segunda-feira, 20 de novembro de 2017

As Faias da Pedra Bela e outras maravilhas


A floresta mista de faia, bétula, carvalho, freixo, castanheiro e azevinho do Parque do Gerês é um tesouro. Eu estava com receio de que houvesse alguma área ardida, mas não, pelo menos as zonas que agora visitei - Pedra Bela, Ermida e Albergaria - não podiam estar mais esplendorosas.

O contraste das faias com folhagem horizontal amarela ou vermelha com os carvalhos e as bétulas ainda verdes oferece quadros de bosque encantado. Ainda corre água pelas fontes naturais à beira da estrada, a Caniçada está a cerca de 70%, e à volta dos cursos de água o terreno ainda está bem húmido. Deve ser um caso raro, que mais ainda torna precioso o território do Gerês.


Mas neste Outono, quem reina são as fabulosas Faias.



As faias gostam de encostas e vales frios e húmidos. Mas é com sol que exibem o seu melhor.









De súbito, numa curva da estrada, a variedade de cores pode ser gloriosa:





Obras primas.



    Et je m'en vais
    Au vent mauvais
    Qui m'emporte
    Deçà, delà,
    Pareil à la
    Feuille morte.

                           
                            Paul Verlaine


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Ponto de Esperança, para animar


Ponto Esperança - Point Hope.

Viagem virtual ao Ártico [mais uma].

Na costa noroeste do Alasca, uma das zonas mais desoladas e difíceis de habitar do planeta - a natureza é desolada e inóspita, a civilização demasiado longínqua - há uma povoação denominada 'Point Hope', ou 'Ponto Esperança'. Esta contradição talvez venha a explicar-se, com as alterações climáticas, se as zonas árticas passarem a ser mais temperadas.


Point Hope (Tikiġaq) fica numa faixa de gravilha nas terras baixas do litoral a norte do estreito de Bering, tundra ártica semeada de lagunas e durante boa parte do ano coberta de gelo. É aqui que o rio Kukpuk forma um largo delta sobre a costa do Mar de Chukchi.

O nome "Hope" foi atribuido por um capitão da marinha britânica em honra da família Hope, ligada ao mar, mas quem aqui habita desde há séculos é o povo Inuit Inupiat, para quem a aldeia se chama Tikigaq. A península de Lisburne é mesmo uma das áreas povoadas há mais tempo em todo o Alasca.

Point Hope, junto ao vasto Marryat Inlet e ao delta do Kukpuk, zonas de grandes rebanhos de caribú.

Manada de caribús atravessa o rio Kukpuk.

O mar de Chukchi gela quase todo o ano, ficando livre de gelo entre Junho e Setembro, quando as condições já não impedem a largada dos barcos. Os residentes de Point Hope têm uma economia de subsistência dependente dos recursos marinhos.

Baleeiros nativos lançando um umiak

A história de Point Hope foi marcada pela pesca à baleia, pastoreio de manadas de caribou, e comércio de peles. Outros recursos mais raros são as morsas e ursos polares, mas ainda é a tradição baleeira, agora muito regulada,  que sustenta a população.
Umiak com os arpões em posição. Os umiak são feitos com pele de foca sobre uma estrutura em madeira.

Point Hope / Tikigak

Coordenadas: 68º 21' N , 166º 47' W
                     (320 km a norte do Círculo Polar)
População:  ~ 750, Inupiat

A rua principal

A loja cooperativa é a única fonte de bens de consumo.

A "esperança" local deve ter crescido um pouco com a nova escola, bem equipada, assim como o acesso à internet.

A Tikigaq School trouxe uma vida nova a Point Hope; é a segunda maior do Alasca e tem mais de 250 alunos. A sua biblioteca serve uma larga área geográfica.

A Câmara (e Centro Comunitário), em forma de igloo, é o edifício mais marcante da aldeia.


Casa típica e trenó, os haveres mínimos.

Mas o snow scooter vem substituindo os trenós.

Uma família de bons rendimentos: SUV, moto-4 e trenó.

Vestida para o frio.

Hábitos urbanos, para o bem e para o mal.

Rodada de chá nas festas de Junho.

Em Junho o tempo melhora e os dias são mais longos. É por essa altura que se realiza a grande festa anual:

Nalukataq

Significa "atirar ao ar". É a mais divertida das actividades do festival da Primavera dos esquimós Inupiat do Alasca. Uma manta de pele de foca, cosida a uma armação redonda, faz de trampolim. Chama-se ugruk. O lançamento de pessoas ao ar celebra uma boa temporada baleeira. Capitães de barco e tripulação seguram na armação enquanto os habitantes mais corajosos se tranformam em projécteis.



Durante o festival também não falta drum dancing, as tradicionais danças de tambor.

Um belo objecto, o tambor Inupiat.

Uma outra arte que tem tido algum sucesso é a da cestaria, recorrendo ao aproveitamento de fibras e ossos de baleia. Os cestos de Point Hope atingem preços elevados.
Uma cabeça de urso em osso de baleia a encimar um cesto de Harry Hank, Point Hope.


Nesta latitude os dias e as noites e as variações de luz são estranhas e surpreendentes para quem vive mais a sul.

Point Hope ao sol da meia-noite.

O anoitecer logo seguido de amanhecer...

A forte simbologia dos ossos de baleia.

