domingo, 23 de agosto de 2026

A minha reportagem do eclipse, desde Valença do Minho



Os meus planos eram outros - ir de combóio à Corunha, na faixa dos 100% de ocultação do Sol, rever o que é a 'noite súbita', o apagão, o reacendimento sem ser ao sol nascente - o que já tínhamos observado em Chester, em 1999.

Mas a via férrea está em obras. Não há ligação directa à Corunha, tinha que andar de trasbordo em trasbordo, uma seca. Montesinho estava fora de questão por causa dos 40º C, e acabei por optar por apenas 99.2% em Valença, com viagem directa de combóio. A fortaleza está muito bem situada, numa alto sobre o rio Minho, e pareceu-me o melhor compromisso. Reservei na Pousada.

À chegada vi logo que tínhamos feito boa escolha: às 19.30 a nossa varanda panorâmica, de vasto horizonte, apontava perfeitamente para o Sol. Ia ser o eclipse mais cómodo que se possa imaginar. Para poente, esta seria a vista para o eclipse:



Ainda saímos essa noite, as ruas da cidadela até são vias pedonais agradáveis com o comércio fechado. Varandas de ferro, azulejos, e as fotogénicas guaritas nos baluartes da muralha.


Quem é ? Moisés e a serpente enrolada ('Nehushtan')? S. João Baptista, conforme descrição local? St.º António ? A casa e a imagem são do século XVIII.

O dia seguinte foi passado a evitar o sol (perto dos 35º). Como as ruas da cidadela são estreitas, há sempre sombra de um lado ou em toda a rua. Esperava-nos a multidão habitual, multilingue com predominância galega; ocupava todo o espaço pedonal e parava em todas as lojas de atoalhados, que são centenas e têm estendal de têxteis no passeio, de modo o que só resta uma estreita faixa para caminhar. Lá chegamos ao centro para o primeiro café.


Aqui em cima na fortaleza. o 'centro' é uma pracita onde está a Câmara, os Paços do Concelho e dois cafés.


Fica sempre a dúvida se Valença intra-muros não seria bem mais simpática e valiosa se conseguisse emergir dos atoalhados.


Brasão e relógio dos Paços do Concelho

A casa mais vistosa:



A 'Casa Azul' é do século XIX, toda revestida a azulejo.

Gosto em particular da galeria vidrada "neo-gótica" no ático.

O largo ajardinado agradável, em frente à Câmara.

Chegada a hora, fomos para a nossa varanda; e lá começou.

Valença, 12 /8/2026, Lumix SZ10

Das fotos do eclipse, uma das melhores foi esta, com o filtro dos óculos solares em frente da lente (o filtro alaranjava um pouco), na Sony Cyber-shot G.

São fracas mas são minhas. Início do eclipse.

Para mais segurança, levei uma Lumix SZ10 (Leica) que tem um particularidade: o écran traseiro é orientável, por isso eu podia à vontade apontar a lente para o sol mas olhando eu de cima para baixo no écran. 

Com a Lumix SZ10, uma lente mais luminosa, a parte final do eclipse.

Felizmente, a excelente óptica da Leica deu-me uma foto fantástica que adoro: a obscuridade aos 92% do eclipse.


Luz e cores estranhas, não é um entardecer normal.



Devo ter sido o único a fotografar um combóio de carga a passar na ponte de Tui-Valença à luz do eclipse.


Havia mais gente a ver, lá 'em baixo', dos baluartes :


A fotógrafa ao meu lado na varanda 😉 fez uma foto no TM. Tal como a nossa vista desarmada, o sol ofusca e não se vê a fatia obscura à esquerda em cima, com o eclipse a terminar. Mas um reflexo projectado acima do rio mostra como a Lua punha o Sol está em 'quarto crescente'.


Vou aproveitar ainda para mostrar um recanto pouco conhecido, muito sossegado e livre de turismo consumista: a Calçada da Gaviarra , com a Casa do Poço e o Palacete da Gaviarra.



A Casa do Poço é uma casa senhorial do séc. XIX convertida em alojamento turístico.


Varandas e galerias 'cristaleras' à maneira galega.

No topo, esta galeria envidraçada tem a mesma vista sobre o rio e Tui.

Casa (Palacete) da Gaviarra, do Barão da Urgeira, 1860


Pertence à Misericórdia de Valença. Descendo, chegamos à Porta:

Porta da Gaviarra, ao fundo da calçada.



