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sábado, 20 de agosto de 2022

Tecla, a cidade de Calvino que nunca acaba, como o Universo


[tradução minha]

Quem chega a Tecla, pouco vê da cidade, por trás dos tapumes de tábuas, as protecções em tela de saco, os andaimes, as armações metálicas, as pontes de madeira suspensas por cabos ou apoiadas em cavaletes, os escadotes, as treliças. E à pergunta: “Porque continua a construção de Tecla assim tão demorada ?” – os habitantes, sem parar de içar baldes, de largar fios de prumo, de mover para cima e para baixo longas trinchas, “Para que não comece a destruição”, respondem. E questionados se temem que mal os andaimes sejam retirados a cidade comece a rachar e a cair em pedaços, reagem muito depressa, em surdina: – “E não só a cidade”. 

Se, insatisfeito com as respostas, alguém se aplica a espreitar pela frincha de uma vedação, vê gruas que levantam outras gruas, andaimes que revestem outros andaimes, traves que escoram outras traves. “Que sentido faz o vosso estaleiro?”, pergunta. “Qual é o fim de uma cidade em construção se não uma cidade? “. “Onde está o plano que vocês seguem, o projecto?” “Mostramos-te assim que o dia termine; agora não podemos interromper”, respondem. O trabalho cessa ao pôr do sol. Cai a noite sobre o estaleiro. É uma noite estrelada. “Aí está o projecto”, dizem.

 

Chi arriva a Tecla, poco vede della città, dietro gli steccati di tavole, i ripari di tela di sacco, le impalcature, le armature metalliche i ponti di legno sospesi a funi o sostenuti da cavalletti, le scale a pioli, i tralicci. Alla domanda: “Perché la costruzione di Tecla Napoli continua così a lungo?”- gli abitanti senza smettere di issare secchi, di calare fili a piombo, di muovere in su e in giù lunghi pennelli – “Perché non cominci la distruzione, rispondono. E richiesti se temono che appena tolte le impalcature le città cominci a sgretolarsi e a andare in pezzi, soggiungono in fretta, sottovoce: – Non soltanto la città.

Se, insoddisfatto delle risposte, qualcuno applica l’occhio alla fessura d’una staccionata, vede gru che tirano su altre gru, incastellature che rivestono altre incastellature, travi che puntellano altre travi.- “Che senso ha il vostro costruire?-domanda .-Qual è il fine di una città in costruzione se non una città? Dov’è il piano che seguite, il progetto?” – “Te lo mostreremo appena terminata la giornata; ora non possiamo interrompere” – rispondono.Il lavoro cessa al tramonto. Scende la notte sul cantiere. E’ una notte stellata. “Ecco il progetto” – dicono.

Nunca nada está acabado neste mundo, nem com a morte. Toda a obra é obra em progresso, para onde? para quê? está escrito nas estrelas, mas não sabemos ler a resposta.

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Grato ao Biblioteca na Floresta por me relembrar este conto de Calvino

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

O Estreito da Dinamarca - mar bravio, a maior catarata do mundo, e uma trágica batalha naval


O estreito de 280 km entre a Islândia e a Gronelândia é mal afamado; mares revoltos e bravios conjugados com nevoeiros espessos fazem dele um sítio a evitar pela navegação. Alistair Maclean faz dele uma boa descrição num dos seus contos:

" Ao longo da cintura do Círculo Ártico encontram-se os mais agrestes mares do planeta: e nenhum deles é mais agreste, mais hostil aos homens e aos frágeis navios que os levam a atravessar a selvajaria das suas águas retorcidas por rajadas e vendavais do que a estreita passagem entre a Islândia e a Gronelândia que os homens chamam Estreito da Dinamarca.

Desde os visonários Vikings de há mil anos até ao tempo dos modernos pescadores da Islândia, sempre navegaram barcos através deste estreito, mas navegaram arriscando a tragédia, só quando era exigido, sem demoras, nem mais um momento para além do necessário. Nenhum homem ou navio ficou ali em espera por sua escolha, mas em raras ocasiões alguns homens e navios tiveram de o fazer necessariamente. "


Pois é, o estreito foi por uma vez cenário histórico: aqui aconteceu, na 2ª Grande Guerra, em 1941, a lendária intercepção do mui blindado super-cruzador Bismarck, arma dos nazis para dar cabo dos combóios navais de abastecimento, pelos cruzadores antigos e menos eficazes da Royal Navy. Havia gelo para norte e denso nevoeiro para leste, mas o mar estava calmo.

A coisa começou mal para os britânicos: o HMS Hood (acima), cruzador de quase 50 000 toneladas, estrela da Navy, foi espatifado e afundado logo nas primeiras salvas de tiros, parece que se teria colocado mal face ao couraçado alemão. Um desastre. O outro cruzador da Navy ainda mandou uns obuses mas escapou-se quando viu que falhava quase todos.

O Bismarck entre nevoeiro e fumo dos canhões.

Acontece que afinal o Bismarck ainda tinha apanhado com três ou quatro projécteis dos cruzadores britânicos, que o danificaram q.b., de modo que perdeu velocidade e capacidade de manobra; sucumbiu às ordens de Churchill "afundem o Bismarck !", sendo acabado mais a sul por torpedos da Navy, já ao largo da Bretanha. Uma humilhação para os alemães, a 27 de Maio de 1941, e cerca de 4000 vidas perdidas, só nesta batalha.


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E quanto à catarata ? O Estreito da Dinamarca é também um local geológico único. Embora sejam muitas as quedas de água submarinas, em fundo oceânico, e muito mais altas que as que vemos em terra, esta é a maior catarata do mundo, submarina ou não; é um colosso inimaginável. 

Talvez seja uma das causas de o mar ali ser tão selvagem, as tempestades tão medonhas.

O Irminger Sea, à saída do estreito, pode tão mau como a famosa Passagem de Drake, a sul do cabo Horn.

Explicação da catarata: um enorme desnível no fundo oceânico e a movimentação de correntes quentes de sul para norte origina a queda, de uma altura de mais de 3 500 metros, de volumes de água descomunais: 3 a 5 milhões de metros cúbicos por segundo !

A cascata estende-se por 160 km do Mar de Irminger, a sudoeste do estreito. Confesso que não sabia, e fiquei bouche béante. Dever ser giro, deve, mergulhar cascata abaixo, três quilómetros e meio.

Alimentadas pelas correntes quentes IC e NAC, sul-norte, duas outras correntes frias transbordantes, DSO e ISO, precipitam-se no desfiladeiro a sudoeste da Islândia.

NAC - North Atlantic Current
EGC - East Greenland Current

DSO - Denmark Strait Overflow
NIIC - North Icelandic Irminger Current
IC - Iceland Current
ISO - Iceland/Scotland ridge Overflow

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

La Chasse-Galerie, A Canoa Voadora, um conto tradicional do Québec


Um post contra a corrente, a ver se quebra enguiços.

