domingo, 30 de agosto de 2026

"North Coast 500" - estrada cénica à volta das Highlands (Escócia) - 1ª e 2ª etapas: Oeste e Norte

A NC500 foi um achado: é um percurso em estrada que faz o périplo das Highlands escocesas, Ross and Cromarty nas duas costas, Sutherland nas duas costas, Caithness a Nordeste, com princípio e término em Inverness.

É uma das poucas estradas que fazem valer a pena viaar sobre 2 ou 4 rodas, disfrutar de sítios e paisagens de uma só maneira possível: conduzindo, parando onde apetece, hábito em decréscimo por todo o favorecimento à via férrea. Este é um percurso que maximiza o prazer de guiar, desviar, visitar onde e quando se quiser, permitir a máxima liberdade en route.

No Livro de Areia já mostrei vários pontos de passagem. Inverness é o princípio (ou o fim) - optei por deixar a capital da Highlands para o fim, como término da rota. Mas já mostrei cidades como Dornoch e Tain, Portmahomack e a sereia de Ballintore, as belas Wick e Thurso !!



Além dessas maiores povoações históricas, a estrada proporciona rochedos e falésias, lagos e quedas de água, praias e grutas, castelos e faróis, aldeias costeiras de mar e de lago ... em tanta abundância que não tenho dúvidas que é uma das rotas mais cénicas do mundo. Ao mostrá-la aqui posso estar a contribuir para o mal do excesso turístico: mas com tanta propaganda de escória turística que inunda os media, a NC500 bem merece mais atenção.


Vou seguir o sentido directo, começo em Inverness de Sul para Norte. Como já mostrei as belas cidades servidas pela NC500, vou destacar outros sítios notáveis no percurso.

1ª etapa

Após a travessia do fiorde Moray/Beauly de Inverness, vamos por Dingwall percorrer parte do Cromarty Firth; começamos mal, porque é uma área de plataformas de extracção de petróleo, portos industriais e camiões cisterna na estrada. A travessia faz-se por uma ponte em curva apesar de tudo pitotesca:


Pouco adiante a primeira paragem para visitar o Fyrish Monument, uma construção de 1782 no monte Fyrish, rodeado de um belíssimo pinhal. Foi ideia de um comandante britânico regressado da Índia, inspirado pelo Portal de Nagapattinam.


A intenção foi permitir aos habitantes locais um trabalho gratificado num período em que não havia emprego na região.

'Cénico' indeed.

Do lado do mar, alguns quilõmetros adiante, compensa saír para ver a Sereia do Norte:


'The Mermaid of the North' é uma escultura em bronze de Steve Haywood, instalada em 2007 num rochedo em Ballintore, na costa a Sul de Portmahomack.



Próxima paragem: o famosíssimo Dunrobin Castle.

Passamos Tain e Dornoch, pequenas mas notáveis cidades históricas que já mereceram o seu post. A estrada aproxima-se da costa quando surge o Castelo de Dunrobin.





A estrada segue a costa de Helmsdale e entra na vila por uma ponte de 1811 sobre o rio do mesmo nome.


Estamos a chegar à escadaria falésia abaixo conhecida como Whaligoe Steps, os Degraus de Whaligoe. Não são fáceis de encontrar, ainda menos de descer.


Rodeados por falésias de 80 m quase a pique, são 365 degraus em zig-zag até ao modesto portinho lá no fundo. É um abrigo natural para pescadores de arenque, edelfim (ou arinca) e bivalves.



Agora são 365 a subir !
 

Na caminhada para Norte temos de saír de novo da estrada depois de visitar Wick. Das falésias vêm-se as Duncaby Stacks, ponto alto da rota NC500.

Que vista!



Para terminar esta etapa, só falta ver Castle Mey, um dos castelos favoritos da realeza para curtas férias, servido pela NC500.