Ainda não falei de igrejas. São feias para meu gosto, embora estas duas (Anjos e Misericórdia) formem uma espécie de 'fórum' no extremo Norte da fortaleza.


Uma perspectiva bonita das duas torres de igreja, entre o barroco e o neo-clássico, ao fundo da praça forte:


E de volta no Celta, cheiinho à cunha de galegos.


Que pena não termos cobertura ferroviária de jeito, como a Suíça ou a Áustria. Há tão pouco a descobrir neste país viajando de combóio... 



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A bela Basileia, dos Museus e da Kammerorchester, das fontes e do 'Fasnacht'



Basileia, em 2014, foi uma das surpresas das nossas viagens europeias. Partimos algo desconfiados, mas ao terceiro dia já estávamos rendidos: bem melhor que Zurique no sossego e nos cuidados urbanos, não fica atrás (pelo contrário) em Museus nem na Catedral, a Câmara é bem mais rica de arquitectura, tem duas frentes de rio muito mais bonitas que as do Arne, um canal a deambular pelas vielas na parte antiga, as melhores salsichas que já comi - só o café a 3€ - há 12 anos ! - é que tinha de ser um duplo partilhado... Acabou por ser uma das nossas melhores viagens pela Europa, e uma das minhas cidades favoritas para viver.

A escolha do Hotel foi perfeita. Hotel Victoria, frente à Bahnhof (Praça da Estação), e frente a um hub de trams (elétricos) para toda a cidade.


E o Hotel tinha decoração Art Nouveau !



Um dos nossos melhores hotéis de sempre.

Na praça da Estação, várias linhas de transporte; a que vai para Barfüsserplatz foi das mais usadas.

A primeira menção escrita a Basileia é do século III, referindo uma fortificação em Basilia. O ponto alto foi no Renascimento, quando Erasmo aqui se instalou; quase se pode dizer que o Humanismo nasceu aqui. Agora ofereceu a si própria e à Europa a extraordinária Orquestra de Câmara de Basileia, a Kammerorchester Basel, que tem dado nas vistas com gravações excepcionais do período barroco, tem aliás em curso o projecto Haydn 2032 com Giovanni Antonini. 



Basileia está próxima de Augusta Raurica, cidade Romana que é a maior e mais bem conservada da Europa Central. Basileia está nas margens do Reno, o grande e mítico rio germânico, numa encruzilhada de estradas, uma posição estratégica preciosa. É cidade do Humanismo desde Erasmo, das Artes com dois museus magníficos, e finalmente é a cidade do Basler Fasnacht, um carnaval de elevado nível cultural, diferente de todos os outros, nocturno, surpreendentemente calmo.

Grossbasel

Há em Basileia dois núcleos antigos: Grossbasel em torno da Catedral e da Câmara, e Kleinbasel na margem Norte, ligadas pela Mittlere Brücke (a ponte do meio). 
Na Grossbasel está a Rathaus, a Câmara de Basileia, com a sua fachada avermelhada e frescos, e as ruas por trás da Marktplatz que conduzem à Basler Münster (catedral). Prédios medievais coloridos, e no rés do chão padarias e confeitarias. A Kleinbasel é um bairro mais pacato, residencial e académico, que convida ao lazer e oferece o melhor passeio à beira rio.

1 - A Ponte,  2 - a Catedral, 3 - a Câmara; salientei também o Museu e o bairro St. Alban.

Augustinergasse, uma das ruas estreitas na colina da Catedral.

Por onde começar? Logo que saímos do Hotel fomos directos à Praça da Catedral, a 

Münsterplatz


O centro histórico de Basileia, onde decorrem eventos culturais.



A Praça deve datar dos séculos  XIV e XV, tal como a Catedral, que começara por ser românica cerca de 1220 e a acabou gótica desde 1270; mas em 1356 um forte abalo de terra destruiu as torres e as abóbadas, cujo restauro em 1363 acabou por trazer muitas alterações já no gótico tardio, até 1500. Erasmo está aqui sepultado.


É uma larga praça, que ora está vazia, ora se preenche com feiras e todo o tipo de actividades de lazer - recentemente foi aqui instalada uma grande roda giratória panorâmica. 


A animação a que assistimos foi no dia de Carnaval, pois é aqui que se concentram as famosas Lanternas do Basler Fasnacht, num espectáculo nocturno único no mundo.


Foi uma das razões porque fomos a Basileia em Março.


