terça-feira, 31 de agosto de 2010

com uma Flor

A eternidade não passa de um momento de magia -

âmbar puro, a tua voz amiga, riso de água nascente, tu em Flor -

Doubt thou the stars are fire,
Doubt that the sun does move,
Doubt truth to be a liar,
But never doubt I love.

domingo, 29 de agosto de 2010

Iole, princesa da Oechalia

Ária My breast with tender pity swells (Hercules) , de Händel

Ingela Bohlin, soprano
Les Arts Florissants, William Christie



Iole

My breast with tender pity swells
At sight of human woe;
And sympathetic anguish feels
Where'er Heav'n strikes the blow

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Estação belga no extremo Sul

A estação Princess Elisabeth, ao norte da Antártida.

Coordenadas 71° 57’ S, 23° 20’E

A estação belga Princesa Elisabeth foi inaugurada a 15 de Fevereiro de 2009.

É a primeira com "emissão zero", trabalhando totalmente a energias renováveis - solar e eólica. Constitui um modelo de estação para o futuro próximo, e marca o regresso da Bélgica à aventura polar.

Foi pré-fabricada e testada em Bruxelas, e depois transportada por barco até às terras da Raínha Maud, na Antártida. Construída em madeira e revestida a aço, a estrutura brilha ao sol com fulgor.

http://www.antarcticstation.org/

A estação, planeada e construída com especiais cuidados, oferece um inédito grau de conforto.

Utsteinen, aldeia de tendas

O sítio onde se localiza a estação era já povoado por um acampamento científico junto ao nunatak (*) de Utsteinen, numa pequena e plana zona de granito, que desponta da neve.

O pub local

A "Princesa Elisabeth" à luz do sol polar

http://homepages.ulb.ac.be/~fpattyn/belgianbase/welcome.html

(*) Nunatak é um pico exposto a descoberto num campo de neve ou gelo.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Had I the heavens


"As sedas bordadas do céu"
Grato a Carlos Pires do Dúvida Metódica, que me forneceu a tradução de Miguel Esteves Cardoso de um dos "poemas da minha vida":

He Wishes For The Cloths Of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

                                                     William Butler Yeats


Tradução de Miguel Esteves Cardoso:

Se eu tivesse as sedas bordadas do céu,
com baínhas de luz, de ouro e de prata,
as sedas azuis e sombrias e escuras
da noite e da luz e da meia-luz,

deitava-as todas aos teus pés.
Mas eu sou pobre e só tenho os meus sonhos.
Deitei-os todos aos teus pés.
Pisa com cuidado,

é nos meus sonhos que estás a pisar.


domingo, 22 de agosto de 2010

O mar, esse grande escultor

Se o tempo linear flui como um rio, o tempo cíclico é recorrente como o mar. Fluente ou recorrente, vai esculpindo formas, deixando marcas.

Rochedos, testemunhos da passagem do tempo.

O mais belo youtube de sempre

Eu votava neste. O dueto La ci darem la mano, do D. Giovanni, por Lucia Pop e Thomas Allen em estado de graça, numa perfeição de canto e gesto como nunca (ou)vi, inebriantes de paixão de fazer ópera.

Criação e interpretação conjugadas numa obra-prima intemporal - Mozart, quem mais?



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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Posts de Verão:

Mar, rochedos e pocinhas

Praia, para mim, é isto: ver as ondas chegar, molhar os pés, andar pelos rochedos, pisar o musgo húmido e as pocinhas cheias de mistério, onde caranguejos, camarões, minúsculos peixes, variedade de moluscos e algas compoem um microcosmos marinho onde também se pode viajar e sonhar.

Areal sem rochedos, não, obrigado.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Posts de Verão:

pôr do sol, hoje



O Stars and Dreams and Gentle Night;
O Night and Stars, return!
And hide me from the hostile light
That does not warm, but burn;

Emily Dickinson

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Posts de Verão:

Saltburn, uma praia do Mar do Norte

Passei há poucos anos em Saltburn-by-the-sea, durante uma visita ao Yorkshire. Saltburn é uma estância balnear vitoriana, cujo maior atractivo é o funicular que liga o alto da falésia à praia e a um dos mais antigos "piers".

