domingo, 9 de agosto de 2020

Um salto às 'Outer Hebrides': a capela de S. Moluag


Aposto que ninguém tinha ainda ouvido falar deste santo. A estranheza começa pelo nome: tem origem em Luach, a que se juntou o Mo. Em antigo gaélico, foi Mhailaidh, A versão mais corrente é Saint Moluag ou Saint Moulag, mas há para todos os gostos.

Anyway: era um clérigo irlandês que transitou para o norte da Escócia no século VI, nos primórdios da cristianização. Os escoceses elegem-no como o primeiro dos seus apóstolos: criou paróquias e igrejas por toda a costa ocidental da Escócia, até se fixar na ilha de Lewis, nas Hébridas exteriores. Foi pelo que li um incansável missionário e ficou conhecido pelo apoio e carinho que dava aos doentes.

Restam só dois templos dedicados a S. Moluag; um na Irlanda e este que vou mostrar, muito longe no extremo norte da ilha de Lewis, e portanto de todas as Hébridas, na estrada B8013, à latitude de 58° 29' N (pouco falta 'subir' para as Faroé). Outro Finis Terrae.


Teampull Mholuaidh
Igreja de S. Moluag - Ness, Ilha de Lewis

É uma capela do séc. XII ou XIII, em Eoropie, a curta distância de Port of Ness. A localização não faz sentido - ali parece não ter havido senão prados verdes de planalto rodeados de falésias e praias. Hoje há povoados e um Parque, como veremos.



Recentemente restaurada, tem uma planta básica em T, com duas pequenas capelas laterais salientes do corpo principal.


As muito estreitas janelas - uma nas traseiras, duas sobre a capela lateral e apenas uma na parede lateral - dão origem a uma luminosidade interior diáfana, dizem.


A entrada lateral foi agora "embelezada" com uma cruz celta proveniente de Iona.



Mas a surpresa é maior no interior, com a débil luz das janelitas a convidar ao silêncio.



Só é permitida iluminação interior com candeia de óleo ou velas.



A brilhar sob a luz dourada do sol pôr:



Como estamos no Verão, parece adequado ir à praia; ora mesmo ao lado, para poente, existe uma bem bonita, provida de dunas que deram direito a um Parque - o Eoropie Dunes Park.

Eoropie (Eóropaidh), praia e dunas

Perto da povoação principal Port of Ness, mas na costa do lado oposto, há uma praia surpreendente, moldada por dunas, onde a cobertura verde vai dando lugar ao areal fino e dourado.

Poderá ser uma das mais belas do Norte da Europa; pelo menos tornou-se bastante atractiva, e tem havido vivendas a nascer ao longo da estrada B8013 - Eoropie é uma aldeia turística, já tem a sua tearoom.

Parece soalheira, mas a temperatura aqui é muitas vezes abaixo de zero!

E para terminar o dito Finisterra das Hébridas, o promontório Butt of Lewis , sobre o Atlântico Norte, quase sempre batido por forte ondulação e violentas marés, lugar de um Farol, o Butt of Lewis Lighthouse.



Nada mal para confinar na Natureza.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

' Ah! ergermi dove mortal, mortal non va! ', canta Marcelo Álvarez


Inesquecível, esta interpretação do tenor suíço Marcelo Álvarez de "La mia letizia infondere vorrei" (I Lombardi, Verdi), quer dizer, 'A minha alegria quero insuflar'.


Tante armonie nell'etere
quanti pianeti egli ha:
ah! ir seco al cielo, ed ergermi
dove mortal, mortal non va !


Ninguém mais foi capaz de tal brilhantismo. Muitas vezes cantou esta aria ao vivo Luciano Pavarotti, mas nunca assim, com esta convicção.

