domingo, 20 de setembro de 2026

Ondaatje, três poemas pasmados perdidos




A obra de Michael Ondaatje é complexa, meditativa, vai muito além do âmbito deste blog ; vou-me limitar a três poemas que mais gostei de ler,  quando da publicação recente da colectânea The Distance of a Shout.

What were the names of the towns

What were the names of the towns
we drove into and through

stunned   lost

having drunk our way
up vineyards
and then Hot Springs
boiling out the drunkenness

What were the names
I slept through
my head
on your thigh
hundreds of miles
of blackness entering the car

All this
darkness and stars
but now
under the Napa Valley night
a star arch of dashboard
the ripe grape moon
we are together
and I love this muscle

I love this muscle
that tenses

and joins
the accelerator
to my cheek

                                                           1998 
                                                        In The Distance of a Shout, 2026



Quais eram os nomes das cidades

Quais eram os nomes das cidades
onde entrámos, que atravessámos

pasmados perdidos

tendo bebido no caminho
que sobe pelos vinhedos
e depois nas fontes termais
cozendo a embriaguez no calor

Quais eram os nomes
enquanto dormia
com a cabeça
na teu regaço
centenas de milhas
de escuridão a penetrar no carro

Tudo isso
escuridão e estrelas
mas agora
sob a noite de Napa Valley
o arco de estrelas do painel
a lua cor de uva madura
estamos juntos
e eu adoro este músculo

Eu amo este músculo
que se retesa

unindo
o acelerador
à minha face.



A grande colectânea de poemas anterior era A year of last things, de 2024


5 a.m.

The wilderness of our youth, an empty barn,
dancing with friends into the small hours,
then daylight and the cars swerving away
wordless into the dawn

It arrives all at once tonight,
not as memory, but as a gift
from forgetfulness,
as a desire can wake you

or this poem
based on the accidental change of speed
in a friend’s camera into slow motion

So now I remember
the rest of our shadows
as we danced, all our heartbeats
under the thunder

and I can speak to you the way
we once sang farewells out of our cars
late at night, when those
goodbyes remembered everything


5 da manhã

A rebeldia da nossa juventude, um celeiro vazio,
dançando com os amigos até altas horas,
depois a luz do dia e os carros a que se desviam
em silêncio rumo à alvorada

Tudo isto chega de repente esta noite,
não como memória, mas como dádiva
do esquecimento,
como desejo que te pode despertar

ou este poema
inspirado na mudança acidental da velocidade
no vídeo de um amigo para câmara lenta

Então agora recordo
o resto das nossas sombras
enquanto dançávamos, todo o nosso sobressalto
sob o trovão

e posso falar contigo de como
uma vez cantámos despedidas dentro dos carros
já tarde na noite, quando aquelas
despedidas recordavam tudo

                                                                  
                                                  

A Year of Last Things  abre com este poema:

Lock

Reading the lines he loves
he slips them into a pocket,
wishes to die with his clothes
full of torn-free stanzas
and the telephone numbers
of his children in far cities

As if these were
all we need and want,
not the dog
or silver bowl
not the brag of career
or ownership

Unless they can be used
—a bowl to beg with,
a howl to scent a friend,
as those torn lines remind us
how to recall

until we reach that horizon
and drop, or rise
like a canoe within a lock
to search the other half of the river,

where you might see your friends
as altered by this altitude as you

The fresh summer grass,
the smell of the view—
dark water, August paint

How I loved that lock when I saw it
all those summers ago,
when we arrived
out of a storm into its evening light,

and gave a stranger some wine
in a tin cup

Even then I wanted
to slip into the wet dark
rectangle and swim on
barefoot to other depths
where nothing could be seen
that was a further story


A Eclusa

Tendo lido os versos que adora
ele guarda-os no bolso,
deseja morrer com as roupas
repletas de estrofes desgarradas
e os números de telefone
dos seus filhos em cidades distantes.

Como se fossem
tudo o que é preciso e querido,
não o cão
ou a taça de prata,
não a vanglória da carreira
ou da propriedade.