Curiosamente, o funicular é o 2º mais antigo da Europa, depois do nosso da Nazaré, e de concepção muito semelhante, à base de pressão de água. Encontra-se num estado impecável, como novo.

Saltburn foi na época vitoriana a mais procurada e reputada estância do nordeste inglês.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Hildegard von Bingen

Possivelmente, o mais antigo compositor conhecido é ... uma mulher. Hildegard von Bingen (1098 – 1179) foi uma monja beneditina, polímata e visionária; escreveu música, pensamentos, livros de teologia, botânica, medicina...

Hildegard ditando uma visão para o escriba

Um exemplo de mulher “homo universalis”, como se classificavam no humanismo renascentista pessoas como Da Vinci. Percorria o vale do Reno de mosteiro em mosteiro, pregando, narrando as suas visões ( também não regulava bem... julgava ter poderes curativos, e escreveu um livro sobre isso!) e estudando sempre tanto a natureza como a alma humana. Dedicou-se ainda à iluminura, cuja feitura supervisionava.

Homo Universalis, do Liber Divinorum


Eleita magistra pelas freiras em 1136, fundou mosteiros e foi virtuosa compositora. Escreveu mais de 72 cânticos e hinos; a obra máxima é Ordo Virtutum, exemplo de drama litúrgico ou teatro moral, o único drama em música medieval que sobreviveu até hoje completo (texto e música).

Ordo Virtutum canta a luta por uma alma humana (Anima) entre as Virtudes e o Demónio. São melodias monofónicas, em cantochão.

Hildegard von Bingen - Kyrie Eleison



Hildegard of Bingen, Spiritus Sanctus

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Perseidas , lá vêm elas !


Aí estão as estrelas cadentes /2010. Noites de 11, 12 (máximo) e 13, a partir das 22h00, na constelação de Perseu.

Dizem que vai ser um bom ano, sobretudo devido à Lua, que não se vê porque se põe muito cedo (ao pôr do sol), e a uma média de 50 meteoros por hora ( a maioria invisíveis a olho nu).

sábado, 7 de agosto de 2010

Fotos de férias terapêuticas

Caminhe, disse ele. E neste princípio de Agosto, não vou a lado nenhum que meta avião, malas, trasbordos, escadarias... passo os dias de lazer em dolce far niente alternado com duas caminhadas de 2 km. E, claro, belas almoçaradas dentro e fora de portas, uma bela sesta na hora da canícula, horas de leitura e de música ... e fotos.

Ah, a minha varanda!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Aventura Maravilhosa

Ler e Reler

Dos livros de Aquilino Ribeiro, este é o que li mais tardiamente mas também um dos que mais gostei. É uma ficção histórica sobre o sebastianismo - a saga de D. Sebastião após Alcácer Quibir, vendido como escravo para casa de um argelino rico, onde vive a italiana Lela Bianca que cai de amores por ele.

A escrita de Aquilino é riquíssima e saborosa de ler como sempre; mas desta vez ainda acresce uma prodigiosa imaginação ficcional: não queremos que chegue ao fim aquela aventura maravilhosa.

Uma recomendável leitura de férias. Os primeiros parágrafos, descrevendo a batalha:

D. Sebastião carregou à testa dos seus barões. Vestia armas azuladas, o elmo com que seu avô Carlos V entrara em Tunes, e montava o Pérsio, de mãe que diziam ter alcançado do vento, corredor tão ligeiro e de bom andar que passava na areia sem deixar o sinal das ferraduras. Acaudatavam-no doze pajens com outros tantos cavalos de raça, do mais estremado que aparecera por feiras e coudelarias.

