Mostrar mensagens com a etiqueta vozes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta vozes. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de outubro de 2022

Marion Rampal, " Tissé "


Marion Rampal é uma cantora e compositora de jazz e blues nascida em Marselha. Além de produção própria, canta com vários agrupamentos e notabilizou-se na sua colaboração com o saxofonista Archie Shepp. É com o quarteto de Shepp que Marion Rampal vem este ano ao Guimarães-Jazz.


No seu melhor álbum, Tissé, de 2022, Marion canta  (ora em francês ora em inglês) com uma voz quente e escura, quase masculina, sobre orquestrações sóbrias e subtis; as melodias leves recordam um estilo melancólico que talvez tenhamos ouvido algures no passado mas ao mesmo tempo ela não se parece com mais nada, como li no "Le Monde".

Marion Rampal - "Calling to the Forest" (c/ Archie Shepp)

"Reminder", também do álbum 'Tissé'

"Youkali", com o Quarteto Manfred:

É ao vivo que Marion Rampal dá o seu melhor. Um exemplo:

Com o Manu Katché Quartet , Marselha 2010:

domingo, 16 de janeiro de 2022

Estreia 2022 na Casa da Música : quatro estrelas para Rowan Pierce e a Ode.


Voltei finalmente à Casa da Música. Nesta jigajoga de regras pandémicas, fiquei surpreendido por já haver lugares marcados - marcaram-nos automaticamente sem nos consultar, depois da assinatura comprada - e para mais lugares adjacentes, sem cadeira vazia a separar ! Tudo ao molhe, com máscara mas ombro a ombro. Tínhamos o certificado, mas não conseguiram ler o QCode com a qualidade de impressão ´normal´ que usei. Enfim.

Casa cheia, portanto. Outra surpresa: em vez de um côro decente, como o da própria Casa, tivemos um "quarteto vocal", ah ah, um quarteto portuense para bravos da família. E o tenor, à falta de encontrar melhor , foi Fernando Guimarães, que eu nunca ouvira. O palco estava iluminado em cor de rosa, o que achei 'piroso´, ainda pior sob o tema "Amor".

Todas as minhas expectativas estavam centradas em Rowan Pierce (soprano) que de qualquer forma tem as melhores arias da noite: as da Cantata do Casamento BWV 202 de Bach, e as da Ode a Santa Cecília de Handel, uma obra prima de todos os tempos de toda a música. Quanto aos outros músicos, sei que Laurence Cummings é capaz de uma direcção decente.

Na Cantata, em que as árias são para soprano, gostei muito da Orquestra e da direcção de Cummings. Diga-se que há dois valores fenomenais que salvam sempre um concerto da Barroca da CdM: o oboísta Pedro Castro e o violoncelista Filipe Quaresma. Mas também o fagote esteve muito bem. Já Rowan Pierce se esforçou pouco: cantou sem expressão, não deve estar muito à vontade na língua alemã; embora seja uma voz bonita e doce, parecia tíbia e não se fazia ouvir sobre a orquestra.

Para a Ode entrou o dito côro, o tenor e alguns mais músicos - em particular uma organista para a ária do órgão, um percussionista e um trompetista.

O início foi excelente, são três andamentos orquestrais e foram muito bem tocados. O primeiro desastre seria o côro, ou melhor, o quarteto vocal; não sei individualizar os defeitos, sei que ao cantarem "Harmony" não havia harmonia nenhuma, havia um desacerto tímbrico irritante, uma sonoridade pífia e desagradável; se calhar também faltaram ensaios. 

Mas chegou a aria da Voz, da Human Voice, What passion cannot music raise. E foi um deleite musical: cantada desta vez com mestria e força expressiva por Rowan Pierce, acompanhada de uma orquestra decente (quase boa), foi um prazer do princípio ao fim; mas maravilhosas foram as passagens em que cantou com voz de veludo sobre o violoncelo de Quaresma: merecia um bravo de toda a plateia.

A primeira aria que coube ao tenor foi novo desastre; é um tema bélico para as trombetas, que a orquestra tocava com vivacidade mesmo sendo deficitária em metais, mas foi arruinada pela voz incerta, trémula, sem chama, de Guimarães. Uma pena.

Rowan Pierce voltou a deslumbrar na aria do órgão, But oh! what art can teach, cantada com entusiasmo, enlevo e umas firmes e fortes notas altas, sobretudo com longos fraseios barrocos que soube prolongar sem respirar, admiravelmente.

O final é um coral triunfante que foi mais ou menos um desconchavo; os dois solistas acabaram por se juntar ao quarteto vocal e ao próprio Cummings numa espécie de coro a 7 improvisado sem jeito nenhum, só para fazer mais volume de som.

Depois, houve um encore estranho - 'Lascia ch'io pianga' cantado em coro pelo septeto ! Tivessem deixado Rowan Pierce só com a sua voz, e podia ter sido bonito.

Eu esperava uma Ode de bom nível, bem ensaiado e bem interpretada, saiu-me esta coisa estranha. Mas valeu, bem haja, Rowan Pierce !

E haja música. Deixo uma aria de Handel, para começar em beleza este ano novo. Canta, claro, Rowan Pierce.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Mojca Erdmann, para quem gosta de Mozart


Não é recente - já foi editado em 2011. Mas o Livro de Areia é especialista em coisas intemporais... e só agora tive oprtunidade de ouvir este CD de Mojca Erdmann. É mais um belo disco para o Verão!


Muitas das árias de Mozart no disco são conhecidas, e Mojca canta-as lindamente, com voz firme e cristalina, que podia talvez ter um pouco mais de peso; mas a segurança e boa dicção compensam, e é raro ouvir uma colecção de preciosidades como esta. La Cetra é uma orquestra barroca, de pequena dimensão, fundada em Basileia, cidade bem fértil em orquestras deste tipo. A direcção de Andrea Marcon garante precisão e delicadeza, mais que dinâmicas.