Foi construído entre 1566 e 1572 pelo Conde de Caithness, George Sinclair. Chegou a ser residência da Raínha Isabel I, período em que beneficiou de grandes melhoramentos. Actualmente a família Real costuma passar aqui uma temporada no fim de Julho; fora esse periodo, a Sala de Chá está habitualmente aberta ao público.

Do alto da torre, num dia límpido, avistam-se as Orkney.



O castelo está rodeado de jardins muito cuidados.


O porto de acesso ao castelo é o Castlehill Harbour:


Jimmy Page dos 'Led Zeppelin' frequentava esta região, e ajudou financeiramente à reconstrução do cais de Mey.



Fim da primeira etapa. Bem mais curto é o percurso da costa Norte, e menos interessante: à parte o histórico Royal Burgh of Thurso, quase só tem praias, a maioria praias de maré.

2ª etapa


Dunnet Head

Farol de Dunnet Head

Na continuação dos penhascos de DuncabyDunnet Head é um promontório que marca o extremo Norte da costa escocesa: no alto, um farol de 1831.


O ponto mais setentrional da ilha da Grã-Bretanha.

Thurso, já abordada aqui, é a maior povoação desta costa setentrional; são imperdíveis as ruínas da Igreja Antiga de S. Pedro (Old St Peter's kirk).
 

A seguir a Thurso a costa torna-se mais suave, alternando baías, praias e relevo baixo.

Farr Beach

Farr é bastante procurada por surfistas.

A praia é quase plana, a maré sobe subitamente.

Seguindo para poente passamos no Kyle of Tongue e no Loch Loyal, perto de Tongue; a NC500 atravessa o lago sobre uma sequência de dique e ponte - o Kyle Causeway [Kyle é gaélico para 'canal', 'estreito' ]



Loch Loyal

Kyle Causeway, Tongue

A NC500 pela margem do Loch Loyal.

Ben Loyal, 764 m

O também belo Loch Eriboll, já perto de Durness, vale um curto desvio por causa da ilha, aliás península, Ard Neakie , na margem oriental do Loch:


Na península encontraram-se vestígios da Idade de Bronze, mas o que é visível são os 4 fornos de cal do século XIX (ca. 1840-1870). Ard Neakie é um promontório de calcário, e a sua extracção e produção de cal destinava-se a corrigir a acidez dos solos e fornecer nutrientes para melhorar a sua produtividade agrícola.


O istmo que permitiu o acesso por estrada foi construído rm 1890; antes, o transporte entre a ilha e a margem era feito por um ferry.

Durness beach


Certamente pouco soalheira, quase sempre ventosa ou sob densa humidade, é mesmo assim das mais belas deste percurso.



Até aqui tivemos um território costeiro mais selvagem, pouco desbravado, acidentado, ainda muito autêntico; para Sul, segue-se uma Escócia muito mais conhecida, turística, domesticada, comercial. 
 

À saída de Durness, um megalito bem situado (mas moderno) compõe a vista do Kyle of Durness.

Megalito de Keoldale, sinalizando as terras do clan Mackay.

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Próximo post: as 3 etapas para Sul e Leste até Inverness.

domingo, 23 de agosto de 2026

A minha reportagem do eclipse, desde Valença do Minho



Os meus planos eram outros - ir de combóio à Corunha, na faixa dos 100% de ocultação do Sol, rever o que é a 'noite súbita', o apagão, o reacendimento sem ser ao sol nascente - o que já tínhamos observado em Chester, em 1999.

Mas a via férrea está em obras. Não há ligação directa à Corunha, tinha que andar de trasbordo em trasbordo, uma seca. Montesinho estava fora de questão por causa dos 40º C, e acabei por optar por apenas 99.2% em Valença, com viagem directa de combóio. A fortaleza está muito bem situada, numa alto sobre o rio Minho, e pareceu-me o melhor compromisso. Reservei na Pousada.

