quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Kristina Hammarström, uma mezzo para suceder à Joyce ?


Ainda não abundam gravações com a mezzo-soprano sueca Kristina Hammarström, mas do que tenho ouvido parece-me uma promessa para os próximos anos. Alguns exemplos:

1. Ao vivo com 'Se cresce un torrente', do Orlando Furioso de Vivaldi.



2. Vivaldi tem sido um dos compositores a que Hammerström mais se tem dedicado. Também dele, a ária 'Sol da te', com o Concerto de' Cavalieri, disco que já referi e tenho ouvido com frequência.


Sol da te, mio dolce amore,
questo core
avrà pace, avrà conforto.

Le tue vaghe luci belle
son le stelle
onde Amor mi guida in porto.


3. Magnífica Hammerström também numa das marítimas Sea Pictures de Elgar, a canção 'The swimmer' :

I would ride as never man has ridden
To gulfs foreshadowed through straits forbidden

...

Música ajuda sempre a refrescar do cansaço, que é muito, tudo cansa, não é ? mas a estupidez é o pior, cansa, desgasta, corrói.



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O Fogo e o Gelo, o desejo e o ódio


O Fogo e o Gelo, de Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favour fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

                                       Dizem que o mundo acaba em fogo
                                       Outros dizem em gelo.
                                       Por tudo o que sei do desejo
                                       Estou com quem escolhe o fogo.
                                       Mas se tivesse de morrer duas vezes
                                       Penso que conheço bastante do ódio
                                       Para dizer que na destruição
                                       O gelo tem grande efeito
                                       E seria suficiente.


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Mas concentremo-nos no fogo, para já. Ainda há tanto por fazer.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Homem Novo soft deste novo Orçamento.


Foi o mito de um Homem Novo que alimentou revoluções e ditaduras. Muitos filósofos - Heidegger, Gramsci, Adorno, Marcuse - sustentaram esse objectivo sem se darem conta ( ou deram ?) de que promovia regimes destrutivos do próprio Homem. Foi o desastre nazi e o desastre soviético, o da China maoísta e o da Cuba guevarista, e agora o desastre islâmico do Daesh/Isis. Também a Igreja católica prega o Homem Novo que advirá com a cristandade universal, tão carneiro no rebanho como qualquer dos anteriores. Desconfiemos, portanto.



A democracia moralista reinante na Europa e no Ocidente tem outra aproximação ao Homem Novo, mais soft, apoiada no "politicamente correcto" que nasceu do relativismo e do ecologismo. Diz-se igualitária, ecológica e social, mas não deixa de ser uma imposição estatal de um modelo de vida que culpabiliza como criminosos os que não cumprem, fazendo-os pagar caro nos impostos e na censura social.

O Homem Novo da moda actual, plasmado no nosso novo Orçamento de Estado, é ciclista ou usa transporte público não poluente, é vegetariano, magrinho e saudável, faz jogging, recicla cuidadosamente, compra no comércio justo, faz campismo de aventura; não fuma, não bebe, não consome açúcares nem comida processada; instalou energia solar para aquecer a casa e trata um cão exemplarmente como irmão animal, um igual. Não tem vícios, é completamente  insípido. E o regime gasta milhões em propaganda - revistas, TV, cartazes na rua - a apelar ao seguimernto do canon; para Homem Novo soft, um Big Brother soft.


Felizmente, a ficção dita "cientifica" e o cinema têm-se encarregado de divulgar outras imagens do Homem Novo que será o nosso futuro: mais ou menos o mesmo que agora ! Robotizado, informatizado, mas sempre fraco ou genial, criminoso ou herói, gordo ou magro - nunca carneiro.

O verdadeiro homem não está no futuro, não é um objectivo, um ideal a que se aspira; está aqui, no presente, existe mesmo: seja eu quem for, alegre ou enfermo, criança ou velho, confiante ou céptico, a dormir ou bem desperto, sou Eu. Eu sou o verdadeiro Homem.
                                                                                                                                              Max Stirner


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

De barco num dia de chuva aportei à ilha de Ons


Nunca tinha ido à ilha de Ons, ao largo das rias de Pontevedra e Arousa. Feita a reserva no último barco da época, no último domingo de Setembro, chegamos à "taquilla" de embarque numa manhã chuvosa. Da "taquilla" até ao cais foram mais de 500 m à chuva. No dia anterior (e no dia seguinte) o sol brilhava...

O 'Delfin Primero' chegou pontualmente.


O janelão da popa é o melhor posto de observação abrigado.

Zarpámos mar bravo adentro...


E 40 minutos depois encostámos ao cais de O Curro.


O Curro é o núcleo principal da ilha, onde se concentram a maioria dos serviços: restaurantes, alojamento, administração, correio e igreja. Perto ficam algumas aldeias, que no total alojam os 70 a 80 residentes.

Desembarcámos debaixo de copiosa chuveirada, que vinha soprada de vento forte. Correr pelo molhe a procurar abrigo...


Estamos na ilha.


Depois de secar a roupa e confortar o apetite na povoação, subimos o carreiro que leva às aldeias e aos trilhos pedonais da Natureza. A seguir a várias curvas ascendentes, lá de cima vê-se O Curro e o paredão.


Pinheiros esguios, que mais parecem mansos demasiado crescidos.

O caminho da falésia deve ser espectacular em dia de tempestade no mar:


Punta do Castelo.


A ilha tem 6 km de extensão e só dois de largura máxima. Para além da fauna e flora protegidas, as rotas de exploração sinalizadas são fáceis e curtas, o que faz deste Parque Natural um bom passeio ecológico para gente idosa.

'Retama' (cytisis insularis)

Seguimos um dos percursos que entra na cobertura vegetal, ora bosque fechado cheio de musgos, ora vegetação rasa de arbustos, ervas e fetos. Os arbustos mais frequentes são a camarinha, o abrunheiro, o louro e a endémica retama ou giesta de Ons (cytisus insularis).

As Ilhas Ons são um dos mais importantes Parques Naturais de Espanha. Pena que fora de Galiza, e mais ainda fora de Espanha, ninguém saiba da sua existência. Não há estradas porque não há automóveis, só bicicletas, motorizadas e uns (poucos) tractores que ajudam nas quintas. Nas bermas, vales e planaltos da ilha há bosque, e na costa uma ou outra praia, muito bonita, em estado quase selvagem.


O carvalho-negral é a árvore mais abundante. Seguem-se pinheiros e outras variedades de carvalho. Salgueiros (incluindo salgueiro chorão e salgueiro negro), amieiros e freixas concentram-se junto a fontes e regatos. Alguns, poucos, sobreiros.

Musgos.


Salgueiros.

Por instantes parecia clarear.

Bem abrigado da chuva, este ijhéu.

Zona de lazer, na 'Punta da Figueira Brava'.


De súbito, do meio do arvoredo surge a praia:


Area de Cans, uma areia muito branca e fina como em toda a ilha. Deve ser óptima com sol.

Areal extenso e em crescente.


E estava na hora do barco de regresso.


Mais gente no regresso do fim de semana.


Visitado mais um cantinho deste mundo admirável, com vontade de regresso num dia luminoso, até porque a visita foi confinada ao centro da ilha. Mesmo assim, valeu como experiência.

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Coisas que salvam a alma, segundo Silvertree


Já sigo há algum tempo o Silvertree, um blog português dos que valem a pena. Partilha com este meu Livro o fraquinho (enorme) por Londres e a admiração por Italo Calvino.

Desta vez comoveu-me com a Amora Madura: