domingo, 21 de junho de 2026

Ora as Pirâmides do Egipto tinham já tripla protecção anti-sísmica !


 

Há muitos casos estranhos como este de muitos séculos, mesmo milénios, de antecipação científica, em que soluções foram encontradas de forma precursora na pré-História ou em civilizações da antiguidade. Uns já estão explicados, outros não, mas sempre suscitam espanto.

Quando uma civilização perdura milénios e quer que os seus insignes falecidos fiquem preservados para a eternidade, constrói sepulturas subterrâneas ou mausoléus sólidos e blindados. As pirâmides do Egipto são um desses exemplos, com especial protecção contra assaltos e saques - até as fábulas assustadoras de ratoeiras fatais e espectros ajudam - mas, vejam lá, também contra a única ameaça provável da Natureza naquele local; na areia do deserto as cheias do Nilo não ameaçam, queda de meteoro também só com muito azar e pontaria, restam os terramotos, relativamente frequentes no Egipto. Há relatos mais pormenorizados no tempo dos Romanos de vários sismos destruidores.

A fractura geológica do Mar Morto e os arcos Helénico e do Chipre são as origens mais frequntes de actividade sísmica na região do Cairo. São fenómenos locais do choque entre a placa da Anatólia e a Placa Africana.

Em anos mais recentes, os que mais afectaram a zona das Pirâmides foram:

                   - 18 Out 1754 , elevada mortalidade

                   - 12 Set 1955,  6.3

                   - 31 Mar 1969,  7.1

                   - 12 Out 1992, 5.9 - o mais grave em anos recentes, com epicentro em Gizeh 

Ninguém quis aproveitar a sabedoria constructiva dos Egípcios do século XXVII e XXVI AC, os primeiros 'arranha céus' em pedra (138 m)(*) ; desde Grécia e Roma aos tempos medievais e neo-clássicos, toda a arquitectura ignorou o problema sísmico, e viu-se desaparecerem templos gregos e romanos desabados ao primeiro tremor, núcleos urbanos medievais e renascentistas arrasados como na bela Basileia (6.7 - 7.1), em 1356, onde não restou uma igreja nem um castelo de pé, como nos de Itália em 1456, 1638, 1688, 1703 - e os piores de 1783 e 1908 (arrasou Reggio Calabria), o da Catalunha em 1428,  ou o de Lisboa.

Basileia, 1356 - devastação total

1908, Calabria , mais de 120 000 vítimas.

Longe de mim armar-me em especialista diplomado em sismologia ou egiptologia, é bem mais simples: li um artigo de Heloïse Pons no Le Point e fui corroborar em fontes fidedignas, não tenho dúvidas de que está tudo comprovado. 

Este ano de 2026, especialistas, esses sim, em Geofísica e Sismologia do Cairo descobriram que há uma solidez estrutural na Pirâmides de Gizeh, as mais antigas construções em pedra da História, que desde há 4600 anos nunca sofreram estragos por sismos ! Todas as outras designadas "Sete Maravilhas do Mundo" desmoronaram, arderam ou foram arrasadas. 

Esse fenómeno tão raro mostra até que ponto a pirâmide constitui um bloco sólido e resiliente. É intuitivo que a forma da pirâmide goza de máxima estabilidade devido ao baixo centro de gravidade, larga base de apoio, elevada simetria do conjunto; e não admira que isso seja favorável a uma resistência maior a abanos sísmicos. 

Em princípio, quanto mais alto subimos num edifício mais se amplificam as ondas sísmicas; o topo tende a oscilar mais que a base. Ora na pirâmide de Khéops acontece o contrário ! Ao subir na estrutura, as medições mostram que as vibrações internas perdem amplitude ! A câmara funerária do Faraó é o local mais protegido, toda ela em granito, debaixo de 5 salas de descarga reforçadas com fortes traves de granito e tectos de duas águas, uma geometria que visa aliviar a carga colossal das pedras que estão por cima - mais de 90 metros, milhões de toneladas ! - evitando o colapso do tecto da câmara. 

Pirâmide de Khéops:

1- Câmara Real ; 2 - Viga de calcário; 3 - Câmaras de descarga; 4 - Tecto de 2 águas (lajes de calcário em Λ); 5 - Blocos de sustentação em granito

Acontece que essa mesma geometria protege também a câmara atenuando as oscilações sísmicas.

A 5ª câmara de descarga (sala de Campbell), com a cobertura de duas lajes em Λ, descoberta em 1937. Os grafittis são dos trabalhadores que as construíram.

A 4ª câmara, sala de Lady Arbutithnot, e a sua trave de granito. De resto, toda a pedra da pirâmide é de calcário.

Os estudos indicam que este complexo de cinco câmaras desempenha uma função anti-sísmica, dissipando a energia dos terramotos (como o que atingiu o Cairo em 1992) ao longo dos milénios. Estas cinco cavidades sobrepostas agem como um mecanismo de amortecimento que absorve a energia das ondas sísmicas.