Já a essa altura o terço dos aventureiros, capitaneado por Álvaro Pires de Távora, voltava da primeira refrega com os ginetes de Mulei Ahmede. De armas falseadas uns, gotejando sangue muitos deles, o turbilhão do recuo envolveu a manga dos tudescos, de tal jeito que deixou de se ver o seu balsão quarteado de preto e amarelo flutuar aos ventos da batalha. Debalde Martim de Borgonha, levado no roldão, vociferava em castelhano:
- hombres, verguenza!
A desordem ganhava a picaria à retaguarda. Entretanto os arcabuzeiros italianos eram britados sob o peso da cavalaria moura e o fogo dos seus mosquetes, Mas os aventureiros, protegidos pela infantaria de Tânger, tornavam á carga contra os elches. E a sua bandeira, duas pirâmides de ouro em fundo verde, viu-se de novo voejar por cima do mar humano, ora trémula, ora ovante, conforme os sacolejões da avançada. Saiu-lhes, porém, de face e de flanco tal poder de inimigos que as suas cinco filas flectiram e foram rotas. Depois de rotas, desfeitas, e não quedou mais que uma meia dúzia de combatentes de pé a afrontar a mourama com a raiva e o desespero de quem não tem melhor recurso do que vender cara a vida.

Quando por sua vez a cavalaria do duque de Aveiro se lançou ao ataque, o corpo de batalha dos cristãos dobrava em toda a linha. Muito provada do tiro à espera que dessem Santiago, mortos ou postos fora de combate os espingardeiros em que devia estribar-se, quebrantada de moral pelo que via, mesmo assim o seu arranco causou grande estrago no inimigo. Mas faltou unanimidade ao rompante e força foi à vanguarda virar de rèdea, vindo atropelar em seu espavorido refluxo espanhóis e romanos. O duque perdera-se na investida. Incurvado na sela sobre a pesada lança, de caradura torva à frente do pelotão, lambuzado de sangue, abrira grande clareira nos africanos. Tombou com um pelouro que lhe abriu corredor do umbigo para as costas depois de trespassar o broquel.

Tentaram ainda uns tantos cavaleiros refazer a frente desbaratada. Tolheram-se com os atiradores a cavalo de Mohâmede Taba, renegado genovês, que avançavam num assopro, até poder plantar o tiro, e num assopro retiravam a recarregar as escopetas. O mestre-de-campo-general, que atirara os fronteiros de África para a artilharia inimiga, embora não chegasse a pôr mão em seus camelos e colubrinas tonitruantes, voltava depois de apresar um estandarte. Mas, ao mesmo tempo, no centro e no couce do quadrado os terços baralhavam-se com gastadores e carriagem. Em seu desmancho, os soldados, quase todos eles bisonhos, lançavam armas por terra e ofereciam pulsos aos grilhões. Caíra já Aldana; Stuckley; D. Alonso de Aguilar com um rugido na boca:
- ao inferno vá direito quem vira a cara !
Caíra o bispo de Coimbra, de estoque em punho; António de Sousa, filho do governador da Casa da Suplicação, quinze anos, imberbe, sem elmo, de rosto aos janízaros; o barão de Alvito, entrando os mouros com o fez dum turco nos dentes, como lobo; o ancião D. Garcia de Meneses que, derribado da montada, teve ainda alma de arrancar o alfange das mãos dum azuago e embainhar-lho no ventre. Desaparecera Sebastião de Sá jogando-se ao inimigo com chibança à voz desastrada de ter:
- o meu cavalo não sabe voltar!
Caíra Simão de Meneses com um estandarte sarraceno enrolado no braço; Gonçalo Nunes Barreto, de espada ao alto a pingar sangue; D. João da Silveira, morgado da Sortelha; D. Rodrigo de Melo, duma virotada, quando tirava a borracha da boca; Manuel Quaresma, vedor da fazenda, e o filho João; D. Álvaro de Melo, dum tiro de bombarda; D. Lourenço da Silva, regedor da justiça, dum tiro de escopeta em pleno peito; Pedro de Mesquita, bailio de Leça, que comandava a artilharia; e quatro, nada menos, dos cinco irmãos Meneses, da casa de Louriçal, bravos e unidos como os quatro irmãos Aymon.

A calmaria era insuportável. Recalcada pelo céu de canÍcula contra o solo, uma nuvem de pó e cinza, a cinza do feno e panasco que africanos e cristãos haviam queimado à compita pela várzea para que não houvesse empeço à manobra, sufocava os combatentes. O fragor da luta e a gritaria dos mouros, sobretudo, eram de ensurdecer. Não se percebiam as vozes de comando.


Aquilino Ribeiro, Uma Aventura Maravilhosa, Bertrand, 1985