Plácido Domingo ainda se aproxima, mas nem esse:

domingo, 2 de agosto de 2020

Druids, Druse y Dryden - fascínio da leitura de e para Borges



Para um entusiástico leitor de enciclopédias como Jorge Luís Borges, o que seria navegar pela Wikipedia ou pelo Google? Talvez começasse por um deslumbramento, mas depois talvez vencesse o maior encanto de folhear um volume da Encyclopaedia Britannica, de preferênica a 10ª ou a famosa 11ª edição, ao acaso, por exemplo em De-Dr, e encontrar sucessivamente Druids, Druse, Dryden, como ele próprio declara a brincar (cf. 'Con Borges', em que Alberto Manguel recorda momentos do seu convívio com o escritor).

Dito pelo próprio Borges em entrevista;
"(...) Pude ler uma biografia de Dryden, sobre quem Eliot escreveu um excelente livro. De seguida, um longo artigo sobre os Druídas, e outro sobre os Drusos do Líbano, que acreditam na transmigraçãp das almas; e também lá se fala sobre os Chinese Druse, os Drusos chineses."(...) " Tudo numa só noite".

'Silly Season':
Vou imaginar que tinha esse volume De-Dr da Britannica à minha frente; talvez encontrasse algo assim:

Druid, member of the learned class among the ancient Celts. They acted as priests, teachers, and judges. The earliest known records of the Druids come from the 3rd century BCE. Their name may have come from a Celtic word meaning “knower of the oak tree.” Very little is known for certain about the Druids, who kept no records of their own.

Two Druids walking in the English countryside, 18th-century engraving. Hulton Archive/Getty Images

- Há um "renascimento Celta" na Bretanha, onde o culto dos Druídas tem forte adesão. César, o imperador romano, referia-se com respeito aos Druídas bretões !-

Druze, also spelled Druse, Arabic plural Durūz, singular Darazi, small Middle Eastern religious sect characterized by an eclectic system of doctrines and by a cohesion and loyalty among its members (at times politically significant) that have enabled them to maintain for centuries their close-knit identity and distinctive faith. The Druze numbered more than 1,000,000 in the early 21st century and live mostly in Lebanon, Syria, and Israel, with smaller communities in other countries. They call themselves muwaḥḥidūn (“unitarians”).

- uma das populações rebeldes na Síria de al-Assad foi a minoria Drusa. Este povo acredita também que existe uma vasta população Drusa na China (de que ninguém ouviu falar) e que um dia, juntos, Drusos e Chineses governarão o mundo! -

Dryden, John (born August 9, 1631, Aldwinkle, Northamptonshire, England — died May 1, 1700, London), English poet, dramatist, and literary critic who so dominated the literary scene of his day that it came to be known as the Age of Dryden (1660-1700).

     Happy the man, and happy he alone,
     He who can call today his own:
     He who, secure within, can say,
     Tomorrow do thy worst, for I have lived today.
     Be fair or foul or rain or shine
     The joys I have possessed, in spite of fate, are mine.
     Not Heaven itself upon the past has power,
     But what has been, has been, and I have had my hour.


                                                                            John Dryden
Mais ou menos isto:

            Feliz o homem, e feliz só ele,
            Que pode reclamar o dia como seu:
            Ele que, seguro de si, pode dizer
            Se amanhã for pior, hoje já vivi eu.
            Seja bom ou mau ou chuva ou sol
            A alegria que tive, ao invés do destino, aconteceu.
            Nem o próprio Céu sobre o passado tem poder,
            Pois o que já foi, já foi, e a minha hora pude ter.


John Dryden ficou para a eternidade como autor da Ode to Saint Cecilia que Handel genialmente musicou.

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Quanto ao livro de Manguel, é fraquito; embora tenha o mérito de descrever a sua experiência do tempo que passou com Borges, de que saliento os momentos que partilhou com Silvina Ocampo, o livro está minado por opiniões enviesadas e preconceituosas do autor. É pena, Borges merece melhor.
     
' Pero qué importa que sea falso si es hermoso.'
                                                           J. L. B.