Parece obra de uma inteligência superior, de facto, os arquitectos da altura (há 4600 anos) tinham capacidades surpreendentes. Mas há mais !

O último detalhe da construção relevante na protecção anto-sísmica: o solo. Num solo arenoso, lamacento, de argila, as ondas sísmicas perdem velocidade, ressaltam, sobrepoem-se, e assim são amplificadas. Como Gizeh repousa sobre um subsolo rochoso calcário, as edificações têm protecção natural contra actividade sísmica.

Cada construção tem as suas frequências próprias de vibração. O maior perigo sísmico resulta de essa(s) frequência(s) estar em ressonância com a frequência de vibração do solo onde assentam, pois vibrando em uníssono amplificam-se mutuamente. O solo de Khéops, por exemplo, vibra a 0.6 Herz, frequência 4 vezes mais baixa que a da pirâmide (entre 2 e 2,6). A diferença actua como um escudo protector invisível.



Também a Esfinge de Gizeh tem uma especial resistência anti-sísmica por estar assente nesse mesmo solo, por ter uma base larga, um baixo centro de gravidade, e ainda pela solidez de ter sido esculpida num único bloco de calcário que emergia das areias. É um monolito, sem junções entre partes desconexas. Quase apetece dizer: o vento pode desgastá-lo, mas não há sismo que o derrube.

Fonte sugerida: https://www.nature.com/articles/s41598-026-49962-6

A minha interrogação é : porque não se construíram mais pirâmides ao longo da História, em zonas de risco sísmico? Não maciças em pedra, mas de madeira, de tijolo, de aço e cimento. Actualmente já não se justifica, temos técnicas mais evoluídas e eficazes; mas dá que pensar, nada resistiu acima do solo mais de quatro milénios como as Pirâmides egípcias.

Permitam-me citar uma imagem icónica moderna, a pirâmide da Tyrell Corporation no Blade Runner de Ridley Scott:

I've seen things you people wouldn't believe.'


Maquete sim, mas genial.

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(*) os ziggurats sumérios, muito mais baixos, eram construídos em blocos de lama cozida ao sol. O mítico Etemenanki (Torre de Babel) de ~1800 AC teria no máximo 66 m, e depois de muitas reconstruções o pouco que restava foi arrasado por Alexandre o Grande.

domingo, 14 de junho de 2026

Bath, no rio Avon, cidade onde seria bom viver - 2ª Parte


Continuando a visita que fizémos a Bath, agora vamos subir a encosta da colina onde a cidade está pousada, na margem do rio Avon. Podemos partir de onde tínhamos terminado , em Old e New Bond Street, ruas de lojas refinadas.

Onde se juntam as Bond Street, começa Milsom Street, a rua de prestígio mais famosa de Bath; bordada de prédios do séc XVIII, alguns classificados, alguns com estilo palladiano, é uma das ruas comerciais mais celebradas da Europa, alinhando lojas de prestígio, que vai subir até Queen Square.


O início
Nºs 37-42: Um conjunto majestático de cinco prédios, dos quais o central com um frontão em arco, ladeado por colunas Coríntias.



Chegando ao topo, para continuar na mesma direcção, passámos por uma viela estreita com escadas, Bartlett Street:


Na subida passámos nas Assembly Rooms, uma obra de 1771 que funcionou sobretudo como clube de jantares dançantes, bailes e concertos para a alta sociedade, como foi moda no séc. XVIII. Quando visitámos tinha algumas peças em exibição e uma cafetaria com esplanada: morríamos por um café bem forte.


Tanto quanto sei, está fechada para obras, já que o National Trust tem um projecto de animação especial que passa pelo Bath International Music Festival,  mas não só.



Lá dentro funciona um Museu da Moda; achei alguma 'graça' a esta liteira do século  XVIII, que era suspensa entre duas varas de madeira e transportada a braços por dois carregadores.


Uma espécie de Tuktuk de há três séculos, altamente classista.

À medida que se sobe, vamos encontrando ruas mais residenciais, onde fileiras de fachadas georgianas se alinham em recta ou em curva. 

Bennett Street


Assim termina Bennett Street, no topo, ao chegar a The Circus

Um mapinha ajuda.



The Circus e The Royal Crescent
o nec plus ultra georgiano

Duas jóias desta arquitectura do século XVIII , The Circus (A Rotunda) e The Royal Crescent (O Crescente Real) estão no topo da encosta de Bath, interligados, e formam um dos mais extraordinários exemplos de arquitectura neo-clássica.

The Circus e, ao longe, Royal Crescent. Que conjunto !

The Circus


Construído entre 1754 e 1768, é uma rotunda seccionada em três partes pelos arruamentos de entrada/saída - Bennett St., Gay St., Brock St. - e um relvado circular em torno de cinco grandes plátanos, plantados por volta de 1820.



