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domingo, 23 de setembro de 2018

Porque vou deixar de viajar de avião


Os aeroportos tornaram-se lugares de horror, o verdadeiro abominável 'mundo novo' em todo o seu esplendor de inferno. E isto desde que, claro, vieram as low cost. Massificar é estragar, já se sabe - as coisas melhores são as que só estão ao alcance de alguns. Sempre será assim.

Ainda me lembro da expectativa alegre de voar numa companhia nacional - Swissair, British Airways, KLM, Alitalia - quando a chegada ao aeroporto marcava o início da aventura. "Já me sinto em férias", pensava, e dizia, mal tinha o check-in feito e me encontrava naquele lugar de fantasias e ilusões. Não havia multidão? Havia, sim, gente de todos os cantos do mundo, com as suas pastas, malas cheias de autocolantes, vestes exóticas. O que não havia era aflição, atropelos, angústia, bruteza; receio de não chegar a tempo, de que o voo não partisse, de que a porta de entrada estivesse a meia hora a pé, angústia de não poder fumar nas próximas oito ou dez horas, daquele bruáuá, daquela iluminação excessiva, daquela clausura. Não se passava as horrendas, feias máquinas que devassam as nossas malas para logo desaguar em infinitos zig-zagues de corredores de duty-free, uma visão de inferno na forma do consumismo mais inútil, supérfluo, feio, idiota, gigantesco. E depois, corredores infindáveis de lojas e luzes e montras e balcões e assentos para comprar e comer, comer e comprar - tudo o que há de pior !


Dezenas de fast-food e cervejarias onde qualquer coisa com batata frita e ketchup é servida às centenas; dezenas de montras super-iluminadas de relógios que já poucos compram, malas, malinhas e maletas, camisas e fatos, sempre alternando com mais um balcão de pizza, seguido de joalharia, telemóveis, artigos electrónicos disparatados, chocolatarias, mas isto durante quilómetros de barulho e atropelos - há gente que leva tudo à frente, elefantes com trolley - e ainda as vozes no altifalante a dar notícias de partidas e voos cancelados, greves, pessoas em falta na porta de embarque, alterações no número da porta, 'não deixe as suas bagagens abandonadas', e não há um cantinho onde me sentar em repouso ! Talvez umas quatro cadeiras, sempre ocupadas, de resto só me posso sentar para comer ou beber. É um imenso shopping, mas obrigatório, imposto, aberrante, alucinado, quando este meu desgraçado ser só anseia por levantar voo. Não há já fantasia nem sonho que resistam, é uma via sacra sofrida até à Gate #  onde a espera pode ainda ser de horas. Para 2 ou 3 horas de voo, há outras tantas de aeroporto. Já não há rapidez no transporte aéreo. De combóio, pode-se atravessar a estação em minutos até entrar na nossa carruagem. Nos aeroportos, apresentamo-nos voluntariamente para duas ou três horas de massacre.


E há dois tipos de massacre. O 'standard', mínimo, que já descrevi, e só não existe em pequenas jóias como o aeroporto de La Rochelle, bem haja, um lugar ainda humano. E o especial, com brinde, que é o massacre do voo atrasado ou cancelado, ou da porta de embarque A1 que mudou para D23. Noutros tempos, funcionários afáveis e preocupados vinham-nos consolar e acalmar, às vezes com compensações. Agora gritam numa voz plástica, robótica.

E se isto em vez de acontecer uma vez à ida e outra à volta, acontece a meio também numa escala de voo ? Escala onde se julgava ter 2 horas para trasbordo mas o atraso reduziu a folga a 15 minutos com risco de perder o voo de ligação? E depois o próximo voo só com mais 4 horas de espera? Ou se, entrado no avião, os seus lugares estão ocupados e agora tem de se sentar lá para trás, por necessidades da companhia ? E se nas toilettes só há papel no chão - toalhetes e papel limpo já acabaram? E ainda se grama a gritaria das vendas a bordo com fantásticas promoções, as raspadinhas e tudo o mais que impeça de ao menos tirar uma soneca.


