domingo, 15 de fevereiro de 2026

Uma rota de igrejas romano-góticas em volta de Roskilde, Dinamarca


Højerup Gamle Kirke, costa da Zelândia (Sjælland) - no fim do post.

Na Dinamarca feliz há muitas dezenas de Igrejas do período românico e gótico, dos séculos XII-XIV ; encontram-se por todo o país, algumas verdadeiros tesouros. Como estive em Roskilde, vou olhar mais de perto as que se encontram nos arredores, que não serão as mais ricas ou deslumbrantes mas têm um carácter arquitectónico muito próprio, sóbrio, que ajuda a paisagem monótona.

Foram quase todas começadas no século XII - a estrutura rectangular em pedra calcária talhada, de nave única, a pia baptismal; mas já as abóbadas do tecto, altar, pórtico e torre são geralmente do Gótico medieval ou tardio. O interior (tecto e paredes) está caiado de branco, nalguns casos com pinturas medievais (frescos).

Saindo de Copenhaga para poente, encontra-se a primeira em Kirkerup. 

Kirkerup Kirke, 12 km a nordeste de Roskilde


Segue o modelo mais básico desta arquitectura românica, está construída em pedra calcária talhada e tijolo. A nave deve ter sido construída entre 1150 e 1175; no séc. XIV com a chegada do tijolo foi acrescentada a torre, o pórtico sul e as empenas em degraus. A Norte há uma capela do Gótico tardio. Actualmente a Igreja está caiada de branco, excepto a torre, e as janelas são modernas.

A extensão a sul, mais antiga, talvez um primeiro pórtico.

A extensão a norte deve ter sido desde início uma capela, os degraus da empena indicam o primeiro gótico.

Não é frequente haver duas extensões laterais, como mostra o plano:

No interior, o tecto de madeira românico foi substituído por abóbadas góticas, com arcos a separar o coro, a nave e a capela. O melhor desta igreja são as pinturas sobre cal. Os frescos mais antigos são românicos, de 1150-1175 : outros datam do Gótico, ca. 1325. 



As pinturas nas abóbadas do tecto são do primeiro gótico (séc, XIV).


A pintura mais antiga é a do arco do côro, onde figuram três medalhões alusivos a Virtudes. 


Nas abóbadas salienta-se uma "arca de Noé" de ca. 1325, uma das que mais atrai visitas.


https://www.kirkerupkirke.dk/kirker/kirkerup-kirke

De Kirkerup desço para Himmelev, a mais próxima igreja com interesse.

Himmelev kirke

Já nas cercanias de Roskilde, a nordeste. Tal como a anterior, é do século XII, e a torre é uma adição mais tardia, do séc. XIV - mesmo assim bastante cedo. Não está caiada - seriam todas assim, em pedra e tijolo.


Aqui nota-se o tijolo e a  transição para o gótico. 



Foi muito restaurada, o mais notável são as janelas românicas duplas em nicho. O interior é de uma nave estreita, e bastante pobre de decoração.


Chegamos a Roskilde.



Gammel Vor Frue Kirke (Igreja Antiga de N. Sª) , Roskilde


Esta é particularmente interessante ! Construída antes de 1100 como basílica românica, com uma nave central alta aberta a duas naves laterais de tecto mais baixo. A torre em tijolo já é gótica. 


As duas naves laterais terminam numa ábside semi-circular. O material de construção é pedra calcária travertina, outra diferença notável.

Está no centro de Roskilde, junto à Catedral, e destinava-se a igreja abacial (de mosteiro).




É visível a arcada que separa a nave lateral.

Capela lateral

Passemos para sul de Roskilde

Greve kirke 

Mantida impecável, num estado pristino.

Cerca 12 km a sudeste de Roskilde, outra igreja que segue o modelo descrito - nave do séc. XI, caiada, pórtico mais tardio do séc. XIII, abóbadas do Gótico (~1400), torre começada românica e terminada no final do séc. XV.

Enquadrada em jardins bem tratados; note-se o pórtico lateral um pouco diferente. 


Os bancos da igreja de 1652, ricamente decorados com entalhes.

Também o interior está cuidado; a pia é românica, claro, com uma corda decorativa na borda.



Bem bonita. Espero que se perceba quanto estas edificações contribuem para quebrar a monotonia chata deste território.

Vamos para sudoeste.

Allerslev kirke

Esta igreja do séc. XII merece referência também pelas pinturas sobre cal. Fica  9 km a sudoeste de Roskilde.


Torre e Pórtico de ca. 1400. Um belo pórtico gótico para uma igreja bem mais antiga (1100-1150) com interior de ca.1200, datação dos frescos mais antigos, que decoram o arco da capela-mor. 

Este plano é comum à maioria das igrejas que aqui mostrei. A torre à esquerda é um acrescento gótico. 

Exubeberância de frescos:

Vista geral do belo espaço interior e dos vários planos de pinturas.

Os frescos do Coro da igreja datam de ca. 1400 - linhas duplas e bandas diagonais em tons quentes.

O arco está decorado com uma faixa com 7 medalhões, em cores de vermelho, laranja, ocre e branco.

As abóbadas da nave são mais requintadas:

Na nave, a decoração é do gótico tardio, com motivos geométricos e vegetais - rebentos de árvore, ramos, folhas.

Herslev kirke a NW 6


Um pórtico a direita, uma nave gótica anexa à esquerda.


A porta de carvalho é de 1652.

Entremos.


Nos arcos das abóbadas, frescos da época românica, dos séculos XII e XIII.


