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domingo, 7 de setembro de 2025

Leituras na varanda ao sol de Setembro



Tenho lido muito pouco este Verão, por causa dos olhos. Tive uma blefarite (acho) e fiquei de olho inchado e congestionado mais de uma semana. Assim que começou a aliviar, internet internet internet. Só agora retomei as leituras, começando por rasgar em bocadinhos os Woody Allen por colaborar com o regime actual do Kremlin. A cultura não é neutra. Também a Netrebko está no lixo.


Li um artigo imperdível no Le Point sobre os Cabilas (Kabyles), o povo berbere que vive numa região litoral da Argélia, a Cabília, entre mar e montanhas.

As montanhas Djurdjura, Parque Natural

Agouni Geghrane, uma aldeia de montanha. É uma região muito pobre.


Bejaïa 
(fr. Bougie) é a maior cidade.

Place Gueydon, o centro de Béjaïa

Manifestação pela independência, com as bandeiras da Cabília e o símbolo do Homem Livre.

Os berberes de Cabila têm outra característica: pele clara e traços diferentes dos povos árabes. Apetece dizer "mais Europeus", mas credo, que heresia fui eu dizer. 





Cabilas célebres são os futebolistas, Zidane e Benzema, mas também Isabelle Adjani era de pai Cabila; também Étienne Daho e Édith Piaf têm ascendência Cabila.

Em Paris, a Cantine des Hommes Libres é um café/bar da comunidade Cabila. 


Mais uma vez, o símbolo do livre arbítrio, ou do Homem Livre, que figura na bandeira.


O povo Cabila não é radical islâmico, pratica igualdade de géneros, gosta de música, canta e dança.

Passando a livros:


Comecei outro Sylvain Tesson, não por culto, longe disso, mas porque faz uma excelente leitura de férias: é a narrativa cultural de uma viagem ao longo do "Arco Celta", como o autor designa a linha costeira Atlântica, desde a galiza às Shetland escocesas.

O livro "Avec les fées" (With the fairies / Com as Fadas) segue a 'tese' estrambólica de que no tempo dos Celtas a costa era povoada de Fadas, era um costa mágica de Maravilhas, até que o Cristianismo, o asfalto e a fast food deram cabo de tudo. Mas ele, Tesson, em sintonia com a Natureza Mágica, consegue sentir ainda as Fadas que habitam as falésias, as grutas, as conchas e as praias, os Menhires, ao longo desse Arco Celta. Seria uma fantasia pateta não fosse o prazer que nos dá passear no bordo daqueles precipícios sobre os mares, ouvir a música das ondas, do vento, pisar as areias da maré baixa repletas de vida.

A navegação começa no Finisterra da Galiza, vai à Bretanha, e da Cornualha sobe até às ilhas escocesas.

Uma das benesses da leitura de Tesson é o uso que ele faz da língua francesa, como: 

"Humann et moi mîmes à point notre méthode amphibie. Solfège simple: j'embarquais, naviguais quelques milles, débarquais, courais la lande, retrouvais le bateau à l'endroit convenu".

A parte melhor do que até aqui li foi sobre a Península de Crozon, na Bretanha, com os promontórios que cercam Lostmarc'h e a ponta de Pen-Hir, nomes que só por si fazem sonhar com fadas celtas...

Praia de Lostmarc'h entre promontórios: "L'éventail des promontoires se distribuait en plis successifs". 

Já decidi que vou trabalhar num post sobre Crozon e a preciosa vila de Camaret-sur-Mer.

A ponta de Pen-Hir e os três rochedos.

(tem ainda um comentário delicioso sobre a toma de chá Earl Grey numa tarde de bruma, sobre uma mesa tosca de madeira).
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Os contos atrevidos do maroto Guy de Maupassant são o outro livro de varanda.



Sobre este Le Verrou ainda não direi nada mais do que: pimenta na língua, mas uma preciosa língua.


sábado, 20 de julho de 2024

Leituras para este Verão


Fui juntando uma colecção de livros sobre viagens, ou sobre aventuras pessoais, que tenciono ler até Outubro.