Entre os residentes mais notáveis nesta Rotunda, destaco o pintor T. Gainsborough, o explorador David Livingstone, o inventor do telefone Graham Bell.


Na arquitectura neo-clássica das fachadas são utilizadas três Ordens Clássicas, a Dórica, a Romana e a Coríntia, em faixas horizontais sobrepostas. Os frisos dóricos sobre o rés-do-chão estão decorados com múltiplos símbolos - náuticos, zoológicos, maçónicos, das artes e das ciências.


Regresso a casa ?

Entrámos pela Bennett, saímos pela Brock Street, para o Royal Crescent :


The Royal Crescent

Não sei bem porque é que se construiu tanto para as classes altas e aristocráticas em Bath. Esteve certamente na moda na época victoriana, devia ser 'bem' para um londrino ter uma moradia em Bath. Moradias em banda, claro, que é o modelo em todas as ruas nobres da cidade.


De todos os 'crescentes' no Reino Unido, este deve ser o mais prestigioso.



A glória neo-clássica de Bath: Royal Crescent. Construído entre 1767 and 1774, este semi-círculo residencial é o período Georgiano no seu esplendor.




É possível visitar o nº 1, adaptado a casa museu. Não achei interessante, está muito decorado-para-turista-ver. Há ainda mais alguns 'crescentes' para trás no cimo da encosta, não fomos ver.

Na descida, optámos por outro percurso, paralelo, pela Gay Street, uma das ruas georgianas mais bonitas. Atenção que 'Gay' é inglês antigo para 'alegre', uma espécie de "rua da Alegria". Voltando à Rotunda, Gay Street é outra das saídas.

É sempre a descer, num belo alinhamento de portais, janelas e telhados.

Já em Queen Square, uma praça vulgar, está a Casa de Jane Austen com a Regency Tea Room. Caía mesmo bem um lanchinho, entrámos.



Numa breve volta pela casa vimos logo que a parte de exposição não interessava nada. Regency Tea room:



A perfeição não foi alcançada, mas estivemos perto disso.

Descemos poor Broad Street, estreita rua comercial.


Um belo espectáculo, com as torres e agulhas e chaminés sobre os telhados. Mas muito íngreme, ficamos com as pernas numa miséria.

Num outro dia fui ao Museu Herschel. Além do Museu dos Banhos Romanos, é o outro museu de Bath que vale a pena, dedicado ao astrónomo Wiiliam Herschel e aos primórdios da astronomia científica.

19 New King Street, Bath




Herschel foi também compositor, pianista e cravista. Música e Astronomia ligam na perfeição, como sabemos.


Planetário em latão, 1785. O planeta Urano descoberto por Herschel em 1781 está no extremo do braço mais longo, com duas das suas luas. Uma réplica do telescópio de 2 metros usado na descoberta está junto à janela:

O original está em Greenwich.


 
William e a irmã Caroline Herschel, caçadora de cometas !

Nas traseiras há um quintal, onde Herschel (com a colaboração da irmã) descobriu Urano com uma lente de 6 polegadas (~15 cm). Há um pedestal moderno, de 1997, a celebrar as observações astronómicas no jardim; no topo, uma esfera armilar atravessada por um ponteiro, que funciona como relógio solar.
 

'The Paragon', de 1768

Bath é uma obra-prima de cidade, está visto. Haveria muito mais - jardins, casas, museus, beira-rio - mas vou terminar com uma rua que me surpreendeu, espantou, e que ainda hoje penso ser única no mundo: uma rua que desce serpenteando, alinhada de um dos lados por uma fileira de 37 casas de arquitectura georgiana sem qualquer loja ou travessa que a interrompa. Obra de 1768, de Thomas Warr Attwood, que nem sequer era arquitecto.

Vista de balão, é um S

Uma espécie de auto-estrada residencial; é parcialmente desnivelada - um dos passeios pedonais sobe a uma cota mais alta! O arquitecto desta rua devia ser lunático ou visionário, deve ser altamente incómodo morar lá - mas visualmente é um portento. É anterior ao Royal Crescent.

Casas geminadas a perder de vista. Com a expansão da cidade no século XVIII, foi uma solução encontrada para a classe média. Não gostava de lá viver...

As primeiras casas nos 1-21, de 1768, estão classificadas pelo National Trust. Cada edifício tem portas e janelas com frontões centrais; cornijas nas janelas do 1º andar, pilastras e frontões toscanos nas entradas. 

Este desenho continua quase idêntico nos números seguintes 22 a 37, de 1775.

Há alguns indícios de que a rua pode ter sido construída sobre uma estrada romana, a estrada que ligava os Banhos de Bath a Lincoln (Lindum) ; outros indícios apontam para que fosse parte do percurso da muralha medieval.


E termino com outra beleza que não arquitectónica: não faltam belos jardins em Bath, mas as margens do rio Avon são inigualáveis. 



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* na Ásia fazem-nas mas são Kitsch recente para turistas.