domingo, 5 de abril de 2026

Klaipėda, a bela Lituana

O antigo moínho de arroz do séc. XIII foi convertido no Hotel "Old Mill", obra de arquitectura moderna.

A Lituânia é o maior mas provavelmente o mais frágil dos Estados Bálticos: além do escasso  território, tem uma economia e uma cultura incipientes, não goza da vizinhança fronteiriça de nenhum estado rico - tem uma fronteira deplorável com a Bielorrússia e uma fronteira terrível com Kaliningrado, e está muito mais afastada da Escandinávia do que as mais sortudas Estónia e Letónia. O estéril e muito perigoso corredor Suwalki separa-a da Polónia, é de pouco uso. A melhor rota de entrada e saída é pela costa marítima, pouco extensa comparada à dos vizinhos. É nessa costa que se encontra Klaipėda. Soube há pouco que um contingente português vai participar em exercícios num local próximo de Klaipéda - sinal do alerta europeu contra o perigo russo.


Klaipėda, Lituânia
População: ~160 000


Foi fundada em 1252 por cavaleiros da Ordem Teutónica e por cruzados de Lübeck (7ª cruzada), com o nome de Memel (Memelburg). Mas a designação actual (Caloypede e depois Cleupeda) já estava em uso em 1413, e em plena era hanseática. Memel refere-se às margens do rio, Cleupeda ao terreno pantanoso; pois Klaipėda está também na foz arenosa de um rio, o Danė.

Ponte Biržos, Ponte da Bolsa sobre o Danė

A ligação a Lübeck permaneceu quando a cidade foi integrada no reino da Polónia, e depois no reino da Suécia, mas sempre vinculada à Liga Hanseática. A história de Klaipėda é uma tumultuosa sucessão de pertenças: depois da Suécia foi ocupada pela Alemanha, pela Rússia... hoje, o porto marítimo mantém a vitalidade de outras eras - estratégico no Báltico oriental, é o principal porto livre de gelos no Inverno -, e a cidade ganhou maior dimensão, com quase 200 000 habitantes e uma Universidade. O porto é talvez a principal fonte financeira da Lituânia.


A entrada mais aliciante é pela Ponte da Bolsa seguindo pela Tiltų gatvė, Rua da Ponte. Estamos de imediato no núcleo antigo, e logo ali podemos optar pelo cais, onde não faltam esplanadas e atractivos, ou seguir em frente pela rua da Ponte, ladeada de casas do séc. XVIII.


A casa com nº 1 foi construído em 1915 no estilo Arte Nova, com uma varanda de esquina famosa com trabalho em estuque. De início foi o Memel Bank. agora é o Café Vero.


Para começar bem a visita...

Acontece que o nº 10 da rua Tiltų , logo a seguir,  é também um café ! Mas o requinte é outro.




Também sui generis é o prédio nº 13, com um bonito trabalho em tijolo.

No 13 , outro restaurante


Várias ruas perpendiculares atravessam a Tiltų, mas o bairro histórico concentra-se num quarteirão que começa na esquina com a rua Didžios Vandens, uma das mais importantes.


Uns metros adiante uma viela à esquerda, a Vežėjų gatvė, e depois a Bažnyčių g. e a Daržų g. , constituem o essencial do núcleo do séc. XVIII. 

Rua Vežėjų


Bažnyčių , 11

São muitas as casas de enxamel com traves de madeira horizontais, verticais e diagonais, no estilo tradicional prussiano 'Fachverk'. O espaço entre as traves era preenchido com pedras, tijolos, barro, fibras ou pedaços de madeira. Devido a incêndios e às guerras, as poucas que sobram são já do dos séc. XVIII-XIX, com restauros mais recentes.

Teatro Kukielkowy , de marionetas


E mais ao fundo na rua Daržų

Daržų g. 1

A maior surpresa está numa viela em L , a Bažnyčių g. lateral à Didžios Vandens uns metros mais adiante, que é o coração do bairro. Os acessos são por túneis no piso térreo das casas. É quase uma pátio enclausurado.


Era aqui que se situava a Igreja de Klaipéda, destruída; também era lugar do mercado, com casas de comerciantes do séc. XVII - XVIII; agora é um espaço cultural e turístico.

Pátio dos Artesãos, galeria


Centro de Arte / Museu KKKC, numa das casas históricas mais cuidadas.