Os Corredores dos Bosques (Coureurs des Bois) eram negociantes de peles franco-canadianos que desde o século XVII percorriam longas distâncias pelas florestas do Québec à procura de aldeamentos nativos (Iroquois) para negociarem trocas directas - ofereciam utensílios europeus para obter em troca peles de castor. Usavam canoas para navegar os rios, e muitos aprendiam e adaptavam-se ao modo de vida dos indígenas, sendo recebidos nas tribos como iguais; alguns deles casavam com nativas - que se revelavam preciosas tradutoras - e além disso podiam ter uma esposa em cada tribo, para grande desgosto dos missionários !

Casamento de 'Voyageur' canadiano, por Alfred Jacob Miller

A vida libertina e aventurosa dos Coureurs tornou-se lendária, de certo modo mitificada e romantizada como símbolo da Nova França colonial. As peles de castor eram muito valiosas na Europa para a confecção de chapéus, e França obteve a concessão de monopólio. Com isso estimulou a imigração para o Quebec, que passou por um pico de intensidade nesse século; os Coureurs des Bois faziam viagens de 18 meses, milhares de quilómetros ida e volta, e para isso tornaram-se exímios canoístas; na canoa tinham de armazenar mantimentos, agasalhos, munições, armas e facas... Seguiam o curso dos rios Ottawa, St. Lawrence e afluentes, onde tinham de manobrar através de perigosos rápidos. 

As tribos Iroquesas (famílias Cherokee, Mohawk) nem sempre eram amigas, e preferiam os Ingleses como aliados; havia frequentes confrontos, mas relações amistosas entre Iroqueses e Coureurs des Bois eram uma garantia. As autoridades tinham com eles uma relação ambígua - os Coureurs não eram muito cumpridores da lei, mas eram imprescindíveis para a economia local e como intérpretes.

François Mercier, famoso 'Coureur des Bois' - o 'rei do comércio de peles do Norte'.

Alguns destes Coureurs foram também, como François Mercier,  exploradores do Norte canadiano, descobrindo novas terras à volta da Baía de Hudson e já dentro do Ártico.

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Neste contexto surgiu no Québec e espalhou-se nos séculos seguintes uma lenda em torno da Canoa Voadora, protagonista de uma 'Caçada Fantástica' - a Chasse-Galerie. Este nome provém de uma lenda francesa (zona de Nantes) em que o nobre Sire Gallery, por ter ido à caça durante a missa de domingo, foi condenado para a eternidade a caçar monstros no céu nocturno. Aos imigrantes franceses nas florestas do Canadá, a Canoa Voadora inspirou uma história diferente:

Depois de uma farta noite de Ano Novo, bem bebida de rum, um grupo de Coureurs des Bois de uma aldeia de cabanas prepara-se para mais uma semana de trabalho quando um deles, Baptiste, os desafia a ir ver as suas blondes, a mais de 100 léguas*, e voltar ainda a tempo da nova temporada. A distância não permite uma viagem normal de ida e volta; por isso ele requer uma viagem de Canoa Voadora, um pacto com o diabo que os levanta em voo acima da aldeia e da floresta, numa velocidade vertiginosa; em troca, têm de prometer e cumprir que não dirão o nome de Deus nem tocarão nenhuma cruz no alto das torres das igrejas. Se falharem, entregam a alma ao diabo.

Completada a equipagem, começam por combinar não tocar em nenhuma garrafa de rum, não beber nem uma gota, pois têm de manter a cabeça fria. Ditas as palavras mágicas, a canoa levanta-se do chão, e começam todos a remar. 

" Aux premiers coups d'aviron le cannot s'élança dans l'air comme une flèche, et c'est le cas de dire, le diable nous emportait. Ça nous en coupait le respire et le poil en frisait sur nos bonnets de carcajou."

Lá em baixo vêem o rio congelado, aldeias, campanários de igrejas a brilhar, as luzes de Montréal; a canoa pousa finalmente num banco de neve junto de uma casa iluminada, chez Battisette, onde as festas decorrem com pleno fulgor. Os canoístas são recebidos de braços abertos, e em breve estão a dançar, cada um com a sua blonde. Joe, o narrador, procura a sua Liza Guimbette:

"Je m'approchai d'elle pour la saluer et pour lui demander l'avantage de la prochaine ... elle accepta avec un sourire qui me fit oublier que j'avais risqué le salut de mon âme pour avoir le plaisir de trémousser et de battre les ailes de pigeon en sa compagnie. Pendant deux heures de temps, une danse n'attendait pas l'autre..."

Faz-se tarde e saem pela calada, têm de voltar para o trabalho do dia seguinte. Voando pela noite escura, agora sem luar, torna-se claro que o piloto Baptiste esteve a beber, pois a canoa segue às curvas, sem rumo firme, e desvia-se da rota. Em Montréal escapam por pouco a uma torre de campanário, e a canoa acaba por encalhar contra o flanco de um monte, num banco de  neve mole. Ninguém se magoa, mas o piloto ébrio começa a praguejar e a invocar o nome de Deus em vão; os restantes, receando que o diabo lhes leve a alma, amarram e amordaçam o homem e escolhem um novo piloto. Mas o embriagado Baptiste consegue soltar-se e levanta-se vociferando blasfémias, deixando os outros a tremer com os cabelos em pé; como Baptiste começa a brandir o remo em voltas ameaçadoras, a canoa descontrola-se e acaba por ir de encontro a um alto pinheiro. A tripulação é cuspida fora e cai inconsciente na neve.

(...) " le canot heurta la tête d'un gros pin et que nous voilá tous précipités en bas, dégringolant de branche en branche comme des perdrix que l'on tue dans les épinettes."

São encontrados por lenhadores no dia seguinte, adormecidos numa lomba de neve sob o pinheiro.  Tirando arranhões e costas doridas, estão todos bem e muito calados, negam suspeitas de bebedeira, ninguém quer contar a história de como quase venderam a alma ao diabo. Por pouco tinham escapado.

Moral (traduzida):

Meus amigos, não é assim tão divertido ir visitar a nossa lourinha numa canoa de casca de bétula, em pleno Inverno, voando à desfilada numa 'Chasse-Galerie'. Mais vale apanhar todos os rápidos do rio Ottawa e do St. Lawrence numa jangada, que viajar na companhia do diabo".


La chasse-galeries, Honoré Beaugrand, 1892


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Madame Serpente, a Senhora Branca: os imortais que querem ser humanos


Madame Serpente Branca é um conto mítico chinês que ganhou grande popularidade: um poderoso demónio em forma de serpente, ao fim de mil anos, transforma-se numa bela mas humana mulher para conhecer o amor. E encontra-o na Ponte Quebrada do Lago Poente de Hangzhou, na pessoa de Xu Xian. Casa com ele e vivem uma paixão tão intensa que atraem a curiosidade e a desconfiança de um monge, capaz de entrever a serpente oculta atrás da foma humana.

Quando o monge sabe que Madame Serpente está grávida, fica estarrecido com semelhamte violação de todas as tradições e tabus, sejam de raça, de religião, divinos e profanos. Resolve intervir confrontando o marido, que acaba convencido. E a (in)esperada tragédia surge quando Xi Xuan engana traiçoeiramente a mulher obrigando-a a retomar a forma de serpente.

