terça-feira, 22 de agosto de 2017

O tesouro Viking de Galloway, Escócia



Habitualmente designado The Galloway Hoard, foi descoberto em 2014, soterrado, um espólio Viking riquíssimo, prováveis pertences de gente importante. Já é famoso o alfinete do pássaro dourado:

Peça única, o pássaro de ouro tem um bico curvo como o de um flamingo, que só havia no Mediterrâneo.

Foi um entusiasta de achados, usando um detector de metais ao passear em terras de pasto pertencentes à Church of Scotland, quem alertou para o que lhe pareciam várias peças de ouro. E eram, do século IX ou X, e de um valor actualmente milionário.


Peças de ouro e prata, incluindo contas, braceletes e broches, enchiam um vaso Carolíngio com tampa que era um verdadeiro pote de ouro. A exposição actualmente a decorrer no National Museum of Scotland ( a não confundir com a National Gallery) ocupa um pequeno mas precioso espaço do enorme edifício.
Um dos broches encontrado dentro do vaso. A forma de anel aberto nunca tinha sido encontrada na Escócia.


Os broches em quadrifólio, têm duas faces simbolizando a vista e o ouvido.




Contas de colar, amuletos e broches, alguns embrulhados em tecido, enchiam até cima o vaso selado.

Entretanto decorre uma campanha para conseguir dois milhões de forma a garantir que o espólio fica no dominio público e não para a Igreja.
http://www.nms.ac.uk/national-museum-of-scotland/whats-on/the-galloway-hoard/

Galloway fica no extremo sudoeste da Escócia.


domingo, 20 de agosto de 2017

Monteverdi em Edimburgo:
' Nenhuma empresa o Homem enfrenta em vão
Nem contra ele mais se pode armar a Natureza.'


O coral mais belo do Orfeo de Monteverdi, que tive a sorte de assistir no Usher Hall, com o Monteverdi Choir dirigido por John Eliot Gardiner.



Coro di Spiriti Infernali

Nulla impresa per uom si tenta invano
Nè contr’ a lui più sa natura armarse.
Ei de l’instabil piano
Arò gli ondosi campi, e ’l seme sparse
Di sue fatiche, ond’ aurea messe accolse.
Quinci, perchè memoria
Vivesse di sua gloria,
La fama a dir di lui sua lingua sciolse,
Ch’ei pose freno al mar con fragil legno
Che sprezzò d’Austro e d’Aquilon lo sdegno.

               Nenhuma empresa o Homem enfrenta em vão
               Nem contra ele mais se pode armar a Natureza.
               Nas instáveis planuras
               Lavrou os campos ondulantes, e lançou sementes
               Da sua obra, de onde colheu dourada safra.
               Então, que a memória
               Da sua glória possa perdurar,
               A fama dos seus feitos ser por toda a parte dita
               Que ele dominou os mares com frágil nave
               Que desdenhou de Sul e Norte o furor dos ventos.



Esta produção que passou em Edimburgo é a mesma que esteve no La Fenice de Veneza e segue agora para Salzburgo - um triunfo completo, a celebrar os 450 anos de Monteverdi.

O trabalho de palco, sem cenário e com a orquestra a ocupar as alas laterais, conseguiu aproveitar a escadaria do côro, o centro e o corredor da frente e recantos do auditório para teatralizar a acção de forma eficaz, multiplicando os espaços. A iluminação também ajudou, com as sequências no Hades a decorrer na quase escuridão. Imensa sobriedade e contenção nos trajos, na movimentação, no canto e na direcção de orquestra, uma coerência total como seria de esperar em Gardiner, que mereceu um agradecido longo aplauso - ele já é "da casa".



Essa contenção não pejudicou, mas ampliou, a emotividade do canto, investindo todo o dramatismo na expressão corporal. Se as vozes foram perfeitas, saliento uma deslumbrante Esperanza de Kangmin Justin Kim, o formidável Caronte de Gianluca Burato, e o Orfeo de Krystian Adam, cujo 'Possenti Sprito' foi intenso e comovente como deve ser.


A orquestra esteve perfeita na relação - por vezes corporal ! - com os cantores, que mais de uma vez se aproximavam dos músicos para os destacar.

Eu diria que de tudo foi o coro Monteverdi que mais me conquistou; as múltiplas vozes, perfeitas de execução, sabiam transmitir alegria nas celebrações e melancolia  nos desenlaces trágicos.

Mas é a John Eliot Gardiner, um estudioso permanente como Harnoncourt e que como ele dedicou a vida à perfeição na execução de obras anteriores ao séc XX, que cabem todos os louros por esta extraordinária realização. Está ele de parabéns com Monteverdi, lá no Olimpo.



Assim comecei Edimburgo - 2017.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

De novo, por fim, Edimburgo e o seu Festival


Talvez seja uma despedida, talvez não - o vôo directo agora é uma tentação, para um Festival que não é tão caro como outros (Salzburgo, Lucerne, Glyndenbourne) mas decorre numa cidade única, mágica, e costuma ter uma boa programação, com visita de grandes orquestras. Este ano só terei oportunidade de ver o Orfeo de Monteverdi dirigido por Gardiner com o Monteverdi Choir (que depois vai para Salzburgo), e mais umas coisitas ligeiras do Fringe que poderão ser engraçadas.

Um trailer do Orfeo de Gardiner no La Fenice:



Se o tempo o permitir, não queria perder as famosas Rosslyn Chapel e Melrose Abbey, que nunca cheguei a visitar.

Capela de Rosslyn
Interior

Rever as obras primas da National Gallery é um must: Boticelli, Cézanne, Corot, Degas, Gauguin, Manet, Monet, Seurat, Titiano, Van Gogh, Velasquez, Vermeer, Veronese... não falta lá ninguém. Na secção de Arte Moderna, também há Mondrian, Picasso, Lichtenstein...

Oliveiras, por Van Gogh, na National Gallery of Scotland

Até custa a acreditar que obras belíssimas como estas estão em Edimburgo !

Christ in the House of Martha and Mary, de Vermeer. Como ele retratava bem as mulheres ! O Cristo nem tanto...

Picasso, Mère et Enfant. Um esboço, duas cores, tanta beleza.


E por fim um pôr do sol inevitável em Calton Hill...

A 'Acrópole' de Edimburgo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ainda não vi o 'Dunkirk', mas do que ouvi já gosto


Tudo me indica que Dunkirk de Christopher Nolan é um filme a não perder; ainda não arranjei tempo para ir ver, mas já ouvi esta fabulosa Variação 15 da banda sonora de Hans Zimmer, que até me dá arrepios. É um trabalho sobre a famosa Nimrod de Edward Elgar, que integra as Variações Enigma.



Um remake conseguido, mas nada poderá substituir o original, uma obra prima total que eu levaria para a ilha deserta, sem qualquer hesitação; aqui fica pelo grande Colin Davis:





domingo, 6 de agosto de 2017

ponientes



' O ponientes, o tigres, o fulgores ' 
 ...

' Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
 Chora o silêncio... nada...ninguém vem...'



«Un jour, j'ai vu le soleil se coucher quarante-trois fois!»
Et un peu plus tard tu ajoutais:
«Tu sais... quand on est tellement triste on aime les couchers de soleil...
- Le jour des quarante-trois fois tu étais donc tellement triste?
Mais le petit prince ne répondit pas.”

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Versos e texto de J L Borges, Florbela Espanca e Antoine de Saint-Exupéry