Bom, faltam as duas últimas torturas. Uma é a recolha da bagagem. Nalguns aeroportos nem funciona mal: mas em regra teremos de fazer 5 km em corrida pelos corredores à saída do avião para, chegados à sala dos tapetes rolantes com as bagagens, descobrir que o nosso é o nº 9 ( de um total de 9) e ainda falta mais um bom esticanço, e quando lá chegamos a nossa já é a única que anda ali abandonada às voltas... pois bem, ainda falta outra aventura épica: a fila para o táxi !! Sobretudo se já é de noite e chove, esta é uma sobremesa requintada. Porque para 200 pessoas em fila, eles chegam a conta-gotas, de 10 em 10 minutos. Há outros? Há, mas são muito mais caros, ou são de seriedade duvidosa. Quando, perto da uma da madrugada, chegamos ao hotel ou seja lá o que for, só queriamos estar na nossa casinha. Foram dez - dez ! - horas de viagem, só duas e meia em voo, a aventura está morta e enterrada. Vamos dormir pouco e mal, amanhã não será um novo dia como devia ser.

Não, não estou a inventar, tudo isto e pior já me aconteceu. Em Tours, em Stansted, em Hamburgo, em Copenhaga, em Bristol, em Luton... Não, isto já não é para mim, se calhar por ser velho. Tenciono só arriscar viagens de combóio ou quando muito de barco com partida da minha cidade. E mesmo assim, se tiver de usar táxi, não me livro de grande seca, porque é outro transporte que cada vez mais se parece com uma travessia do Letes. Chiça, que tormento.

Ah, a mitologia da Viagem, a magia da Viagem. Foi-se.

A ler : António Guerreiro na Estação Meteorológica:
https://www.publico.pt/2018/08/17/culturaipsilon/opiniao/low-cost-e-luta-de-classes-1840998

terça-feira, 27 de março de 2018

Portugal prefere respeitinho pela protoditadura de Putin


São até agora 20 os países europeus que condenam os abusos de Putin com medidas diplomáticas. Além desses, Canadá, Austrália e Estados Unidos também alinharam.

Os atrasados mentais que nos governam não perceberam que Portugal opta por estar fora desse mundo civilizado, aliando-se à ralé de paises atrasados ou de (semi)ditaduras ?

O Sadam russo e o seu Tariq Aziz

É preciso procurar para encontrar paises democráticos que NÃO tenham tomado medidas contra a intervenção russa no Reino Unido.

Unidos estiveram Alemanha, França, Polónia, Lituânia, República Checa, Dinamarca, Holanda, Islândia, Itália, Espanha, Irlanda, Croácia, Estónia, Finlândia, Roménia, Hungria, Suécia, Letónia, Noruega, Ucrânia e até a Macedónia e a Albânia !!

Esta é a minha Europa. Portugal, com a Áustria, a Sérvia, a Grécia e a Bulgária, faz parte dos cobardolas. Não é de agora. Têm uma tradição de demissão face aos desafios internacionais. Mas é curioso que destes países fazem parte ou regimes de direita radical, ou regimes socialistas !

O que está em causa é 1º) o uso de uma arma química num país Europeu. 2º) O abuso sistemático da Rússia forçando os limites de tolerância (sobrevoos com bombardeiros, desrespeito pelas fronteiras, um submarino na Suécia, abate do voo da Malásia sobre a Ucrânia). 3º) Um regime corrupto de protoditadura, com perseguidos, presos e torturados políticos.

Sr. Augusto Santos Silva, 'brilhante sociólogo', ainda "está a pensar"? Tenha vergonha. Só mostra quanto depende do CES/UC do Sr. Boaventura e dos geringonças.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

I don't believe / Não acredito


John Lennon:

I don't believe in Bible
I don't believe in Tarot
I don't believe in Hitler
I don't believe in Jesus
I don't believe in Kennedy
I don't believe in Buddha
I don't believe in Mantra
I don't believe in Gita
I don't believe in Yoga
I don't believe in Kings
...

Sábio Lennon ! (esqueceu-se do Corão, contudo).
Mas a lista tem crescido muito.
Eu...

Não acredito no Facebook
Não acredito no Twitter
Nao acredito no Youtube
Não acredito em Hollywood
Não acredito na CNN
Não acredito no Guardian
Não acredito no Le Monde
Não acredito no Público
Não acredito em ONGs
Não acredito no Papa
Não acredito no FBI
Não acredito no Assange
Não acredito no Michael Moore
Não acredito em Putin
Não acredito em Trump
...


sábado, 28 de janeiro de 2017

Pós-verdade, multiculturalismo, Hollywood, o afro-xunga de Bonga e os B Fachada.



Público, 27/1/2017

Esta fez-me rir, durante o regresso de Lisboa no Alfa.