Para a Gramophone, o melhor desta edição são as obras dos outros contemporâneos - Salieri, Paisiello, Holzbauer, J C Bach; discordo. A superioridade de Mozart é por demais evidente.

Exemplos:

Ach, ich fühl's (Flauta Mágica)


Ruhe sanft (Zaide)


Live em Salzburgo, 2006 - a voz ainda 'verde':
https://www.youtube.com/watch?v=c5Fk4ZjPNfw



sexta-feira, 19 de abril de 2019

'Stabat Mater' com Rowan Pierce e Iestyn Davies na CdM


Este foi decididamente um bom início de Abril na Casa da Música. Depois da excelente 9ª de Schubert por Douglas Boyd, agora foi a vez do Stabat Mater de Pergolesi sublimemente interpretado por Rowan Pierce, soprano, Iestyn Davies, contratenor, e a orquestra barroca dirigida por Laurence Cummnings ao seu melhor nível. Pode ter havido um ou outro dsacerto, em particular do contratenor, e pode ser uma pena um efectivo orquestral tão reduzido ao mínimo; nem por isso deixa de ter sido uma belíssima noite de canto sacro.

Rowan Pierce tem um timbre bonito e uma voz bem sólida, e executou com brio todas as árias, transmitindo a trágica solenidade do texto. Parece-me que tem uma bela carreira pela frente. Iestyn Davies, de York, deu prova de invulgar expressividade para um contratenor; os duetos com Rowan sairam muito bons.

Tive a sorte de, no final, obter da parte dos dois uma simpática assinatura no meu programa; não é coisa que costume procurar, mas estavam ambos, depois do concerto, perto de mim no Bar dos Artistas e não resisti. Obrigado pela simpatia, Rowan e Iestyn.


Fomos brindados, no encore, com um dueto da Esther de Handel. Como não encontro nenhum vídeo de Rowan nestas obras, deixo aqui ficar outra ária de Handel em que a soprano dialoga com a trompete.



-----------------------------
Agora na Casa da Música só Widman, dia 3 de Maio, no clarinete de Mozart. Infelizmente, no resto de Abril reina Ligeti. Vou passear à beira-mar.


segunda-feira, 4 de março de 2019

Julia Lezhneva sublime: Vivaldi e Handel


Duas árias lindíssimas do séc. XVIII, dois génios - Vivaldi e Handel, ambos a compor em Itália - e uma voz de esmeralda: Julia Lezhneva, da Ilha Sacalina (Sakhalin) no extremo oriente russo. Juntos aqui no Livro de Areia, no séc XXI, :)

Griselda é uma ópera, ou Drama per Musica, de Vivaldi com libreto de Goldoni (1701) que é raramente levada à cena, sendo mais conhecida pela ária "Agitata da due Venti", sobretudo na interpretação de Cecilia Bartoli. Mas Julia Lezhneva tem um timbre mais bonito:



Agitata da due venti,
freme l'onda in mar turbato
e ‘l nocchiero spaventato
già s'aspetta a naufragar.

                          Agitada por dois ventos
                          treme a onda em mar revolto
                          e o timoneiro aflito
                          já espera naufragar

Mas se a Deutsche Opera Berlin está muito bem a acompanhar  a Agitata, melhor ainda está Giovanni Antonini e o Giardino Armonico nesta ária de Handel, "Tu del ciel ministro eletto", que faz parte de "Il Trionfo del Tempo e del Disinganno", o seu primeiro oratório, composto em 1707 em Roma. Divinais, mesmo, Lezhneva e Antonini:
 

Tu del Ciel ministro eletto
non vedrai più nel mio petto
voglia infida, o vano ardor.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Susan Graham, 'La Belle Époque' - canções de Reynaldo Hahn


As canções de Reynaldo Hahn marcaram (e estão muito marcadas por) os anos de paz entre duas guerras conhecidos por Belle Époque - entre a guerra Franco-Prussa e a 1ª Grande Guerra. Foi, como agora vinha sendo com a construção da União Europeia, uma época de bem-estar e esperança no futuro, de renascimento cultural e de confiança na humanidade; pensava-se a utopia dos Estados Unidos da Europa. Tudo foi arruinado por uma quezília mesquinhamente nacionalista e um assassinato contratado. Tem graça, não lembra nada? Ucrânia, Crimeia ? Sérvia de novo ? O caso Skripal ?

"No século XX, a guerra irá morrer, a forca irá morrer, o ódio irá morrer, as fronteiras irão morrer, os dogmas irão morrer, o Homem viverá."
Victor Hugo, 1879 , discurso no Congreso de Marselha.

Esse intervalo de 1870-1914, uns escassos 44 anitos, foram 'anos de ouro' da cultura francesa. Foi a Arte Nova, foi Gauguin, Matisse, Toulouse-Lautrec, Monet, Rodin. Em Viena, a Secessão com Klimt e Otto Wagner. Na literatura, os últimos anos de Victor Hugo, Proust, Baudelaire, Thomas Mann (que já anunciava o desgraçado final e a chegada da guerra). O excesso foi dado pelos poetas Simbolistas: Baudelaire, Verlaine, Rimbaud - quase-surrealistas. E o Cabaret, sim, o Cabaret parisiense nos seus anos de glória. Na música, a opereta era a correspondência adequada,

Neste ambiente, Reynaldo Hahn ganhou prestigio como compositor de canções 'fáceis' mas 'cultas', que o público feminino adorava. Musicava sobre poemas simbolistas - Verlaine, Daudet, e Victor Hugo o precursor.

