domingo, 11 de abril de 2021

Muro da Memória Covid, Londres

 Este memorial não foi erigido e inaugurado com pompa por nenhuma instituição ou ministério. Foi surgindo da mão das pessoas, sob a trágica inspiração de uma avalanche colectiva de mortes. Vamos a caminho dos três milhões, desde a 2ª Grande Guerra nada se lhe compara. 

Se há Arte Popular, é isto: belo e feito pelo povo de Londres. É uma parede ao longo do passeio fluvial do Tamisa, na margem oposta ao Parlamento. 







Sombras, que vão lembrar sempre o que foram os miseráveis anos 20 do século.


terça-feira, 6 de abril de 2021

´Filosofando': A Utopia Feliz de Rainer Marie Rilke


Não consigo imaginar conhecimento mais sagrado
do que este:
que temos de tornar-nos iniciadores.
Alguém que escreve a primeira palavra a seguir a um
travessão
secular.

Grande é esse travessão secular, se não milenar. Nas suas 'Notas sobre a Melodia das Coisas', Rilke deseja um utópico Renascimento completo do Homem em harmonia com o mundo: aspiração muito actual, numa altura em que o mundo parece mais uma dissonante cacofonia.

Simone Martini e Lippo Memmi, Anunciazone, Florença, 1333

"Compara uma pintura sobre fundo dourado do Trecento com uma das inúmeras composições mais tardias dos antigos mestres italianos, onde as figuras se reúnem numa Santa Conversazione diante da paisagem luminosa no ar límpido da Umbria. O fundo dourado isola cada uma dessas figuras, mas a paisagem resplandece atrás delas, como uma alma comum, da qual extraem o seu sorriso e o seu amor."

Marco Basaiti, Santa Conversazione

Muitas percepções certamente mudaram entre os tempos medievais e o novo humanismo nascido do Renascimento. Rilke destaca na Arte a relação figura/fundo em paralelo com a realidade Homem / Mundo. Nas pinturas sobre fundo dourado, as figuras, cercadas por um aro, encaixadas em janelas ou separadas por colunas, não comunicam verdadeiramente; só as une aquela luz brilhante do fundo, a lembrar a Radição Cósmica de Fundo que emana do Universo, provavelmente apercebida como a Fé ou o Divino.

Já em Basaiti (séc. XV-XVI), Rilke observa uma outra proximidade, cuja fonte estaria na paisagem luminosa de fundo, a "alma comum". É uma ideia bonita, a de a Humanidade ter uma alma comum, mais uma vez uma mística feliz desmentida pelos tempos.

"Se os santos de Marco Basaiti tivessem algo a confidenciar uns aos outros para além da sua sacra proximidade lado a lado, não estenderiam as suas mão finas e suaves na frente do quadro onde habitam. Recuariam, tornando-se cada vez mais pequenos, até ao fundo dos campos ouvintes, e ir-se-iam encontrar atravessando minúsculas pontes."

A sacra proximidade não basta, portanto; seria preciso que os homens fossem mais modestos, cientes da sua pequenez, para poderem estabelecer "pontes", como hoje se diz, nesse caldo luminoso comum que são os campos que escutam e o ar límpido.

" E nós somos como frutos. Estamos suspensos lá no alto, em ramos estranhamente emaranhados, fustigados por muitos ventos. O que possuímos é a nossa maturidade, doçura e beleza. Mas a força que produz tudo isso corre num único tronco a partir de uma raiz que se propagou e se estende por mundos em todos nós. E, se quisermos dar testemunho da sua força, cada um de nós tem de a utilizar no sentido da maior solidão. Quanto mais forem os solitários, mais solene, pungente e poderosa é a sua comunidade."

'Cada um de nós tem de a utilizar no sentido mais solitário'. Ah Rilke, regresso a um novo individualismo, 'superior' embora, pois a melodia da vida, a melodia em toda a plenitude, é captada apenas pelos mais solitários.

Pois assim seja, a felicidade só se atinge em solidão.


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[traduções minhas a partir das edições francesa e inglesa] 
[Grato à mão amiga 💗 que insistiu neste livro de Rilke]

sábado, 3 de abril de 2021

Khabarovsk no Rio Amur, cultura europeia (Ticiano !) nos confins do Oriente.


A Rússia é grande de mais para ser conhecida só pelas cidades do lado europeu. Deixando de lado as patifarias do regime, é uma aventura irresistível explorar o centro e o extremo oriente, zonas escassamente povoadas, onde uma cidade pode ser um milagre súbito na paisagem; tentar adivinhar a dimensão do gigante; e aceder a uma região mal conhecida, ainda secreta e quase 'Thúlica'

O Rio Amur

O rio Amur é um dos grandes cursos de água da Sibéria. Ao longo de 4 000 km2, a bacia cobre uma área imensa, território não só russo como também da Mongólia e da China; zonas variadas de floresta, taiga, estepe e semi-desértica.

O Amur nasce da confluência dos rios Shilka e Argun, e corre para leste / nordeste, recebe águas do Ussuri e vai desaguar no golfo de Sakhalina, no mar de Okhotsk. É o décimo rio do planeta em extensão, quarto da Rússia. Além de Khabarovsk, a cidade mais importante por onde passa,  outra cidade fica na sua foz, Nicolaevsk-na-Amure.


Foram aqui descobertas várias gravações de petroglifos do Neolítico em rochas semi-submersas, junto a uma aldeia nativa, Sikachi-Alyan. Têm 15 000 anos ou mais.

É ainda no rio Amur que se encontram os maiores esturjões, da rara e endémica variedade Kaluga, que pode atingir uma tonelada.


Perto de Khabarovsk o Amur recebe o afluente Ussuri; daí para Norte mais caudaloso, deixa de fazer fronteira sino-russa e atravessa uma zona plana de lagos e taiga.
Ponte sobre o Amur junto à foz do Ussuri.

Uma visita a Khabarovsk deve começar pelas margens e cais fluviais. Compreende-se a posição chave de cidade fronteira com a China, a última cidade de herança europeia frente ao profundo Oriente. O melhor miradouro é o 'Penedo do Amur', uma falésia muito popular para o pôr-do-sol; foi de resto ali que nasceu a cidade.

Khabarovsk  (Хабаровск)

Frente à China, do lado russo do rio Amur, a poucos quilómetros do Pacífico e a um salto do Japão, quem esperaria encontrar uma cidade tão elegante e aristocrática, tão arrumada e limpa (*), tão cénica?


Coordenadas: 48º 31' N, 135º 06' E
População: ~ 600 000


O pasmo começa na imponente Estação, servida pelo Trans-siberiano; um edifício de 1926 ainda no estilo revivalista, neo-russo, apesar de posterior à Revolução. Em frente, uma vasta praça ajardinada de onde partem linhas de carros eléctricos.


Da Estação até ao rio, desce uma larga avenida percorrida por eléctricos, novos e antigos, quase sempre ao longo de um jardim central.

Veículo histórico a descer a Avenida Amursky. 


Hora de ponta sob chuveiro.

No jardim, em frente ao Cineteatro Druzhba ('Amizade'), está este banquinho de ferro, famoso entre os habitantes:


"A Senhora e o Cão" é uma escultura inspirada num dos famosos contos de Chekhov. Anna Serguéievna, irresistível, convida a flirtar.


Mas a grande praça de entrada na cidade é a 'Lenine'  (lá tinha de ser...), de onde desce outra grande avenida, a Muravyev-Amursky, centro vital de Khabarovsk. 

A vasta Praça Lenine (25 000 m2), com as suas nove espectaculares fontes (8 pequenas à volta da maior, ao centro).

O Governo do Krai funciona num feio mamarracho da era soviética, mas o conjunto simétrico de fontes e relvados salva a praça.




Desde a Praça, seguindo ao longo da Avenida até ao terraço do Amur, este é o centro urbano de Khabarovsk.

O eixo urbano de Khabarovsk: a longa avenida, o terraço da catedral (esq.) e os museus e hotéis (dir.).

A traça e o arranjo de praças, avenidas e ruas, o tipo de arquitectura e organização urbana são completamente europeus.

Esta rua  servida por trolley-carros e não por eléctricos.

A Avenida Muravyev-Amursky


A principal rua, a Muravyev-Amursky**, corre entre edifícios marcantes com História e decorada com gosto "clássico", numa arquitectura da transição dos séculos XIX-XX, exibindo um inesperado cosmopolitismo.

A Muraviov-Amursky corre em direcção ao rio Amur, ladeada de cinemas e teatros, lojas e restaurantes.

Vamos então descer a rua.

A Farmácia (АПТЕКА) no nº 84 instalou-se numa casa que já vinha da  década de 1870, em estilo "arte nova russa". 


Fora antes a casa de Khlebnikov, um negociante de vinhos, que armazenava nas caves. 

 

No nº 34, o Cinema Sovkino contribui para a animação tardia da avenida. Construído em 1910, foi primeiro o 'Grande Ilusão', mas já mudou várias vezes de nome.


Uma arquitectura peculiar, sem duvida com traços de art déco.

Os grandes armazéns estatais GUM (ЦУМ) ocupam o prédio do nº 23. Foi em tempos casa da família Archipov, negociantes em madeira, mas está completamente alterado por sucessivos restauros.
Templo de consumo ao estilo russo oriental.

Um pouco mais abaixo e surge a notável antiga Duma.



A Duma (câmara) foi construída em 1907-1909; é um dos edifícios mais cuidadamente protegidos, com os nºs 17-19.