O que mais emociona é que a imortal Serpente tenha abdicado dessa qualidade divina e assumido a forma mortal só para conhecer a mais humana das emoções. Por um breve instante tem nos braços esse amor desejado, mas acaba por perder tudo, embora haja versões com fim feliz. A narrativa foi transformada em ópera, cujas récitas costumam ter grande sucesso.

No Museu do Oriente há um exemplar de um belo livrinho ilustrado, tal historinha de B.D. à maneira oriental, com estas ilustrações que vou mostrar.

Como em todas as narrativas míticas orais, há muitas variações; a que está exposta no Museu do Oriente joga na amizade entre as duas serpentes, a Branca (libertária) e a Azul (conservadora), que se mantêm em contacto durante toda a aventura mundana de Madame Branca.

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1.
Dois Espíritos de Serpente, a Serpente Branca e a Serpente Azul, descem da montanha para gozar as delícias da Primavera, tomando a forma de belas mulheres no Lago Poente de Hang Zhou.

2.
Para atravessar o lago, pedem a um barqueiro que as aceite a bordo, onde já se encontra o jovem Xu Xian. Este, encantado, empresta o seu guarda-chuva à bela Senhora Branca, que de imediato se apaixona por ele. Combinam um encontro na Ponte Quebrada.

3.
Quando Xu Xian aparece para reaver o guarda-chuva, a Serpente Azul propõe a Xu Xian que se case com a amiga. Ele aceita de imediato.

4. Mas o monge Fa Hai, do santuário do Monte d'Ouro, revela a Xu Xian que a mulher é uma Serpente Mágica disfarçada. Propõe um plano para a revelar: dar-lhe a beber álcool durante as festividades das Barcas-Dragão.

5. Decorrem as festas, e Xu Xian força a esposa a beber vinho, como é costume local; a Serpente Branca ainda tenta que a sua magia possa evitar o efeito; mas sente-se mal e corre a refugiar-se no quarto.

6. Quando Xu Xian a segue e entreabre os cortinados, vê uma grande serpente branca e desfalece do choque.

7. Ainda mal refeito, sobe ao Monte d'Ouro e pede refúgio junto do monge Fa Hai, que o recolhe e mantém em clausura.

8. E agora começa a parte mais épica: as duas Serpentes (a Branca já recuperada) aliam-se aos animais aquáticos para conseguir resgatar o infeliz Xu Xian do mosteiro. Levantam as águas e inundam o santuário do monge Fa Hai, que acaba por ceder, permitindo que continuem entre os humanos até ao nascimento do bébé.

9. Comovido pela devoção da esposa, lutando contra sentimentos contraditórios, Xu Xian volta à Ponte Quebrada do Lago Poente para se reencontrar com a esposa; mas a furiosa Serpente Azul tenta matá-lo. É salvo pela Senhora Branca, que lhe conta da sua gravidez, e com renovadas promessas de amor retomam a sua vida em conjunto.

10. Assim que a criança nasce, Fa Hai vem buscar as duas serpentes e leva-as aprisionadas para um Pagode no Monte.

11. Anos mais tarde, o rapaz nascido de Xu Xian e da Senhora Branca vai prestar culto junto a Pagode, e consegue ver a mãe por breves instantes.

12. O Pagode acaba por ser destruído e as duas Sepentes conseguem escapar; procurando vingança, acabam por chamar a atenção de Buda que dá o castigo final a Fa Hai.

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Ora acontece que tudo isto lembra muita coisa lida e vista, desde pelo menos a Grécia antiga; no meu caso, recordei a obra-prima de Wim Wenders "Asas do Desejo" , no original "Asas sobre Berlim". Nessa hstória os espíritos não eram serpentes mas sim dois anjos, Damiel e Cassiel; Damiel, apaixonado, sente a tentação de ser humano mesmo que perdesse para sempre a imortalidade. Além do amor, irá sentir tudo o que há de bom e de mau.

Ah, mais uma coisinha: o Lago Poente de Hangzhou existe, assim como existe o Pagode Leifeng, octogonal e com cinco andares, construído em 975, colapsado em 1924 e depois reconstruído.



quarta-feira, 15 de junho de 2016

Il signor Palomar a ver as ondas, conto de Italo Calvino.


Lettura di un'onda é um dos contos do livrinho Palomar (Einaudi, 1983) onde Italo Calvino filosofa sobre o homem e a vida moderna, em particular as coisas mais desagradáveis - solidão, excesso de trabalho, ruído, convenções, depressão ... mas Calvino escreve na forma de parábolas, com uma fantasia e riqueza de texto irresistíveis. Com esta lettura identifico-me bastante.

Mais uma vez, publico a minha tradução (encontro defeitos na tradução corrente, da Teorema), até para este post ter alguma coisa de meu.


Leitura de uma onda

O mar está levemente encrespado e pequenas ondas vêm quebrar na praia arenosa. O senhor Palomar está de pé na areia e observa uma onda. Não que esteja absorto na contemplação das ondas. Não está absorto, porque sabe bem o que faz: quer observar uma onda, e observa-a. Não está contemplando, porque para a contemplação é preciso um temperamento adequado, um estado de ânimo adequado e um concurso de circunstâncias externas adequado: e embora o senhor Palomar nada tenha contra a contemplação em princípio, o facto é que nenhuma daquelas três condições se verifica neste caso. Em suma, não são "as ondas" que ele pretende observar, mas uma onda única e simples: no intuito de evitar as sensações vagas, ele fixa previamente para cada um de seus actos um objectivo limitado e preciso.

O senhor Palomar vê uma onda despontar ao longe, crescer, aproximar-se, mudar de forma e de côr, enrolar-se sobre si mesma, quebrar-se, desvanecer, refluir. A essa altura poderia convencer-se de ter levado a cabo a operação que se tinha proposto e ir-se embora. Contudo, isolar uma onda da que se lhe segue de imediato e que parece empurrá-la ou às vezes juntar-se a ela e subjugá-la  é algo muito difícil, assim como separá-la da onda que a precede e que parece arrastá-la em direcção à praia, ou então talvez voltar-se contra ela como se quisesse detê-la. Se considerarmos ainda cada onda no sentido de amplitude, paralelamente à costa, será difícil estabelecer até onde a frente que avança se estende continuamente e onde se separa e se segmenta em ondas independentes, distintas na velocidade, na forma, na força, na direcção.

Em suma, não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles igualmente complexos a que ela dá lugar. Estes aspectos variam continuamente, pelo que cada onda é diferente de outra onda; mas é também verdade que uma onda é igual a uma outra onda, mesmo quando não imediatamente contígua ou sucessiva; enfim, são formas e sequências que se repetem, ainda que distribuídas de modo irregular no espaço e no tempo. Como o que o senhor Palomar pretende fazer neste momento é simplesmente ver uma onda, ou seja, colher todas as suas componentes simultâneas sem descurar nenhuma, o seu olhar irá deter-se sobre o movimento da água que bate na praia, a fim de poder registar aspectos que não tinha captado de início; logo que se dê conta de que as imagens se repetem, saberá que já viu tudo o que queria ver e poderá ir-se embora.

Homem nervoso que vive num mundo frenético e congestionado, o senhor Palomar tende a reduzir suas próprias relações com o mundo externo e para defender-se da neurastenia geral procura  tanto quanto pode manter as suas sensações sob controle.



A crista da onda ao avançar em frente ergue-se num determinado ponto mais do que noutros e é ali que começa preguear-se de branco. Se isto acontece a certa distância da praia, a espuma tem tempo de enrolar-se sobre si mesma e desaparecer de novo como que tragada e no mesmo momento tornar a invadir tudo, mas desta vez surgindo de baixo, como um tapete branco que soergue a baínha para acolher a onda que chega. Mas, quando se espera que a onda role sobre o tapete, damo-nos conta de que já não há mais onda mas apenas o tapete, e mesmo esse rapidamente desaparece, torna-se uma cintilação da areia banhada que se retira veloz, como se a rejeitá-lo houvesse uma expansão da areia seca e opaca avançando a sua fronteira ondulada.

Ao mesmo tempo é preciso considerar as reentrâncias da frente, quando a onda se divide em duas alas, uma que tende em direcção à praia da direita para a esquerda e outra da esquerda para a direita, e o ponto de partida ou de chegada dessa divergência ou convergência é aquela ponta em negativo, que segue o avançar das alas mas sempre mantendo-se um pouco atrás e sujeita à sua sobreposição alternada, até que seja alcançada por uma outra onda mais forte embora também esta com o mesmo problema de divergência-convergência, e depois por outra ainda mais forte que resolve o enovelado rebentando com ele .

Tomando como modelo o desenho das ondas, a praia avança na água pontas apenas esboçadas que se prolongam em bancos de areia submersos, como as correntes os formam e desfazem a cada maré. Foi uma dessas baixas línguas de areia que o senhor Palomar escolheu como ponto de observação, porque as ondas batem obliquamente de um lado e do outro, e ao cavalgarem a superfície semi-submersa vão encontrar-se com as que chegam do outro lado. Assim, para compreender como é feita uma onda é necessário ter-se em conta esse impulso em direcções opostas, que em certa medida se contrabalançam e em certa medida se somam, e produzem uma rebentação geral de todos os impulsos e contra-impulsos no habitual espalhar da espuma.




O senhor Palomar está procurando agora limitar seu campo de observação; se ele tiver presente um quadrado de, digamos, dez metros de praia por dez metros de mar, pode completar um inventário de todos os movimentos de ondas que ali se repetem com frequência variada dentro de um dado intervalo de tempo. A dificuldade está em fixar os limites desse quadrado, porque se, por exemplo, ele considera como o lado mais distante de si a linha elevada de uma onda que avança, essa linha aproximando-se  e erguendo-se esconde da sua vista tudo o que está atrás; e eis que o espaço considerado para exame se inverte e ao mesmo tempo se comprime.

Contudo, o senhor Palomar não perde o ânimo e em cada momento acredita ter conseguido ver tudo o que poderia ver de seu ponto de observação, mas depois sucede sempre alguma coisa que não tinha levado em conta. Se não fosse por esta sua impaciência de chegar a um resultado completo e definitivo da sua operação visiva, a observação das ondas seria para ele um exercício muito repousante e poderia salvá-lo da neurastenia, do infarto e da úlcera gástrica. E talvez pudesse ser a chave para a padronização da complexidade do mundo reduzindo-a ao mecanismo mais simples.

Mas todas as tentativas de definir este modelo devem levar em consideração uma onda longa que ocorre em direcção perpendicular à rebentação e paralela à costa, fazendo deslizar uma crista contínua e apenas aflorante. A corrida das ondas que se eriçam para a praia não perturba o impulso uniforme dessa crista compacta que as corta em ângulo recto, e não se sabe para onde vai nem de onde vem. Se calhar é um fio de vento de nascente que move a superfície do mar em sentido transversal ao impulso profundo que vem das massas de água do largo, mas essa onda que nasce do ar recolhe de passagem também as forças oblíquas que nascem da água, forças que desvia e reencaminha no seu sentido levando-as consigo. Assim vai continuando a crescer e a ganhar força para que o encontrar-se com as ondas contrárias não a esmoreça pouco a pouco até fazê-la desaparecer, ou então a torça até fazê-la confundir-se com uma de tantas dinastias de ondas oblíquas, e a bater na praia com as outras.




Dirigir a atenção para um aspecto fá-lo saltar para o primeiro plano e invadir o quadro, como em certos desenhos que basta fechar os olhos e ao reabri-los a perspectiva já mudou. Além do mais nesse entrecruzar-se de cristas diversamente orientadas o desenho de conjunto torna-se fragmentado em painéis que afloram e se desvanecem. Acresce que o refluxo de cada onda também possui uma força que se opõe às ondas que lhe sucedem. E se se concentra a atenção nesses impulsos retroactivos parece que o verdadeiro movimento é aquele que parte da praia e vai em direcção ao largo.

Será que o verdadeiro resultado a que o senhor Palomar está prestes a chegar é o de fazer com que as ondas corram em sentido oposto, de virar o tempo do avesso, de discernir a verdadeira substância do mundo para além dos hábitos sensoriais e mentais? Não, ele chega quase a experimentar um leve sentido de reviravolta, nada mais. A obstinação que impulsiona as ondas em direcção à costa é partida ganha: de facto, elas estão bastante maiores. Estaria o vento a mudar ? É pena que a imagem que o senhor Palomar conseguiu minuciosamente montar agora se interrompa, se esmigalhe e se disperse. Só se ele conseguir ter presentes todos os aspectos juntos poderá iniciar a segunda fase da operação: estender esse conhecimento ao universo inteiro.

Bastaria não perder a paciência, coisa que não tarda a acontecer. O senhor Palomar afasta-se ao longo da praia, com os nervos tensos como tinha chegado e ainda mais inseguro de tudo.

                                
                                                                                       Italo Calvino, 1983

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Um conto de outono:
a habilidade narrativa de Cortázar e a morte do leitor.


Resolvi publicar (traduzindo) este conto famoso de Júlio Cortázar, objecto de numerosos estudos e análises desde o sério ao especulativo, onde se identificam as referências óbvias - o Borges que inspirou este meu Livro de Areia - e outras não tanto: os paradoxos espaciais de Escher, Gödel e a lógica matemática, os universos paralelos, a duplicidade de estados na física quântica. É inacreditável como tão curto texto engloba tanta riqueza conceptual. Italo Calvino abordaria três anos mais tarde os mesmos temas no genial 'Se numa noite de inverno um viajante' - mas essa é uma longa narrativa de centenas de páginas.

Este Continuidad de los parques foi publicado pela primeira vez em 1964 no livro 'Final del juego'.

É melhor ler sem spoilers...