Uma exaltação trágica ultra-romântica, quase religiosa mas naturalista, inspira os poemas que Reynaldo Hahn escolheu para conquistar popularidade. Aqui ficam três exemplos, numa gravação de 1998 da mezzo-soprano Susan Graham - no melhor período da sua voz - com o pianista Roger Vignoles. Para acabar o ano em beleza.

À Chloris


L'énamourée
(...)
Ta voix pure, cette lyre,
Suit la vague sur les ondes
Et, suave, les effleure,
Les effleure, suave,
Comme un cygne qui se pleure!

Ainda mais melancólica,
Je me souviens



-----------------------------
Aproveitar enquanto se pode: mais dia menos dia, se o artigo 13 for aprovado, deixamos de poder partilhar estas coisas na net.

domingo, 9 de setembro de 2018

Süsse Stille, sanfte Quelle / Doce silêncio, suaves fontes


Audição comparada, coisa que já não fazia há bastante tempo.

As 9 Árias Alemãs (Neun Deutsche Arias) de Handel estão entre as suas obras menos frequentemente executadas. Com textos de Barthold Heinrich Brockes (1680-1747), um poeta do Iluminismo, as árias reflectem a perspectiva da presença divina na Natureza. São árias da capo para soprano, baixo contínuo (órgão, cravo) e outro instrumento não especificado.

Escolhi, das 9 árias, a belíssima Süße Stille, Sanfte Quelle.

Vou comparar três versões de três grandes (grandíssimas) sopranos: Emma Kirkby, Dorothea Roschmann e Núria Rial. Roschmann tem uma voz maior, mais ampla e versátil, dada a uma morosidade mais trágica, mas Kirkby foi muito tempo considerada a melhor soprano da música barroca com a sua voz quente e meiga; ambas se combinam com violino, mas Núria Rial está acompanhada à flauta; curiosamente parece-me a mais conseguida, absolutamente divinal, comovente numa serenidade que consola a alma.

Süße Stille, sanfte Quelle
Ruhiger Gelassenheit.
Selbst die Seele wird erfreut,
Wenn ich mir nach dieser Zeit
Arbeitsamer Eitelkeit
Jene Ruh vor Augen stelle,
Die uns ewig ist bereit.

Doce silêncio,  suaves fontes
gentil serenidade !
A alma mesma se alegra
Quando depois deste tempo
de laboriosa futilidade,
Verei enfim essa paz
na eternidade que nos espera.


1. Emma Kirkby, com o London Baroque


2. Dorothea Roschmann, com Akademie für Alte Musik Berlin


3. Núria Rial, com a Austrian Baroque, dir. Michael Oman


----------------------------------
P.S.
A parolice não tem classe, mas a das élites é mais grotesca. A Operália já existe há 26 anos. 26 anos passaram sem que dela se falasse por cá. 26 anos passaram sem vir a Portugal ! E nem sequer é um evento marcante na cena musical internacional.
- Mas agora veio cá. Ui ! que coisa magnífica ! Ui ! somos os maiores ! Ui! a nossa cultura vai de vento em popa. E ele até gosta de fado, meu deus !!!
Pronto, vamos criar uma Fadália. Uma Fadália para o Mundo, depois do CR, que prestígio.


domingo, 27 de maio de 2018

Entre Guerra e Paz, a obscura luminosidade de Joyce DiDonato


A tournée de "In War And Peace", um recital barroco de Joyce DiDonato com a orquestra Il pomo d'Oro, vai já na 3ª rodada pela Europa e Américas; finalmente chegou a a Lisboa (muito depois de Oviedo, onde tentei ir vê-la mas foi-me impossível).

De longe o ponto alto da programação da Gulbenkian para 2018, cedo esgotou, como não podia deixar de ser. Já tudo foi dito sobre a produção e o canto de DiDonato, resta-me dar conta de que estive lá, foi sublime, inevitável e irrepetível - mas nem tudo me agradou, como também era de esperar.

Recebi logo de entrada um envelope assinado pela Joyce a dar conta da mensagem intencional que inspirou a récita - confrontar guerra e paz na arte musical, por um lado, e procurar saber caminhos de superar o caos ameaçador que, pensa ela, paira sobre o mundo. Para isso faz um inquérito, sim!, um inquérito a saber como cada um encontra espaços de paz e conforto nestes dias revoltos. A falar verdadade , boa parte da resposta dá-a ela própria, no concerto (com música!) e na mensagem transmitida no final.

Lá fui escrevendo qualquer coisa como - a escravatura ? acabou; as pestes e as pragas ? acabaram; os gulags e auschwitzs ? acabaram; portanto as três mais diabólicas maldições da humanidade foram ultrapassadas, e foi a Humanidade que as conseguiu debelar. Não será razão para confiar que mais maldições tenham também os dias contados ? O verdadeiro problema está em saber se há sempre novas maldições no horizonte à espera do momento próprio. Pelo menos, nos intervalos, que haja música, muita Música.

Iniciando com as terríveis "Scenes of horror, scenes of woe" da ópera Jephta de Händel, que nos pôs em contexto, Joyce começou de facto com o genial "Lamento de Dido" de Purcell, que nunca ninguém cantou melhor. O discreto mas muito requintado acompanhamento do Pomo d'Oro ajudou. Voltamos à angústia mais desesperada com Händel na ária de Agrippina, "Pensieri, voi mi tormentate". Joyce DiDonato tem uma expressão corporal de verdadeira actriz, e era mesmo chocante ouvir e ver a que ponto estava atormentada pelos pensamentos, a voz áspera correndo aos extremos da escala com um domínio inacreditável. Mas foi o final "Lascia ch'io pianga" que mais me arrebatou. Joyce cantou a ária deitada/sentada no chão do palco, com uma contenção, uma concentração, uma emoção de arrepiar. Não foi apenas "cantar uma ária", como num recital qualquer; foi todo um programa, teatro, canto, coreografia, música, iluminação... inesquecível.