Lá dentro, uma loja de artesanato.

Uma janela art déco muito ecléctica.


Na esquina em frente, outra casa que na altura deu prestígio à Avenida foi a do comerciante Kishlaly de Vladivostok, de 1914; é o nº 26.


A casa do japonês Ichiji Takeuchi (1905), um fotógrafo e negociante, é o nº 5 da avenida. Lojas no andar térreo (pronto a vestir, joalharia), um estúdio de fotografia e um hotel no 1º andar. Também tem um Restaurante.


O que mais dá nas vistas é a marquise cilíndrica decorada no 1º andar, por cima da entrada, encimada por uma estranha cúpula.



O nº 1 da Avenida é o prédio da Biblioteca Estatal de Ciência do Oriente, de 1894. É a mais antiga biblioteca russa, instalada na anterior moradia do comerciante Plusnin.



Um prédio de prestígio na entrada da rua, que dava as horas para a cidade.


Na esquina mais à frente, a avenida abre com o prédio nº 2, da Companhia Náutica do Amur, outra marca distintiva.



E chegamos ao terraço sobre o Amur.


A escadaria que desce para a margem do rio Amur prolonga o bom arranjo, limpeza e elegância da cidade :


Não sei de outra escadaria assim, degrau após degrau descendo para a fronteira com outro mundo. O passeio e os terraços ao longo do rio, com vista para a China, são uma pequena obra de arte de urbanismo.
 

Lá em baixo, o Amur, oferecendo praia e cruzeiros, para além de servir de fronteira e de via fluvial.


O 'Penedo do Amur', onde a cidade nasceu, uma falésia sobre o rio onde hoje funciona um invulgar café-restaurante panorâmico.

O quarteirão dos Museus


Situado perto da esplanada fluvial no lado oposto à Catedral fica o Bairro Cultural da cidade, com vários museus em redor da rua Shevchenko. O Museu Regional de Cultura foca a região de Primorsky, a sua natureza e os povos indígenas (os Udege).

Canoas Udege do Amur.

Utensílios da vida doméstica dos Udege.

Mas o mais prestigioso museu é o das Artes:

Vista do museu a partir do Amur.


O prédio do Museu de Arte do Extremo Oriente também tem uma sala de concertos clássicos.


Canaletto, Ticiano, em... Khabarovsk .

A colecção do Museu inclui obras de Ticiano, Garofalo, Canaletto, do mestre russo llya Repin ou do heróico impressionista Karl Kahl.

Karl Kahl, Março

"Rebecca no poço", de Ticiano


Também exibe uma colecção de ícones eslávicos antigos, do séc. XV:




Um grande museu. No mesmo edifício, noutra entrada, situa-se a sala de concertos da Filarmónica de Khabarovsk.


Noite de concerto.

O Museu Arqueológico, de fachada de tijolo vermelho e cinza, típica construção desta zona, abriu em 1998; fica na rua Turgenev.


Talvez o mais importante da colecção sejam as figuras pre-históricas gravadas nas rochas do rio Amur, perto de Khabarovsk: os petróglifos de Sikachi-Alyan , classificados pela Unesco. Datam de 12 000 - 9 000 A.C. (neolítico) , alguns poderão ser ainda mais antigos.


São a única fonte de informação sobre os primeiros povos do Amur.


Este conjunto pré-histórico é uma das maiores atracções do Krai.

Uma réplica no Museu.


O Kremlin de Khabarovsk
(moderno)

O conjunto de templos ortodoxos é já deste século XXI, reflectindo alguma abastança pós-Queda do muro. Suspeito que face à China hereje houve que exibir a influência e o poder da Igreja Ortodoxa. A Catedral da Transfiguração é uma construção ostentatória e de pouco gosto - um 'mono'.

O Seminário Ortodoxo talvez seja mais conseguido, certamente bem situado, mas não tem História.

A  Igreja de Sto Inocente Veniamov (ou 'do Alaska') é de 2007.


E por fim,
Pôr do Sol no Amur:




Fim de viagem sonhado, um dia.


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O Trans-siberiano chegou a Khabarovsk em 1897; a importância da ligação ferroviária é evidente na dimensão e arquitectura da Estação. De certa maneira, foi nesse dia que 'tudo' começou. 


Embarque no Rossiya

Podemos retomar viagem, atravessando a ponte sobre o Amur:


Próxima paragem: Ussuriysk (por acaso foi o post anterior !)


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Há uma Khabarovsk suja, feia e miserável - basta afastarmo-nos para bairros periféricos. Essa não mostro aqui.
** do conde Muravyev-Amursky, Governador entre 1848 e1861; é ainda uma designação da época Czarista.

À noite há luz e som na praça Lenine  - as fontes são iluminadas, com as luzes a ´dançar' ao som da música.