À chegada vi logo que tínhamos feito boa escolha: às 19.30 a nossa varanda panorâmica, de vasto horizonte, apontava perfeitamente para o Sol. Ia ser o eclipse mais cómodo que se possa imaginar. Para poente, esta seria a vista para o eclipse:



Ainda saímos essa noite, as ruas da cidadela até são vias pedonais agradáveis com o comércio fechado. Varandas de ferro, azulejos, e as fotogénicas guaritas nos baluartes da muralha.


Quem é ? Moisés e a serpente enrolada ('Nehushtan')? S. João Baptista, conforme descrição local? St.º António ? A casa e a imagem são do século XVIII.

O dia seguinte foi passado a evitar o sol (perto dos 35º). Como as ruas da cidadela são estreitas, há sempre sombra de um lado ou em toda a rua. Esperava-nos a multidão habitual, multilingue com predominância galega; ocupava todo o espaço pedonal e parava em todas as lojas de atoalhados, que são centenas e têm estendal de têxteis no passeio, de modo o que só resta uma estreita faixa para caminhar. Lá chegamos ao centro para o primeiro café.


Aqui em cima na fortaleza. o 'centro' é uma pracita onde está a Câmara, os Paços do Concelho e dois cafés.


Fica sempre a dúvida se Valença intra-muros não seria bem mais simpática e valiosa se conseguisse emergir dos atoalhados.


Brasão e relógio dos Paços do Concelho

A casa mais vistosa:



A 'Casa Azul' é do século XIX, toda revestida a azulejo.

Gosto em particular da galeria vidrada "neo-gótica" no ático.

O largo ajardinado agradável, em frente à Câmara.

Chegada a hora, fomos para a nossa varanda; e lá começou.

Valença, 12 /8/2026, Lumix SZ10

Das fotos do eclipse, uma das melhores foi esta, com o filtro dos óculos solares em frente da lente (o filtro alaranjava um pouco), na Sony Cyber-shot G.

São fracas mas são minhas. Início do eclipse.

Para mais segurança, levei uma Lumix SZ10 (Leica) que tem um particularidade: o écran traseiro é orientável, por isso eu podia à vontade apontar a lente para o sol mas olhando eu de cima para baixo no écran. 

Com a Lumix SZ10, uma lente mais luminosa, a parte final do eclipse.

Felizmente, a excelente óptica da Leica deu-me uma foto fantástica que adoro: a obscuridade aos 92% do eclipse.


Luz e cores estranhas, não é um entardecer normal.



Devo ter sido o único a fotografar um combóio de carga a passar na ponte de Tui-Valença à luz do eclipse.


Havia mais gente a ver, lá 'em baixo', dos baluartes :


A fotógrafa ao meu lado na varanda 😉 fez uma foto no TM. Tal como a nossa vista desarmada, o sol ofusca e não se vê a fatia obscura à esquerda em cima, com o eclipse a terminar. Mas um reflexo projectado acima do rio mostra como a Lua punha o Sol está em 'quarto crescente'.


Vou aproveitar ainda para mostrar um recanto pouco conhecido, muito sossegado e livre de turismo consumista: a Calçada da Gaviarra , com a Casa do Poço e o Palacete da Gaviarra.



A Casa do Poço é uma casa senhorial do séc. XIX convertida em alojamento turístico.


Varandas e galerias 'cristaleras' à maneira galega.

No topo, esta galeria envidraçada tem a mesma vista sobre o rio e Tui.

Casa (Palacete) da Gaviarra, do Barão da Urgeira, 1860


Pertence à Misericórdia de Valença. Descendo, chegamos à Porta:

Porta da Gaviarra, ao fundo da calçada.



Ainda não falei de igrejas. São feias para meu gosto, embora estas duas (Anjos e Misericórdia) formem uma espécie de 'fórum' no extremo Norte da fortaleza.


Uma perspectiva bonita das duas torres de igreja, entre o barroco e o neo-clássico, ao fundo da praça forte:


E de volta no Celta, cheiinho à cunha de galegos.


Que pena não termos cobertura ferroviária de jeito, como a Suíça ou a Áustria. Há tão pouco a descobrir neste país viajando de combóio...