In Wonderland, Knut Hamsun

Estou a acabar este relato do norueguês Knut Hamsun da sua viagem à Rússia e à Geórgia, com a clássica travessia do Cáucaso pelo Passe (ou garganta) de Darial, a Porta Caucasica referida por Strabo, sob as alturas do Kazbek (5000 m):

'O declive da estrada aumenta, as montanhas cada vez mais se fecham e nos apertam, como se já não houvesse esperança; apenas um pedaço do céu é visível acima de nossas cabeças. Tem um efeito desanimador sobre nós; sentimo-nos esmagados, ficamos em silêncio. De repente, numa curva acentuada da estrada, um enorme abismo abre-se à nossa direita, e bem perto de nós vemos o pico coberto de gelo do Monte Kazbek, com os seus glaciares brancos cintilando ao sol. Está mesmo ali ao lado, plácido e alto, mudo. Um sentimento misterioso percorre-nos - a falésia eleva-se entre muitas outras menos altas, como se conjurada por elas. Sentimos que um ser de outro mundo estava a olhar para nós.'

Climbing Days, Dorothy Pilley

Estes dias de escalada tiveram lugar entre 1910 e 1928. Dorothy Pilley foi a primeira mulher alpinista que dedicou a vida a escalar montanhas, subiu aos Alpes e ao Himalaia.

'Os vales estavam a mergulhar na escuridão à medida que descíamos sobre as neves encharcadas do glaciar. Já não tínhamos pressa. Tínhamos apenas que caminhar, descontraidos, para casa descansar. Só então a fadiga se abateu sobre mim - como um gorro negro, de tal modo que tropecei no gelo granulado recongelado do glaciar seco, e ao longo das moreias emaranhadas por onde a trilha serpenteia até Bricolla. Mas uma corrente de sonolenta beatitude corria nas nossas veias. Uma maldição fora exorcizado, um sonho substituído por uma realidade que o transcendia. Com toda a força literal da palavra estávamos contentes. Mais uma vez, quando me deitei na cama, a vela continuou acesa, extinguiu-se sem eu dar conta, e assim de repente desceu um sono feliz.'

Notes from an Island, Tove Jansson & Tuulikki Pietilä

Diário da residência de maturidade na minúscula ilha de Klovharun do golfo da Finlândia. As duas autoras (uma escreve, a outra executa gravuras com tinta-da-china e aguarela) publicaram esta memória em homenagem à ilha que conheceram ao mínimo detalhe, intensamente, ao longo das estações.

'Tínhamos de tudo, ainda que em miniatura – uma pequena floresta com caminho de mata, uma praiazinha com abrigo seguro para o barco, até um pequeno pântano com alguns tufos de erva-algodão.'

ou

' Estávamos em Março - Inverno tardio, início da Primavera. (...) O mar estava branco de cal em todas as direcções, tanto quanto a vista alcançava. Só então notámos o absoluto silêncio. E que falávamos a sussurrar.'

Travelling Light , Tove Johnson 


The Ministry of Time, Kaliane Bradley


Muito elogiado pelo The Guardian - "a novel where things happen, lots of them, and all of them are exciting to read about and interesting to think about " - é um livro de ficção científica (viaja-se no tempo) que ao mesmo tempo reflecte seriamente sobre quase tudo, desde a crise climática ao 11 de Setembro passando pela corrupção e a história romântica de um ressuscitado da trágica expedição de Franklin ao Ártico. Estou altamente expectante.




domingo, 1 de outubro de 2023

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Música para este Verão


Ainda vai a tempo, não vai?

Música bem alegre ! Merci, M. Rameau. Uma abertura genial, e não há coro melhor que este. A bela gravação de William Christie é mais consensual, mas esta de Christophe Rousset  com Les Talents Lyriques é electrizante.


E Carolyn Sampson acompanhada ao alaúde? Maravilha.


Have you seen the white lilly grow


Beethoven, sonatas para violoncelo
com Filipe Quaresma e Antonio Rosado


Dois dos nossos melhores solistas numa gravação que se ouve repetidamente com prazer.

