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domingo, 15 de outubro de 2023

Caiam, folhas, caiam


Fall, Leaves, Fall
Emily Brontë

Fall, leaves, fall; die, flowers, away;
Lengthen night and shorten day;
Every leaf speaks bliss to me
Fluttering from the autumn tree.

I shall smile when wreaths of snow
Blossom where the rose should grow;
I shall sing when night’s decay
Ushers in a drearier day.



                       Caiam, folhas, caiam; morram, flores, vão-se,
                       Façam mais longa a noite, mais curto o dia;
                       Cada folha me sussurra uma benção
                       quando no outono ao descer rodopia.

                       Vou sorrir quando grinaldas de neve
                       Florirem onde a rosa cresceria;
                       Cantarei quando o esvanecer da noite
                       Der lugar a um mais sombrio dia.



domingo, 24 de setembro de 2023

Música: Cyrille Dubois no topo de uma pilha de CDs para a rentrée


Nunca tinha ouvido o tenor francês Cyrille Dubois, e foi uma surpresa, tal como as árias que preenchem o programa deste invulgar CD da Alpha. Desta remessa de discos é talvez o melhor, recomendo sem reservas. 'So Romantique ! ' é uma colheita de árias francesas quase perfeitas, desde Auber e Boieldieu a Delibes e Saint-Saëns, daquelas que começam quase anodinamente e terminam num êxtase vocal.

Um hino à música.

Espantosa interpretação de obras de génio é o que Jordi Savall conseguiu com as Sinfonias de Schubert, quem diria, eu até era capaz de duvidar que esta música se enquadrasse no reportório do Concert des Nations.




A gravação, de 2022, na Altavox, é no mínimo indispensável: ouvir a nova vida que Savall imprime ao romantismo do compositor, na precisão, no ritmo, nos metais e na dinâmica, um Schubert de cortar a repiração, é verdade. Mas não será para o gosto de todos, sobretudo pelos desequilíbrios de naipes dentro da orquestra.

Para continuar no romantismo, e vão três, as Quatro Últimas Canções de Strauss cantadas por Rachel Willis-Sørensen, com Andris Nelsons a dirigir a excelsa Gewandhaus de Leipzig. Já tivemos tantas inesquecíveis (Janet Baker, Gundula Janowitz, Renée Fleming ...) , mais uma voz desse mesmo nível, poderosa, fenomenal. 


Vibrato a mais ?

Recuamos agora ao barroco.

Isabelle Faust, Concertos para Violino de Bach


A gravação é de 2019 (HM) mas só agora pude ouvir. É uma interpretação muito vigorosa , intensa, como se escreve na Gramophone:
"... together she and this superb orchestra show exemplary contrapuntal clarity while also outlining the music’s architecture through glinting dynamic changes or compelling long-range crescendos and diminuendos."

Finalmente , Magic Mozart é uma selecção de árias de Mozart que só comprei por Lea Désandre, que interpreta magistralmente três dessas canções de Mozart.


E para não ser cem por cento bota-de elástico, também tenho ouvido com prazer o muito recente álbum Átta dos Sigur Rós. Continuam a fazer música nos mesmos moldes, vogando-em-sons-pelas-galáxias, com orquestrações grandiosas e vozes surreais, sem inovação musicológica mas com muita imaginação para criar ambientes fora deste mundo. Bom gosto, dentro do género. Está no youtube, também.


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Em Guimarães para o jazz, depois em Braga para a Bühler - Brockhaus


Como é anualmente habitual, estive em Guimarães para um concerto no centro Vila Flor, parte do Guimarães Jazz. Ouvimos o quarteto da  contrabaixo May Ho, o concerto teve bons momentos e não frustrou, embora não fosse coisa de espanto e maravilha.

A cidade continua linda no Outono, desde que evitemos o Largo da Oliveira, pejado de esplanadas feias e turistas da península.

Bom, melhor ainda, foi ir a Braga ao Museu D. Diogo para regressar à colecção Bühler - Brockhaus. Desta vez publico algumas fotos minhas.

É pena a 'gralha' acordista logo à entrada.

Vista geral:



Peças favoritas:

Augusto, mármore do séc. I


A Cista Etrusca


Século IV A.C.



O Cálice Etrusco

Rio Tibre, 675 AC - a obra mais valiosa da colecção, com uma inscrição a toda a volta alusiva à consagração a uma deusa.

Colar etrusco em ouro, 520-500 A.C.

Ânfora Grega, Ática (575-525 A.C): o 1º trabalho de Hércules contra o Leão da Nemeia, observado por Hermes (empunhando um caduceu) e Atena.


