terça-feira, 20 de outubro de 2026

James Oswald, Caledonia, Escócia, séc. XVIII


Uma das 'novidades' em disco que mais gosto me tem dado ouvir é Colin's Kisses, uma colecção de canções e peças instrumentais de James Oswald interpretadas pelo agrupamento barroco Concerto Caledonia, com Catherine Bott (soprano) e Iain Paton (tenor), edição da Linn Records de Glasgow (1999).

The Parting Kiss


James Oswald (1710–1769) foi um compositor escocês quase contemporâneo de Bach e Handel ! Violoncelista, apontado pelo rei Jorge III para compositor da Câmara Real, Oswald dedicou boa parte da carreira aos tradicionais escoceses. Toda a sua música respira a típica sonoridade, ora alegre e dançável, ora melancólica, que facilmente reconhecemos como escocesa.

Em 1741 deixou Edinburgh e foi para Londres trabalhar em edição musical, tendo publicado Caledonian Pocket Companion, obra em doze volumes que alterna canções tradicionais com variações e originais de sua autoria. Admirador do poeta Robert Burns, Oswald compôs música para alguns dos seus poemas.

The Secret Kiss

Entre as melhores obras de Oswald estão as Airs for the Seasons, umas 'quatro estações' escocesas para violino (1 ou 2) e violoncelo, adaptáveis a flauta ou oboé, na forma de trio-sonatas.

Andante final da Sonata on Scots Tunes

No youtube encontrei esta obra de Oswald, desta vez pelo Atar Piano Trio:

Scottish sonata - plaintive: amoroso




domingo, 18 de outubro de 2026

Kirkenes face ao mostrengo: Murmansk, capital do nuclear na península de Kola


Atenção: este post mostra coisas muito feias e deprimentes, ao contrário do que é costume no Livro de Areia

Murmansk

Estónia e Finlândia têm as mais difíceis fronteiras da Europa, onde a ameaça da Rússia é mais premente. Mas à infeliz Noruega, que até parece mais afastada, calhou em sorte uma curta fronteira no Ártico, terrestre e marítima, como uma janela com vista para a distopia pré-apocalíptica : a fronteira de Kirkenes, que do lado russo enfrenta a lúgubre Península de Kola e sua capital Murmansk, cidade feia, decrépita e suja por excelência. 


É apenas o sítio mais militarizado do Mar de Barents, com bases da Frota Naval do Norte, de mísseis nucleares, pistas de bombardeiros e portos dedicados aos submarinos nucleares. A maior concentração de armas nucleares no planeta. Já para não falar do imenso amontoado de lixo nuclear e da intensa poluição de águas, terras e ar. O inferno às portas da Noruega.

 Quase toda a península fica a Norte do Círculo Polar Ártico. Parece que há praias e e estâncias de férias no sul, no Mar Branco.


Murmansk, capital da Península de Kola

A cidade é um misto caótico de blocos dos anos 70 da era soviética (a "Grande Muralha de Murmansk"), com um ou dois edifício nobres administrativos tipo revivalismo neo-clássico estalinista, e uns enormes caixotes multicoloridos mais modernos a fazer de centro comercial.

O centro 

Paragem de autocarro, na zona do porto. Não é aqui que se aplica a riqueza ganha no tráfego portuário.

O porto cá em baixo, o brutalismo soviético da Grande Muralha lá no alto.

Murmansk é um dos maiores portos do Ártico russo: porto de exportação de minério de ferro e carvão, e, inevitavelmente, de crude, graças à frota fantasma de petroleiros. Também alberga a frota de navios quebra-gelos e uma frota de pesca. É ainda o porto de base da Rota do Nordeste pelo Mar Ártico russo, razão porque lá ancoram os quebra-gelos. No ocidente, só o porto de S. Petersburgo é mais importante. 

Cargueiro, quebra-gelos e a doca seca flutuante para navios nucleares.

O porto de Murmansk é o términus de vias férreas vindas de leste e de sul que servem as minas, principalmente de carvão (SUEK)


Murmansk no Inverno

Portos e estaleiros de submarinos nucleares em Kola


Murmansk está no fundo de uma profunda entrada de mar, Kola Guba, um fiorde recortado e ramificado em várias baías, com 57 km, 4 a 7 de largura, e até 300 m de fundo. Os estaleiros de maior dimensão são o de Olenya Guba (guba= baía) e Nerpa, o porto fulcral de Severomorsk é sede da frota naval russa no Ártico, a Frota do Norte. Até à fronteira com a Noruega são 240 km.

Cemitério naval de Olenya Guba.

Vista aérea da base, protegida por uma rede.

O K-18 Karelia, de 1989 - o favorito de Putin - em Gadzhiyevo.

Em Saida-Guba está cerca de 2/3 da frota nuclear de submarinos. Aqui o K-18, à direita.

Os detritos nucleares

Durante as décadas de regime soviético e de guerra fria, os russos foram acumulando sucatas e detritos radioactivos de embarcações desmanteladas. Eram empilhadas ao ar livre onde calhava, ou deixadas a apodrecer na água. Com Chernobyl e outras desgraças, foram fazendo algum esforço para armazenar esse material de forma menos perigosa, em contentores. 

Andreeva, Saida e Nerpa não estão descontaminados, mas a maioria do lixo radioactivo está confinado.

"Garrafas" de combustível nuclear entre o mato no alto dum monte, em Andreeva Guba.

Saida-Guba (Baía de Saida ou Sayda) é um dos locais onde se armazenam os compartimentos de reactor de submarinos nucleares desactivados.

Não me parece um armazenamento seguro, mesmo em bidões blindados a descoberto, mas enfim.

Gigantescos, a céu aberto.

Interior do armazém de combustível nuclear.

Pesadelo. Haverá oiutro sítio assim no mundo?

Bases aéreas

Olenya

Um Tu-22M

Na base militar de Olenya estacionam dezenas de bombardeiros pesados Tupolev. Caças Mig e Sukhoi estacionam em Severomorsk-1 e Severomorsk-3, além dos Kamovs. A Ucrânia conseguiu atingir a base e destruir alguns, mas desde aí a protecção foi muito reforçada.

Os TU-95 têm estado muito activos na Ucrânia.

Poluição

Toda  a península é uma catástrofe ecológica: ar, água e solo contaminados, nalguns locais de forma letal. Uma das causas é a exploração das minas de carvão e o seu uso em complexos industriais.


Também há mineração de níquel e ferro, em Monchegorsk, Kirovsk e Nikel. Na natureza amontoam-se detritos, poeiras, efluentes industriais.

Nikel : as minas e e o Buraco Fundo

O centro de Nikel

Os infalíveis blocos da URSS

Nikel é uma vila mineira, dependente das minas de níquel à volta. Intensamente poluída, decadente, pobre, vê toda a riqueza criminosa desviada para as camarilhas ricas de Moscovo e S. Petersbugo. 


É esta povoação e estas minas que fazem fronteira com a Noruega, junto à vila pesqueira de Kirkenes.

As minas de níquel

Poucos quilómetros a leste de Nikel, encontra-se o Poço de Perfuração de Alta Profundidade : é o sítio onde se perfurou mais fundo na Terra, 12 262 metros ! O furo foi realizado por fins 'científicos' entre 1970 e 1992, mas os trabalhos tiveram de parar porque lá em baixo se atingiram 180º C de temperatura! Partes da broca começaram a fundir (uma secção de 5 km partiu) e a deformar a rocha.

A mina foi abandonada neste estado.

O poço está selado com uma tampa de metal soldada. 

Este lindo cenário, paisagístico, ambiental, nuclear, militar, é o que oferece o lado russo da fronteira norueguesa. Imaginem ir viver para Kirkenes, com tudo isto à porta e a porta sem poder ser trancada e blindada.

Kirkenes, Noruega (Mar de Barents)

Vila de pescadores no Mar de Barents, é também a fronteira Norte da NATO, e a única ainda parcialmente aberta entre Rússia e Europa. 


É um porto de pesca importante na parte norueguesa do Mar de Barents, com indústria de transformação do pescado.


Torres de vigia disseminadas na floresta, elevam-de acima das copas de pinheiros e bétulas. Os habitantes já estão acostumados, desde há décadas - 50 anos ? - à ameaça permanente do lado de lá da fronteira. 


Navios e tripulação russos encostam frequentemente no cais de Kirkenes; até petroleiros vêm acostar, com a desculpa de uma emergência qualquer. Abusos. Não são raros os tripulantes que 'desaparecem', Noruega adentro - refugiados, emigrantes ou espiões ? Ainda há pouco foi detectado equipamento de vigilância e espionagem numa rusga a um navio 'de pesca'.