A segunda parte, já sob o tema da paz, foi mais levezinha e bonita, no bom sentido. "Crystal Streams in Murmurs flowing" de Händel é muito bucólica, e o "Da Pacem, Domine" de Arvo Pärt surgiu como um interlúdio orquestral a introduzir uma paz interior, sobre um cenário projectado de uma capela na obscuridade  por onde entram fragmentos da luz do sol; entretanto as (por vezes estranhas) projecções no écran de fundo foram substituídas pela vista dos jardins da Fundação através de vidro semi-transparente, um fundo de verdura  a que já estamos habituados - mas nunca cansa. E com esse cenário tivemos o alegre dueto para canto e flauta "Augeletti, che cantate", Händel mais uma vez, e o celebratório "Dopo Notte" para nos levar a bom porto:

Dopo notte, atra e funesta,
splende in Ciel più vago il sole,
e di gioja empie la terra;

Mentre in orrida tempesta
il mio legno è quasi assorto,
giunge in porto, e'llido afferra
.

                            Depois da noite, sombria e funesta
                            No céu resplandece mais vivo o Sol
                            E enche a Terra de alegria.

                            Enquanto numa horrível tempestade
                            O meu barco quase naufragou,
                            Entra agora no porto e acosta ao cais.


Seguiu-se o discurso socio-ético-politico de Joyce, e sempre tivemos um encore, um só, mas foi, imagine-se, a canção 'Morgen' de Strauss. Modernidade e intensa interioridade para um final perfeito.

Volta sempre, Joyce DiDonato. E já agora, vem ao Porto, vem à Casa da Música que é uma boa sala de concertos e sabe receber graças quase divinas como a tua.

-----------------------
Não gostei: da maquilhagem feia e gore que Joyce usou em todo o concerto; e de um bailarino que andou por lá a fazer umas "fosquinhas", como se diz na minha terra.



domingo, 12 de novembro de 2017

'McGegan Day' na Casa da Música


Nicholas McGegan já é quase uma lenda: gravações que são referência de obras de Handel com a Philarmonia Baroque, a orquestra que recriou em S. Francisco, concertos esgotados por entusiastas, uma profunda sabedoria do seu ofício e uma agógica própria que fez escola. Teve ainda o mérito de escolher a saudosa Lorraine Hunt como soprano nas suas gravações de Ariodante, Susana e sobretudo Theodora.

Na cidade de S. Francisco, onde fez carreira, foi instituído um "McGegan Day" anual. Na Casa da Música tivemo-lo na sexta passada. Foi impressionante o que conseguiu com a Orquestra clássica: ataques das cordas de estarrecer, uma sincronia como nunca, destaque de todas as secções da orquestra salientando diálogos e contrapontos, uma nitidez e dinâmica bem contrastadas. Foi como se uma orquestra míope e com cataratas de repente recuperasse 100% da visão. Um espanto que não me lembro de nenhum outro director conseguir com tal eficácia.

É verdade que o programa não era de obras favoritas para mim. Disso tenho pena, mas a sinfonia nº 25 de Mozart parecia renascida, revigorada, nova !, e a nº 98 de Haydn também foi um primor absoluto. O senhor McGegan conduz com uma energia e expressividade notáveis, imagino que nos ensaios foi exigente com a orquestra e a treinou intensamente.

Notas do concerto pelo próprio:



Uma das obras executadas foi a suite de bailado Don Juan de Gluck. McGegan teve de pedir ao público que não aplaudisse a cada intervalo, eram treze andamentos...

Deixo uma pérola de entre muitas que McGegan produziu com Lorraine Hunt, sublime: Veni, o Figlio do Ottone de Handel.



quinta-feira, 8 de junho de 2017

Como se tivesse ido ouvir DiDonato a Oviedo cantar pela Paz


Estive para ir, sim, com bilhetes comprados e tudo. Mas a vida passa rasteiras com cada vez maior frequência, e tive de cancelar.

Joyce DiDonato, mezzosoprano
Il Pomo D'Oro
dir. Maxim Emelyanychev
En guerra y paz.
Armonía a través de la música


Foi na terça-feira, dia 6.
Um programa encenado e coreografado.

Era assim o Programa:

GUERRA
G. F. Händel (1685-1759): “Scenes of horror, scenes of woe”
(Storgé), de Jephtha, HWV 70
L. Leo (1694-1744): “Prendi quel ferro, o barbaro!”
(Andromaca), de Andromaca
E. de’ Cavalieri (1550-1602): Sinfonía, Rappresentatione di
Anima et di Corpo (instrumental)
H. Purcell (1659-1695): Ciaccona en sol menor para tres violines
y bajo Z730 (instrumental)
H. Purcell: “When I am laid in earth” (Lamento de Dido),
Dido and Aeneas. Z626
G. F. Händel: “Pensieri, voi mi tormentate” (Agrippina),
Agrippina HWV 6
C. Gesualdo (1566-1613): “Tristis est anima mea”, Tenebrae
Responsoria nº 2 (instrumental)
G. F. Händel: “Lascia ch´io pianga” (Almirena), Rinaldo
HWV 7

PAZ
H. Purcell: “They tell us that you mighty powers” (Orazia),
The Indian Queen Z630
G. F. Händel: “Crystal streams in murmurs flowing”
(Susanna), Susanna HWV 66
A. Pärt (1935-): Da pacem, Domine (instrumental)
G. F. Händel: “Augelletti, che cantate” (Almirena), Rinaldo
HWV 7
G. F. Händel: “Da tempeste il legno infranto” (Cleopatra),
Giulio Cesare HWV 7


Um vídeo do ARTE com a récita no Liceo de Barcelona pode ser visto aqui.