Suponho que por esta altura já ninguém duvida do prazer de visitar Klaipéda. Daqui até à Praça do Teatro ainda se passa noutros exemplos dispersos de Fachverk, primeiro na rua Aukštoji e a seguir pela Sukilėlių , ambas ainda bonitas ruas históricas.

Aukštoji nº 1 

Este "arranha céus" de enxamel ainda é mais impressionante visto das traseiras na rua Didžios Vandens nº 2.



Aukštoji 6,7

Aukštoji nº 7

Em direcção à Praça desviamos para a rua Sukilėlių

Sukilėlių 18

Residência Fachverk do séc. XVIII, foi a residência do mestre carpinteiro.


A rua Sukilėlių conduz à Praça do Teatro, o 'centro' de Klaipéda, e a fonte costuma ser usada como 'ex-libris'. É dedicada ao poeta local Simon Dach.




Em frente ao Teatro, a estátua no pedestal é a de Taravos Anikė, ou Ännchen von Tharau, a quem o poeta Simon Dach nascido em Memel dedicou um apaixonado poema.


No lado oposto da praça, esplanadas junto da esquina com a rua Sukilėlių.


Pronto. Estou convencido. Ia lá se pudesse.

O veleiro Meridianas, navio-escola construído na Finlândia, é um dos símbolos de Klaipėda. Está atracado no cais do Danė.


Contrariamente à maioria das cidades históricas na Europa, não há uma única igreja antiga notável. São todas feias, TODAS. E os museus também são irrelevantes.




Só a resistência da Ucrânia garante a segurança deste país.






















quinta-feira, 26 de março de 2026

Westray, Orkney - a ilha brumosa e soturna do livro de Amy Sackville* tem as suas surpresas !


Tinha de ser uma ilha desolada, despida de árvores, batida pelo vento, imersa em nevoeiros e chuvadas, semeada de ruínas e casebres, rodeada por uma mar selvagem e povoado de focas. É na Ilha de Westray a norte das Orkney que Amy Sackville se inspirou para o seu livro 'Orkney' de que falei no post anterior.

Neste ambiente ensombrado não admira que surjam lendas e mitos, sendo familiar entre a população as histórias das 'selkies' , uma variante das sereias : são focas que se transmutam em humanos na praia, despindo a pele. E diz-se que, se acasalam com humanos, dão origem a fllhos com pele intra dedos. Deve ter havido alguns nascimentos . Esta mitologia é comum a todo o Atlântico Norte: Orkney, Shetland, Faroé, Islândia, Gronelândia (inuits).

Vou mostra uma Westray mais soalheira e convidativa que a do livro; a partir de Abril há verde e flores e sobretudo mais luz.

West Manse em Langskaill, ilha de Westray

O nome 'Westray' significa Ilha do Oeste em nórdico antigo. A população anda à volta de 600, sendo a ocupação do território muito dispersa, com a actividade centrada em quintas agrícolas no terreno plano e fértil; mar, prados verdes, areais e casas isoladas, é este o retrato de Westray.
 
A povoação principal é Pierowall: um semicírculo de casas ao longo da baía, que termina no cais (pier) que deu nome à aldeia.


Coordenadas: 59 20' N, -2 59' E

Pobre e triste, Pierowall apesar de tudo tem um Centro de Património com museu, uma Casa do Médico (Doctor's Surgery), um café ou dois, uma galeria de arte ou duas, uma loja com posto de correio, outra sem, um Hotel e outros alojamentos. Do passado, uma igreja e um castelo, em ruínas.

Casas ao longo do Gill Pier.

Não falta onde comer peixe e caranguejo, graças a uma pequena frota de traineiras que ancora no cais Gill Pier.

O Shaunette e o New Venture, barcos de pesca, e entre eles o ferry inter-ilhas.

O 'Golden Mariana', de 1973, faz o serviço de ferry para ilhas próximas. Ao longe, o antigo armazém do porto, de 1883.


Uma casa de Pierowall: a Rose Cottage.

A estrada B9066 é também a rua principal de Pierowall.

Património

O prédio que foi o armazém portuário para a seca e salga do peixe está situado no extremo da aldeia, onde termina o cais Gill Pier.


Casa de três andares de grande simetria.


A casa de 1883 é a mais marcante do passado desta aldeia piscatória. Serviu para a cura do peixe, sendo ainda usada como armazém.


