Mostrar mensagens com a etiqueta soprano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta soprano. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de junho de 2025

À Chloris, por Léa Desandre e Thomas Dunford

As canções de Reynaldo Hahn marcaram os anos de paz entre duas guerras conhecidos por Belle Époque - entre a guerra Franco-Prussa e a 1ª Grande Guerra. Foi uma época de bem-estar e esperança no futuro, de renascimento cultural e de confiança na humanidade; pensava-se até na utopia dos Estados Unidos da Europa.

Reynaldo Hahn ganhou prestigio como compositor de canções 'populares' mas 'cultas', que o público feminino adorava. Musicava sobre poemas simbolistas - Verlaine, Daudet, Victor Hugo ...

Este À Chloris faz parte do programa a apresentar pela Soprano Léa Désandre e o alaúdista Thomas Dunford no FIME de Espinho a 28 de Junho.

 


Outra canção francesa belíssima, esta de Barbara:

domingo, 16 de janeiro de 2022

Estreia 2022 na Casa da Música : quatro estrelas para Rowan Pierce e a Ode.


Voltei finalmente à Casa da Música. Nesta jigajoga de regras pandémicas, fiquei surpreendido por já haver lugares marcados - marcaram-nos automaticamente sem nos consultar, depois da assinatura comprada - e para mais lugares adjacentes, sem cadeira vazia a separar ! Tudo ao molhe, com máscara mas ombro a ombro. Tínhamos o certificado, mas não conseguiram ler o QCode com a qualidade de impressão ´normal´ que usei. Enfim.

Casa cheia, portanto. Outra surpresa: em vez de um côro decente, como o da própria Casa, tivemos um "quarteto vocal", ah ah, um quarteto portuense para bravos da família. E o tenor, à falta de encontrar melhor , foi Fernando Guimarães, que eu nunca ouvira. O palco estava iluminado em cor de rosa, o que achei 'piroso´, ainda pior sob o tema "Amor".

Todas as minhas expectativas estavam centradas em Rowan Pierce (soprano) que de qualquer forma tem as melhores arias da noite: as da Cantata do Casamento BWV 202 de Bach, e as da Ode a Santa Cecília de Handel, uma obra prima de todos os tempos de toda a música. Quanto aos outros músicos, sei que Laurence Cummings é capaz de uma direcção decente.

Na Cantata, em que as árias são para soprano, gostei muito da Orquestra e da direcção de Cummings. Diga-se que há dois valores fenomenais que salvam sempre um concerto da Barroca da CdM: o oboísta Pedro Castro e o violoncelista Filipe Quaresma. Mas também o fagote esteve muito bem. Já Rowan Pierce se esforçou pouco: cantou sem expressão, não deve estar muito à vontade na língua alemã; embora seja uma voz bonita e doce, parecia tíbia e não se fazia ouvir sobre a orquestra.

Para a Ode entrou o dito côro, o tenor e alguns mais músicos - em particular uma organista para a ária do órgão, um percussionista e um trompetista.

O início foi excelente, são três andamentos orquestrais e foram muito bem tocados. O primeiro desastre seria o côro, ou melhor, o quarteto vocal; não sei individualizar os defeitos, sei que ao cantarem "Harmony" não havia harmonia nenhuma, havia um desacerto tímbrico irritante, uma sonoridade pífia e desagradável; se calhar também faltaram ensaios. 

Mas chegou a aria da Voz, da Human Voice, What passion cannot music raise. E foi um deleite musical: cantada desta vez com mestria e força expressiva por Rowan Pierce, acompanhada de uma orquestra decente (quase boa), foi um prazer do princípio ao fim; mas maravilhosas foram as passagens em que cantou com voz de veludo sobre o violoncelo de Quaresma: merecia um bravo de toda a plateia.

A primeira aria que coube ao tenor foi novo desastre; é um tema bélico para as trombetas, que a orquestra tocava com vivacidade mesmo sendo deficitária em metais, mas foi arruinada pela voz incerta, trémula, sem chama, de Guimarães. Uma pena.

Rowan Pierce voltou a deslumbrar na aria do órgão, But oh! what art can teach, cantada com entusiasmo, enlevo e umas firmes e fortes notas altas, sobretudo com longos fraseios barrocos que soube prolongar sem respirar, admiravelmente.

O final é um coral triunfante que foi mais ou menos um desconchavo; os dois solistas acabaram por se juntar ao quarteto vocal e ao próprio Cummings numa espécie de coro a 7 improvisado sem jeito nenhum, só para fazer mais volume de som.

Depois, houve um encore estranho - 'Lascia ch'io pianga' cantado em coro pelo septeto ! Tivessem deixado Rowan Pierce só com a sua voz, e podia ter sido bonito.

Eu esperava uma Ode de bom nível, bem ensaiado e bem interpretada, saiu-me esta coisa estranha. Mas valeu, bem haja, Rowan Pierce !

E haja música. Deixo uma aria de Handel, para começar em beleza este ano novo. Canta, claro, Rowan Pierce.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

To see, to hear, to touch, to kiss, to die. [John Dowland, há 425 anos]


"Come again ! Sweet love doth now invite" é uma canção de John Dowland para voz e alaúde, de 1597.  Tem portanto 425 anos; mas foi e ainda é um 'greatest hit', um sucesso tremendo com centenas de gravações e versões - piano em vez de alaúde, a capella, côro acompanhado, vozes tão díspares como soprano, tenor, alto, ou simplesmente Sting ou Maddy Prior, versões pop/folk !  Veio aqui à baila porque a sublime Joyce Didonato a cantou em Lisboa, na Gulbenkian, no passado dia 9, conforme relata o Fanáticos da Ópera; e lastimo amargamente não ter estado lá para ouvir. 

No youtube e congéneres consegue-se ouvir sopranos barrocas de bonita voz como Barbara Bonney ou Emma Kirkby, vozes mais poderosas como Danielle de Niese, e mesmo Maddy Prior, esforçada intérprete do folclore britânico. Fico à espera de uma gravação da Joyce... to sit, to sigh, to weep, to faint, to die.

Come again !
Sweet love doth now invite
Thy graces that refrain
To do me due delight,
To see, to hear, to touch, to kiss, to die,
With thee again in sweetest sympathy.

Come again !

That I may cease to mourn
Through thy unkind disdain;
For now left and forlorn
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die
In deadly pain and endless misery.

...

Gentle Love,
draw forth thy wounding dart,
Thou canst not pierce her heart;
For I, that do approve
By sighs and tears more hot than are thy shafts
Do tempt while she for triumphs laughs.


Apetece-me dizer: bons tempos esses, em que os lamentos do poeta, que suspira, chora, desmaia e morre, se devem ao amor e não às desgraças todas que assolam o mundo; não se afligia portanto com atentados, racismo, xenofobia e outras fobias, violência de género, catástrofes climáticas, vagas migratórias, desastres ambientais, genocídios e ditaduras. Havia guerras, sim, faziam parte da rotina quotidiana, amor e guerra.

As pessoas eram tão 'felizes' (!?) que os poetas só choravam a indiferença da pessoa amada. Outros tempos, sim, há 425 anos.

- Versão integral:
Grace Davidson, soprano e David Miller, alaúde

Emma Kirkby (soprano) e Joel Frederiksen (baixo e alaúde). 

- Versão abreviada:
Maddy Prior, folk singer, com John Banks em harpa

----------------------------------------
[vi agora - atenção ! - que o Mezzo está a transmitir o concerto de Didonato com o Pomo d´Oro em Bayreuth, onde canta não só Come Again de Dowland como o fabuloso, belíssimo, sublime "As with rosy steps the morn", de Handel]