Fala-se bastante das pós-verdades e verdades alternativas, mas são sempre os "outros", políticos ou jornalistas/comentadores, que caem nesse crime de opinião, nunca somos nós. Ora as piores mentiras que se querem fazer passar por verdade estão acima desse patamar - são culturais, para não dizer civilizacionais. Quase se resumem nisto: 1. Passar por arte, ou "património cultural", o que é "lixo cultural", e 2. Negar ou desvalorizar a História como único critério de seriedade no discurso.  Esta maneira de pensar teve origem na antropologia, que introduziu os conceitos de "verdade relativa" - cada cultura tem as suas "verdades", nenhuma é superior, a História é escrita pelos mais fortes, etc. - e no famoso multiculturalismo que prega a igualdade de tratamento a todas as culturas, sem hierarquias.

Esses pressupostos ditos "pós-modernos" trouxeram a valorização de lixo como se cultura fosse, do vale-tudo histórico, e do discurso "povero", andropóide e cheio de ícones que prolifera nas redes sociais como se fosse opinião. E vai até ao ruído do hip-hop e do afro - que não passa de palavreado social sobre batucada em dois ou três acordes básicos - como forma de música de vanguarda e de consciência, poética até !

Neste caso "povero" não quer dizer pobre de recursos: a burguesia "artística" de Hollywood é um dos exemplos mais tipicos destas atitudes. Está na frente de combate contra a administração agora eleita, mas não há classe mais burguesa, mentes mais cretinas e nível artístico mais baixo que essa tropa de actores/realizadores/produtores riquíssimos que se fazem passar por intelectuais com "consciência social"; os modos de vida e a sociedade tribal de que fazem parte são do mais fútil e medíocre, e isso nota-se nas realizações cinematográficas perfeitamente indigentes - imbecis mesmo - que se apresentam nos écrans ano após ano. Não se faz por ali cinema como arte, de há muitos anos para cá, desde o inicio do século pelo menos. Só entretimento, cenas de terror apocalíptico e panfletos de pós-verdade. Que autoridade têm esses para criticar ou se distanciar do sistema ?

Mas também não existe Arte nem Cultura (com C) na música e na criação plástica que se vai produzindo. É tudo simultâneamente feio, kitsch e comercial. As grandes 'novidades' como o hip-hop já referido ou o novo-kitsch de Björk ou o gosto parolo de Jeff Koons e Joana Vasconcelos são coisas palavrosas, coloridas, vistosas, apelando ao imediato do cérebro reptiliano, mas sem matizes nem harmonias nem conteúdo. De Arte só resta, talvez, alguma arquitectura que ainda se norteia pela beleza e imaginação - elegância, harmonia, estrutura funcional integrada no espaço.

Vamos ao que me fez rir, a tal pós-verdade cultural : tem a ver com tudo isto do multiculturalismo e das verdades alternativas. Era no Público de sexta-feira, um artigo central de 2 (DUAS) páginas com foto gigante sobre a genialidade de Bonga e os B Fachada. Em várias colunas laudatórias atribuem-se adjectivos como "tesouro", e cito um dos melhores parágrafos:

         "Bonga e B Fachada [...] estarão juntos na Galeria Zé dos Bois, a associação cultural lisboeta que é desde há muitos anos pólo fundamental, dinamizador, da vida musical e artística da cidade (o concerto está marcado para as 22 h e a lotação está esgotada)."


A GZB, como Mário Lopes abrevia, deve então figurar em todos os roteiros de arte da humanidade culta ! Os grande da música e da arte já por lá passaram ? Por exemplo Arvo Pärt, Phillip Glass, Joyce Didonato, Anselm Kiefer, Hodgkin...

Ah não, não, não é "essa" cultura.

O senhor M. L. que escreveu o artigo não se deve dar conta do disparate, da falsidade alternativa, da perversão de critérios de cultura, e até de jornalismo, que se reflectem na sua prosa. Está integrado no sistema de mentira mediática. Toma lixo por arte. Está prisioneiro da pós-liberdade.


Desenho de Jean para o Le Point.


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P.S. Não vou falar em detalhe do concerto de András Schiff na Gulbenkian, que foi decepcionante. Não tanto pela orquestra Cappella Andrea Barca, que tocou lindamente, com o som bonito, fluente e coeso de grandes músicos, mas sim pelo próprio Schiff, que de tudo querer - solista no piano e director de orquestra - tudo perdeu. Uma permanente distracção e movimentação corporal entre as duas funções resultou em mediocridade, sobretudo ao piano, com interpretações dispersas, desinspiradas, vulgares, secas, quase robóticas. Deixo de ser "cliente" deste Schiff.




terça-feira, 17 de novembro de 2015

Death, thou that comest cowardly in the night


Death, be not proud, though some have called thee
mighty and dreadful, for thou are not so.

Death, thou shall die.

                                         John Donne, Holy Sonnet 10