domingo, 5 de julho de 2026

Os espantosos Harvard Art Museums de Cambridge, Boston




Publiquei aqui  há uns meses um post sobre o Museu de Cleveland, e a riqueza da sua colecção de Arte Europeia gótica e medieval. Outro museu que devia estar na Europa mas está em Boston é o Museu de Arte de Harvard, em Cambridge - Boston. São várias colecções, por isso costumam ser referidos no plural, Museus de Arte de Harvard. Lá dentro abunda arte europeia desde a clássica (mediterrânica) até ao século XX.

Fra Angelico, Filippo Lippi, Botticelli, Ghirlandaio, F. Guardi, Cézanne, Manet, Degas, Manet, Pissarro, Monet, Matisse, Picasso, Toulouse-Lautrec, van Gogh, Renoir, Rodin, Klimt, Klee, Calder, Rothko...

1 - O Fogg Museum, aberto em 1896, é a parte mais antiga e mais extensa.

2 - O Busch-Reisinger Museum fundado em 1903, arte de países de língua alemã.

3 - O Arthur M. Sackler, Médio Oriente e Ásia

Plano do Museu Fogg

Piso 1 - Arte Moderna, Impressionistas, séc XIX-XX

Piso 2 - Período Medieval, Renascimento, Romantismo/Neoclássico

Piso 3 - Arte Egípcia e Greco-Romana 

Piso 4 - As melhores colecções privadas (Fogg, Busch-Reisinger)

Vamos para a Antiguidade Clássica, no piso 3:

Horus, o deus-falcão egípcio, bronze (Período Tardio, ca. 650 – 500 A.C.).

Olpe (jarro para vinho, coríntio) ~700 AC

Kantharos (taça), Etrusco, 500 AC

Cerâmica "black and orange" -  período Arcaico (600–480 AC) e Clássico (480–323 AC)

Os pintores destes vasos são nomes bem conhecidos, famosos na época, estabelecidos em Corinto e Atenas.

Calyx Krater, ~500 AC (Kleophrades)

Kylix com mulher oferecendo libação a um altar, ~ 480 AC (Akestorides)

Outro, lindíssimo

Ânfora, Ática, 500 AC

Detalhe

Baixo relevo funerário sobre uma múmia, período Romano do Egipto, loc. Antinoopolis.

Antinoopolis foi uma cidade fundada em 30 DC pelo Imperador Adriano na margem direita do Nilo.

Cálice com padrão decorativo de pinhas, Anatolia (Imp. Romano), séc I

Fragmento de pavimento de mosaico com Pavão, Roma, séc. V-VI

Seguindo uma ordem cronológica, passo à Idade Média europeia.

Fra Angelico, Madonna e Bambino, 1430

Filippo_Lippi, São Jerónimo no Deserto, c. 1455

Ghirlandaio, Madonna e Bambino, 1480

Detalhe de Madonna e Bambino, Sandro Boticelli, 1490

Até aqui, não está nada mal, certo? Enfim, a Arte é nossa, o dinheiro é deles.

Altar de Santa Ana, gótico germânico, 1516

Orazio Gentileschi (pai de Artemisia), 'La Madonna col Bambino dormiente', 1610

É de cortar o fôlego. Os séculos XVII e XVIII são italianos.

F Guardi, Isola della Madonnetta, 1790

F Guardi, Fondamenta della Zattere, 1780

Salto temporal: vamos para o século XIX.
Um Turner invulgar:

Turner, Rembrandt's Daughter, 1827

Corot, Bateau de pêche à Honfleur, 1830

Renoir, claro, um deslumbrante vaso de flores.

Renoir, Bouquet Printanier, 1866


Oh não! Este também ?!

Claude Monet - Gare Saint Lazare, Arrivée d'un train, 1877 (série 'Saint-Lazaire')

Cézanne, Nature Morte à la commode, 1888



Matisse, a brincar com as maçãs de Cézanne :

Que magnífica 'Nature Morte avec pommes', 1916

'Je n’ai jamais été aussi conscient que récemment, de la beauté de la couleur noire, de tout ce qu’elle peut offrir, à la fois comme contraste et en soi.'
                                                                                    Matisse

Gustav Klimt, Birnbaum (Pereira), 1903

Esta obra-prima de Klimt está na colecção Busch-Reisinger.

Degas, 'Grande Arabesque, troisième temps', bronze, 1919

Paul Klee, (Kopf) beim Einschlafen [Cabeça (ao adormecer)], 1935

Paul Klee, N.H.D. (provinzenhade), 1932

Tenho a impressão de que ficava a morar lá uns dias... está aqui exposta praticamente a História da Arte ocidental.