A menos que possam servir
—  a tigela para pedir esmola,
ladrar para sentir o cheiro de um amigo,
e versos rasgados que nos lembram
de como recordar

até atingirmos esse horizonte
e tombar, ou subir
como uma canoa numa eclusa
para explorar a outra metade do rio,

onde talvez possas ver os teus amigos
tão alterados como tu por essa altitude.

A erva fresca do Verão,
o cheiro da paisagem —
água escura, tinta de Agosto

Como adorei aquela eclusa quando a vi
tantos verões já passados,
quando chegámos
saindo de uma borrasca para a luz tardia,

e demos vinho a um estranho
numa caneca de lata

Mesmo nessa altura, eu queria
deslizar para o molhado escuro
rectângulo e ir nadando
pés nus rumo a outras profundezas
onde nada se pudesse ver
que fosse já uma outra história




Michael Ondaatje nasceu em Colombo, Ceilão (Sri Lanka), em 1943. Em 1954 foi ter com a mãe na Inglaterra, onde ficou a estudar até 1962, ano em que emigrou para Montréal no Canadá e adquiriu nacionalidade canadiana, prosseguindo depois estudos em Quebec e Toronto. Tornou-se mais conhecido quando o romance O Paciente Inglês foi transposto com sucesso para o cinema.



domingo, 13 de setembro de 2026

Inverness, onde começa e termina a rota NC500, e onde se passam bem dois ou três dias.


INVERNESS


A capital das Highlands escocesas é a cidade principal na estrada circular NC500 de que tenho vindo a reportar. Não é uma cidade bela, nem sequer bonita, até ostenta alguma fealdade, ao contrário de Edimburgo, Glasgow, Aberdeen; vou tentar mostrar que, apesar de não ser um destino turistico, merece atenção, no início ou no final da Rota.


Inverness é uma cidadezita de província com 50 000 habitantes, menos que Guimarães, mas em termos logísticos governa uma ampla região: as Terras Altas da Escócia.


Está nas margens do Rio Ness, que nasce mais a sul do famoso Lago Ness e vem deitar águas no fiorde de Moray. A vista das duas margens do rio é mais interessante que as ruas interiores. A famosa ponte pedonal de Greig Street é uma ponte suspensa, construída em 188; pintada de branco cria um cenário único.


São as margens do Ness que oferevem as melhores vistas da cidade

Old High St. Stephen's é o mais antigo edifício de Inverness, data do século XVIII mas a base da torre já vem do séc. XIV, de edificação anterior, com o seu ar Românico.



Seria o 'monumento' distintivo de Inverness, mas foi desactivada, para ser recuperada pela administração local com vista a serviço cívico; infelizmente, não há verba para financiar uma obra tão cara.


A porta da frente na torre: a parte mais antiga.

Um dos vitrais victorianos de 1899.




Como seria de esperar, esta é a parte mais antiga da cidade. Pela margem do rio Ness, para Norte, Douglas Row é uma das marginais mais bonitas, com casas do séc. XVIII.


Casas do período Georgiano fazem de Douglas Row um passeio apetecível.



Em frente, na outra margem, Huntly Street.

Uma antiga igreja palladiana em Huntly Street, vista da outra margem: uma espécie de Veneza da Escócia ?

Mais adiante, a Igreja de Stª Maria, católica.

Na outra margem do Loch Ness há um percurso viário ao longo das águas, uma zona turística e de Hotéis - The Ness Walk.

The Ness Walk, com os torreões do Palace Hotel.

Visto desde Castle Road, na outra margem.

Vistas as margens, entremos na cidade; a área mais apelativa é a da escadaria Market Brae Steps.





As escadas dão para Inglis Street, avista-se Falcon Square. O melhor é cortar à esquerda para Church Street, até à igreja velha Old High; paredes meias está outro atractivo inesperado é a Leakey's Bookshop, um monumento ao livro e à leitura.








A ler !

As principais ruas do centro de Inverness são escuras, feias, de arquitectura incoerente; só uma 'arcada' vitoriana, uma galeria fechada a imitar o estilo Arte Nova, alegra um pouco. Afastemo-nos para sul.


Agora o Castelo, um símbolo bem conhecido e de real valor arquitectónico.



