quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Guimarães Jazz 2016, + Baldych & Lien Trio


Este ano o 'GuiJazz' traz no último dia dois concertos que prometem valer a pena:

Sábado 19 de Novembro

Pequeno Auditório / 17h00
Adam Bałdych & Helge Lien Trio, “Bridges

Grande Auditório / 22h00
Charlie Haden´s Liberation Music Orchestra
Com direcção de Carla Bley



http://www.ccvf.pt/

Gosto dos Adam Baldych & Helge Lien; "Dreamer" tem um alegre som celta, norte-da-Europa cool, que me agrada.



E este muito soft "Karina", com o violino em crescente ? 




Lá estarei.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Que horrível, ser alguém ! Que público, como um sapo...


I'm nobody ! Who are you ?
Are you nobody, too ?
Then there's a pair of us -- don't tell !
They 'd banish us, you know. 

How dreary to be somebody!
How public, like a frog
To tell your name the livelong day 
To an admiring bog !


Emily Dickinson

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Passeio de barco em Bruges


O retorno a Bruges não teve o mesmo impacto que a redescoberta de Gand. À parte a multidão e o número de lojas de chocolate artesanal que se multiplicaram, está na mesma, uma pequena jóia medievo-renascentista, com as suas frontarias de empena triangular em degraus, as muitas igrejas e museus, e os seus recantos pitorescos com ponte sobre o canal e vista da torre emblemática - o campanário cívico do Beffroi. A única novidade para mim foi ter dado a voltinha de barco que quase todos dão mas, da primeira vez, foi impossível devido ás filas. Em Setembro, às 17.30, já muita gente se tinha retirado e a entrada no barco foi directa. Wollestraat Brug (1357), mesmo ao lado do S. João Nepomuceno.


Canal Dijver - Oud SintJanshospitaal

Uma Loggia sobe o Dijver !

A história de Bruges como cidade importante começa depois das razias dos Vikings, pelo ano 1000, quando se torna cidade portuária. Contrói-se a muralha e o sistema de canais; sucedem-se os Condes a ocupar o Castelo; em 1114 uma maré violenta abre o canal Zwim ao Mar do Norte, e Bruges passa a ser acessível aos navios mercantis da Liga Hanseática pelo canal de Damme.



Minnewater, um reservatório (para além da lenda).


Génova, Veneza, Florença, Castela, Portugal e até a Escócia também abrem uma rota regular e os seus navios são visita frequente em Bruges. Começa a "guerra económica" das especiarias, dos tecidos, e a competição bancária ! Com o capitalismo em fulgurante ascensão, os séculos XII-XV são o apogeu de Bruges.


Mas no século XV o Zwim volta a assorear... o acesso ao mar é fechado, Bruges decai e já é uma vila pobre de província quando fica sob domínio espanhol.


Ponte atrás de ponte...



Estátua de Van Eyck, de costas.

De frente:
Vê-se uma Madonna encastrada na esquina a esquerda.

Regresso:

Muitas casas de Bruges têm a sua Madonna con Bambino, testemunho da forte presença italiana a partir do século XIV.


De novo, parecem as Cidades de Calvino: canais, pontes, janelas, jardins, estátuas...

Uma preciosidade. Só visto, ou pintado...



O postal mais visto.


Depois, fui ver a Madonna de Michelangelo.


segunda-feira, 19 de setembro de 2016

A nona de Mahler na Casa da Música


Passados seis anos do início da integral, a Orquestra do Porto / CdM programou finalmente a 9ª sinfonia de Mahler. É uma obra gigantesca, desvairada, estrondosa e de um lirismo absolutamente genial, um monumento em música para nos deixar entre o esmagadinho e o boquiaberto.


Mahler descreveu a execução da 9ª com expressões como "sombrio", "com a máxima violência", "com raiva", "como uma procissão", "docemente cantado", "apaixonadamente", "levitando", "morrendo". Sobretudo "morrendo", muito repetido na pauta. Quando a compôs, estava muito doente e desesperado com problemas - morte da filha, desavenças coma esposa, má vontade das instituições de Viena que lhe faziam a vida cada vez mais difícil. Sentia que o fim estava perto.