Alexande Calder, Little blue under red, 1947

Vou terminar como comecei: com um tríptico de Rothko encomendado pela Harvard University para ser exposto no museu:

Rothko, 1962

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Há muito mais ainda, greco-romano, medieval, mais Matisse, mais Renoir, Picasso... mas também excelentes Singer Sargent, Hokusai...  estes Museus são um exagero.
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domingo, 28 de junho de 2026

W. B. Yeats, partir para Innisfree ! (traduzido)


Loch Gile

Traduzir o intraduzível, poemas, mania minha. Como já disse uma vez, só o faço porque fico a gostar ainda mais do original, a conhecê-lo melhor e a sentir que foi escrito, também, para mim.

Este é um daqueles Yeats que nunca teve uma tradução decente, seja em francês, espanhol ou português. É preciso sempre recorrer a alterações radicais de forma a manter uma linguagem minimamente coerente; tentei que, sendo radicais, mantivessem a essência do que (penso) o poeta quis dizer. Pareceu-me que manter a rima era essencial; mas atropelar a métrica, minimamente aqui e ali, foi a consequência, espero ter mantido um ritmo aceitável. Horas e horas à volta de Yeats.

Na Irlanda do período enegrecido e enevoado da primeira indústria, a utopia de regresso à Natureza pristina que nunca esquecemos, como um filho pródigo ao seu lar. Uma tentação da meia-idade.


W. B. Yeats, The Lake Isle of Innisfree
[tradução minha]

Vou levantar-me já e partir, partir para Innisfree,

Onde hei-de erguer uma cabana, de vime e de madeira,

Aqui nove renques de feijão, e uma colmeia de mel ali,

Irei viver a sós, eu e as abelhas zumbindo na clareira.


Lá terei sossego, pois a paz vem descendo devagar,

Desce dos véus da manhã e pousa onde os grilos cantam.

Lá a meia-noite cintila, o meio-dia é urze roxa a fulgurar,

E a tarde cheia de asas dos pintarroxos que voltam. 


Vou levantar-me já e partir, pois noite e dia 

Ouço as águas do lago, nas margens de leve a chapinar;            

Andando eu na estrada ou em cinzenta rodovia, 

No mais fundo do coração as ouço ecoar.

                                                                                        1889


Lake Isle of Innisfree


domingo, 21 de junho de 2026

Ora as Pirâmides do Egipto tinham já tripla protecção anti-sísmica !


 

Há muitos casos estranhos como este de muitos séculos, mesmo milénios, de antecipação científica, em que soluções foram encontradas de forma precursora na pré-História ou em civilizações da antiguidade. Uns já estão explicados, outros não, mas sempre suscitam espanto.

Quando uma civilização perdura milénios e quer que os seus insignes falecidos fiquem preservados para a eternidade, constrói sepulturas subterrâneas ou mausoléus sólidos e blindados. As pirâmides do Egipto são um desses exemplos, com especial protecção contra assaltos e saques - até as fábulas assustadoras de ratoeiras fatais e espectros ajudam - mas, vejam lá, também contra a única ameaça provável da Natureza naquele local; na areia do deserto as cheias do Nilo não ameaçam, queda de meteoro também só com muito azar e pontaria, restam os terramotos, relativamente frequentes no Egipto. Há relatos mais pormenorizados no tempo dos Romanos de vários sismos destruidores.

A fractura geológica do Mar Morto e os arcos Helénico e do Chipre são as origens mais frequntes de actividade sísmica na região do Cairo. São fenómenos locais do choque entre a placa da Anatólia e a Placa Africana.

Em anos mais recentes, os que mais afectaram a zona das Pirâmides foram:

                   - 18 Out 1754 , elevada mortalidade

                   - 12 Set 1955,  6.3

                   - 31 Mar 1969,  7.1

                   - 12 Out 1992, 5.9 - o mais grave em anos recentes, com epicentro em Gizeh 

Ninguém quis aproveitar a sabedoria constructiva dos Egípcios do século XXVII e XXVI AC, os primeiros 'arranha céus' em pedra (138 m)(*) ; desde Grécia e Roma aos tempos medievais e neo-clássicos, toda a arquitectura ignorou o problema sísmico, e viu-se desaparecerem templos gregos e romanos desabados ao primeiro tremor, núcleos urbanos medievais e renascentistas arrasados como na bela Basileia (6.7 - 7.1), em 1356, onde não restou uma igreja nem um castelo de pé, como nos de Itália em 1456, 1638, 1688, 1703 - e os piores de 1783 e 1908 (arrasou Reggio Calabria), o da Catalunha em 1428,  ou o de Lisboa.

Basileia, 1356 - devastação total

1908, Calabria , mais de 120 000 vítimas.

