A obra de Michael Ondaatje é complexa, meditativa, vai muito além do âmbito deste blog ; vou-me limitar a três poemas que mais gostei de ler, quando da publicação recente da colectânea The Distance of a Shout.
What were the names of the towns
What were the names of the towns
we drove into and through
stunned lost
having drunk our way
up vineyards
and then Hot Springs
boiling out the drunkenness
What were the names
I slept through
my head
on your thigh
hundreds of miles
of blackness entering the car
All this
darkness and stars
but now
under the Napa Valley night
a star arch of dashboard
the ripe grape moon
we are together
and I love this muscle
I love this muscle
that tenses
and joins
the accelerator
to my cheek
1998
In The Distance of a Shout, 2026
Quais eram os nomes das cidades
Quais eram os nomes das cidades
onde entrámos, que atravessámos
pasmados perdidos
tendo bebido no caminho
que sobe pelos vinhedos
e depois nas fontes termais
cozendo a embriaguez no calor
Quais eram os nomes
enquanto dormia
com a cabeça
na teu regaço
centenas de milhas
de escuridão a penetrar no carro
Tudo isso
escuridão e estrelas
mas agora
sob a noite de Napa Valley
o arco de estrelas do painel
a lua cor de uva madura
estamos juntos
e eu adoro este músculo
Eu amo este músculo
que se retesa
unindo
o acelerador
à minha face.
5 a.m.
The wilderness of our youth, an empty barn,
dancing with friends into the small hours,
then daylight and the cars swerving away
wordless into the dawn
It arrives all at once tonight,
not as memory, but as a gift
from forgetfulness,
as a desire can wake you
or this poem
based on the accidental change of speed
in a friend’s camera into slow motion
So now I remember
the rest of our shadows
as we danced, all our heartbeats
under the thunder
and I can speak to you the way
we once sang farewells out of our cars
late at night, when those
goodbyes remembered everything
5 da manhã
A rebeldia da nossa juventude, um celeiro vazio,
dançando com os amigos até altas horas,
depois a luz do dia e os carros a que se desviam
em silêncio rumo à alvorada
Tudo isto chega de repente esta noite,
não como memória, mas como dádiva
do esquecimento,
como desejo que te pode despertar
ou este poema
inspirado na mudança acidental da velocidade
no vídeo de um amigo para câmara lenta
Então agora recordo
o resto das nossas sombras
enquanto dançávamos, todo o nosso sobressalto
sob o trovão
e posso falar contigo de como
uma vez cantámos despedidas dentro dos carros
já tarde na noite, quando aquelas
despedidas recordavam tudo
A Year of Last Things abre com este poema:
Lock
Reading the lines he loves
he slips them into a pocket,
wishes to die with his clothes
full of torn-free stanzas
and the telephone numbers
of his children in far cities
As if these were
all we need and want,
not the dog
or silver bowl
not the brag of career
or ownership
Unless they can be used
—a bowl to beg with,
a howl to scent a friend,
as those torn lines remind us
how to recall
until we reach that horizon
and drop, or rise
like a canoe within a lock
to search the other half of the river,
where you might see your friends
as altered by this altitude as you
The fresh summer grass,
the smell of the view—
dark water, August paint
How I loved that lock when I saw it
all those summers ago,
when we arrived
out of a storm into its evening light,
and gave a stranger some wine
in a tin cup
Even then I wanted
to slip into the wet dark
rectangle and swim on
barefoot to other depths
where nothing could be seen
that was a further story
A Eclusa
Tendo lido os versos que adora
ele guarda-os no bolso,
deseja morrer com as roupas
repletas de estrofes desgarradas
e os números de telefone
dos seus filhos em cidades distantes.
Como se fossem
tudo o que é preciso e querido,
não o cão
ou a taça de prata,
não a vanglória da carreira
ou da propriedade.
A menos que possam servir
— a tigela para pedir esmola,
ladrar para sentir o cheiro de um amigo,
e versos rasgados que nos lembram
de como recordar
até atingirmos esse horizonte
e tombar, ou subir
como uma canoa numa eclusa
para explorar a outra metade do rio,
onde talvez possas ver os teus amigos
tão alterados como tu por essa altitude.
A erva fresca do Verão,
o cheiro da paisagem —
água escura, tinta de Agosto
Como adorei aquela eclusa quando a vi
tantos verões já passados,
quando chegámos
saindo de uma borrasca para a luz tardia,
e demos vinho a um estranho
numa caneca de lata
Mesmo nessa altura, eu queria
deslizar para o molhado escuro
rectângulo e ir nadando
pés nus rumo a outras profundezas
onde nada se pudesse ver
que fosse já uma outra história
Michael Ondaatje nasceu em Colombo, Ceilão (Sri Lanka), em 1943. Em 1954 foi ter com a mãe na Inglaterra, onde ficou a estudar até 1962, ano em que emigrou para Montréal no Canadá e adquiriu nacionalidade canadiana, prosseguindo depois estudos em Quebec e Toronto. Tornou-se mais conhecido quando o romance O Paciente Inglês foi transposto com sucesso para o cinema.














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