O desfile Morgenstreich dos grupos de gaiteiros nas flautas (que efeito faz na desfilada de noite !) ou as bandas de trompas, e outras de tambores... 
[no final do post inseri um vídeo do cortejo nocturno]


Uma noite única, onde a festa profana se une ao templo sagrado num enlace nocturno admirável. A Suíça é um mundo, cultural e historicamente. 

Nas ruelas de acesso não faltam recantos pitorescos, como este na bonita Rittergasse:



Mas vamos continuar pela Grossbasel, seguindo em direcção à Marktplatz e à sua Rathaus. O centro antigo vive sobretudo na rua Gemsberg com a sua Gemsbergbrunen (fonte) e adjacentes.


A Fonte de Gemsberg está no centro da cidade antiga, e é uma das muitas fontes deste tipo em Basileia. É de base octogonal, foi instalada no século XIX. 




A Gemsberg e a Heuberg fazem parte de um labirinto de ruas íngremes no bairro mais turístico e comercial de Basileia - o Spalenberg.


A praça cívica de Basileia também é um espaço vazio para o mercado - em particular o do Natal - dominado pela reluzente e gritante Câmara de calcário escarlate, dourados e frescos.

Construída entre 1500 e 1600 , embora a torre as pinturas sejam mais tardias.

Embora começada em estilo gótico, a maioria dos acrescentos são renascentistas ou neo-góticos.

E deste lado não há mais que ver.



Deixámos a outra margem para o dia seguinte, fomos de tram para a Barfüsserplatz direitinhos ao grande Museu de Arte de Basileia. 

Kunstmuseum Basel


Mesmo antes de passear pelas ruas, era obrigatória a visita a um dos Museus mais ricos da Arte Europeia. Íamos lá em primeiro lugar ver os Paul Kleee, mas há tanta arte mais...

Modgliani

Kandinsky, Pequenos Mundos, II

Félix Valloton, La Mare (Honfleur)

Paul Klee, Uma Página do Livro das Cidades (sons estruturados)

Paul Klee, Som Antigo (Alter Klang)

" ... uma estrutura modular que marca o ritmo, uma correlação entre módulos que marca a cadência, e campos de côr que são ilustração da qualidade e intensidade do som. Pode ser uma sinfonia, pode ser um acorde a vários instrumentos..."

E havia: Matisse, Renoir, Pissarro, Picasso, Cézanne, Chagall, Van Gogh, Vieira da Silva...

Kleinbasel

A parte histórica mais atractiva da 'outra banda' começa na rua Lindenberg (pequeno círculo), e desce a Rheingasse até à Oberer Rheinweg.


Na manhã a seguir ao Carnaval, foi para lá que seguimos no tram. Um dos locais mais pitorescos é onde a Lindenberg termina e começa a Rheingasse, uma praceta triangular decorada com uma única tília.


Neste recanto tínhamos descido a acompanhar um dos cortejos de flautistas e lanternas. A animação agora era de feriado.



É na casa da esquina que está a caixa de correio mais famosa de Melchior Berri:

Há 6 destas caixas em Basileia, sempre em ferro, com um pombo-correio, em estilo Arte Nova, de 1844/45.

Descendo toda rua - e vale a pena  - vamos ter à Oberer Rheinweg, o passeio marginal à beira-Reno com vista para a Catedral.



Ainda havia sinais da noite anterior: a famosa Fonte do Basilisco estava... florida.


Basiliscos há muitos, em Basileia, é uma mascote desde 1440 !

A Fundação Beyeler


De eléctrico desde a nossa estação frente ao Hotel, fizemos a mais longa viagem; a Fundação Beyeler fica na Baselstrasse, em Riehen, já na periferia de Basileia. 


Esta foi uma surpresa e tanto. Mesmo já tendo ouvido falar, não esperava deste museu o impacto do seu belo enquadramento e arquitectura.


O edifício mal se vê no vasto espaço do jardim; paredes e colunas de mármore avermelhado alternam com superfícies vidradas, tudo rodeado de um espelho de água e relvados, de tal forma que o edifício parece pousado sobre água.


Giacometti, claro, junto com Paul Klee são os dois maiores suíços nas Artes.

As exposições temporárias eram obras de Odilon Redon e Anselm Kiefer. 



No jardim há esculturas, como este grande mobile de Alexander Calder.


Foi uma tarde no paraíso. Podia viver em Basileia, pensei, e penso ainda.

Na cafetaria, pode escolher este, ou esta, crème brûlée fabulosa.


Um dos videos que fizémos ao início da madrugada do Fasnacht: