domingo, 3 de julho de 2022

Mykolaiv (ex-Nikolaev), surpreendente de bonita, era uma vez...


Tal como tantas outras cidades arrasadas - Persépolis, Tróia, Alexandria, Cartago, Lídice, Dresden, Hiroshima, Mostar e Sarajevo, Aleppo - corremos o risco de mais cidades ucranianas desaparecerem em cinzas depois de Mariupol. A antiga Nikolaev, agora Mykolaiv, está em grande perigo, cada vez mais atingida por mísseis; o mundo devia gritar, 'aqui os russos não passarão', 'Mykolaiv não pode cair' , e assim salva-se também Odessa e o mar ucraniano. 

Esta é então uma memória preventiva.

O centro histórico de Mykolaiv (Миколаїв) é um quadriculado, exceptuando as curvas a que o rio e o terreno obrigam; um xadrez de avenidas - há árvores a bordejar quase todas as ruas -  em que o modelo preponderante ainda é o soviético: blocos, neoclássico russo brutalista e torreões nas esquinas, alternando com moradias baixas e longas, decoradas. Não é uma das cidades-maravilha do nosso imaginário, de templos, palácios e jardins; foi construída como cidade portuária e estaleiro num nó viário importante, onde se cruzam rotas litorais a a rota interior para Kiev. É estratégica, e não cultural.

Ainda assim mostro o que consegui obter, algumas surpresas que seria uma lástima perder, e nem falo das pessoas que para os invasores valem zero.

No centro, a rua principal é a Soborna, avenida larga, pedonal. com comércio e prédios de esquina imponentes. 

A esquina com a Av. Potemkin é um dos locais mais animados.


A bela rua Lyahina é uma paralela, e lá encontra a Catedral da Natividade, a mais antiga da cidade, de 1799




A rua Lyahina tem algumas belas moradias.

Prédio nº 13, do séc. XIX

Prédio nº 19, também do séc. XIX


Na paralela seguinte, a minha catedral preferida seria outra: o café Filizhanka ou Filizjanka  na rua Dekabrystiv, 15 (rua dos Decembristas)


Único !



Esplanada com vista para a igreja católica de S José :


Só por isto, a cidade já merece escapar aos mísseis. Outro 'templo' é o famoso Observatório:


Orgulho de Mykolaiv, o Observatório é o mais antigo do país. Fica no prolongamento da rua Spas'ka, à saída da cidade.


O Observatório de Mykolaiv foi fundado em 1821 como observatório naval de apoio à frota do Mar Negro. Treinava os marinheiros em leitura de mapas, orientação astronómica e manuseamento da instrumentação de navegação, e media ainda o tempo 'exacto' com cronómetros de alta precisão.

Precisão de um décimo de milisegundo, 0.00001 s.

Na área de investigação, elaborava mapas de estrelas e catálogos de planetas e cometas; em 1995 foi equipado com um telescópio automático AMC "Axial Meridian Circle" com que completou em 2000 um catálogo de 14400 estrelas. Um asteróide recebeu o nome da cidade - o 8141 Nikolaev

O AMC é um telescópio horizontal onde a luz incide após reflexão num prisma. É um exemplar único.

Há poucos observatórios no mundo deste género, comparáveis ao de Mykolaiv - um exemplo é o Royal Observatory de Greenwich - e que continuem em actividade, reconhecida pelo International Center for Small Planets (USA) 

Outro Museu importante da cidade é o Museu da Construção Naval, claro, onde a História da actividade local está documentada. Nasceu e cresceu para a navegação, fluvial e marítima.




E só mais um museu, o Vereshchagin de Arte Regional numa bela casa da rua Velyka Morska, nº 47.


A decoração é Arte Nova:

Um dos quadros mais populares é o ultra-romântico 'Pushkin no Mar Negro', de Ivan Aivazovsky:


E na mesma rua Velyka Morska outra bela casa, a do político Grachev, de 1899.

É o nº 42; construída em tijolo, pintada de azul claro e decorada com estuques.


Esta rua Velyka Morska, aliás uma bela avenida ( era em russo Bolshaya Morskaya), tem alguns dos prédios mais bonitos da cidade. Este nº 58, construído em 1894, já foi um Banco:

É agora pertença do Estado.


Na esquina com a rua dos Decembristas, esta casa Edelman:


Mais ainda: o antigo Hospital Hidropático do Dr. Koenigsberg, uma espécie de hospital termal que oferecia e investigava a cura pelas águas.

Data de 1901, no estilo mourisco; agora é uma clínica de reabilitação.



Voltando a edifícios grandiosos, salienta-se o Teatro de Drama Russo, nome agora depreciado, que foi rebaptizado Teatro Académico de Arte Dramática. Fica numa esquina da Admiralskaya, a primeira grande avenida da cidade. Também é sala de cinema.


É de 1881, imperial portanto, no estilo revivalista chamado neo-renascentista russo.


Cartaz para 'дванадцята ніч' (Twelfth Night, Noite de Reis) de Shakespeare.


Café com livros

Кав'ярня книгарня = Cafetaria-livraria

Na parte central da longa Avenida Potemkin, percorrida por elétricos, também próximo da catedral e da rua Lyahina.



Um espaço precioso, parte de uma cadeia inspirada na tradição austro-húngara, como se estivéssemos em Viena.



Estou encantado. As imagens que vemos na TV são de cacos e ruínas fumegantes; elas nunca nos mostram o que as cidades eram antes, no seu melhor, nunca mostram nada disto que eu aqui publico; quanto mais eu procurava, mais e mais motivos de interesse ia encontrando. Se se pensa que Mykolaiv, ex-Nicolaev, é uma cidadezeca  industrial sem outro préstimo, tome e embrulhe. 

Para quem gosta de destruir o que está bem, há de facto aqui valia suficiente. Cabe-nos fazer por evitá-lo.



quarta-feira, 22 de junho de 2022

Museu Cluny , História e Arte da Idade Média


Tenho mostrado aqui vários museus da Europa, sobretudo aqueles que visitei mas não só, que por algum motivo elejo como sítios intemporais de cultura e arte. Lembro-me por exemplo dos National Scottish, do Fitzpatrick,  do Hanseático de Lübeck, dos de Basileia, Zurique e Bolonha, do Albertina de Viena, da Ny Carlsberg...

Mais ainda do que livros, gosto de Museus.

Em Paris, estive no Grand e Petit Palais, e no Pompidou. Fiquei de voltar, mas não consegui. Pouca gente que conheço fala do Museu Cluny, visita indispensável para quem tem interesse pela Idade Média; não tem grandes obras de pintura, tem sim muitos artefactos e fabulosas tapeçarias. Não surgem nomes sonantes, pois na Idade Média não havia ainda o culto do Grande Artista, em geral as obras eram produzidas por anónimos em escolas da especialidade - tecelagem, vidraria, ourivesaria, talha de madeira. A colecção compõe-se sobretudo de espólio dos séculos XIII a XV,  mas há peças mais antigas desde o séc VI, da era visigótica; um espólio vastíssimo de que não posso aqui dar ideia, mas apenas salientar obras que me agradam mais. 

O Museu está instalado numa casa nobre do século XV contígua às Termas Romanas, que estão agora também incluídas no Museu, razão pela qual há algumas peças romanas na colecção.

Painel de mosaico do chão das termas.

Ourivesaria

Sala 16, vitrinas de ourivesaria.

Começo pelo ouro. Uma das preciosidades expostas é o Tesouro de Guarrazar, encontrado em Espanha, perto de Toledo. São 26 coroas e crucifixos de ouro que os Reis Visigodos ofereceram à Catedral de Toledo, capital da Hispânia, no século VII. 

Obras primas da ourivesaria visigótica. 

Safiras azuis de Ceilão, esmeraldas, ametistas, pérolas, nacre e jaspe.


Feita durante a coroação, esta oferta real significava submissão à instituição eclesiástica.

Não faltam também esmaltes de Limoges, sobretudo cofres e relicários.

Cofre em esmalte dourado de Limoges, de S. Thomas Beckett. Séc. XII-XIII.

Cofre dos Reis Magos, cobre esmaltado e dourado de Limoges, ca. 1200


A Rosa de Ouro, uma das peças de marca do museu:

Obra de Minucchio de Siena, de 1330, fazia parte do tesouro da catedral de Basileia.

Antependium da Catedral de Basileia, peça de altar em ouro de 1020.

Tanto dourado cega. Também há esmalte de Limoges sem ouro, como estes belo gémellion, bacia de lavar as mãos à mesa:

Passando a vidro e vitrais,


'Hanap' ou copo de Carlos Magno, séc XIII-XIV.

Painel de vitral 'Jogadores de xadrez', 1430-40.

Anunciação, ca. 1450, Colónia

Há também muitos vitrais da Sainte Chapelle, como este de Sansão contra o Leão, do séc XIII:


É famoso o vitral das Quatro Perdizes, feito na Normandia no séc. XIV-XV.


Marfim


O pequeno cofre gótico em marfim é outra das mais valiosas obras do museu. As esculturas nas faces do cofre narram histórias de amor cortês - torneios, o cavaleiro Lancelot, Tristão e Isolda... - sob uma tampa que descreve o "Assalto ao castelo do amor", onde se lançam flores em vez de flechas.



Ainda em marfim é este alto relevo de Ariadne do século VI, vinda de Constantinopla.
As cabeças de leão são em cristal de rocha.

Placas miniatura de marfim para decorar encadernações também há algumas.



Madeira.
Uma rara mesa dobrável com ínfimos requintes de detalhe:

Mesa em carvalho, França, séc XV-XVI

Esta estátua em carvalho de Maria Madalena, de finais do século XV, deve ter sido obra de um escultor de Bruxelas, que mostra grande mestria nas dobras das roupagens.




'Traité de combat', manuscrito alemão do século XV.

A parte superior da página está em branco para as notas do leitor.

Tapeçaria


Finalmente, a obra prima absoluta que a maioria já conecerá . o famoso conjunto de tapetes La Dame a La Licorne que o museu exibe em sala especial - o seu tesouro maior. Muita gente vai ao Cluiny só para os ver.

São 6 tapetes, cinco deles para os sentidos - Goût, Odorat, Ouïe, Toucher, Vue - e o sexto denominado A mon seul désir, o mais assombroso, sobre o qual já se escreveram textos e ensaios que enchiam uma biblioteca.

La Vue, em que a senhora se vê ao espelho.

'A mon seul désir', talvez um sexto sentido:


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Grande Museu !