Longe de mim armar-me em especialista diplomado em sismologia ou egiptologia, é bem mais simples: li um artigo de Heloïse Pons no Le Point e fui corroborar em fontes fidedignas, não tenho dúvidas de que está tudo comprovado. 

Este ano de 2026, especialistas, esses sim, em Geofísica e Sismologia do Cairo descobriram que há uma solidez estrutural na Pirâmides de Gizeh, as mais antigas construções em pedra da História, que desde há 4600 anos nunca sofreram estragos por sismos ! Todas as outras designadas "Sete Maravilhas do Mundo" desmoronaram, arderam ou foram arrasadas. 

Esse fenómeno tão raro mostra até que ponto a pirâmide constitui um bloco sólido e resiliente. É intuitivo que a forma da pirâmide goza de máxima estabilidade devido ao baixo centro de gravidade, larga base de apoio, elevada simetria do conjunto; e não admira que isso seja favorável a uma resistência maior a abanos sísmicos. 

Em princípio, quanto mais alto subimos num edifício mais se amplificam as ondas sísmicas; o topo tende a oscilar mais que a base. Ora na pirâmide de Khéops acontece o contrário ! Ao subir na estrutura, as medições mostram que as vibrações internas perdem amplitude ! A câmara funerária do Faraó é o local mais protegido, toda ela em granito, debaixo de 5 salas de descarga reforçadas com fortes traves de granito e tectos de duas águas, uma geometria que visa aliviar a carga colossal das pedras que estão por cima - mais de 90 metros, milhões de toneladas ! - evitando o colapso do tecto da câmara. 

Pirâmide de Khéops:

1- Câmara Real ; 2 - Viga de calcário; 3 - Câmaras de descarga; 4 - Tecto de 2 águas (lajes de calcário em Λ); 5 - Blocos de sustentação em granito

Acontece que essa mesma geometria protege também a câmara atenuando as oscilações sísmicas.

A 5ª câmara de descarga (sala de Campbell), com a cobertura de duas lajes em Λ, descoberta em 1937. Os grafittis são dos trabalhadores que as construíram.

A 4ª câmara, sala de Lady Arbutithnot, e a sua trave de granito. De resto, toda a pedra da pirâmide é de calcário.

Os estudos indicam que este complexo de cinco câmaras desempenha uma função anti-sísmica, dissipando a energia dos terramotos (como o que atingiu o Cairo em 1992) ao longo dos milénios. Estas cinco cavidades sobrepostas agem como um mecanismo de amortecimento que absorve a energia das ondas sísmicas.

Parece obra de uma inteligência superior, de facto, os arquitectos da altura (há 4600 anos) tinham capacidades surpreendentes. Mas há mais !

O último detalhe da construção relevante na protecção anto-sísmica: o solo. Num solo arenoso, lamacento, de argila, as ondas sísmicas perdem velocidade, ressaltam, sobrepoem-se, e assim são amplificadas. Como Gizeh repousa sobre um subsolo rochoso calcário, as edificações têm protecção natural contra actividade sísmica.

Cada construção tem as suas frequências próprias de vibração. O maior perigo sísmico resulta de essa(s) frequência(s) estar em ressonância com a frequência de vibração do solo onde assentam, pois vibrando em uníssono amplificam-se mutuamente. O solo de Khéops, por exemplo, vibra a 0.6 Herz, frequência 4 vezes mais baixa que a da pirâmide (entre 2 e 2,6). A diferença actua como um escudo protector invisível.



Também a Esfinge de Gizeh tem uma especial resistência anti-sísmica por estar assente nesse mesmo solo, por ter uma base larga, um baixo centro de gravidade, e ainda pela solidez de ter sido esculpida num único bloco de calcário que emergia das areias. É um monolito, sem junções entre partes desconexas. Quase apetece dizer: o vento pode desgastá-lo, mas não há sismo que o derrube.

Fonte sugerida: https://www.nature.com/articles/s41598-026-49962-6

A minha interrogação é : porque não se construíram mais pirâmides ao longo da História, em zonas de risco sísmico? Não maciças em pedra, mas de madeira, de tijolo, de aço e cimento. Actualmente já não se justifica, temos técnicas mais evoluídas e eficazes; mas dá que pensar, nada resistiu acima do solo mais de quatro milénios como as Pirâmides egípcias.

Permitam-me citar uma imagem icónica moderna, a pirâmide da Tyrell Corporation no Blade Runner de Ridley Scott:

I've seen things you people wouldn't believe.'


Maquete sim, mas genial.

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(*) os ziggurats sumérios, muito mais baixos, eram construídos em blocos de lama cozida ao sol. O mítico Etemenanki (Torre de Babel) de ~1800 AC teria no máximo 66 m, e depois de muitas reconstruções o pouco que restava foi arrasado por Alexandre o Grande.