Nesta sexta-feira foi o estoniano Olari Elts quem dirigiu; já o tinha ouvido e apreciado, não podia perder este concerto; e foi mesmo imperdível, Elts tirou o máximo que a orquestra pode dar, sobre-dimensionada para cumprir as indicações de Mahler. O som foi muito potente, cheio, doce quando era caso disso, equilibrado e sedoso. No final, os pianíssimos executados com grande expressividade, fazendo perdurar os finos filamentos das cordas suspensos no espaço da sala. "Levitando". Mas também as quase cacofonias fragmentárias do 2º andamento ("desajeitado e muito grosseiro") soaram excitantes de dinâmica e contrastes, com a orquestra toda solicitada num ritmo diabólico.


Enfim, a 9ª é o adeus de Mahler, os últimos compassos parecem esvanecer-se lentamente na distância e no tempo como se fossem uma despedida. Que volte sempre.

Deixo Karajan no adeus final:




sábado, 17 de setembro de 2016

Gand (Gent), a gloriosa Manhattan medieval flamenga


Tenho de decidir: Gent, Ghent ou Gand ? pois será Gand, que a língua francesa é bem mais bonita que o arranhado neerlandês de Flandres. 'Gante', versão dita portuguesa, é muito feio. De qualquer modo, a etimologia é gaulesa, de Condate (=confluência), acentuada em 'Con', e não de origem germânico-flamenga. Gand fica na confluência do rio Lys (Leie) com  o Escaut (Schelde).

Cheguei a uma sexta-feira e o fim de semana foi mau. Suja, e com estaleiros e obras por toda a cidade - incluindo junto à ponte St. Michiels, na catedral, no cais Graslei -, apinhada de turistas que deixam rasto de papéis e garrafas, a primeira impressão foi de uma cidade em catástrofe, nada da bela Gand limpa, sossegada e ordeira que tinha conhecido em 1994... Como as cidades mudam !

Durante a semana, a invasão foi mais reduzida e as ruas limpas. Menos mal. Pouco a pouco Gand foi abrindo recantos de beleza que não tinha observado na primeira visita. Mas primeiro a sala de visitas:

À hora certa, com a luz certa, Gand é gloriosa. Korenlei à esquerda, Graslei à direita, castelo dos Condes de Flandres ao fundo: a vista da ponte de S. Miguel sobre o rio Lys é uma das mais românticas da Europa, a lembrar Praga.

Korenlei, a Rua do Trigo, talvez o mais bonito dos cais do rio Lys. Esplanadas a mais.

Do outro lado do rio, em frente, fica Graslei, a Rua das Ervas; era aqui o antigo porto medieval, que fui encontrar parcialmente 'escondido' com obras, andaimes e guindastes, e pejado de guarda-sóis. Era assim, quando o vi em 1991:

As casas relacionadas com o comércio portuário (de 1200 a 1600): o Armazém de Grão, ao centro (séc. XIII), depois o pequenito Posto Fiscal, a seguir a Casa dos Pesadores de Grão (1435) com o "Big Ben" por trás, e a linda Guilda dos Barqueiros Livres à direita.

Desta vez fotografei detalhes:

A casinha fiscal onde Gand cobrava as taxas portuárias e alfandegárias.

Casa da Guilda dos Barqueiros Livres (Francs-Bateliers).

Muito ornamentada renascença flamenga, de 1531.

O emblema dos Barqueiros sobre o portão.

Gand não deixou de ser cidade portuária: actualmente o porto fica a Norte da cidade, comunicando com o mar por um canal de 32 km, construído no século XIX, cujos 200 m de largura permitem a navegação até ao porto e Terneuzen, no Mar do Norte.

Mas neste regresso dei mais tempo a outros atractivos: a zona residencial e boémia de Prinsenhof, as béguinages, o núcleo histórico de Patershol, e deambular à noite pelos cais do rio Lys, para um último café. E já não fui rever os Van Eyck que não aprecio por aí além. Preferi "viver" as ruas e as vias de água. A vida de Gand desenrolou-se sempre à volta dos rios e dos canais, até o Castelo dos Condes lá foi edificado:

O castelo dos Condes de Flandres, Gravensteen, uma as "top-attractions", mas de facto uma arquitectura única que vale a visita.

