sexta-feira, 6 de novembro de 2026

No Museu do Silêncio


A maioria nem dá conta, mas é real e permanente: vivemos numa ensurdecedora, insuportável barulheira. Quero dizer, nas cidades do mundo 'civilizado'. Ruído de obras, ruído dos escapes, ruído das combustões, chiadeira das rodas de metal nos carris, buzinas, sirenes, tudo isso por construção nossa, mas nem sequer é o pior. A chamada música, que deixou de o ser, constituída por ruído, batuque, esganiço, arroto gutural, frases rasgadas, sol-e-dó de fancaria - poluição em muitos decibéis. Na rádio, no smartphone, no festival, na TV, na praia. Toques de chamada, notificações de SMS, gritaria de reels. Barulho humano que imita barulho de máquina. Mas nem sequer é o pior. Os debates, os painéis, os confrontos, as campanhas, as reportagens, os relatos, cacofonia humana, intragável matraquear de vozes, vozes como robots. Chinfrineira. 

“Silence? What can New York - noisy, roaring, rumbling, tumbling, bustling, story, turbulent New York - have to do with silence? Amid the universal clatter, the incessant din of business, the all swallowing vortex of the great money whirlpool - who has any, even distant, idea of the profound repose ... of silence?”
                                                                                                        Walt Whitman

Silêncio? O que pode Nova Iorque — barulhenta, estrondosa, ressonante, agitada, arrebatada, turbulenta — ter a ver com o silêncio? Por entre o ruído universal, o clamor incessante dos negócios, o turbilhão que tudo engole — este grande turbilhão de dinheiro —,  quem pode ter alguma, ainda que distante, ideia do repouso profundo... do silêncio?

Consegue-se uma pausa, sim - nem sempre - noite dentro. Numa igreja. Num Museu. Como na guerra, a pausa, o cessar fogo, é temporário; rapidamente é retomada a inevitável chacina sonora diária. Massacram-nos os olhos com vídeos, massacram-nos os ouvidos com audios. Ódios audios.

Eu sei que o silêncio pode servir as tiranias. Pode ser o igual da mentira, da ignorância. No deserto ártico, deve ser assustador. Há certamente que fazer barulho quando é radicalmente necessário. E, como dizia Wisława Szymborska,
                                             
                                                     " Quando pronuncio a palavra silêncio, destruo-o."

De certa maneira, destruindo assim o silêncio não o anula, torna-o até mais desejado.


                                  In the Museum of Silence
                                  
                                  For the full effect we encourage
                                  you first hear its opposite -
                                  in this room are the drawers of sound.

                                  Highway traffic. The demands
                                  of children. A rock festival.
                                  A prison wing.

                                  Through the double doors
                                  you'll find the hush
                                  that falls with snow.

                                  Upstairs we have replicated 
                                  the British Library
                                  and a Spanish cathedral.

                                  And the exhibition progresses
                                  you'll hear the different qualities
                                  of silence, its range of depths.

                                  Our archive has recordings
                                  from across the globe:
                                  Arctic quiet from Baffin, the scorched Sahara.

                                  We gave samples from below the ocean
                                  and from caves within the earth.
                                  And from outer space.

                                  Our final chamber is wired straight
                                  to the Himalayas. We recommend
                                  you lie down in there and listen.

                                  Visitors can sign the guestbook
                                  before they leave.


Grace Wells in Dark Mountain, vol. 6


                                  Tradução minha:

                                  No Museu do Silêncio

                                  Para pleno efeito, aconselhamos
                                  que comece pelo seu contrário -
                                  nesta sala, estão as gavetas do som.

                                  Tráfego de estrada. Perrices
                                  de crianças. Um festival rock.
                                  Ala de uma prisão.

                                  Passando a porta dupla
                                  encontrará o sussurro
                                  que desce com a neve.

                                  No andar de cima, replicámos 
                                  a Biblioteca Britânica
                                  e uma catedral espanhola.

                                  Ao prosseguir na exposição
                                  vai escutar diferentes qualidades
                                  do silêncio, a extensão da sua escala.

                                  Temos no arquivo registos
                                  vindos de todo o Globo:
                                  sossego Ártico em Baffin, o abrasador Sahara.

                                  Amostras do profundo oceano
                                  e cavernas no interior da terra.
                                  E do Espaço em redor.

                                  A última câmara está ligada
                                  em directo aos Himalaias. Recomendamos
                                  que se deite a repousar, e escute.

