de negócios) de uma casa modesta; representa um balcão de padaria onde estão empilhados pães de grande formato, enquanto ao lado está um cesto de paezinhos pequenos. O padeiro oferece um pão a uma de três pessoas em traje pobre de viajante.


A Villa dei Misteri

O grande painel de fresco Dionisíaco.

Casa de família abastada, foi das menos atingidas pela erupção, e tem alguns dos mais belos frescos de Pompeia. Estes são do triclinium, a sala de refeições.

Um rapaz lendo os rituais da iniciação ao culto de Dionysos-Baco. Notável a mão carinhosa da sacerdotisa sentada sobre o ombro do rapaz.

 
Oscillum de mármore com sátiro deitando vinho numa cratera (cálice de mistura).  50 BC – 50 AD

Fresco de Herculaneum com uma 'carta de vinhos', à porta de uma taberna.

Taça de vidro azul com pintas, 50 AC - 50 AD

Taças de prata dourada decoradas com moldagens repoussé de folha de oliveira, vinha e murta. 50 BC – 150 AD (Museu Ashmolean)

Este mosaico polícromo (100-101 AC) mais parece um catálogo da vida marinha, ou um menu de especialidades do mar mediterrâneo: robalo, polvo, lula, camarão, dourada, solha, raia... Casa do Fauno, Pompeia.

Uma técnica de mosaico admirável.

Um dos frescos mais bem conservados é o do Galo a debicar figos, peras e romãs; estava na Casa dos Amantes Castos (Casa dei Casti Amanti); o nome poético designa afinal a moradia de um padeiro.

Coelho mordendo figos.

A carne consumida em Pompeia era sobretudo de pássaros, galináceos e coelho. Apreciavam muito um ratinho, o leirão, recheado com carne de porco picada: um pitéu... mas ainda pior era o muito cheiroso garum, um molho à base de restos de peixe fermentados. O odor das cozinhas devia ser nauseabundo!

Uma das mais bonitas imagens de fresco, esta pomba de cabeça negra no fresco da sala de jantar da faustosa Casa do Bracelete Dourado (Bracciale d'oro).

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                                Catálogo disponível no site do Museu.

Outras fontes:
http://www.alaintruong.com/archives/2019/07/26/37523137.html
https://twitter.com/pompei79/status/1154481018998423553

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

'Dois Rios' dentro de nós, de Robert Bly


Inside us there is a river born in the good cold
That longs to give to the Gulf of light. 
And there is another river more like the Missouri
that carries earth, and earth joys, and the earthly.


                          Dentro de nós há um rio nascido da melhor frescura
                          que procura desaguar no Golfo da luz.
                          E há outro rio, mais como o Missouri,
                          que leva terra, os prazeres da terra, e o que é terreno.




quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Lendo Ivanhoe: o relato de guerra como antecessor do directo de futebol


Durante o ataque dos saxões ao castelo de Reginald Front-De-Boeuf, o normando abrutalhado que tinha herdado os domínios por parricídio, há uma cena inacreditável: Ivanhoe, ferido num anterior torneio, está de cama aos cuidados da judia Rebecca quando ouve o ruído do assalto saxónico liderado pelo Cavaleiro Negro * (ou do Aloquete). Inquieto, em pulgas, exige a Rebecca que, da janela, lhe conte o que vê; e Rebecca narra o assalto  e os combates exactamente como hoje se ouve relatar um jogo de futebol. A tensão e a vivacidade dos diálogos são de mestre. Um extracto, em versão original e a seguir traduzido.

Texto original:

"What dost thou see, Rebecca?" again demanded the wounded knight.
"Nothing but the cloud of arrows flying so thick as to dazzle mine eyes, and to hide the bowmen who shoot them."
"That cannot endure," said Ivanhoe; "if they press not right on to carry the castle by pure force of arms, the archery may avail but little against stone walls and bulwarks. Look for the Knight of the Fetterlock, fair Rebecca, and see how he bears himself; for as the leader is, so will his followers be."
"I see him not," said Rebecca.
"Foul craven!" exclaimed Ivanhoe; "does he blench from the helm when the wind blows highest?"
"He blenches not! he blenches not!" said Rebecca, "I see him now; he leads a body of men close under the outer barrier of the barbican.[2]---They pull down the piles and palisades; they hew down the barriers with axes.---His high black plume floats abroad over the throng, like a raven over the field of the slain.---They have made a breach in the barriers---they rush in---they are thrust back!---Front-de-Boeuf heads the defenders; I see his gigantic form above the press. They throng again to the breach, and the pass is disputed hand to hand, and man to man. God of Jacob! it is the meeting of two fierce tides---the conflict of two oceans moved by adverse winds!"
She turned her head from the lattice, as if unable longer to endure a sight so terrible.
She then uttered a loud shriek, and exclaimed, "He is down!---he is down!"
"Who is down?" cried Ivanhoe; "for our dear Lady's sake, tell me which has fallen?"
"The Black Knight," answered Rebecca, faintly; then instantly again shouted with joyful eagerness---"But no---but no!---the name of the Lord of Hosts be blessed!---he is on foot again, and fights as if there were twenty men's strength in his single arm ---His sword is broken---he snatches an axe from a yeoman---he presses Front-de-Boeuf with blow on blow---The giant stoops and totters like an oak under the steel of the woodman---he falls ---he falls!"
"Front-de-Boeuf?" exclaimed Ivanhoe.
"Front-de-Boeuf!" answered the Jewess; "his men rush to the rescue, headed by the haughty Templar---their united force compels the champion to pause---They drag Front-de-Boeuf within the walls."
"The assailants have won the barriers, have they not?" said Ivanhoe.
"They have---they have!" exclaimed Rebecca---"and they press the besieged hard upon the outer wall; some plant ladders, some swarm like bees, and endeavour to ascend upon the shoulders of each other---down go stones, beams, and trunks of trees upon their heads, and as fast as they bear the wounded to the rear, fresh men supply their places in the assault---Great God! hast thou given men thine own image, that it should be thus cruelly defaced by the hands of their brethren!"
"Think not of that," said Ivanhoe; "this is no time for such thoughts---Who yield?---who push their way?"
"The ladders are thrown down," replied Rebecca, shuddering; "the soldiers lie grovelling under them like crushed reptiles---The besieged have the better."
"Saint George strike for us!" exclaimed the knight; "do the false yeomen give way?"
"No!" exclaimed Rebecca, "they bear themselves right yeomanly ---the Black Knight approaches the postern with his huge axe ---the thundering blows which he deals, you may hear them above all the din and shouts of the battle---Stones and beams are hailed down on the bold champion---he regards them no more than if they were thistle-down or feathers!"
"By Saint John of Acre," said Ivanhoe, raising himself joyfully on his couch, "methought there was but one man in England that might do such a deed!"
"The postern gate shakes," continued Rebecca; "it crashes---it is splintered by his blows---they rush in---the outwork is won---Oh, God!---they hurl the defenders from the battlements---they throw them into the moat---O men, if ye be indeed men, spare them that can resist no longer!"
"The bridge---the bridge which communicates with the castle ---have they won that pass?" exclaimed Ivanhoe.
"No," replied Rebecca, "The Templar has destroyed the plank on which they crossed---few of the defenders escaped with him into the castle--- the shrieks and cries which you hear tell the fate of the others---Alas!---I see it is still more difficult to look upon victory than upon battle."
"What do they now, maiden?" said Ivanhoe; "look forth yet again ---this is no time to faint at bloodshed."
"It is over for the time," answered Rebecca; "our friends strengthen themselves within the outwork which they have mastered, and it affords them so good a shelter from the foemen's shot, that the garrison only bestow a few bolts on it from interval to interval, as if rather to disquiet than effectually to injure them."


Minha tradução:

O que vês, Rebecca?”, perguntou de novo o cavaleiro ferido.
“Nada para além de uma nuvem de flechas tão espessa que me cega os olhos, e esconde os arqueiros que as lançaram.”
“Isso não pode durar muito,” disse Ivanhoe; “se não pressionarem já para conquistar o castelo pela força das armas, a investida dos arqueiros pode ser pouco eficaz contra paredes de pedra e muralhas. Procura o Cavaleiro do Aloquete, linda Rebecca, vê como se comporta, pois tal como faz o líder, farão os seus seguidores. "
"Não o vejo," disse Rebecca
“Tolo medricas !” exclamou Ivanhoe. “Será que se encolhe dentro do elmo quando o vento sopra mais forte ?”
“Não se encolhe! Não se encolhe!” disse Rebecca. “Vejo-o agora. Conduz um grupo de homens junto da barreira exterior da barbacã. – Derrubam as paliçadas. Arrasam as barreiras com os machados. – A sua longa pluma negra esvoaça por cima da horda, como um corvo sobre o campo dos caídos. – Fizeram uma brecha nas barreiras. – Lançam-se para dentro – São rechaçados! – Front-de Boeuf encabeça os defensores. Vejo a sua forma gigantesca acima da turba. Voltam a carregar pela brecha, e a passagem é disputada corpo a corpo, homem a homem. Deus de Jacob! É o embate de duas marés bravas – o conflito de dois oceanos movidos por ventos contrários!"

Virou a cabeça da gelosia, como se não fosse mais capaz de aguentar uma vista tão terrível.

