Há muitos casos estranhos como este de muitos séculos, mesmo milénios, de antecipação científica, em que soluções foram encontradas de forma precursora na pré-História ou em civilizações da antiguidade. Uns já estão explicados, outros não, mas sempre suscitam espanto.
Quando uma civilização perdura milénios e quer que os seus insignes falecidos fiquem preservados para a eternidade, constrói sepulturas subterrâneas ou mausoléus sólidos e blindados. As pirâmides do Egipto são um desses exemplos, com especial protecção contra assaltos e saques - até as fábulas assustadoras de ratoeiras fatais e espectros ajudam - mas, vejam lá, também contra a única ameaça provável da Natureza naquele local; na areia do deserto as cheias do Nilo não ameaçam, queda de meteoro também só com muito azar e pontaria, restam os terramotos, relativamente frequentes no Egipto. Há relatos mais pormenorizados no tempo dos Romanos de vários sismos destruidores.
A fractura geológica do Mar Morto e os arcos Helénico e do Chipre são as origens mais frequntes de actividade sísmica na região do Cairo. São fenómenos locais do choque entre a placa da Anatólia e a Placa Africana.Em anos mais recentes, os que mais afectaram a zona das Pirâmides foram:
- 18 Out 1754 , elevada mortalidade
- 12 Set 1955, 6.3
- 31 Mar 1969, 7.1
- 12 Out 1992, 5.9 - o mais grave em anos recentes, com epicentro em Gizeh
Ninguém quis aproveitar a sabedoria constructiva dos Egípcios do século XXVII e XXVI AC, os primeiros 'arranha céus' em pedra (138 m)(*) ; desde Grécia e Roma aos tempos medievais e neo-clássicos, toda a arquitectura ignorou o problema sísmico, e viu-se desaparecerem templos gregos e romanos desabados ao primeiro tremor, núcleos urbanos medievais e renascentistas arrasados como na bela Basileia (6.7 - 7.1), em 1356, onde não restou uma igreja nem um castelo de pé, como nos de Itália em 1456, 1638, 1688, 1703 - e os piores de 1783 e 1908 (arrasou Reggio Calabria), o da Catalunha em 1428, ou o de Lisboa.
Basileia, 1356 - devastação totalLonge de mim armar-me em especialista diplomado em sismologia ou egiptologia, é bem mais simples: li um artigo de Heloïse Pons no Le Point e fui corroborar em fontes fidedignas, não tenho dúvidas de que está tudo comprovado.
Este ano de 2026, especialistas, esses sim, em Geofísica e Sismologia do Cairo descobriram que há uma solidez estrutural na Pirâmides de Gizeh, as mais antigas construções em pedra da História, que desde há 4600 anos nunca sofreram estragos por sismos ! Todas as outras designadas "Sete Maravilhas do Mundo" desmoronaram, arderam ou foram arrasadas.
Esse fenómeno tão raro mostra até que ponto a pirâmide constitui um bloco sólido e resiliente. É intuitivo que a forma da pirâmide goza de máxima estabilidade devido ao baixo centro de gravidade, larga base de apoio, elevada simetria do conjunto; e não admira que isso seja favorável a uma resistência maior a abanos sísmicos.
Em princípio, quanto mais alto subimos num edifício mais se amplificam as ondas sísmicas; o topo tende a oscilar mais que a base. Ora na pirâmide de Khéops acontece o contrário ! Ao subir na estrutura, as medições mostram que as vibrações internas perdem amplitude ! A câmara funerária do Faraó é o local mais protegido, toda ela em granito, debaixo de 5 salas de descarga reforçadas com fortes traves de granito e tectos de duas águas, uma geometria que visa aliviar a carga colossal das pedras que estão por cima - mais de 90 metros, milhões de toneladas ! - evitando o colapso do tecto da câmara.
Pirâmide de Khéops:
Acontece que essa mesma geometria protege também a câmara atenuando as oscilações sísmicas.
A 5ª câmara de descarga (sala de Campbell), com a cobertura de duas lajes em Λ, descoberta em 1937. Os grafittis são dos trabalhadores que as construíram.Os estudos indicam que este complexo de cinco câmaras desempenha uma função anti-sísmica, dissipando a energia dos terramotos (como o que atingiu o Cairo em 1992) ao longo dos milénios. Estas cinco cavidades sobrepostas agem como um mecanismo de amortecimento que absorve a energia das ondas sísmicas.
Parece obra de uma inteligência superior, de facto, os arquitectos da altura (há 4600 anos) tinham capacidades surpreendentes. Mas há mais !
O último detalhe da construção relevante na protecção anto-sísmica: o solo. Num solo arenoso, lamacento, de argila, as ondas sísmicas perdem velocidade, ressaltam, sobrepoem-se, e assim são amplificadas. Como Gizeh repousa sobre um subsolo rochoso calcário, as edificações têm protecção natural contra actividade sísmica.
Cada construção tem as suas frequências próprias de vibração. O maior perigo sísmico resulta de essa(s) frequência(s) estar em ressonância com a frequência de vibração do solo onde assentam, pois vibrando em uníssono amplificam-se mutuamente. O solo de Khéops, por exemplo, vibra a 0.6 Herz, frequência 4 vezes mais baixa que a da pirâmide (entre 2 e 2,6). A diferença actua como um escudo protector invisível.
Fonte sugerida: https://www.nature.com/articles/s41598-026-49962-6
A minha interrogação é : porque não se construíram mais pirâmides ao longo da História, em zonas de risco sísmico? Não maciças em pedra, mas de madeira, de tijolo, de aço e cimento. Actualmente já não se justifica, temos técnicas mais evoluídas e eficazes; mas dá que pensar, nada resistiu acima do solo mais de quatro milénios como as Pirâmides egípcias.
Permitam-me citar uma imagem icónica moderna, a pirâmide da Tyrell Corporation no Blade Runner de Ridley Scott:
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