                                  Os visitantes podem registar a presença
                                  antes de sair. 
                                                     


Haja, pelo menos, o silêncio necessário para a leitura. 



“I don't think --"

 "Then you shouldn't talk", said the Hatter.”

                                                                                   Lewis Carroll



domingo, 1 de novembro de 2026

As minhas melhores leituras de 2026


Já fiz a lista de melhores gravações de música clássica, agora são estas as melhores edições que li este ano.

Atlas of improbable places

Aurum Press, 2017

Uma espécie de enciclopédia de locais que são aberrações, estranhos ou tenebrosos, desde ruínas de cidades a bunkers da guerra fria, passando por castelos assombrados. Textos acompanhados de bons mapas e fotos B&W. 

Maryhill Stonehenge, uma aberração perto de Washington

Escolho ao acaso: o Santuário de Madonna della Corona, a norte de Verona. Está encostado a uma alta escarpa sobre o rio Adige, e só permite acesso por uma escadaria escavada na parede rochosa, com 1500 degraus, que demora hora e meia a descer.

Leituras que nunca mais acabam sobre lugares onde nunca irei. 

Gradiva, de Wilhelm Jensen

Leopold Classic Library

Nunca tinha lido o texto completo, e é imparável. Dispenso, ou desprezo, o que Freud possa ter dito, não me interessa. A historinha ficcional de Jensen é que me prende. ´Ver´ uma jovem romana de Pompeia num baixo-relevo renascer na imaginação do protagonista, com vitalidade esfuziante, é um prazer literário e histórico. 

... "it seemed to his judgment unquestionable that he had been utterly foolish and irrational to believe that he had sat with a young Pompeiian girl, who had become more or less corporeally alive again, and this clear view of his madness formed incontestably an essential advance on the return to sound reason; but it was not yet restored entirely to normal condition, for, even if it had occurred to him that Gradiva was only a dead bas-relief, it was also equally beyond doubt that she was still alive."


L'odyssée de l'Odyssée, Cristophe Ono-dit-Bio 

Grasset, 2026

Muito me diverti com esta narrativa de Ono-dit-Biot , escritor e jornalista do Le Point. Sábio e sabedor de muita referência literária, ele faz uma leitura acompanhada da obra de Homero, tornando-a mais viva, realçando o que há de surpreendente, encontrando revelações pouco frequentes, e sempre remetendo para a actualidade (cinema, técnica) ou para literatura posterior onde descobre inesperadas conexões. Nunca me entediou, fez-me reviver a Odisseia com humor e suspense, estou-lhe grato por ter enriquecido a minha relação com o manhoso Ulisses.

Nature Tales for Winter Nights
Colecção de contos, reunidos por Nancy Campbell : Darwin, Defoe, Thoreau, Whitman...

Elliot & Thompson , 2023

"The atractions, fascinations there are in sea and shore! How one dwells on their simplicity, even vacuity! What is it in us, arous’d by those indirections and directions? That spread of waves and gray-white beach, salt, monotonous, senseless — such an entire absence of art, books, talk, elegance — so indescribably comforting, even this winter day — grim, yet so delicate-looking, so spiritual — striking emotional, impalpable depths, subtler than all the poems, paintings, music, I have ever read, seen, heard. (Yet let me be fair, perhaps it is because I have read those poems and heard that music.)."

                                                                                                Walt Whitman

trad: 

As atracções, os fascínios que existem no mar e na praia! Como nos detemos na sua simplicidade, ou mesmo vacuidade! Que há em nós, que é despertado por essas imprecisões e direcções? Aquela extensão de vagas e de areia branco-cinza, salgada, monótona, sem sentido - uma total ausência de arte, livros, conversas, elegância - um conforto tão indizível, mesmo neste dia de inverno - sombrio, mas de aparência tão delicada, tão espiritual -  tocando profundezas emocionais, impalpáveis, mais subtis do que todos os poemas, pinturas, músicas que já li, vi, ouvi. (Mas pensando melhor, talvez seja justamente por eu ter lido esses poemas e ouvido essa música !)


E finalmente, o indispensável, leal amigo e sábio ajudante, o 

Larousse 2027 





domingo, 25 de outubro de 2026

Música: CDs que ouvi este ano, em balanço


Em 2026 ouvi menos música, mas continuam a aparecer muito boas gravações, algumas de anos anteriores mas que só agora conheci. Aqui estão as que mais me entusiasmaram este ano.

Hourglass, Simone Dinnerstein e o agrupamento Baroklyn

3º andamento do Concerto do Tirol, para piano.

