domingo, 17 de junho de 2018

Arte Nova em Aveiro, um powerpoint


Das minhas curtas estadas em Aveiro, tinha uma colecção de fotos e folhetos sobre a arquitectura Arte Nova local, em particular obras de Silva Rocha e Ernesto Korrodi. Juntei tudo nesta apresentação. A designação "capital portuguesa da Arte Nova" é um  bocado exagerada - há muito mais obra  dessa corrente em Lisboa ou Porto. Mas como Aveiro é uma pequena cidade, o pouco que há sobressai.

Aqui:
http://www.authorstream.com/Presentation/MarioRGoncalves-3475680-art-nouveau-aveiro/
http://www.authorstream.com/Presentation/MarioRGoncalves-3475680-art-nouveau-aveiro/

terça-feira, 12 de junho de 2018

A 5ª de Sibelius por Arvo Volmer na Casa da Música


Na passada sexta-feira, 8, esteve na Casa da Músiica Arvo Volmer a dirigir a Orquestra num belíssimo programa (finalmente !) com o jovem violinista Benjamin Schmid.

Começo pela irritação dos lugares vazios, certamente assinaturas de gente que prefere futebol, algarve ou centro comercial. E bons lugares!.. A iniciar o concerto, a abertura do Sonho de uma Noite de Verão de Mendelssohn, obra muito ouvida mas cuja sábia e dinâmica arquitectura é sempre de apreciar. Não saiu mal, mas não deslumbrou. Volmer não é Gardiner.

Seguiu-se o concerto para violino nº 3 de Mozart. Embora igualmente bem conhecido, não tem sido muito frequente na CdM. Como Volmer não é Gardiner, o Mozart dele saiu convencional, mas o violino de Schmid não ! Até me desconsolou na primeira entrada, mas à medida que aqueceu foi mostrando uma mestria admirável e uma abordagem pessoal de algumas passagens, sempre muito bem executadas. Só as cadenzas modernaças não me agradaram, mas o virtuosismo foi em crescendo e a obra terminou em ovação. Não é von Mutter, mas foi uma audição empolgante. Tivemos direito a um Paganini vertiginoso como encore (Caprice nº 24).


A 5ª é a minha preferida sinfonia de Sibelius, uma obra genial que deu ao compositor muitas dores de cabeça: o trabaho foi muito atribulado, com várias reescritas, devido sobretudo à má recepção da anterior 4ª (fraquinha) e às novidades que corriam no campo musical europeu, com o surgimento de dissonâncias, atonalidade, música contínua e outros experimentalismos que tentavam quebrar as convenções, sobretudo no campo sinfónico.

Com toda essa efervescência, a 5ª acabou por ficar riquíssinma de invenções - harmonias inesperadas, quebras de ritmo, sincopismo, transição do lirismo para explosivos tutti com os sopros em destaque a dar uma sonoridade operática; o mais genial é que Sibelius consegue fazer a sinfonia transitar por todo este percurso acidentado de uma forma fluida, melódica, poética - como se sabe, a inspiração, dizia ele, vinha da natureza nórdica, florestas e lagos, montanhas e fiordes. Não digo que se 'vejam' esta coisas no decorrer da música, mas sim que tem uma beleza variada, rica de detalhe, luxuriosamente harmónica, que se assemelha a uma paisagem escandinava.


A surpresa maior foi a direcção de Volmer, com uma desenvoltura e expressividade de quem já 'nasceu' com esta música no sangue - ele é Estoniano, mesmo de ali ao lado. Deixou a orquestra respirar, solta, mas sempre com a sonoridade controlada. Foi a melhor 5ª que já ouvi, e o melhor concerto da Casa da Música este ano até agora: tremendamente bom.

Para quem não conhece, duas gravações recomendadas:
- Colin Davis com a LSO
- Osmo Vanska com a Orq. da Letónia (Lahti)

No youtube, para aqui deixar, encontrei em vídeo uma razoável interpretação - e muito bem filmada:
Thomas Dausgaard, Orquestra Real da Dinamarca


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Madame Serpente, a Senhora Branca: os imortais que querem ser humanos


Madame Serpente Branca é um conto mítico chinês que ganhou grande popularidade: um poderoso demónio em forma de serpente, ao fim de mil anos, transforma-se numa bela mas humana mulher para conhecer o amor. E encontra-o na Ponte Quebrada do Lago Poente de Hangzhou, na pessoa de Xu Xian. Casa com ele e vivem uma paixão tão intensa que atraem a curiosidade e a desconfiança de um monge, capaz de entrever a serpente oculta atrás da foma humana.