A entrada principal do Museu está guardada pelo famoso guerreiro galaico.


E, na colecção permanente do Museu, a taça romana em prata decorada a ouro encontrada em Bracara Augusta (séc I A.C. - séc I D.C.):

Uma miniatura, um assombro.


Vale sempre a pena voltar.












domingo, 15 de novembro de 2020

Visita outonal ao Parque de Santa Marinha, depois de Andy Sheppard

Como já é costume, voltei a Guimarães em Novembro para o Jazz; desta vez foi Andy Sheppard acompanhado por três músicos portugueses, para cumprir as restrições impostas. E Sheppard só pôde vir porque já é residente em Portugal desde há alguns anos.

Andy Sheppard é um 'virtuoso' do saxofone, que toca com uma facilidade e mestria de quem já o conhece desde menino. Não toca com sangue suor e lágrimas - o estilo dele é mais cerebral, toca com alma de europeu sábio, uma espécie de jazz civilizado e muito trabalhado como é costume na ECM; criativo sim, mas sem dilacerar. Por vezes até plana um pouco ao nível de música  de 'ambiente'. O guitarrista Mário Delgado também teve algum protagonismo, esteve bem no diálogo da guitarra com o saxofone, também sem deslumbrar. Foi, portanto, bonito mas morno.

No dia seguinte, dia de glorioso sol outonal, subimos à Pousada a revisitar o Parque do Mosteiro.


Era lugar de recreio e meditação dos frades e monges das sucessivas ordens.

A antiga Cerca sobe pela encosta, em socalcos com escadaria central, através de uma mata de carvalhos, plátanos e castanheiros.

Douradas nas copas, castanho-torradas no chão, as folhas dão festival.

Outro festival são os fofos musgos com muitos anos (séculos?) de espessura.



No topo fica o tanque circular barroco que rega todo o parque. 



Sorte nossa de visitantes únicos, tivemos um património vasto para nosso exclusivo. Na enorme Pousada só vimos duas pessoas - o recepcionista e a empregada do bar. 

Se o fim do mundo for assim, é muito triste mas tranquilo e bonito.  


sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Outono em Guimarães, para o Jazz e uma visita ao Alberto Sampaio



Já é costume ir uns dias a Guimarães no Outono, por altura do Festival de Jazz, assistir a um ou dois concertos. Desta vez foram Joe Lovano, que não deslumbrou, e Lina Nyberg, uma autora/cantora de música compósita, globalizada digamos, onde Jazz, música atmosférica tipo Enya e uma orquestra sinfónica básica se misturaram numa performance que posso descrever como 'inovadora', por vezes curiosa, mas muitas vezes amadora e aborrecida. A voz é agradável, as intenções são pacificamente ambientalistas (proteger o planeta mas sem histerias) ou humanistas, mas os textos muito primários.

                       
Portanto, acabou por ser mais gratificante, além dos passeios pelo centro histórico que nunca cansam, entrar no Museu Alberto Sampaio. Quase exclusivamente recheado com arte sacra, não é para mim o museu de excelência em Guimarães - esse é o Martins Sarmento, de que já dei conta aqui; mas com o claustro irregular único da antiga colegiada, agora totalmente visitável, alguns frescos e imagens em madeira medievais, foi uma tarde bem passada. Lá fora, diga-se, chovia a cântaros...

Depois de um cafezinho mesmo em frente, na 'Sabores'...


... entrámos pelo claustro do antigo Convento de Santa Clara:




Logo na primeira sala conventual, a muito conhecida Fuga para o Egipto do séc. XVIII, em madeira de castanho estofada:


Quer Maria quer S. José estão delicadamente esculpidos, com expressiva perfeição.

Subindo ao andar principal:


Talvez a maior preciosidade seja esta imagem românica em talha polícroma do século XII:

Santa Maria de Guimarães, muito mutilada - falta o menino sobre os joelhos. 


Mas há muito mais estatuária, proveniente de retábulos ou presépios de várias localidades.

Um Papa, o Apóstolo S. Pedro.

Tão linda. Não consigo identificar.

Chamou-me a atenção este fragmento de fresco, que nunca tinha visto:


Pintado sobre cal, é de autor desconhecido e proveniente da igreja românica de S. Salvador de Bravães (1500-1520).

Detalhe: a expressão intensa da mãe.


E para terminar, rever um Silva Porto que está temporariamente exposto :



De resto, ouros, pratas, paramentos e cerâmicas que dispenso. É um museu de província, sim.

Saímos de novo, fugindo à chuva para um dos poisos favoritos:

Tomar chá quentinho no 'Rimas e Tabuadas'.




Foi a nossa escapada deste Outono chuvoso.