E então soltou um grito de aflição, “Caiu! - Caiu!”.
“Caiu quem?” berrou Ivanhoe do leito; “pela graça da nossa Senhora, diz-me quem está caído?”.
“O Cavaleiro Negro,” respondeu Rebecca, desfalecida. Mas logo de seguida gritou com alegre ansiedade – “Mas não – mas não!” – seja louvado o nome do Senhor de Israel ! – levantou-se de novo, e luta como se tivesse a força de vinte homens num só braço. – a espada rachou – arranca um machado de um guerreiro – ataca Front-de-Boeuf com golpe sobre golpe – O gigante curva-se e vacila como um carvalho sob o ferro do lenhador – e tomba – tomba!”
“Front-de-Boeuf ?” exclama Ivanhoe.
“Front-de-Boeuf !” responde a judia; “os seus homens correm a socorrê-lo, com o altivo Templário à frente – as suas forças reunidas obrigam o campeão a fazer uma pausa. – Arrastam Front-de Boueuf para dentro das muralhas.”
“Os assaltantes estão dentro das barreiras, não estão?” disse Ivanhoe.
“Estão – estão!” exclamou Rebecca – e pressionam fortemente os sitiados contra o muro exterior; alguns colocam escadas, outros acumulam-se como abelhas, e uns tentam trepar aos ombros de outros. Do alto caem pedras, cepos e troncos de árvore sobre as suas cabeças, e tão depressa carregam os feridos para a retaguarda, logo vêm homens frescos substituí-los no assalto – Deus magnífco! Deste ao Homem a tua imagem, para que fosse cruelmente desfigurada pela mão dos seus irmãos?”
“Não penses nisso,” disse Ivanhoe; "este não é o tempo para esses pensamentos – quem cedeu? - quem conseguiu passar? ”
“As escadas foram derrubadas,” respondeu Rebecca, estremecendo; “os soldados caídos rastejam sob elas como répteis esmagados - os sitiados levaram a melhor”.
“São Jorge lute por nós!” exclamou Ivanhoe; “terão os falsos bravos cedido?”
“Não!” exclamou Rebecca; “portam-se com a esperada bravura – o Cavaleiro Negro aproxima-se do portão com o seu enorme machado – o estrondo dos golpes que desfere podes ouvi-lo sobre o clamor e os gritos da batalha - pedras e cepos chovem sobre o grande campeão – ele dá-lhes tanta importância como se fossem pétalas ou penas!”
“Por S. João de Acre!,” disse Ivanhoe levantando-se alegremente da cama, “ pensava eu que só há um homem em Inglaterra capaz de tal proeza.”
“ A grade do portão abana”, continuou Rebecca; “rompe-se - desintegrada pelos golpes – eles lançam-se para o interior – a muralha exterior está conquistada – Oh Deus! – empurram os defensores das ameias – atiram-nos para o fosso – oh homem, se és homem de verdade, poupa os que já não podem resistir.”
“A ponte – a ponte que comunica com o castelo – tomaram essa passagem ?”, exclamou Ivanhoe.
“Não,” respondeu Rebecca, “ o Templário destruiu as pranchas depois de atravessarem – uns poucos defensores escaparam com ele para dentro do castelo – os gritos e choros que ouves mostram o destino dos outros – Desgraça! Vejo que ainda é mais difícil observar a vitória do que o combate.”
“O que fazem agora, rapariga?” disse Ivanhoe; “vai observar mais uma vez – não é altura para desmaiar com o sangue vertido”.
“Terminou, por agora” respondeu Rebecca; “os nossos amigos reforçam as suas posições dentro das edificações que dominaram, e estão tão bem protegidos do tiro inimigo que a guarnição só dispara uma ou outra flecha de tempos a tempos, mais para incomodar que para atingir alguém.

* O futuro Rei Ricardo, disfarçado de negro e com um aloquete como insígnia na bandeira

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A tradução da E-primatur que andei a ler, de uma pobreza confrangedora, é um triste exemplo de traduttore-traditore: na verdade é uma adaptação, que foge imenso ao texto original, omitindo frases inteiras ou deslocando-as para outro parágrafo, alterando à toa os diálogos que ficam por vezes irreconhecíveis. Se isto é feito em nome da fluência do texto, vai longe de mais; trata-se afinal de uma re-escrita, onde se perde imenso da riqueza das expressões, da linguagem, dos jogos de palavras, da adjectivação. Quem lê fica a conhecer a trama, mas não a sabedoria literária de Walter Scott.
Ex:
"o estrondo dos golpes que desfere podes ouvi-lo sobre o clamor e os gritos da batalha" está traduzido como "ouviu as pancadas ? ".
"Oh Deus! – empurram os defensores das ameias – atiram-nos para o fosso – oh homem, se és homem de verdade, poupa os que já não podem resistir.” - simplesmente omitido!