Navio pesqueiro russo ' Ester' em Kirkenes - a polícia encontrou a bordo equipamento de espionagem elctrónica.

Sede do consulado russo, a única casa de Kirkenes com janelas reforçadas. Abre só alguns dias.

O Mar de Barents

Também em Svalbard, ilha sob soberania da Noruega, a situação é tensa e ameaçadora: os russos têm presença garantida por um tratado de 1920, por direitos mineiros, em duas povoações semi-abandonadas, e os Noruegueses são obrigados a partilhar o território e sujeitar-se a encontros embaraçosos. Há uma força policial armada russa instalada e ultimamente, muitos navios da Frota se aproximam e fazem exercícios por perto da costa. 

Não há aeroportos, proíbidos pelo mesmo tratado ratificado pela Liga das Nações que autoriza a presença russa. Isso é bom ou mau? Para a NATO, é a impossibilidade de defender a ilha - e os russos têm uma enorme e moderna base militar ali ao lado, na ilha de Alexandra - Nagurskoye - cheia de Antonovs e Sukhois e TUs, sob comando de uma vasta equipa do FSB !

Parece estranho, mas aquele arquipélago ártico gelado de Svalbard ainda é Europa.


Uma boa fonte de informações para a região é o Barents Observer :
https://www.thebarentsobserver.com/



domingo, 11 de outubro de 2026

Cape Dorset ainda 'mexe' : novas gravuras dos estúdios Kinngait


Cape Dorset é uma povoação nativa de ca. 1400 hab. na ilha de Dorset, a sudoeste de Baffin.

Já aqui mostrei várias vezes obras gráficas e esculturas da escola de arte nativa de Cape Dorset, junto à grande ilha de Baffin, Arquipélago Ártico do Canadá. Especializada em gravura impressa e escultura em pedra-sabão ou estearite, todos os anos publica novas obras por esta altura.

Há em Cape Dorset ('Kinngait') uma instituição, o Kenujuaq Cultural Center , onde funcionam os Kinngait Studios de criação e impressão de gravuras e espaços para exposições, palestras e cursos. 

Trabalham aqui não só artistas locais como de outras povoações da Ilha de Baffin, que vêm aprender ou ensinar. O centro artístico resulta de uma cooperação entre o município e a cooperativa inuit, a autoridade nativa local.

Além dos estúdios dos artistas gráficos e escultores, tem uma loja que promove todos os anos as novas criaçōes e edita um calendário em vários formatos para divulgação.


Qavavau Manumie (Kavavao Mannomee) 


É já desde há alguns anos o mais reputado continuador da arte gráfica em Cape Dorset, onde agora também ensina a nova geração de artistas.

Kaivattuit (Circling Whales), Qavavau Manumie, 2026

‘Dog Team Spirit ’ , Qavavau Manumie, 2026, uma obra recente onde é patente a paixão pelo Ártico e as suas paisagens e desafios. 

Susie Seeta Saila

Susie Seeta Saila nasceu em 1998, é da nova geração de artistas gráficos.

Quvianaqtuk Pudlat, Impassioned wolf, 2026

Quvianaqtuk Pudlat nasceu em 1962, em Cape Dorset. É também um clássico dos estúdios Kinngait, reconhecido em todo o país.

Quvianaqtuk Pudlat, Flock, 2024


Ningeokuluk Teevee, Whistling Teapot

Outra das artistas com mais produção e anos de carreira é Ningeokuluk Teevee. Nascida em 1963, desde 2004 tem conquistado prémios e realizado exposições por todo o Canadá.

Ningeokuluk Teevee, Owl courting Goose

Padloo Samayualie

Nasceu em Kinngait em 1977, começou a cerreira em 2001. Além de Cape Dorset, tem tido exposições em Toronto.


Padloo Samayualie , 2024


 Padloo Samayualie , Sunset, 2026

Nuna Parr. escultor , recentemente falecido. Esta é uma das últimas obras, de 2025.

Numa Parr, Striding polar bear caught a scent, serpentinite, 2025

Parr costumava extrair ele próprio da pedreira a pedra que queria trabalhar, de preferência em larga escala; ficou mais conhecido pelos seus ursos polares.
  

A serpentinite é extraída de uma pedreira em Kangiqsukutaaq, 160 km a leste de Cape Dorset.