Que revelação ! Sublimes, estas obras de Philip Glass, e interpretadas como nunca - com sensibilidade, um conjunto de músicos de elite que nitidamente se apaixonaram pelo que tocavam, e a direcção mestra da pianista Simone Dinnerstein.

Começa pela suite musical "The Hours", composta por Glass para o filme de Stephen Daldry que aborda a vida e obra de Virginia Wolfe.


Para mim, é o disco do ano. Genial. 

Night, de Ola Gjeilo

É polémico de deveria figurar aqui, como música clássica. Há quem fale de 'nova' música clássica, mas é um disparate. Há música, há beleza sonora, um pouco de Phillip Glass, um pouco do fraquinho Einaudi e do mediano Wim Mertens.

Night é uma colecção de temas simples, fáceis, nocturnos. Musiquinha de embalar. Mas reconheço que Ola Gjeilo faz umas habilidades bem feitas, umas variações no final, que enriquecem bastante os 3 a 4 minutos de cada 'noite'.


Before Dawn

Gjeilo naceu na Noruega, estudou música na prestigiada Juliliard School de Nova Iorque e no Royal College of Music de Londres - lá pergaminhos, tem. Compõe sobretudo obras corais, que têm sido premiadas. Deixo 'Dreamweaver" ao vivo pelo coro de Vilnius:

Atenção ao 3º andamento, Bridge (aos 05:34)


Uma bela obra do século XXI (2023)

Bruckner, Sinfonia nº 7

Simon Rattle com a London Symphony Orchestra  (2023)

Eu nunca fui muito de Bruckner. Há um culto aficionado, sobretudo às interpretações de Celibidache e Furtwängler, diz-se que uma sinfonia de Bruckner é como escalar uma montanha, devagar. com muita pedra e tojo pelo caminho, sempre a sofrer até chegar lá acima - mas quando se chega é um êxtase. Tudo isto me parece uma treta de pedantes, que se aproveitam da impopularidade de Bruckner e se extasiam com as múltiplas versões, cada sinfonia foi alvo de mais que uma edição ! Comparar as edições Haas e Novak é um regalo para brucknerianos.

A audição é difícil, requer total dedicação (não serve de música de fundo), repete trinta vezes a mesma coisa, não há nada que se pareça com contraponto; apenas a massa orquestral com interminável 'legato' e a massa descomedida dos metais, trompas, trompetes, trombones e tubas - as reclamadas "catedrais de som". Até hoje, Gunter Wand parecia-me ter conseguido as interpretações mais focadas.

Mas enfim, a 7ª é das que têm mais novidade e tensão dramática, e Rattle é especialista. Usou uma edição ainda inédita em disco, e parece-me boa escolha. Não é Mahler nem Brahms, mas há nesta 7ª uma narração sinfónica criativa, rica de temas e variações, rica de contrastes, com momentos de dissonância mas também de bela suavidade, e até ums raríssimos diálogos contrapuntísticos.

O ponto forte é o Adagio. Bruckner conseguiu uma melodia notável, que desenvolve à maneira de Mahler, muitas vezes parece ter-se nele inspirado; mas compôs de facto à sua maneira uma bela peça de música, 21 minutos de Sehr feierlich und Langsam - muito solene e muito lento. O clássico Karajan demorava 23, Jochum 25... felizmente, Rattle soube encontrar o equilíbrio. Obra prima de Bruckner, que vai construindo sabiamente um crescendo e o faz explodir num clímax tremendo.

[N.B. Adagio aos 20:09]

Gosto menos dos dois últimos andamentos, espalhafato orquestral de energia descontrolada, volume excessivo nos metais; mas sou eu, não-bruckneriano.

Qualidade sonora quase impecável (a acústica da sala não é das melhores).

Aaron Copland, Sinfonia nº 3

LSO, dir. Antonio Pappano

Uma espantosa gravação da Sinfonia nº 3, onde Copland utiliza a sua famosíssima Fanfarra para o Homem Comum. Não há delicadeza nem introspecção aqui - é mesmo grandioso e épico, the american way. E a London Symphony Orchestra mais uma vez, tem estado em grande.

Deixo o 4º andamento, Molto deliberato


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Ah, também acabou de ser posto à venda o volume 20 de Haydn 2032, a colecção de sinfonias com a Orquestra de Basel dirigida por Giovanni Antonini. Normalmente dou aqui notícia com algum extracto, mas este volume tem três das mais fracas sinfonias Haydn, as nº 76, 77 e 78. Não recomendo.