quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Orchestra of the Antipodes, uma orquestra australiana de grande nível.


Só há alguns meses soube desta excelente orquestra barroca, especializada em música dos séc. XVII e XVIII, chamada Orchestra of the Antipodes (assumindo a posição geográfica). Fundada em 2005 em Sidney por Antony Walker, utilisa instrumentos da época, e toca sobretudo Purcell, Vivaldi, Handel e Mozart, seja em concerto - muitas vezes com o côro Cantillation -, seja em teatro operático com a Pinchgut Opera. Já têm obra gravada, ouçamos quatro momentos sublimes, é um gosto:

Vivaldi, Magnificat com Emma Kirkby, Orq. Antípodas


Purcell, Hush no more, be silent all
Stephen Bennett, baixo, dir. Erin Helyard
Orquestra e coro (aos 2:15) dos Antípodas. Notável.


Hush, no more, be silent all.
Sweet repose has clos'd her eyes, 
soft as feather'd snow does fall! 
Softly, softly steal from hence. 
No noise disturb her sleeping sense. 


J. S. Bach, 'Zion', da BWV 140 'Wachet Auf'



Agora ao vivo, Beethoven - sinfonia  nº1 (breve excerto) - gente nova, e que perfeição.
 .

domingo, 12 de janeiro de 2020

Foi em 1995: Robin Hood's Bay, um sítio que não esqueço



As memórias de locais que visitamos são sempre matizadas pela nossa disposição física e emocional, pela hora e pela luz, e até por outras circunstâncias como facilidade (ou não) de acesso, acolhimento, ou mesmo o piso onde caminhamos.

Dificilmente consigo recordar um sítio onde me tenha sabido melhor parar uma tarde do que Robin Hood's Bay, nome já de si evocativo, um recanto na altura ignorado da costa leste inglesa, a sul de Whitby. Ao que parece, noutros tempos foi refúgio de contrabandistas, para acrescer ao surpreendente romantismo do lugar.

Foi há quase 25 anos que lá fiz esta foto; mais tarde, emoldurada, veio a decorar uma parede cá em casa:


Chegámos a Robin Hood's Bay depois do meio dia, indo desde Whitby pela costa. Num ponto elevado há um parque de estacionamento e miradouro com este panorama em que os telhados se recortam sobre o fundo azul da baía.


Lá do alto desce uma rua com declive acentuado; à entrada tinha um sinal de trânsito condicionado, excepto a moradores; mas estando eu num sítio destes apenas por uma tarde sem nunca mais cá voltar na minha vida, achei que tinha 'direito' a transgredir - pagaria a multa de bom grado - desde que não fosse mal recebido lá em baixo. Ao descer, só passei por turistas a pé, com ar sofredor, e sim, invejosamente reprovador!


A descida a 30% é um pouquinho assustadora, mas felizmente o pavimento estava asfaltado.

'New Road', a única rua que merece a designação.


Já sei: há no Mediterrâneo povoações costeiras muito mais ricas, cascatas de casas a descer o alcantilado, com a sua igreja de mármore rosada e mar azul e tudo. Esta é só uma aldeia minúscula, que já foi de pesca e de contrabando, sem obras de arte - só o casario que agora deve ser de moradias de férias. Aqui a beleza não está na arte, está no cenário, na solidão e isolamento, na perfeição das fachadas, chaminés, janelas, jardins, grades, tabuletas, nas pequenas notas de amor à nossa casa e à nossa rua tal como só existe em Inglaterra.


Os telhados:


A aldeia é de origem medieval, mas a maioria das casas em pedra data do século XVII. Tornou-se no século seguinte um covil de contrabandistas, de aventureiros e saltimbancos. Agora (quando lá estive) vive do turismo interno.

A livraria e a padaria:

Ainda no alto, uma escadaria lateral dá acesso à livraria (!) e à antiga padaria, agora Tearooom.

Livros usados, mas não falta que ler. Fica na lateral 'Chapel Street'.


As vielas:

Chapel Street


Num espaço tão íngreme, vielas e escadarias substituem as ruas. As casas foram construídas tão juntas sobre a escarpa rochosa que há passagens onde nem uma bicicleta cabe.

Lojinhas

Continuando a descer a New Road, vão começando a surgir pequenas lojas variadas.

Um dos pequenos comércios,"Tea, toast and post", no antigo posto de correio em King Street.

'Berties', loja-de-tudo

Já se vê o fim, ou seja, o cais, onde a aldeia se concentra.


The dock


Numa plataforma murada sobre o mar, a Old Coastguard Station deve ser um local de sonho - ou de pesadelo, quando as marés vivas são mais violentas. Era antes a Casa da Guarda Costeira, agora alberga uma mostra 'histórica' e uma loja - faz as vezes de posto de turismo.

Mar calmo e maré vaza dão uma bela praia para apanha de bivalves.


A esquina New Road / King Street, junto ao portinho: o 'centro'.

Junto à 'doca' fica o Bay Hotel e o seu pub com mesas ao ar livre. É onde se juntam as gentes (cerca de 1000 habitantes).


Uma forte e alta muralha ('seawall') foi construída em 1975 para resistir às investidas do mar durante as grandes marés, sob tempestade. Esta costa está em recuo, com várias zonas de derrocada, e as casas da frente estavam em perigo.

O 'seawall' com 12-14 metros de altura protege sobretudo a parte a norte da pequena doca.

Uma imagem das marés de 2007.


Um pouco adiante do Bay Hotel, sobre o passeio muralhado, fica outra preciosidade, o Swell Café. Tem terraço sobre o mar e uma sala de concertos no primeiro andar (a sala de uma antiga capela) que funciona como cinema.

http://www.swellcafe.co.uk/

Pode ser agora uma atracção turística popular; para mim, foi na altura uma descoberta, um sítio único no planeta, de que nunca tinha ouvido falar. Quase como desenterrar um tesouro.


Não, não ficámos para a noite no Bay Hotel; regressámos a Whitby, cidade que também merecia menção aqui no Livro; será para outra ocasião.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Exposição 'Ultima Thule' de Lucy Woodley - An Tobar, Tobermory


Tobermory é a povoação mais importante da ilha de Mull, nas Hébridas.


É uma cidadezita portuária que nasceu em banda ao longo da faixa costeira; sendo Mull uma ilha separada por um canal de mar da costa escocesa, só se lá chega de ferry ou avião (pequeno e raro); isso não impediu que exercesse forte atracção turística, pelo colorido das casas na marginal e pelo pitoresco da paisagem; uma comunidade de artistas fundou lá, numa antiga escola victoriana, a An Tobar Gallery, que oferece uma agenda de exposições, concertos, palestras e simples convívio no café com vista excepcional.

An Tobar Gallery / Comar


É nesta Galeria que está uma exposição da escocesa Lucy Woodley intitulada 'Ultima Thule' ; foi o título que me chamou a atenção, embora afinal a exposição foque as migrações como fenómeno intemporal. Ligar migrações com Ultima Thule pode ser interessante, e as obras também merecem ser vistas; sobre o conteúdo politizado não me vou demorar, é polémico e a Arte deve ser polémica.


Lucy estudou em Aberdeen, onde se dedicou a joalharia. Aprendeu a utilizar prata e ouro, materiais que também usa nas esculturas.


Lucy passou a infância numa aldeia piscatória; talvez daí venha a presença de barcos e pequenos peixes na obra exposta.


"Ultima Thule, é a minha maneira de explorar os temas à volta da migração, a esperança e a tre+pidação que vem com qualquer jornada que atravesse territórios conhecidos e desconhecidos."
[Lucy Woodley 2019]

Precious cargo