Luz da meia noite no mar de Chukchi :


'Umiaks' sob a aurora boreal

----------------------------
A Esperança de Point Hope é sobretudo a de que o petróleo explorado logo ali mais a Norte não dê cabo da terra, da Natureza, da autenticidade e da cultura, das pessoas.

domingo, 12 de novembro de 2017

'McGegan Day' na Casa da Música


Nicholas McGegan já é quase uma lenda: gravações que são referência de obras de Handel com a Philarmonia Baroque, a orquestra que recriou em S. Francisco, concertos esgotados por entusiastas, uma profunda sabedoria do seu ofício e uma agógica própria que fez escola. Teve ainda o mérito de escolher a saudosa Lorraine Hunt como soprano nas suas gravações de Ariodante, Susana e sobretudo Theodora.

Na cidade de S. Francisco, onde fez carreira, foi instituído um "McGegan Day" anual. Na Casa da Música tivemo-lo na sexta passada. Foi impressionante o que conseguiu com a Orquestra clássica: ataques das cordas de estarrecer, uma sincronia como nunca, destaque de todas as secções da orquestra salientando diálogos e contrapontos, uma nitidez e dinâmica bem contrastadas. Foi como se uma orquestra míope e com cataratas de repente recuperasse 100% da visão. Um espanto que não me lembro de nenhum outro director conseguir com tal eficácia.

É verdade que o programa não era de obras favoritas para mim. Disso tenho pena, mas a sinfonia nº 25 de Mozart parecia renascida, revigorada, nova !, e a nº 98 de Haydn também foi um primor absoluto. O senhor McGegan conduz com uma energia e expressividade notáveis, imagino que nos ensaios foi exigente com a orquestra e a treinou intensamente.

Notas do concerto pelo próprio:



Uma das obras executadas foi a suite de bailado Don Juan de Gluck. McGegan teve de pedir ao público que não aplaudisse a cada intervalo, eram treze andamentos...

Deixo uma pérola de entre muitas que McGegan produziu com Lorraine Hunt, sublime: Veni, o Figlio do Ottone de Handel.



terça-feira, 7 de novembro de 2017

'far above your azure plain' na Casa da Música


O ano britânico na Casa da Música tem sido um fiasco, mas finalmente aconteceu um meio-concerto de jeito e graças ao Dunedin Consort, que além de Huw Daniel - 1º violino da orquestra barroca que veio dar-lhe outra vivacidade - "emprestou" também o tenor Nicholas Mulray para uma 2ª parte (*) do concerto de domingo passado, dia 5.

A Orquestra Barroca CdM esteve bastante melhor do que era com Laurence Cummings. Huw Daniels sabe muito mais de música barroca, a secção de cordas está muito mais síncrona, dinâmica e atenta ao detalhe. O oboé de Pedro Castro foi também lindíssimo; vou ter o gosto de o voltar a ouvir já na próxima terça-feira.

Eu teria preferido outro tenor, de mais capazes agudos e floreados; não falta sensibilidade a Nicholas Mulroy, mas é uma voz fraquinha, sem graves nem agudos, de timbre feio. Mesmo assim ofereceu dois momentos excelentes, que aqui deixo ilustrados pelas vozes de Anthony Rolfe Johson e John Mark Ansley - a um nível muito superior, claro. Música de Handel 'above the azure plains'.

Where'er you walk, de Alcina

Where'er you walk
cool fans shall fan the glade
Trees, where you sit,
Shall crowd into a shade


Waft her angels through the skies, de Jephta


(*) Mais uma vez, tive de evitar uma 1ª parte de contemporanean garbage - James Dillon, Harrison Birtwistle e um tal Neto da Costa. Esta política correcta de impingir cacofonias e desarmonias a quem vai a concertos pela boa música clássica é uma desonesta vigarice. Que façam concertos para quem gosta disso, mas sem usar engodos.


sábado, 4 de novembro de 2017

Uma Tisana de Ana Hatherly


É lamentável mas só agora estou a ler com a devida atenção a obra escrita de Ana Hatherly. Foi um crime que cometi não a ter descoberto mais cedo.


A obra-prima talvez sejam as Tisanas. É uma espécie de diário na continuidade moderna do Livro de Desasossego de Pessoa, "pequenas narrativas" que são como poemas em prosa. O trabalho deslumbrante sobre as palavras e a língua é acompanhado pela construção de imagens e sensações inesperadas e desconcertantes, muitas vezes um violento abanão.

Fica aqui a Tisana 18:

Era uma vez uma cidade habitada por palavras em que cada uma vivia em sua casa com as portas fechadas mas constantemente se visitavam ou então saíam para a rua e passeando cruzavam-se com outras palavras e saudavam-se mas com o crescimento progressivo da cidade as palavras quando saíam para a rua começavam a chorar umas com as outras e chocando-se retiravam-se encolerizadas e regressavam a casa mas já não regressavam como haviam saído e dentro de casa aumentavam por um efeito de cólera morosa e lembrando sempre as outras palavras começavam crescendo dentro de suas casas e da próxima vez saíam para a rua já iam transformadas e quando encontravam outra vez as palavras passava-se outra vez a mesma coisa e regressavam a casa e continuavam a crescer e sempre em direcções e cresciam de tal modo que já não conseguiam fechar as portas e novos braços abriam as janelas e a cólera trepava pelas paredes e começavam a escavar o texto e ligadas ao andar de cima entrelaçavam à palavra do outro apartamento que também estava encolerizado e já chegava até ao telhado e subia pela antena da televisão e gritava encolerizado com as palavras dos outros prédios já subindo pelo céu acima e toda a cidade estava aos gritos e já não havia espaço para as palavras crescerem confundiam-se e as palavras estavam todas unidas irremediavelmente e gritavam todas ao mesmo tempo de modo que ao longe era um só grito enorme que mais longe se transformava num sussurro e de muito mais longe até não se ouvia nada.



-----------------------

Quando ouço o meu País falar, e pior ainda nas redes sociais, parece-me esta cidade. Ao longe não se ouve nada.