Falta o principal, ter ido, mas mesmo assim posso dizer que - foi uma grande noite de música, pois claro ! Não sei se vai dar para ir à Gulbenkian no ano que vem, veremos. Atrasada embora, será uma consolação.

Sobre o concerto, Joyce DiDonato explica-se, convincente e categoricamente:






Deixo duas prendas magníficas - os dois encores do concerto de Oviedo.

1. Jommelli, Sprezza il furor del vento.


2. R. Strauss, Morgen ! - espantoso violino dos Pomo D'Oro!



Críticas, comentários:
http://www.beckmesser.com/
http://www.elcomercio.es/culturas/musica/201706/07/joyce-didonato-musica-entre-20170607000552-v.html




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Anna Bolena no São Carlos: bravo !


Tinha lido textos desde o mais negativo - Jorge Calado, arrasador - ao mais positivo -  no Público, Pedro Boléo a dar **** - sobre a produção de Anna Bolena, a ópera de Donizetti, que esteve no São Carlos. Fui ver, no último dia. Por fraca que seja, pensei, a cenografia é de Graham Vick, para a Arena de Verona, e Elena Mosuc tem uma carreira meritória... Arrisquei.

Detesto, como já várias vezes disse, aquelas encenações modernas que situam a música num contexto disparatado, tipo roupa interior, ou homens de jeans e metralhadora, ou concurso de TV, que preferem uma estética de fealdade chocante e polémica a uma figuração consentânea com a época em que a trama se desenrola. Foi o caso da horrenda Manon Lescaut recentemente em Londres.

Pois desta vez gostei, gostei das opções de Graham Vick, mesmo que às vezes mal adaptadas ao palco do São Carlos. Combinou materiais e estética modernos, mas dentro do sóbrio - vidros,  cortinas, fundo preto e plataformas avermelhadas - com roupas sumptuosas, sedas bordadas, brancas ou coloridas, próprias de uma corte do século XV. A iluminação tirou partido das transparências e sombras.

No São Carlos, Leonardo Cortellazzi foi um Percy convincente.

O contraste entre o fundo minimalista do cenário com os figurinos é esteticamente agradável, e acentua o contraste entre a bruteza do fundo das manobras reais e a dor e humilhação inflingidas às mulheres, a Anna sobretudo; mas a encenação de Vick tem a virtude de não "diabolizar" Henrique nem "angelizar" as damas: mostra uns e outros como duplamente vítimas e culpados, embora com sortes diferentes.

Henrique VIII e a sua justiça entre Percy e Anna: quem é inocente, quem é culpado? plataformas que se cruzam...

As tonalidades de vermelho e negro parecem uma escolha adequada que resulta em favor da dramatização. Só me irritou o despejar de confettis despropositado, a imitar neve, e a cena de caça com o casal real a cavalo, num 'kitsch' demasiado estático.

Nunca antes tinha visto ao vivo esta ópera, portanto não tenho termo de comparação, a não ser com outras óperas do romantismo italiano.  A música de Donizetti é muito elaborada,  intercalando miniaturas de melodia que não chegam a ser árias na corrente quase contínua do canto. Nada a ver com a melodia contínua, ou infinita, que Wagner inventou para matar de vez a ópera. Esta constante variedade melódica e harmónica ajuda ao agrado imediato - a Anna Bolena fez sucesso na estreia em Milão e logo de seguida por toda a Europa. Há momentos fracos, menos conseguidos, mas não é "aborrecida" como Jorge Calado escreve; pelo contrário, é das mais musicais e teatrais que conheço, ao nível do melhor Rossini. Concedo que não tem senão uma grande ária, daquelas memoráveis para a eternidade, "Al dolce guidami castel natio", que é o clímax da cena de locura de Anna. É uma peça fabulosa, belíssima, e Elena Mosuc esteve muitíssimo bem - prostrada no chão, cantou como uma diva para nossa comoção e grande aplauso. Foi mesmo inesquecível, quer o canto, quer a presença, quer o cenário, com um vidro estilhaçado por trás, ideia de génio para simbolizar o estilhaçar dos sonhos (de Anna) e da moral cortesã - Henrique e Jane Seymour também aparecem a casar nos estilhaços. Muito bom.

Com uma musicalidade destas, que teatralidade ? Foi um ar que lhe deu: a movimentação e gestualização, a coreografia enfim, foi de uma pobreza franciscana, os protagonistas cantores ficaram quase sempre estáticos e impassíveis nos seus papéis. A excepção mais meritória foi o pajem e harpista Smeton (Lilly Jørstad) que também mostrou uma bela voz de meio-soprano e foi a maior surpresa, e ainda o tenor Leonardo Cortellazi que, sem deslumbrar, esteve sempre à altura de forma entusiástica e ajudou a dar muita vida a Percy. Estes três formaram quanto a mim uma bela equipa, não de topo, claro, mas quem dera muitas vezes no São Carlos gente a cantar assim, bem melhor do que é hábito.

Sim, Elena Mosuc faz sonhar com a DiDonato ou a Devia, mas quase se equipara a Netrebko - tem um timbre agressivo e abusa do fogo de artifício vocal; felizmente teve momentos de fulgor que me entusiasmaram -  espantoso 'Guidici ! Ad Anna!' - e valeram a noite. Quando se concentra e se refreia, como foi opinado no Fanáticos da Ópera, consegue o seu melhor.

Numa coisa concordo com Jorge Calado: a orquestra esteve muito bem, precisa, incisiva e romântica quanto baste. Talvez de mais, por vezes abafou o canto, mas nada de grave.

Estive uma noite entregue ao destino trágico de personagens históricas, posto em texto e música com alguma sabedoria e muito dramatismo, e encenado com criatividade plástica. Já não é mau de todo. Saí de bem com o São Carlos, por uma vez. Assim está certo, Bieito não.


Em concerto no Lisinsky de Zagreb* (2014) , Elena Mosuc no Al dolce Guidami.


*gravação de má qualidade, é o que há.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Programações: Casa da Música vs. Auditório Príncipe Filipe de Oviedo


É "bater no ceguinho", eu sei, mas só mais uma vez. Um pouco de azedume para temperar a quadra da boa vontade.
Oviedo não é o Porto, e o Auditório Príncipe Filipe (muito muito feio, por acaso, alguém ouviu falar dele ?) não é a Casa da Música.

Feio por fora...

...mais bonito por dentro. Veio substituir o Teatro Campoamor, de fraca acústica para concertos.

Mas o que é que o APF oferece aos asturianos - e já agora, a mim que moro a 4 horas de viagem ?

Vejamos: ao melhor que a Casa da Música terá (Sokolov), adiciona-se muito mais que a CdM não tem ! No ano supostamente Inglês, Oviedo recebe a orquestra Hallé de Manchester - nós não ...

Começo por um cheirinho de 2016: houve
- Mitsuko Uchida, com a Mahler Chamber Orchestra
- Wayne Marshall com a Orquesta Sinfónica da Radio de Colónia
- Fazil Say com a Camerata Salzburg
- Martin Fröst com a Orquesta de Cámara Sueca, dir. Thomas 
  Dausgaard

Só até aqui já vão 4 boas orquestras de fora. Na CdM nem uma só.

- Magdalena Kožená, ena!, com a La Cetra Barockorchester Basel,
  dir. Andrea Marcon (obras de Monteverdi).
- Filarmónica della Scala de Milán, dir. Myung-whun Chung
   (Mahler, Mozart)
- o excelente Dunedín Consort de Edimburgo: Mozart: Vesperae   
  Solennes de Confessore, Requiem.
- Récita com Bryan Terfel

--------------------

E então agora para 2017 ?
Depois de Sokolov (Fevereiro) vem Argerich (Março) com a orquestra Kremerata Baltica de Gidon Kremer, e segue-se (!!) Cecilia Bartoli (ac. piano); e depois

Abril
- Coro de Windsbach, Akademie für Alte Musik de Berlín 
   Nuria Rial
   Bach, missa em si menor BWV232
- Orquesta Hallé de Manchester, dir. Mark Elder
   Elgar, Wagner

Maio
BBC Philharmonic Orchestra

Junho,  'Clausura de temporada''
Joyce DiDonato, Il Pomo D'Oro, dir. Maxim Emelyanychev.
'Em guerra e paz': selecção de árias barrocas de Monteverdi, Purcell, Händel, Jommelli, entre outros. Lá estarei (?).

Até a Joyce !! Nem à Gulbenkian ela vai ! Em Junho, espero conseguir viajar para as Astúrias ...

Em resumo: numa pequena cidade regional como Oviedo, a programação inclui orquestras europeias e grandes solistas, ao nível da programação de Lisboa, nossa capital. No Porto, com a 'grandiosa', 'mundialmente famosa', 'icónica' Casa da Música, (quase) só temos direito à orquestra e prata da casa, e uma programação débil. Apetece-me dizer, por uma vez, perdoem o desabafo: grande merda.

A casa só tem fachada.
Porque não aproveita ao menos as tournées que passam por perto ?

E acresce que o Teatro Campoamor, onde se entregam os prémios Príncipe das Astúrias, mantém uma regular temporada de Ópera !! Tivesse Oviedo um bom aeroporto internacional...


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Boa estreia do Divino Sospiro na CdM, brava Francesca Aspromonte.


Não desiludiu a estreia do Divino Suspiro na Casa da Música. O desempenho cumpriu os mínimos para um agrupamento barroco, lamentando eu apenas a sonoridade demasiado fininha, a precisar de ser mais encorpada; penso que talvez se conseguisse duplicando alguns instrumentos e optando por um desempenho mais enérgico.
Francesca Aspromonte foi a estrela da noite, sobretudo quando a voz aqueceu. Foi melhorando, e a sua 2ª parte foi brilhante, encerrando em beleza com a pirotécnica "Alleluja" do Exultate Jubilate de Mozart.

Divino Sospiro
Massimo Mazzeo direcção musical
Francesca Aspromonte soprano

Programa:

Domenico Cimarosa
  Sinfonia “Il Maestro di Cappella”
Niccoló Jommelli
  “O fa che m’ami" da Serenata “L’Endimione”
Charles Avison
  Concerto grosso nº 3
David Perez
  "Non so dir" da Serenata "L'Isola Disabitata"
W. A. Mozart
   Recitativo e Ária “Strider sento la procella" de “Lucio Silla"

------------------------
Pedro António Avondano
   Ária “Ah se ho da vivere”
Charles Avison
    Concerto grosso nº 5
W.A. Mozart
    Motete  Exultate Jubilate


Deixo aqui um breve "cheirinho" dos dotes vocais de Aspromonte numa aria de concerto de Haydn, Solo e Pensoso, dirigida por Giovanni Antonini:

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

as with rosy steps the morn, com os Barokksolistene


Já publiquei no Livro um vídeo desta ária, cantava a insubstituível Lorraine Hunt: aqui

Agora tenho uma segunda versão, bem diferente e quase tão sublime como a de Hunt; é a mezzo-soprano norueguesa Tuva Semmingsen que canta com os já aqui divulgados Barokksolistene (que tive a sorte de ouvir em Cheltenham), no seu recente disco 'London Calling'.

Optando por um ritmo (demasiado?) lento, o agrupamento barroco dirigido por
Bjarte Eike foge um pouco à norma de rapidez mais em voga nas interpretações historicistas. Consegue assim um ganho de subtileza, introspecção, quase melancolia; o fabuloso contraponto instrumental que Handel desenhou para dialogar com o canto é aqui ainda mais saliente, mais audível, e aparece mais genial ainda (sem contudo superar Lorraine Hunt, dirigida por William Christie, a interpretação perfeita...).


As with rosy steps the morn,
Advancing, drives the shades of night,
So from virtuous toils well-borne,
Raise Thou our hopes of endless light.



terça-feira, 17 de maio de 2016

- you are music ev’rywhere -
Emma Kirkby canta Purcell


     Vou-me deitar, vou morrer num buraco de árvore vazia,
     O corvo e o gato,
     A coruja e o rato
     Hão-de  cantarolar a minha elegia.

                                                                         Purcell, Bess of Bedlam

A conjugação feliz da já mítica voz de Emma Kirkby (e de Catherine Bott) com Chistopher Hogwood a dirigir a Academy of Ancient Music em obras de Purcell foi um dos milagres interpretativos das novas formações barrocas de fins do séc XX. Ninguém desde então conseguiu reunir vozes, direcção e orquestra tão perfeitas e coerentes.

Alguns exemplos, com o texto a acompanhar, pois segui-lo faz parte do prazer audiófilo. Muito boa música para toda a semana.


Purcell, If music be the food of love - Emma Kirkby. dir. Hogwood


If music be the food of love,
Sing on till I am fill’d with joy;
For then my list’ning soul you move
To pleasures that can never cloy.
Your eyes, your mien, your tongue declare
That you are music ev’rywhere.

Pleasures invade both eye and ear,
So fierce the transports are, they wound,
And all my senses feasted are,
Tho’ yet the treat is only sound,
Sure I must perish by your charms,
Unless you save me in your arms.



From Silent Shades and the Elysian Groves (Z370) foi uma canção publicada por Purcell em 1683. Ficaria conhecida como  Bess of Bedlam ou Mad Bess, por ser a típica canção sobre a mulher que enlouqueceu por desgosto de amor. Num longo panfleto rancoroso, Bess lança o alerta Ladies beware ye!, e a terminar o narrador eleva Bess à dimensão Real.


From silent shades and the Elysian groves
Where sad departed spirits mourn their loves
From crystal streams and from that country where
Jove crowns the fields with flowers all the year,
Poor senseless Bess, cloth'd in her rags and folly,
Is come to cure her lovesick melancholy.

"Bright Cynthia kept her revels late 
While Mab, the Fairy Queen, did dance,
And Oberon did sit in state
When Mars at Venus ran his lance.

In yonder cowslip lies my dear,
Entomb'd in liquid gems of dew;
Each day I'll water it with a tear,
Its fading blossom to renew.

For since my love is dead and all my joys are gone,
Poor Bess for his sake
A garland will make,
My music shall be a groan.

I'll lay me down and die within some hollow tree,
The rav'n and cat,
The owl and bat
Shall warble forth my elegy.

Did you not see my love as he pass'd by you?
His two flaming eyes, if he comes nigh you,
They will scorch up your hearts: Ladies beware ye,
Les he should dart a glance that may ensnare ye!

Hark! Hark! I hear old Charon bawl,
His boat he will no longer stay,
And furies lash their whips and call:
Come, come away, come, come away.

Poor Bess will return to the place whence she came,
Since the world is so mad she can hope for no cure.
For love's grown a bubble, a shadow, a name,
Which fools do admire and wise men endure.

Cold and hungry am I grown.
Ambrosia will I feed upon,
Drink Nectar still and sing."
Who is content,
Does all sorrow prevent?
And Bess in her straw,
Whilst free from the law,
In her thoughts is as great, great as a king.



'An Evening Hymn', aqui com Hogwood ao cravo e Anthony Rooley em alaúde.


Now, now that the sun hath veild his light
And bid the world goodnight;
To the soft bed my body I dispose,
But where shall my soul repose?
Dear, dear God, even in Thy arms,
And can there be any so sweet security!
Then to thy rest, O my soul!
And singing, praise the mercy
That prolongs thy days.
Hallelujah!



Para acabar, um dos greatest hits de Purcell,

We the spirits of the air, de Indian Queen, com Kirkby, Bott, e dir. Hogwood


We the spirits of the air
that of human things take care,
out of pity now descend
to forewarn what woes attend.

Greatness clogg'd with scorn decays,
With the slave no empire stays.


Cease to languish then in vain,
since never to be loved again.



Uma prenda para admiradores de Kirkby. :)

sábado, 16 de abril de 2016

Sarah Tynan canta Handel em Versailles


Handel divinal, sempre; neste caso, uma ária da oratória Solomon (1748), tal como foi ouvida em Versailles há dois anos dirigida pelo 'nosso' Paul McCresh na sua melhor forma. Foi recentemente transmitida no Mezzo, um dos melhores momentos televisivos do ano !

Não conhecia esta soprano Sarah Tynan, gostei bem de a ouvir cantar num impecável inglês... é raro perceberem-se as palavras todas, como aqui sucede. Não voa muito nas alturas mas a voz é límpida e de timbre bonito. Desiludido com estou com a Lezhneva, esta senhora, ainda jovem, parece uma promessa segura para os anos próximos.