««««««««««««««««««««««««««««<>»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»

Muitas outras, algumas bem mais interessantes, estão por perto na ilha de Sjaelland (Zelândia): Skensved , Jelling, Tamdrup, Oue Kirke, Hedensted, Såby, Hvedstrup ... Mas essa Rota tornar-se-ia demasiado extensa para um dia de viagem. 
Já agora: de onde vem a terminação -rup  ou -trup  tão frequente? É do nórdico antigo 'thorp' que significa aldeia ou arrabalde.

E porque fiz eu este post ? Foi um pouco por impulso - tive um fraquinho pela Dinamarca quando se opôs tão valentemente à ameaça além-Atlântico, e tenho também uma particular atracção pela arte Românica e Medieval - o tal período de 'trevas' ; ora, quando viajei até Roskilde vi muito pouco, por razões de saúde. Eu sei que há arte românica bem mais rica na península da Jutlândia (na região de Billund e Aarhus) mas nunca lá fui. 

Uma jóia que falhei imperdoavelmente foi a igreja gótica de Højerup, da transição séc XIII-XIV. Está sobre uma falésia baixa em Stevns Klint, junto a uma praia de calcário branco na costa sudeste da Zelândia. É única. Sem comentários, deixo só imagens. A Dinamarca tem coisas destas.

so
O coro da igreja ruiu com a derrocada da falésia.




Falésia de calcário branco (giz) de Stevns Klint, património mundial- testemunho também do grande meteorito Chicxulub cuja queda extinguiu os dinossauros.

História, arquitectura , pintura, geologia... 


terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Station Nord: onde a Dinamarca já vigia o Ártico, sem precisar de mais ninguém.


Edifício do Comando da Station Nord.

No topo Norte da Gronelândia, a Dinamarca tem uma estação científica e estratégica de observação e detecção de ameaças, climáticos ou outras, vigilância dos céus e dos mares territoriais da Gronelândia.  Nada do que vou referir foi mostrado nas TVs, que foram todas para a porta da embaixada americana em Nuuk. Vou mostrar a maior base europeia estratégica no Ártico.


Fica na península Prinsesse Ingeborg Halvø, uma planície costeira de tundra rochosa coberta de gelo e glaciares, onde só a fauna ártica sobrevive - aves, lobos, raposas, bois-almiscarados e ursos, que uma vez ou outra visitam a base.

Um visitante curioso.


Nord pertence ao DDC, Comando de Defesa da Dinamarca. É uma base científica e militar permanente, com rotação do pessoal ao fim de alguns meses; um posto avançado vital na defesa da soberania sobre o vasto território da grande Ilha do Ártico. Após décadas de serviço como estação meteorológica, reabriu em 2001 ampliada e modernizada com o complexo científico "Villum", onde, além do pessoal militar, podem ser alojados até 20 cientistas; é gerido pela Universidade de Aarhus em estreita coordenação com o DDC.

35 pavilhões pré-fabricados dispersos no gelo, ou sobre o cascalho quando degela.

Station Nord , 81º 43' N, 1700 km a Norte de Círculo Polar.

Station Nord, welcome.

A estação compõe-se de pelo menos 35 blocos pré-fabricados pintados de verde e dispersos para minimizar o risco de incêndios, e a uma distância segura da pista de aterragem. 

À entrada da base o pavilhão de boas vindas e "souvenirs".


Todas as estações no Ártico têm um poste de sinalização, que vai sendo acrescentado ao gosto das equipas em turno de serviço.


-40 C  é uma temperatura 'normal', e o gelo recobre frequentemente os pavilhões dificultando os acessos.


A Estação só é acessível por via aérea - o mar tem gelo permanente e não há local de acostagem; as deslocações no terreno podem ser feitas sobre o gelo em trenós (há matilhas de cães treinados), sky ou snowmobile, e também tractores com lagartas e veículos todo-o-terreno.

Neste plano vê-se a lagoa glaciar que abastece de água a Station Nord. ' Apron ' é a placa de parqueamento do aeródromo.

O edifício 12 (HQ) é o Posto de Comando da base.

Cozinha e primeiros-socorros


A 'estrada' entre a base e a pista de aterragem.

Edifício do aeroporto - terminal e torre.

Vista geral da base com o pavilhão da torre de controle em primeiro plano.

A pista está aberta normalmente 300 dias por ano, mantida diariamente por dois limpa-neves.

Um C130 em aproximação à pista.



Aterragem de um Hércules C17 da Força Aérea Canadiana trazendo reabastecimentos para a Estação.

Vista geral


Em terra e no mar: além das bases no gelo, a Dinamarca dispõe de uma frota naval de respeito para patrulhar as suas águas do Ártico, pelo menos 8 navios com capacidade de quebra-gelos até 80 cm de gelo (podendo arriscar 1 metro). São classificados como "classe Rasmussen" e "classe Thetis", e dedicam-se à segurança dos mares territoriais da Gronelândia.

HDMS Rasmussen, um dos 3 da classe.

HDMS Ejnar Mikkelsen, P571 no gelo da costa ártica.


HDMS Lauge Koch, P572, de 2015 - o mais moderno

As fragatas de patrulha e ataque anti-submarino, equipadas com helicóptero e barco insuflável rígido.

HDMS Triton, um dos 4 classe Thetis, navio patrulha e de reconhecimento com helicóptero, com casco duplo reforçado para enfrentar 80 cm de gelo.

HDMS Hvidbjørnen , F360 da classe Thetis, de 1992

Duvido que alguém se queira meter com a Defesa Dinamarquesa.