Outras coisas

Finalmente, uma obra que nunca dei atenção, Strings of Light de Anthony Phillips, ex-guitarrista dos Genesis, publicado em 2019. É um álbum a solo, na guitarra de 12 de cordas. com a sonoridade que já se ouvia no grupo. É tão calmo, suave, repetitivo, que se pode dizer chato e pobre; mas sabe bem ouvir em fundo no Verão, é como água a correr ou o folhedo a fazer sussurar o vento. Sempre a mesma coisa, narcótico, mas agradável.

Days gone by, uma das favoritas:


Gosto também de Song for Andy, com variantes inesperadas.



domingo, 29 de agosto de 2021

Dois poemas talvez ligeiros, de Billy Collins, para o fim do Verão,


Não é um poeta de génio transcendente, Billy Collins, será que voltará a existir alguém de génio transcendente ? Os tempos são o que são, aurea mediocritas, e viva e aleluia se alguém sobressai e, por exemplo, escreve com subtileza, inteligência e um toque apropriado de humana ternura. Ou pelo menos humor.

Oh my God !

Not only in church
and nightly by their bedsides
do young girls pray these days.

Wherever they go,
prayer is woven into their talk
like a bright thread of awe.

Even at the pedestrian mall
outbursts of praise
spring unbidden from their glossy lips.

                                      Nem só na igreja
                                      e à noite junto ao leito
                                      rezam as jovens de hoje.

                                      Onde quer que vão,
                                      a reza entrelaça nas conversas
                                      como uma vistosa linha de pasmo.

                                      Até num vulgar centro comercial
                                      estrépitos de reza
                                      jorram à solta de lábios lustrosos.                                

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Last Meal

The waiter was dressed in black
and wore a hood,
and when we pleaded for a little more time,
he raised his pencil over his order pad.

And later when he came back
to ask if we were finished,
we shook our heads no,
our forks trembling over our empty plates.

                                   O empregado vestia de preto
                                   E usava um capuz
                                   e quando suplicamos mais um tempinho
                                   levantou o lápis do bloco de pedidos.

                                   E mais tarde quando voltou
                                   para perguntar se estávamos terminados,
                                   abanamos com a cabeça que não,
                                   com os garfos a tremer sobre os pratos vazios.


domingo, 1 de agosto de 2021

A Ilha de Sein, ao largo do 'finis terrae' bretão (memórias de 2002)


Férias numa ilha? Voilà.


Digamos que é a Ultima Thule em França, no extremo do Finistère; estivemos lá em 2002, e experimentámos a travessia e o cerco do mar bravio, a quarentena permanente e o modo de vida estranho dos ilhéus (Sénans, Sénanes), adaptado às condições. A maior aventura não é lá chegar (e isso também nos emociona), mas sim lá viver.


Île-de-Sein é uma ilhota plana a 10 km da Pointe du Raz, na costa oeste da Bretanha, com uma extensão de 2 km por uma largura de poucas dezenas ou centenas de metros, e no máximo seis metros acima do nível do mar. É bem conhecida dos marinheiros pelo perigo das águas circundantes, causadoras de muitos naufrágios - culpa da Chaussée de Sein, uma extensa zona de recifes na rota do Canal, que requer múltiplos faróis e cuidados redobrados para navegar as violentas correntes.

A 'Chaussée de Sein' estende-se entre os faróis de Ar-Men, a oeste, e La Vieille, a leste.

Felizmente visitámos a ilha num dia de sol tranquilo, mas mesmo assim a insegurança em tão pequena extensão de terra rasa no meio do oceano era intimidatória. O acesso faz-se a partir de Audierne, no sul da península das Cornouailles, numa embarcação modesta que na altura era o Enez Sun (= "Ilha de Sein" em bretão).

O 'Enez Sun' no cais.


Depois do desembarque, o acesso desde o cais e do farol faz-se por um arruamento na frente marítima protegido por molhes - o Quai des Paimpolais, a via principal onde toda a actividade da aldeia decorre, dia e noite, trabalho e lazer. Para além disso, há um museu, um café e ... faróis.


Duas ilhas atlânticas de França - Sein e Ré - estão entre os sítios mais emocionantes e gratificantes onde pousei.


O Quai des Paimpolais percorre toda a baía, curvando à volta do porto de pesca, o sítio mais abrigado da ilha. A diferença das marés é muito marcada.