No more shall armed bands our hopes destroy,
Peace waves her wing, and pours forth ev'ry joy.


Beneath the Vine

E agora em dueto com o excelente contratenor Iestyn Davies,
Thrice bless'd be the king [imagem distorcida]



domingo, 17 de janeiro de 2016

Charlotte Hellekant, contralto excelentíssima


Não abundam vozes de contralto femininas como esta. Impressionante, com um timbre invulgar e uma solidez a toda a prova - ainda não a conhecia, e estou deslumbrado.

Este He was despised é uma coisa...


Deh, piangete, oh mesti lumi, também de Handel:



-----------------------
Ah, estou quase a celebrar 200 000. Faltam dois ou três dias...


sábado, 5 de dezembro de 2015

Ana Quintans e Martin André em estado de graça na CdM


O Martin André que eu julgava conhecer dos tempos em que dirigia (mal) a OSP nos claustros do mosteiro de S. Bento da Vitória - há uns 15 anos ? - não tem nada a ver com o Martin André que ontem dirigiu na Casa da Música um magnífico concerto com a participação da soprano Ana Quintans.


Quer o Mozart (sinf. nº 34) quer o Beethoven (sinf. nº 2) foram dirigidos com um entusiasmo transbordante e uma correcta opção de tempos, sem rubato, com muita precisão na coordenação dos naipes e uma bela sonoridade. Uma surpresa enorme, parabéns sr. Martin André, onde é que tem andado a estudar, aprendeu muito e bem, sobretudo a nova abordagem à música pré-romântica. Ah, e deixou a milhas o anémico residente Baldur Brönnimann.


Ana Quintans está em topo de forma e de carreira. A voz é linda, os agudos firmes e as mudanças súbitas de registo fantásticas. Interpretou árias de Mozart e Gluck com um brilho raro de ouvir, alguma ousadia nos gorgeios, e a sintonia com a orquestra parecia milagre de tão perfeita.

Parabéns aos dois, foi o melhor concerto a que assisti em todo o ano na Casa.

Casa da Música, 4-12-2015
OSP, dir. Martin André
Ana Quintans soprano
W. A. Mozart - Sinfonia nº 34
W. A. Mozart 
     - Se il padre perdei
     - Zeffiretti lusinghieri (da ópera Idomeneo)
C. W. Gluck 
     - O del mio dolce ardor
     - Donzelle semplici, no, non credete
L. van Beethoven - Sinfonia nº 2


Ana Quintans canta uma aria de F. António de Almeida :


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Dorothea Mields e a febre transitória da Primavera segundo J.S. Bach


A Akademie für Alte Musik Berlin trouxe à Casa da Música um programa dedicado a Bach - concertos (BWV 1042 e 1046) e cantatas para soprano (BWV 199 e 202). Foram interpretações correctas, com a sonoridade doce de instrumentos de época muito bem afinados e coordenados, mas totalmente isentas de 'chama', em (suave) piloto automático ; sendo a excepção o violinista (e director) Georg Kallweit que por contraste abusou das liberdades interpretativas até ao disparate - uma ou duas fífias vergonhosas. Em resumo: esta Academia é uma sombra da que René Jacobs brilhantemente dirigia.

Ainda assim, a cantata profana 'do casamento', BWV 202, saiu muito bem, sendo notável a forma como Dorothea Mields se empenhou em dar uma boa performance e - imagine-se - tentar 'puxar' pela mortiça Academia. E fomos brindados com uma excelente Sich üben in Lieben, a ária central da cantata, com voz e oboé (Xenia Löffler, sempre muito bem) em festivo diálogo.

No YT agradou-me esta interpretação de Hyunah Yu :
Sich üben im Lieben,
in Scherzen sich herzen
ist besser als Florens vergängliche Lust.
Hier quellen die Wellen,
hier lachen und wachen
die siegenden Palmen auf Lippen und Brust.
------------
To play the love courtship
and laugh on heart's sorrows
is better than spring's ephemeral fever.
Here the waves swell,
here laugh and watch
the winning hand palms on lips and on chest.


Quanto a Dorothea Mields, este vídeo com uma ária da Paixão segundo S. Mateus, dirigida por outro grande - Philippe Herreweghe - dá uma ideia aproximada da sua bonita voz:




segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Amanda Forsythe - tornami a ascoltare in questo Handel !


Fantástica interpretação da jovem Amanda Forsythe desta ária de Alcina:


Tornami a vagheggiar,
te solo vuol' amar
quest' anima fedel,
caro, mio bene, caro!

Già ti donai il mio cor :
fido sarà il mio amor;
mai ti sarò crudel,
cara mia spene.



Só para confirmar: e esta Cleópatra, do Julio Cesar também de Handel ?
Ária 'Da Tempeste'.
Da tempeste il legno infranto
Se poi salvo giunge in porto
non sa più che desiar.

Così il cor tra pene e pianto,
or che trova il suo conforto,
torna l'anima a bear.



Genial. A Lezhneva que se cuide.

CD The Power of Love, com árias de Handel.
Amanda Forsythe, soprano
Apollo's Fire, dir. Jeannette Sorrell

Amanda Forsythe nasceu em Nova Iorque (1976) mas foi em Cleveland que estudou música e passou a residir. Iniciou a carreira operática europeia em Pesaro, com Il viaggio a Reims no Festival Rossini. Voltou recentemente a Rossini no Guilherme Tell. A ópera de Handel tem tido também grande relevo e sucesso na carreira de Amanda, sobretudo com o agrupamento barroco de Cleveland Apollo's Fire, criado e dirigido por Jeannette Sorrell.

Ainda há boas surpresas, o mundo não está perdido :)