Quando o monge sabe que Madame Serpente está grávida, fica estarrecido com semelhamte violação de todas as tradições e tabus, sejam de raça, de religião, divinos e profanos. Resolve intervir confrontando o marido, que acaba convencido. E a (in)esperada tragédia surge quando Xi Xuan engana traiçoeiramente a mulher obrigando-a a retomar a forma de serpente.

O que mais emociona é que a imortal Serpente tenha abdicado dessa qualidade divina e assumido a forma mortal só para conhecer a mais humana das emoções. Por um breve instante tem nos braços esse amor desejado, mas acaba por perder tudo, embora haja versões com fim feliz. A narrativa foi transformada em ópera, cujas récitas costumam ter grande sucesso.

No Museu do Oriente há um exemplar de um belo livrinho ilustrado, tal historinha de B.D. à maneira oriental, com estas ilustrações que vou mostrar.

Como em todas as narrativas míticas orais, há muitas variações; a que está exposta no Museu do Oriente joga na amizade entre as duas serpentes, a Branca (libertária) e a Azul (conservadora), que se mantêm em contacto durante toda a aventura mundana de Madame Branca.

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1.
Dois Espíritos de Serpente, a Serpente Branca e a Serpente Azul, descem da montanha para gozar as delícias da Primavera, tomando a forma de belas mulheres no Lago Poente de Hang Zhou.

2.
Para atravessar o lago, pedem a um barqueiro que as aceite a bordo, onde já se encontra o jovem Xu Xian. Este, encantado, empresta o seu guarda-chuva à bela Senhora Branca, que de imediato se apaixona por ele. Combinam um encontro na Ponte Quebrada.

3.
Quando Xu Xian aparece para reaver o guarda-chuva, a Serpente Azul propõe a Xu Xian que se case com a amiga. Ele aceita de imediato.

4. Mas o monge Fa Hai, do santuário do Monte d'Ouro, revela a Xu Xian que a mulher é uma Serpente Mágica disfarçada. Propõe um plano para a revelar: dar-lhe a beber álcool durante as festividades das Barcas-Dragão.

5. Decorrem as festas, e Xu Xian força a esposa a beber vinho, como é costume local; a Serpente Branca ainda tenta que a sua magia possa evitar o efeito; mas sente-se mal e corre a refugiar-se no quarto.

6. Quando Xu Xian a segue e entreabre os cortinados, vê uma grande serpente branca e desfalece do choque.

7. Ainda mal refeito, sobe ao Monte d'Ouro e pede refúgio junto do monge Fa Hai, que o recolhe e mantém em clausura.

8. E agora começa a parte mais épica: as duas Serpentes (a Branca já recuperada) aliam-se aos animais aquáticos para conseguir resgatar o infeliz Xu Xian do mosteiro. Levantam as águas e inundam o santuário do monge Fa Hai, que acaba por ceder, permitindo que continuem entre os humanos até ao nascimento do bébé.

9. Comovido pela devoção da esposa, lutando contra sentimentos contraditórios, Xu Xian volta à Ponte Quebrada do Lago Poente para se reencontrar com a esposa; mas a furiosa Serpente Azul tenta matá-lo. É salvo pela Senhora Branca, que lhe conta da sua gravidez, e com renovadas promessas de amor retomam a sua vida em conjunto.

10. Assim que a criança nasce, Fa Hai vem buscar as duas serpentes e leva-as aprisionadas para um Pagode no Monte.

11. Anos mais tarde, o rapaz nascido de Xu Xian e da Senhora Branca vai prestar culto junto a Pagode, e consegue ver a mãe por breves instantes.

12. O Pagode acaba por ser destruído e as duas Sepentes conseguem escapar; procurando vingança, acabam por chamar a atenção de Buda que dá o castigo final a Fa Hai.

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Ora acontece que tudo isto lembra muita coisa lida e vista, desde pelo menos a Grécia antiga; no meu caso, recordei a obra-prima de Wim Wenders "Asas do Desejo" , no original "Asas sobre Berlim". Nessa hstória os espíritos não eram serpentes mas sim dois anjos, Damiel e Cassiel; Damiel, apaixonado, sente a tentação de ser humano mesmo que perdesse para sempre a imortalidade. Além do amor, irá sentir tudo o que há de bom e de mau.

Ah, mais uma coisinha: o Lago Poente de Hangzhou existe, assim como existe o Pagode Leifeng, octogonal e com cinco andares, construído em 975, colapsado em 1924 e depois reconstruído.