Finalmente ! Um daqueles raríssimos livros inclassificáveis - nem thriller, nem psicológico, nem novela, nem relato de viagem, mas tudo isso! - escrito de forma magistral, num inglês criativo riquíssimo de expressões e vocabulário, fluente mas não linear, onde se sugere tanto ou mais do que se narra ou se descreve e os diálogos surgem imprevisíveis, semeados de alusões misteriosas.
Só agora acabei as 250 páginas em letra miudinha desta 2ª obra de Amy Sackville. Não conseguia parar, é um livro para se viver intensamente e que no final deixa uma sensação de perda real, perturbante. Um livro estranho em tudo - personagens, locais, situações. Justificam-se os elogios no Times (Sackville's second novel is poetic, dreamlike and beautufully written), no New York Times (masterfully self-contained).
Não quero resumir de forma a estragar a leitura de quem decida ler, portanto sendo o mais vago possível: Phillip, um professor universitário (talvez Cambridge) às portas da reforma, pelos seus 60 portanto, deixa-se envolver intensamente com uma aluna de literatura nos 20 e pouco. A iniciativa é mútua, não há um sedutor e um seduzido, a jovem talvez seja até um pouco mais atrevida e insistente. Casam ! E a promessa para o dia seguinte é ele levá-la para um sítio onde esteja a sós com o mar. As ilhas Orkney.

Vão de núpcias para Westray, uma das Orkney setentrionais. A obsessão dela (o nome nunca é referido) pelo mar, desde o primeiro dia na casinha de pedra na praia, é a parte 'thriller psicológico' do livro, é um enigma que vai abarcando tudo na vida diária do casal. Amy Sackville narra esses dias com mestria, com detalhes brilhantes nas falas, nas descrições, e sobretudo nos pensamentos cada vez mais tempestuosos do professor que a escritora incarna como narrador, tanto extasiado como perplexo com a companheira. O pai dela fora pescador nesta ilha, ter-se-á afogado, há aqui qualquer coisa de tragédia sob as águas.
Extractos ( já se sabe que a tradução dá cabo da riqueza do texto) :
Where shall I take you, I asked, when we are wed? ‘The sea,’ she answered. ‘Will you take me to the sea?’
Está de olhar fixo ao longe quando a água lhe chega aos pés e ela recua, e quando a suave e insistente sucção da maré vem tão perto que lhe sorve os dedos ela arrasta-se a subir praia acima.
Voltou enregelada pela maresia que senti eu na face, para compensar. E acariciou esta sombra raivosa que às cinco desce sobre mim, urso velho e grisalho que sou. O cheiro de ar encharcado impregnava-a. Uma vibração no crepúsculo em volta dela, uma cintilação profunda, brilhante, não visível.
A ventania nocturna
O vendaval galopou pela noite, ao longo de toda a costa, chicoteando o mar e acumulando nuvens roxas de chuva que correm para o interior; nunca abrandou durante as horas mais negras. Chamam a este vento ' skreever', disseram-me, nome para algum demónio - e é mesmo assim como soa. Coisa de tempos remotos, com asas esfrangalhadas e a uivar, a rasgar e lacerar a urze seca e despida.
Bufava e assobiava à volta das paredes da nossa casota de pedra, e arranhava lá dentro, em cada recanto, à procura, como um intruso furtivo volteando as páginas sem parar e remexendo cada greta e cada mossa, relinchando em cada brecha, à procura, à procura, frenético, minucioso, implacável; desalojando as aranhas que se agarravam teimosamente às traves e observando como as teias se rompiam; respirando sobre a última centelha das brasas antes de se lançar pela chaminé acima numa onda de cinzas.
O céu
O céu pervinca, com um esboço de nuvens de grafite, o mais leve vestígio de lápis; lilás onde se encontra com o mar, aprofundando-se até ao ápice, azul-mexilhão. Esta foi dela. Estou a tentar ouvir a voz dela a dizer. Azul da Prússia. Tinta-da-China. Índigo... 'Azul para dormir, Richard ', diz ela. Azul para dormir. (*)
É azul celeste, é ametista, é preto, equimose, púrpura sangue, granada, sereno sem ondas, inofensivo, ou aguardando a hora certa. Está uma noite clara, hoje. O suave apagar ao anoitecer, todos os antigos fantasmas mortos das estrelas, perturbando o céu claro, a luzir contra a escuridão em 'glimmerans'. A fantástica palavra dos ilhéus para crepúsculo. Como ela iria adorar isto.
No.
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É possível achar livro chato, repetitivo ou obsessivo. Não me admirava que alguém me viesse dizer Ó, não é nada de especial. Pois eu gostei tanto da escrita fluída, expressiva e exuberante que nem dei conta dos defeitos possíveis.
(*) "Bedtime blue", com o duplo significado de blue (azul, melancolia)