Ruínas da Igreja de St Mary (Lady Kirk), séc XIII / XVII


A igreja, de planta rectangular e estreita, é também uma ruína sem cobertura; deve ter tido telhado de ardósia. Partes da igreja medieval do século XIII estão absorvidas na reconstrução quatro séculos mais tarde. 


Solitária e desabrigada, a Lady Kirk olha para o mar, como quase tudo. Esteve activa como sede de paróquia até cerca de 1900.


Noltland Castle

Encontra-se a uns 500 metros para o interior de Pierowall.


Construído para Gilbert Balfour of Fife, um escocês de família nobre mas conhecido pelo feitio violento e guerreiro com que ganhou muitos inimigos. Talvez por isso o castelo tenha forma de 'bunker', com nada menos que 71 orifícios para artilharia. Mais do que uma residência luxuosa, era um refúgio blindado onde se podia esconder.
  .
O castelo obedece a um modelo de planta em Z (Z-plan) comum na Escócia. torre central ladeada por torres na muralha exterior em diagonal. 


A torre central é rectangular, e as laterais em Z são quadradas.


Os pisos inferiores não tem janelas, apenas buracos para tiro. O interior devia sem extremamente escuro e desagradável.

A torre central ainda mantém uma impressionante escadaria em caracol, a única parte onde há relevos de pedra; tem um piolar central encimado por um capitel esculpido.



O castelo foi abandonado após um fogo em 1746.

Vista a partir da baía de Grobust.

Foi na praia de Grobust, a Norte do Castelo, que se encontrou a "Vénus de Orkney", a famosa escultura que é a mais antiga representação do rosto humano encontrada em todo o Reino Unido. 


O Hotel


Na estrada B9066, na parte sul da baía, fica o Hotel de Pierowall ; tem ao lado uma galeria, e não se deve estar mal na esplanada no Verão.


The Pierowall Cottage, alojamento.

Memoria dos barcos pesqueiros do passado, no muro da 'cottage' ao lado.

Por trás do Hotel, com acesso por uma viela , fica  o

Westray Heritage Centre


Abriu em 1997 mostrando sobretudo o arquivo fotográfico da ilha mas cedo se alargou a preservar e expor o legado neolítico - história e arqueologia. As estrelas da colecção são a Westray Stone e a Westray Wife ambas desenterradas no sítio arqueológico da praia de Grobust.


Westray Stone
Logo à entrada, um dos achados valiosos :


Em 1981, quando trabalhava numa pedreira, um equipa de trabalhadores desenterrou uma grande pedra decorada com espirais que foi posteriormente datada de há mais de 4000 anos. É um exemplo único de escultura Neolítica. Ficou conhecida como The Westray Stone.


O local, a praia de Grobust a Norte do Castelo de Noltland, era um túmulo da Idade da Pedra num conjunto habitacional datado de ~ 3000 anos AC.

Alfinetes de roupa.

A  Mulher de Westray (The Westray Wife)


É o mais famoso achado arqueológico da ilha, uma " Vénus " nórdica, com cerca de 5 000 anos !


É a mais antiga representação de rosto humano no Reino Unido.

Na saída de Pierowall para sul encontra-se ainda Hume Sweet Hume, uma casa de design e moda de malhas em lã com algum requinte.


https://humesweethume.co.uk/



O melhor de Westray é a costa. Baías, praias, falésias, grutas, ruínas pré-históricas e Vikings. Custa a acreditar que há mais de mil anos houvesse tanta povo a instalar-se aqui.


A via principal B9066 é como uma espinha dorsal, vem do aeródromo, desce até Pierowall junto à costa, passa por quintas e casas recuperadas para alojamento, até ao outro cais da ilha em Rapness, ligando de ferry à capital Kirkwall. Para oeste diverge um desvio - a B9067 para Langskaill no Westside. 
Paisagens pelo caminho:

West Manse, Langskaill (=Long House).

Praia de Aikerness Bay, extremo norte.

Banco miradouro em Grobust

O arco "The Scaun" , no topo norte da ilha, a oeste de Aikerness.


The Scaun, com mar bravo contra as falésias de Westray.


Grobust, com o farol de Noup Head ao longe.





Portanto, uma ilha sem qualquer interesse, como diriam alguns tropicalistas.

(*) Refiro-me à novela "Orkney" que aqui divulguei recentemente neste blog.