Julio Cortázar, Continuidad de los parques


Tinha começado a leitura da novela dias antes. Abandonou-a por negócios urgentes, voltou a abri-la no combóio quando regressava da fazenda; deixava-se interessar lentamente pelo enredo, pelo desenho das personagens. Nessa tarde, depois de escrever uma carta ao seu procurador e de discutir com o caseiro uma questão de parcerias, voltou a abrir o livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado na poltrona favorita, de costas para a porta que o tinha incomodado como irritante possibilidade de intrusões, deixou que a mão esquerda acariciasse uma e outra vez o veludo verde e pôs-se a ler os últimos capítulos. Retinha na memória sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a ilusão novelesca conquistou-o quase de imediato. Gozava o prazer quase perverso de se desgarrar linha após linha de tudo o que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que a cabeça descansava comodamente no veludo do elevado encosto, que os cigarros estavam ao alcance da mão, que para além dos janelões o ar do entardecer dançava sob os carvalhos. Palavra a palavra, absorvido pelo sórdido dilema dos heróis, deixando-se levar até às imagens que se concertavan e adquiríam cor e movimento, foi testemunho do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; depois chegava o amante, com a cara ferida pela chicotada de um galho. Admiravelmente ela estancava o sangue com os seus beijos, mas ele afastava as carícias, não tinha vindo para repetir as cerimónias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e trilhos furtivos. O punhal já amornava contra o seu peito, e por baixo a liberdade latia, agachada. Um diálogo ansioso corría pelas páginas como um rio de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde sempre. Até essas carícias que enredavan o corpo do amante como querendo retê-lo e disuadi-lo, desenhavam abominavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada tinha sido esquecido: álibis, azares, possíveis erros. A partir dessa hora cada instante tinha o seu emprego minuciosamente atribuido. O implacável exame a dois interrompia-se apenas para que uma mão acariciasse uma maçã do rosto. Começava a anoitecer.

    Sem se olharem já, rigidamente atados à tarefa que os esperava, separaram-se na porta da cabana. Ela devía ir pelo caminho que seguia para norte. Do outro caminho oposto, ele voltou-se um instante para vê-la correr de cabelos soltos. Correu ele também, protegendo-se com as árvores e as sebes, até distinguir na bruma malva do crepúsculo a alameda que conduzia até à casa. Os cães não devíam ladrar, e não ladraram. O caseiro não estaría a essa hora, e não estava. Subiu os três degraus do alpendre do pórtico e entrou. Do sangue que lhe galopava nos ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma galería, uma escadaria forrada. Ao alto, duas portas. No primeira quarto ninguém, ninguém no segundo. A porta do salão, o punhal em riste. A luz dos janelões, o elevado encosto de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo uma novela.





Borges e Cortázar entendiam a literatura como un 'jogo' entre autor e leitor (homoludens), um jogo armadilhado, que basicamente consistia em estabelecer de início uma narrativa banal, quotidiana, mas onde subitamente irrompem elementos fantásticos, absurdos ou paradoxais. Em Cortázar, o tempero é uma ironia cheia de piscadelas de olho, como a "ilusão novelesca" que o protagonista encontra no livro, a ilusão mesma com que ele Cortázar nos está a seduzir, ou o "prazer quase perverso" do leitor ao mesmo tempo que acaricia o veludo. Todo o conto foi minuciosamente trabalhado, não sei quantas vezes, durante quanto tempo, até ter precisamente as palavras necessárias, com detalhes absolutamente geniais que nunca lá estão por acaso.

Exemplos:

- a dualidade conto/novela: no conto, era o entardecer ; na novela dentro do conto, começava a anoitecer. Também o "sórdido dilema", uma dualidade que abarca tudo afinal - homem/mulher, autor/leitor, conto/novela.

- os três degraus da entrada para um mundo que deixa de ser a dois e passa a três (dimensões, personagens, espaços);
 há três divisões e as primeiras duas estão vazias, a terceira - o salão - é um mundo alternativo ! O conto assenta quase todo na dualidade mas termina a três, demonstrando 1+1 = 3 !

- e os parques, com que Cortázar brinca no título ? O parque de tranquilidade que se vê do escritório do leitor - o parque do conto - e o bosque agressivo, com galhos, com trilhos furtivos, o bosque da novela. O jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges.

O final, em narração cinematográfica, hitchcockiana, é de mestre. E quem é a vítima, a vítima que se liberta apunhalando (-se) a si própria ? Quem mais, se não o leitor ? ah ah ah ah.

Quantos mais se lê, mais trilhos furtivos se descobrem, são os trilhos que Cortázar furtivamente constrói para nosso pasmo.








terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Janela sobre Roma, por Taiye Selasi


Conforme prometido, mais um texto do "Windows on the world" editado pela The Paris Review. 
Texto de Taiye Selasi, desenho de Matteo Pericoli.


Este Verão escrevi o meu primeiro artigo de sempre em italiano, considerando as razões por que a Cidade Eterna atrai tantos autores expatriados. No meu limitado italiano, propus três razões — a beleza, o calor, a não-grandiosidade —  as que me vêm à ideia quando olho para esta vista. Quando o Sol começa a baixar por trás dos verdes dourados do Gianicolo, fico a olhar para a abóbada da Basílica de S. Pedro, sempre de respiração suspensa. A beleza pura desta antiga cidade — a escala das igrejas, a densidade das árvores, os tons pastel das fachadas, a volúpia das nuvens — está em plena exibição, tal como a vejo daqui.

O meu relógio é o relógio do topo da Basílica de Nª Sª de Trastevere, somando os seus carrilhões à ruídosa alegria das conversas, às buzinas, às risadas. Nunca há um momento de enfado na Piazza de Santa Maria em Trastevere; podemos sentir, tanto como ouvir, a alegria do encontro social. Mas é a imperfeição de Roma que acho mais sedutora, um convite para ir a jogo: o grasnar das gaivotas, nonne quezilando, a tinta a lascar das paredes.



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Dá-me uma enorme vontade de correr já à cidade onde todos os caminhos vão dar. Tenho que ficar em Trastevere, está visto, num hotelzinho com janela sobre um pátio e vista para o casario. Só para escutar avozinhas a rabujar na piazza entre as campanadas, já vale a viagem.


terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Histórias curtas IV : Italo Calvino - Isidora

O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade. Finalmente chega a Isidora, cidade onde os palácios tem escadas em caracol incrustadas de caracóis marinhos, onde se fabricam à perfeição binóculos e violinos, onde quando um estrangeiro está incerto entre duas mulheres sempre encontra uma terceira, onde as brigas de galo degeneram em lutas sanguinolentas entre os apostadores.

Ele pensava em todas essas coisas quando desejava uma cidade. Isidora, portanto, é a cidade de seus sonhos: com uma diferença. A cidade sonhada o possui jovem; em Isidora, chega em idade avançada. Na praça, há o murinho dos velhos que vêem a juventude passar; o homem está sentado ao lado deles. Os desejos agora são recordações.

As Cidades Invisíveis - Italo Calvino

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Histórias curtas III : Machado de Assis

O EMPLASTO

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.

Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas, e enfim nas caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os modestos me argúam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim a minha idéia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e lucro, de outro lado, sede de nomeada. Digamos: -- amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a cousa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.


(de Memórias Póstumas de Brás Cubas)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Histórias curtas II- Paul Auster

de "O Caderno Vermelho" (Edições Asa)

"Um outro amigo, R., falou-me de um livro marginal que ele tentava localizar sem sucesso, esquadrinhando livrarias e catálogos à procura daquilo que devia ser uma obra admirável que ele ansiava ler; e contou-me como, uma tarde em que fazia o seu caminho pelo centro da cidade, tomou um atalho para a Grand Central Station, subiu o lanço de escadas que leva à Vanderbilt Avenue, e viu de repente uma jovem ao lado do friso de mármore com um livro à frente dela: o mesmo livro que ele tão desesperadamente tentava encontrar.

Embora não tivesse por hábito dirigir a palavra a desconhecidos, R. Estava demasiado atordoado pela coincidência para ficar calado. «Acredite ou não», disse à jovem, «tenho andado à procura desse livro por toda a parte.»

«É maravilhoso», respondeu a jovem, «acabei agora mesmo de o ler.»

«Sabe dizer-me onde poderei encontrar outro exemplar?», perguntou R. «Não consigo explicar-lhe o que isso significaria para mim.»

«Este é para si», respondeu a mulher.

«Mas é seu», replicou R.

«Era meu», disse a mulher, «mas agora já acabei de o ler. Vim aqui hoje para lho dar»."

Paul Auster

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Histórias curtas I - Júlio Cortazar

Instruções para subir uma escada
de "Historias de Cronopios y de Famas"

"Ninguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de maneira que uma parte sobe em ângulo recto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a este plano, para dar lugar a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis.

Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas de um rés-do-chão ao primeiro andar.

As escadas sobem-se de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incómodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, e respirando lenta e regularmente.

Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada em baixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça, e que salvo algumas excepções cabe exactamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos de pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-se à altura do pé faz-se seguir até colocá-la no segundo degrau, e assim neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são sempre os mais difíceis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna difícil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.).

Chegando dessa maneira ao segundo degrau, basta repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que a fixa no seu lugar, do qual não se moverá até o momento da descida. "

Julio Cortazar nasceu em Bruxelas em 1914 de pais argentinos. Aos 4 anos foi para Buenos Aires, onde estudou. Em 1951, aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na Argentina, partiu para Paris, onde se instalou definitivamente.

Amigo de Jorge Luís Borges e Bioy Casares, escreveu como eles contos fantásticos quase perfeitos.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Contos e Lendas do Norte - V


O Corvo traz a Luz

Há muito tempo, quando o mundo nasceu, fazia sempre noite no Norte onde os Inuit vivem. Pensavam que fazia noite em todo o mundo até que um velho Corvo lhes falou da Luz do Dia e de que a tinha visto nas suas longas viagens. Quanto mais ouviam sobre a Luz do Dia e como era linda, mais as pessoas a desejavam.

“Podíamos caçar mais longe e durante mais tempo”, diziam. “Podíamos ver os ursos polares e fugir antes que nos ataquem”. E suplicaram ao corvo que lhes fosse buscar Luz do Dia, mas ele não queria. “ É longe e estou velho para tão grande viagem”. Mas tanto insistiram que ele acabou por aceitar.

Bateu as asas e lançou-se no escuridão do céu, para Leste. Voou até as asas se cansarem. Estava quase a fazer meia volta quando viu uma ténue claridade ao longe. “Finalmente, luz do dia”. Aos poucos a claridade foi-se tornando mais intensa até todo o céu se iluminar e se poder ver o mundo a toda a volta, e ver longe, muito longe. A luz do dia irrompeu com toda o seu brilho e glória.

As infinitas tonalidades de cor e a variedade de formas maravilhavam os seus olhos de espanto. Até que, exausto, pousou numa árvore perto de uma aldeia, para descansar. Por cima, o céu azul sem fim, as nuvens fofas e brancas...

Fazia muito frio. Quando finalmente baixou os olhos, viu, num rio próximo, a filha do chefe da aldeia que enchia o balde na água gélida e já se preparva para regressar. O Corvo transformou-se num grão de poeira e, quando ela passava sob a árvore, deixou-se cair no seu casaco de pele.

De volta à casa de gelo do pai, levou-o com ela. Dentro havia luz e calor. O Corvo observou e viu umas caixas que luziam num canto da casa. A rapariga tirou o casaco e o grão de poeira foi pairando até ao neto do Chefe, que brincava no chão. Flutuou até à orelha do menino, que começou a chorar.

“Que se passa? Porque choras?” perguntou o chefe, sentado junto à fogueira. “ Diz-lhe que queres brincar com uma bola de Luz”, sussurrou a poeira na ouvido. O chefe queria ver o neto favorito contente, por isso pediu à filha que lhe fosse buscar a caixa de bolas de Luz. Quando lha entregou, o chefe abriu e escolheu uma pequena bola, enrolou uma corda nela e deu-a ao neto, que riu de contente, balouçando a bola de Luz e Côr pendurada na corda. O grão de poeira voltou a fazer cócegas na orelha do menino, fazendo-o chorar.

“Então, que foi? ” perguntou o chefe. “Diz-lhe que queres ir brincar lá para fora”, sussurrou o Corvo. Assim fez, e foram para fora brincar na neve. Mas assim que saíram, o grão de poeira retomou a forma de Corvo; mergulhou em voo para a mão da criança e tirou-lhe com as garras a bola de Luz, agarrando-a pela corda, e voou para Oeste, com a bola pendurada atrás.

Quando chegou à terra Inuit, as pessoas viram chegar uma Luz no céu escuro e vieram todas para fora, em alarido; o Corvo largou a corda, a bola caiu ao chão e partiu-se em estilhaços. A Luz escapou-se, inundou todas as casas e no céu escuro fez-se um dia luminoso.

As pessoas olhavam admiradas: “Podemos ver tudo à volta! E olhem como o céu está azul, e as montanhas escuras agora brilham, lá ao longe”. Agradeceram ao Corvo, que avisou: “ Só pude trazer uma bola de Luz pequena, que precisa de ganhar forças de vez em quando. Por isso só terão dia metade do ano!”.

E assim no Norte há luz do dia em metade do ano, noite na outra metade. E é preciso tratar bem o Corvo, não vá ele levar a bola embora...


Nota; o Corvo é para os povos do ártico um animal com atributos sobrehumanos, meio deus meio homem.(tradicional Inuit; tradução do inglês minha)

sábado, 16 de maio de 2009

2009 - Ano Gusmão

Uma aventura no céu de Lisboa

2009 é ano Darwin, ano Haydn... e também é o ano Gusmão, Bartolomeu de Gusmão: passam 300 anos sobre a famosa aventura de 1709, em Lisboa, em que o padre jesuíta, estudante em Coimbra e na altura com apenas 24 anos, realizou a primeira ascensão de um objecto mais pesado do que o ar, o aeróstato que ficou conhecido por "Passarola".

Antes, a 8 de Agosto de 1709, perante uma importante assistência presente na Sala dos Embaixadores da Casa da Índia que incluía o Rei, a Rainha e o núncio Apostólico, Bartolomeu de Gusmão fez voar um balão cheio de ar quente, que subiu até ao tecto da sala, para o espanto geral.
Depois da espectacular demonstração, Gusmão inicia o desenvolvimento de uma versão tripulada e maior do seu balão. Esse desenvolvimento vem culminar num balão de enormes dimensões baptizado "Passarola". O enorme balão é lançado da Praça de Armas do Castelo de S. Jorge em Lisboa, tripulado provavelmente pelo próprio inventor, e faz uma viagem de cerca de 1 Km, vindo aterrar no Terreiro do Paço.
Gusmão escreveu um "Manifesto" sobre o seu invento, guardado na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Nele consta uma cópia da petição que o padre dirigiu ao rei D. João V para lhe ser concedido o privilégio de só ele poder fabricar máquinas para voar. A linguagem da petição é deliciosa valendo a pena saborear um bocado:

"Senhor, diz Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para se andar pelo ar, da mesma sorte que pela terra e pelo mar, e com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes 200 e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras mui remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem: o que interessa a Vossa Magestade muito mais que a nenhum dos outros Príncipes pela maior distância do seu domínio, evitando-se desta sorte os desgovernos das conquistas, que procedem em grande parte de chegar muito tarde a notícia deles a Vossa Magestade."

O despacho régio foi favorável ao pedido.
A Passarola antecede 74 anos o famoso balão dos Montgolfier. Bartolomeu de Gusmão, "o Padre Voador", merece ser comemorado como um dos mais importantes pioneiros da aeronáutica mundial.

A imagem falsa e a imagem verdadeira

Gravura tardia, imaginosa e até pouco prestigiante, que se popularizou pela Europa no final do século XVIII

A imagem do balão do Padre Bartolomeu de Gusmão que se mostra abaixo continua praticamente desconhecida.

O desenho estava solto e terá desaparecido algures entre 1935 e 1997, quando o bibliotecário da secção de manuscritos deu pela sua falta e mandou executar uma reprodução para a substituir. A sua reprodução é livre de direitos, e o desejo da Biblioteca é que seja reproduzida muitas vezes, até para contrariar a visão falseada que ainda se tem do invento do "Padre voador".

Imagem anexa ao manuscrito de Bartolomeu de Gusmão.

Fonte citada: blog "De Rerum Natura"

terça-feira, 12 de maio de 2009

Contos e Lendas do Norte - IV

Mais um conto, desta vez da zona ártica do Canadá. Curioso como a moral se aproxima dos paradigmas de interculturalidade actuais.


Kiviuq um dia deparou com uma mulher a banhar-se. Era a mulher mais linda que tinha visto em toda a vida. Mas perto, pousadas no chão, estavam as suas roupas – eram só penas de pássaro! A bela senhora era uma mulher - ganso !

Kiviuq decidiu que tinha pouca importância que ela fosse um pássaro. Queria-a para esposa, por isso foi e escondeu-lhe as roupas de penas. Depois pediu-lhe que casasse com ele. Ela concordou.

Com o tempo, na mulher cresceu o amor por Kiviuq. Tiveram filhos. Ela gostava de ser ganso, mas era infeliz : gostava da comida de erva e areia em vez da comida de gente como caribu e carne de foca. Kiviuq insistia para ela comer o que ele trazia da caça.
Um dia, a mulher- ganso decidiu que havia de comer o que quisesse, e assim fez. Kiviuq zangou-se.

Outro dia, enquanto ele caçava, ela encontrou o sítio onde estava escondida a roupa de penas. Vestiu as penas, juntou as crianças e voou com elas para longe em direcção a Sul. Antes de conhecer Kiviuq, voava para Sul todos os invernos.

Quando Kiviuq regressou, a família tinha desaparecido. Procurou por toda a parte. E procurar por toda a parte demora muito tempo. Um dia encontrou um velho a rachar lenha. Chamava-se Eqatlejok. Com o machado, esculpia peixes na madeira. Kiviuq pediu ajuda a Eqatlejok. O escultor de peixes acedeu, e fez um grande peixe de madeira para transportar Kiviuq pelo mar até ao sítio onde a família vivia.

Kiviuq trepou para cima do peixe, que o levou pelo mar fora. No fim do dia, encontraram a família. A mulher disse que era bem melhor quando Kiviuq estava junto dela, e Kiviuq decidiu não se importar mais com a comida. Resolveram viver juntos de novo e deixar que cada um fosse como realmente era.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Contos e Lendas do Norte - III

Continua neste blog um pequeno ciclo dedicado a narrativas dos povos do ártico. São histórias transmitidas oralmente de geração em geração, pois esses povos não dispunham de escrita até há pouco. Mais do que contos morais ou de narrativas mitológicas, são testemunho de uma forma de vida, de valores civilizacionais, de pormenores estranhos de um dia a dia muito diferente do nosso. E mesmo quando a violência surge, integrada na violência da natureza circundante, enquadra-se numa estética tão surpreendente (como sucede p.ex. com o cinema japonês) que, em vez de nos chocar, nos deixa perplexos perante um tal mundo, de beleza difícil de entender.

Kagsagsuk

Era uma vez um rapazito órfão que vivia na companhia de homens maldosos. Chamava-se Kagsagsuk e só contava com uma mãe adoptiva, uma velhinha miserável. Viviam numa arrecadação ao lado do corredor de entrada da casa, e não eram autorizados a entrar na sala principal. Kagsagsuk nem sequer entrava no barracão, preferindo ficar no corredor e procurar calor entre os cães de trenó. Às vezes, de manhã, quando os homens saíam a levantar os cães à força de chicote, atingiam também o pobre rapaz que dormia no meio deles. Punha-se a ganir Na-ah, Na-ah, e os outros troçavam dele por se portar como um cão. Quando os homens lá dentro se banqueteavam com várias carnes e pele de morsa, o pequeno Kagsagsuk espreitava sobre a entrada, e às vezes os homens erguiam-no com maldade, segurando-o com os dedos pelas narinas. Assim estas eram cada vez maiores, embora o rapaz nada crescesse. Davam-lhe bocados de carne congelada, sem uma faca para a cortar, e mandavam-no usar os dentes como os cães. Às vezes puxavam e tiravam-lhe um ou dois dentes, e protestavam que ele andava a comer demais.

A pobre mãe adoptiva conseguiu arranjar-lhe umas botas e uma pequena azagaia de caçar pássaros para ele sair a brincar com outras crianças; mas como era pequeno e fraco atiravam-no para a neve e faziam-no rodopiar até ficar com a roupa toda branca de gelo; as raparigas ainda eram piores, cobriam-no de porcaria. Assim o rapazito passava a vida atormentado e troçado por todos, e não crescia a não ser nas narinas.


Aos poucos foi-se aventurando nas montanhas, sem ajuda, procurando recantos solitários, onde cismava como havia de se tornar mais forte. A mãe tinha-lhe transmitido algumas ideias. Um dia, entre duas montanhas, levantou-se e berrou: “ Deus da força, vem ! Deus da força, vem ter comigo”. Apareceu um animal enorme, um amarok, que é como um grande lobo. Kagsagsuk estava cheio de medo, ia desatar a correr; mas o bicho ultrapassou-o , enrolou-o com a cauda e atirou-o ao chão. Incapaz de se mexer, ouviu um som como chocalhar e viu vários ossinhos de foca , como se fossem brinquedos, caindo do seu próprio corpo. Disse o amarok: “ São estes ossos que te impedem de crescer”. E repetiu – enrolou o rapaz com a cauda, apertou, e mais ossos cairam – mas já eram poucos. À terceira vez, os últimos ossitos cairam na neve. À quarta vez, o rapaz desequilibrou-se um pouco, mas à quinta nem isso – saltou sobre a neve. Disse o amarok: “ Se é teu desejo ficar mais forte e vigoroso, podes vir ter comigo todos os dias”.