Teve uma longa história de assaltos , combates, sucessivas destruições; o que vemos agora é do século XIX !


Simbolicamente, é o ponto de partida e de chegada da Rota NC500.

Museu e Galeria de Inverness


Fica em Castle Wynd, uma via de acesso ao Castelo.


Tanto quanto consegui apurar, o mais valioso será a colecção de arqueologia Picta e Viking - pedras rúnicas, cerâmica, joalharia e cutelaria.


A Eassie Stone é uma cruz de pedra Picta do século VIII, esculpida em calcário (lioz) avermelhado. O corpo da cruz está decorado com um desenho variado de nós entrelaçados.



Mas a atracção principal em arqueologia são outras pedras:


Ardross Wolf Stone


A pedra do lobo, encontrada em Ardross, é uma gravura Picta em pedra clasificada. Datando dos séc. VI ou VII, mostra uma técnica de gravação soberba; uma linha fina bem definida com um corte firme desenha um lobo que parece querer saltar da pedra.

Cabeça de veado 


Também de Ardross, é uma gravação Picta representando uma cabeça de veado vermelho, com espantosa vitalidade e naturalismo.

O que é raro e mesmo precioso nestas pedras é que são não há outros exemplares semelhantes, as pedras Pictas encontradas exibem em regra desenhos geométricos como espirais, Z-rods, etc., uma esboço de linguagem simbólica. Os Pictos eram um grupo de povos de língua celta/gaélica que viveram no norte e leste da actual Escócia, durante a tardia Idade do Ferro britânica, até ao primeiro período medieval. É um dos povos "perdidos" da Europa, sabe-se muito pouco acerca deles devido a não ter sido decifrada nenhuma inscrição com os seus símbolos pictográficos gravados em pedra.

A rota Picta na NC500 :

Além de Inverness, há núcleos de espólio Picta no Tarbat Discovery Center (Portmahomack), na Groam House de Rosemarkie,  na Nigg Old Church de Tain, e mais a norte no North Coast Visitor Centre de Thurso.

Mas voltando ao Museu de Inverness:

Vaso decorado da Idade do Bronze


Vaso ou caneco da Idade de Bronze,  2300-2100 AC , encontrado em Dalmore, Easter Ross. Provavelmente de uma população da Cultura da Cerâmica Campaniforme (sino invertido) em transição, com origem nas estepes da Ásia; terá atravessado o mar desde  a costa da Holanda ou Alemanha, e substituiu a população local do Neolítico.

Machado de encaixe ou soquete de há ca. 3000 anos (~ 1000 AC), finais da Idade do Bronze, Ballifeary.

A Bíblia em Gaélico

1ª edição, 1769



Quaichs

Quaich em madeira com embutidos de prata, ca. 1705-1720, por um ourives de Inverness

O Quaich é uma taça para beber típica da Escócia. O nome deriva do Gaélico cuach,  'chávena'. Começaram por ser em madeira, feitas à mão montando secções ou staves, atadas umas às outras com fitas de salgueiro. No século XVII os ourives da prata dedicaram-se a enriquecer este modelo com bordos, asas ou fundos em prata. Por volta de 1660 começaram a fabricá-los integralmente em prata.

Quaich em prata de Thomas Borthwick, 1750 - 1794

E mais um, de Charles Jameson, 1797-1829

De Ferguson & Macbean, 1880-1906

Cafés

Costumo citar George Steiner, um dos sinais identificadores da cultura Europeia está nos cafés. Na Europa do sul é uma vulgaridade, são aos milhares e inundados de turistas. Mas nesta latitude, e daqui para Norte, são raros, e é uma festa encontrar um de acordo com os padrões - bom 'espresso', mesas cómodas, jornal disponível.

Tanto quanto procurei, há dois ou três em Inverness, pequenos e modernos, nada de histórico evidentemente.

O mais parecido com o standard europeu é o Coffee Affair




Na arcada vitoriana em Academy Street há um café mais requintado. Já não falta nada de essencial em Inverness.

Victorian Market Arcade




Café do Paulo, Victoria Market

Não será uma grande capital cultural, mas está bem como 'starting / arrival ' da Rota NC500.