Não há trânsito motorizado nem de pedais. É bom para um jogo da petanca ('pétanque', ou 'boule bretonne') ao fim da tarde.

O café (amarelo) e os correios (azul).

Café Chez Bruno


Casa na frente marítima; a maioria têm dois andares com empena triangular e chaminés, variando qual das fachadas se abre para ao mar.


Noutros tempos foi terra de pescadores emigrantes para águas longínquas do Mar do Norte. Actualmente são umas três centenas os ilhéus, gente que vive da pesca e apanha de algas. Os principais pescados são bivalves (vieiras), lagosta e lagostim, mas tudo em pequena escala. Há quem viva de outras artes como as redes e a recolha da água potável da chuva, e cada vez mais do turismo.

Maré vaza no porto.


Le Bourg

Para se proteger melhor do mar e das tempestades, as ruas dentro da aldeia são muito estreitas, formam um labirinto onde da primeira vez é fácil perdermos o norte: curvam e contra-curvam para se opor ao vento dominante, e há passagens onde a largura é o que permite passar um barril. Nem as bicicletas são permitidas, seria um pesadelo para os peões.




Detalhes de decoração, onde o azul domina.

Na lousa: - "croissants por encomenda para o Natal ou Ano Novo."

Junto ao cais e ao farol, uma das estruturas mais antigas é o Abrigo dos Marinheiros, uma construção em U largo que durante os anos mais intensos de pesca deu apoio aos trabalhadores do mar.

O antigo Abrigo dos Marinheiros foi recentemente convertido num modesto museu. Em estado de avançada decadência, o edifício foi parcialmente recuperado para as novas funções.


Documenta em fotografias e em aparelhos de pesca a actividade passada dos Senanos.



O resto da ilha


Por trás da povoação, a ilha apresenta uma vegetação rasteira que mal cobre o solo rochoso de granito; nesta turfa não crescem árvores, as que há são plantadas em terra importada. É o caso desta junto à capela:


No extremo ocidental, perto do farol, rodeada de muros e dedicada a Saint Corentin, a capela foi construída em 1972 sobre antigas ruínas.


A ilha é habitada desde tempos pre-históricos, tendo servido de refúgio seguro contra ataques de populações rivais; sabe-se que os últimos druídas bretões lá se esconderam, tendo deixado alguns menhirs.

'Les Causeurs', dois menhirs junto à igreja.

A igreja, feiosa, perde em comparação com os pedregulhos, que devem ter dado mais trabalho.

O Mar e os Faróis


Vê-se parte da Calçada rochosa para leste, até ao Farol La Vieille.
A presença do mar a toda a volta nunca esquece, ainda mais se nos damos conta de quão pouco acima das ondas se vive na Ilha de Sein.


É quando se conjugam marés violentas com baixas pressões ciclónicas e ventos fortes que Sein se torna mais assustadora. Nos dias de hoje tudo é mais previsível e tomam-se precauções; mas se o mar vier a subir alguns metros...

Um dos mais famosos faróis é esta torre sobre um rochedo, a meio caminho entre a ilha e a costa. Mesmo sob as mais violentas tempestades, La Vieille sempre se manteve em funcionamento.

Farol "La Vieille"

Farol de Ar-Men

O mais fotografado e admirado, o Ar-Men fica 10 km para oeste de Sein; é uma torre de granito com 37 m de altura de 1881 que levou 14 anos a construir. Oferece uma fantástica vista quando ondas mais violentas rebentam sobre ele, elevando altíssimas nuvens de espuma.


Actulmente está automatizado; mas não faltam histórias - algumas trágicas, houve faroleiros levados pelas vagas. A mudança de faroleiro era uma operação complexa e demorada, a última foi em 1990. Agora a manutençáo faz-se por helicóptero, mas o Ar-Men corre sérios riscos, encontrando-se em muito mau estado.

O 'Inferno dos Infernos', segundo os faroleiros. O golpe surdo de uma vaga volenta faz abanar toda a estrutura, atirando ao chão tudo o que estiver solto.


Uf! Adrenalina em Île-de-Sein...