No regresso a casa, Kagsagsuk sentia-se leve, e até deu uma corridinha, aos pontapés nas pedras do caminho. Ao chegar a casa, as raparigas que estavam de guarda aos bebés viram-no e riram-se: “Kagsagsuk vem aí! Vamos cobri-lo de lama!”. Os rapazes bateram-lhe e atormentaram-no como de costume. Não se opôs e, como era hábito, foi dormir com os cães. Desde então, foi todos os dias ter com o amarok e seguiu sempre o mesmo procedimento. Sentia-se cada vez mais forte.

Um dia, o amarok já nem foi capaz de o derrubar. E disse: “ Pronto, chega. Os seres humanos já não te podem vencer. Mas por enquanto mantém os teus hábitos de vida. Quando chegar o inverno e o mar gelar, é altura de te mostrares; surgirão três grandes ursos, e serás capaz de os matar com as tuas mãos.” Kagsagsuk asssim fez. Correu para casa e manteve os seus hábitos, sendo atormentado como sempre.

Chegou o Outono, e um dia os pescadores dos kayaks chegaram com um grande tronco de madeira* apanhado à deriva no mar. Deixaram-no na praia amarrado a grandes pedras, porque era pesado para levar para casa duma só vez. Ao cair da noite, Kagsagsuk disse à velha bisavó: “ Dá-me as botas, mãe, também quero ir lá abaixo ver a madeira”. Quando já todos dormiam, esgueirou-se para a praia e, soltando o tronco, pô-lo às costas e levou-o para as trazeiras da casa, onde o enterrou. De manhã, o primeiro homem a chegar à praia gritou: “A madeira desapareceu!”. Quando todos viram as cordas cortadas, ficaram espantados, pois não havia ventos nem marés que pudessem ter arrancado o tronco. Mas uma velha, detrás da casa, chamou: “Venham ver! Está aqui!”. Todos correram para lá gritando, “Quem fez isto? Há entre nós algum homem com força sobrehumana!”. Os jovens começaram a dar-se ares, como se cada um pudesse ser o forte desconhecido. Impostores!

Começou o Inverno, e os homens da casa grande vizinha do barracão de Kagsagsuk trataram-no ainda pior que antes; mas ele continuou submisso, para não levantar suspeitas. Até que o mar congelou, impedindo a caça às focas. Quando os dias começaram a durar mais, os homens chegaram um dia a correr com a notícia de três ursos que subiam um iceberg. Ninguém se atreveu a ir no seu encalço. Era a hora de Kagsagsuk agir. “Mãe”, disse, “ dá-me as botas, também quero ir ver esses ursos”. Ela não gostou, mas lá lhe atirou as botas, troçando: “Então vai, e arranja-me em troca uma pele para o sofá e outra para a manta!”. Calçou as botas, apertou os farrapos de roupa que vestia, e saiu à procura dos ursos. Os homens que estavam fora viram-no e comentaram, “ Olha se não é Kagsagsuk! Onde irá ele? Dêem-lhe uns pontapés!”, e as raparigas, “Deve ter perdido uns parafusos!”, mas Kagsagsuk passou a correr por todos eles como se fossem um cardume de peixinhos. Corria tanto que os calcanhares quase lhe subiam até ao pescoço, e a neve saltava e espumava , faíscando nas cores do arco íris. Subiu o iceberg à força de mãos, e logo o maior urso levantou a garra. Kagsagsuk rodopiou e agarrou-o pelas patas da frente, lançando-o contra o iceberg de tal modo que as coxas se separaram do corpo, depois atirou-o à assistência gritando, “ O meu primeiro troféu; agora esquartejem-no e dividam entre vós”. Os outros pensaram, “ O próximo urso mata-o”. Mas o processo repetiu-se, e o urso foi atirado contra o gelo. Mas com o terceiro, apenas o agarrou pelas patas e pô-lo às voltas a girar por cima da cabeça, lançando-o contra um deles, “Este tipo portou-se vergonhosamente comigo”, e depois, atingindo outro, “Esse ainda me tratou pior!”, até que todos se tinham posto em fuga para casa entre grande consternação.


Ao chegar a casa, foi direito à bisavó com a pele de dois ursos, “Uma para o sofá, outra para a manta!”, e deu ordem para que a carne do terceiro urso fosse arranjada e cozinhada. Pediram então a Kagsagsuk que entrasse na sala grande da casa; em resposta, espreitou pela soleira da porta e disse, “Não consigo entrar, a não ser que alguém me levante pelas narinas.” Como mais ninguém se atreveu, a velha mãe adoptiva chegou-se a ele levantou-o como ele pedia. Todos se tinham tornado agora muito amáveis com ele. Um disse, “Anda, entra!”, outro, “Vem e senta-te , amigo”. “Não, aí não que o banco é duro, sem manta”, disse outro, “aqui está um bom assento para Kagsagsuk”. Rejeitando as ofertas, sentou-se com era hábito no banco duro ao lado do corredor de entrada. Alguns continuaram, “Temos uma botas muito boas para o Kagsagsuk”, e outros, “Ora aqui estão uns calções para ele”, e as raparigas começaram a rivalizar para fazer roupa para o rapaz. Depois do jantar, um dos da casa disse a uma delas que fosse buscar água para o “querido Kagsagsuk”. Era uma das que mais costumavam atormentá-lo. Quando ela voltou e depois de beber um pouco, puxou-a ternamente para si, por ser tão amável, mas de repente apertou-a, esmagando-a com tanta força que ela começou a espirrar sangue pela boca. Só disse: “ Olha, parece que rebentou !”. Os pais, contudo, chegaram-se de mansinho, “Não tem mal, ela não sevia para nada, só para buscar água.” Mais tarde, quando os rapazes começaram a chegar, Kagsagsuk chamou-os, “Que grandes caçadores de focas vocês hão-de ser!” , enquanto os abraçava e esmagava até à morte. Outros, matou-os arrancando-lhes os membros aos pedaços. Mas os pais só diziam, “ Não tem importância – era um inútil, só sabia brincar aos tiros”. Depois Kagsagsuk foi buscar e matou todos os homens da casa um por um.
Só poupou as pessoas pobre e humildes que tinham sido gentis com ele, e viveram todos à custa das provisões que tinham sido armazenadas para o inverno. Também os ajudou aprendendo a usar os kayaks, começando por remar perto da costa, depois afastando-se cada vez mais pelo mar dentro. Em breve viajava para Norte e para Sul no seu kayak. Orgulhosamente passeava por todo o território para mostrar a sua força; por isso ainda hoje é conhecido por toda a costa, e em muitos sítios ainda há marcas das suas proezas, e por isso é que esta história se supõe ser verdadeira.

* nestas latitudes não há árvores, qualquer pedaço de madeira é um bem precioso.