E também o Mercado do peixe:

Agora funcionam no edifício um restaurante e o Posto de Turismo.

Um dos mais pitorescos recantos da cidade.

Foi assim junto à água que Gand cresceu quando era porto de mar (Portus Ganda), quando a indústria dos tecidos e da cerveja - chegou a haver umas centenas de destilarias - transformou a cidade num inferno tal que foi baptizada por um médico inglês como a "Manchester do continente": cheiro nauseabundo, fumo irrespirável, o rio transformado em esgoto...

E é assim agora pela monumentalidade da frente urbana à volta dos cais fluviais. A verdade é que, também pelo passado industrial de grande urbe nos séculos XIX-XX, Gand tem um carácter que me agrada ainda mais que a pitoresca, bonita, pequena Bruges.


A réplica do 'Big Ben' foi construída pelos ingleses em 1913 para uma Exposição Mundial.


A Manhattan da Flandres

"One of the finest views of a medieval skyline in the whole of Europe", escreveu um visitante.


O piloto do barco turístico usou a expressão "Manhattan da Flandres", certamente repetida dezenas de vezes por dia. Mas faz algum sentido: o perfil das torres e agulhas góticas vistas da ponte Sint-Michiels permite a alusão. E é muito melhor assemelhar-se a Manhattan que a Manchester !

É indispensável o passeio de barco, que não tinha feito há anos e agora me deu uma visão mais adequada das várias fases que a cidade viveu.


Passeio de barco

O embarcadouro é em Korenlei, não há fila, parte em 5 minutos.

Predikherenlei, rua dos Pregadores, um ponto de encontro e de descanso. Detalhe:

Fachada neo-gótica do antigo posto dos Correios.

O que faz uma cidade: pontes, canais, barcos, torres, janelas, esplanadas... parece um conto das Cidades de Italo Calvino !

Também qualquer coisa de Veneza, claro.

Dolce far niente, em Gent. 




A florescente indústria de panos deixou uma herança marcante. Enquanto Bruges vive de um turismo de lojinhas de chocolate aos milhares, Gand trabalha e estuda, tem uma dimensão culta e cosmopolita, mais moderna para o bem e para o mal; ser cidade universitária ajuda muito.

Cá está o passado industrial, fonte de ar sufocante e água pestilenta.


O Rabot (1491), a Porta fortificada que resta da muralha que protegeu a cidade. Servia também de fecho para canal Lieve, em tempo de cheias.


O quarteirão Prinsenhof

Pontes é o que não falta, canais obrigam.

Perto do Rabot fica o bairro de Prinsenhof, tal como a antiga Béguinage de que já dei notícia.

É uma área muito tranquila de ruas pedonais ou de trânsito reduzido, onde uma vez por ano acontece uma feira da ladra, a Portobello local, com jazz ao vivo e uma multidão de Gantenses (?) a gozar o sol do domingo.



Sint-Antoniuskaai, 'far from the madding crowd' mas ainda no coração da cidade.

Voltando ao centro: estas são duas das casas mais bonitas de Gand, com a tradicional empena triangular (rococó) de frente para a rua, em Patershol.


Anno 1669.




Também a Arte Nova tem os seus bons exemplares:



Finalmente, as vistas do alto - uma do Beffroi / Belfort , outra do Castelo:





Adorei reviver Gand. É uma festa arquitectónica para os olhos. Cidades assim preenchem a pulsão urbana que sempre tive, mas não sei se gostaria de lá viver, talvez não, agitação a mais. Para viver prefiro cidades como Bath, de beleza mais sóbria e elegante, mais acolhedora como um berço. Ou Ravenna.

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A seguir, Gand à noite - um dos poucos sítios urbanos do mundo onde é um prazer tranquilo desfrutar a cidade a partir do sol posto.