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domingo, 4 de agosto de 2024

A 'Allemande' da Suite francesa nº4 de Bach, em audição comparada

As suites francesas de Bach deviam ser ensinadas na escola, a sua estrutura, a base tonal, o contraponto, os conceitos de harmonia, melodia e ritmo, e sobretudo a habilidade criativa do compositor; Património da Humanidade é uma classificação bem aplicada.

Escolhi a Allemande da suite BWV 815 como poderia ter escolhido outras; acontece que por acaso (ou)vi no Mezzo Live David Fray interpretando em 'encore' esta peça e fiquei em êxtase, mesmo já a tendo ouvido algumas dezenas de vezes. 

A Allemande começa com arpeggios em crescente que gradualmente divergem harmonicamente. O ritmo e as pausas são parte essencial do estilo de cada interpretação: quem está ao piano define um modo, a interpretação é uma recriação. Começo por uma bem antiga, quando ainda não se tinha generalizado o estudo histórico para aproximar o que seria o estilo interpretativo da época.

Sviatoslav Richter, consegue intensidade com rapidez, em 2.20 min,

András Schiff é brilhante mas parece que ligou o turbo e corre pelas teclas vertiginoso, sem pausas: 2.13 !
Gosto muito de Murray Perahia, pausado e meditativo, já próximo do ideal para piano com o tempo de 2.50 min

Agora no cravo: Pierre Hantai, a perfeição é eterna... 3.23, tempo ideal.

O cravista Richard Egarr é lento mas majestoso, em 3.34 !




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Em extra, outro exemplo, a Gigue da Suite nº5 BWV 816 com András Schiff:

quinta-feira, 4 de março de 2021

A mais famosa das Allemandes - audição comparada da BWV 828


Numa peça para piano com menos de dez minutos, uma diferença de três ou quatro minutos é enorme, colossal. Mas é o que separa Glen Gould de Murray Perahia ou Sokolov na Allemande da Partita nº4, BWV 828 de Bach. Alguma está errada, alguma é obviamente uma 'má' interpretação? Não. Mas torna-se evidente aqui o grau de liberdade da interpretação, a contribuição do intérprete para a obra que escutamos. Nem todo o génio é de Bach portanto, há um traço que pode ser bem forte deixado, neste caso,  pelo pianista.

Uma Allemande é uma dança instrumental barroca, muitas vezes parte de uma sequência que pode incluir Courante, Gigue, Bourée, Sarabande, etc. Foi prática comum de compositores como Couperin, Rameau, Purcell, Bach ou Handel.  Na Partita nº 4 de Bach, o início é uma Abertura à Francesa no estilo da corte de Louis XIV, pomposo como uma procissão cerimonial, a que se segue uma fuga contrapuntística em três partes que parece já transitar para a dança.

A Allemande vem logo depois, num tempo muito fluído que permite por um lado ouvir as progressões harmónicas sob as ornamentações da melodia; e por outro lado esse contraponto de cadências curtas da mão esquerda exerce um controle sobre os longos delírios das frases melódicas, que esvoaçam constantemente numa grande variedade de ritmos. 

Começo com duas interpretações modelo, que são as minhas favoritas: Maria Tipo, já lá vão 30 anos, e Murray Perahia, talvez o melhor das últimas décadas. Subtilidade nos dedos, evasão e entrega, e a capacidade de nos fazer sentir o que sentem. Ah, e as pausas, o silêncio!

Maria Tipo, 8:42

Murray Perahia, 9:20
Que grande interpretação !

Dentro dos 8 - 10 minutos há muitas outras boas gravações, como a de Ângela Hewitt (9:24).

Vamos aos extremos. Glen Gould baixara para 6:25 na sua interpretação tardia ao vivo, uma coisa estranha, com acentuações fora da norma, parece um autómato avariado, ou um génio, conforme.
Glen Gould 6:25


Nelson Freire, que não nasceu para tocar Bach, ainda desce mais para  6:11 minutos , mas é um desastre:
Bach 'sempre a andar', missão cumprida.

No outro extremo, lentidão, um dos piores é Sokolov. Não consegui uma gravação online, fiquem com David Fray nuns exasperantes 11.37. 


A diferença para Gould é de quase 5 minutos, metade do tempo médio 9:30 ! Só pode estar errado.

Agora para contrastar, no cravo, com 6:22 (tal como Glen Gould); naturalmente, menos meditativo.  Há quem passe dos 10 minutos mesmo ao cravo.



Tudo o que sucede com a Allemande sucede com o resto da Partita, aliás com todas as Partitas de Bach. Trabalho de casa !



sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O melhor CD para dar de prenda ?
À Portuguesa (em parte)


Surpeendente, esta gravação da Orquestra Barroca Casa da Música, dirigida por Andreas Staier. Não estava à espera de tão elevada qualidade quer na prestação da Orquestra liderada pelo excelente violino Huw Daniel, quer no som do cravo em que Staier também intervém como solista. Suponho que que a acústica da Casa também deu o seu contributo.


Assisti ao concerto que reproduziu esta gravação, conforme relatei aqui. Na sala, o cravo mal se ouvia, mas no disco é um prazer estar atento à execução de Staier destas obras alegres, para divertimento palaciano.

Para mim, o mais duvidoso até é o conhecido 2º Concerto para cravo de Carlos Seixas que Staier dirige num corridinho acelerado, ao contrário de um vagar mais solene a que eu estava habituado noutras gravações. Torna-se mais evidente o virtuosismo de compositor e executante, mas quanto a mim houve exagero, pedia-se mais gravitas. Já o primeiro concerto de Seixas, em La maior, é uma inesperada inclusão que valoriza o disco.

O ponto alto, tal como aconteceu no concerto, não é português mas italo/ibérico: a famosa Musica Notturna de Boccherini que já referi num post anterior. Staier conseguiu uma reinterpretação de génio, com mais energia e alegria, com mais colorido orquestral, que supera quanto a mim a gravação de Jordi Savall e passa a ser a nova referência. A alternância de instrumentação, dinâmicas, ritmos e melodias proporciona uma audição muito viciante.

Duas notas:
- À Portuguesa (Alla Portugesa) é o título de uma das obras incluídas nas Bizzarie Universali do inglês William Corbett (1680-1748).
- Duvidoso, o gosto da capa (painel de azulejo? ), mas como era de recear o feérico colorido do galo de Barcelos... vá lá... ;D


quinta-feira, 9 de março de 2017

Beatrice Rana na CdM com as Goldberg


Já se sabe que Gould, no piano, e Pierre Hantaï no cravo, são inigualáveis nas variações Goldberg de J. S. Bach. Mesmo que outras razoáveis interpretações tenham surgido - Murray Perahia, András Schiff ... - essas duas referências ainda são as que mais volto a ouvir.

Beatrice Rana é uma jovem italiana, menina prodígio desde os 9 anos, que se anuncia como possível grande pianista dentro de poucos anos. Riccardo Chailly dirigiu Schumann com ela no La Scala. Rana teve a coragem de realizar uma série de concertos pela Europa apresentando como programa 'apenas' as Variações. E toca-as sem pauta, aos 23 anos !  Segue-se mesmo uma gravação em disco.

Fiquei sentado no côro da Casa da Música, sobranceiro ao piano e com uma vista excelente, teclado e mãos, e pude observar os difíceis cruzamentos de mão nas variações a duas partes. A ária de abertura foi sublime.


Continuou muito bem na 1ª e 2ª variações. Depois pelo meio, as coisas correram mal. Excessivamente rápida, e por vezes acentuando mais o dedilhado à esquerda que a melodia à direita, o que prejudica o seguimento da 'narrativa' que são estas 30 variações. Algumas variações foram totalmente perdidas (a genial 8ª, a incrível 23ª, que pena...), como se Rana não lhes desse importância e as despachasse de qualquer maneira. Nunca martela as teclas sem dó nem piedade, como Burmester; mas tocou com suave, maçadora indiferença.

Felizmente voltou ao melhor a partir da 27ª. A quodlibet esteve muito bem, com algum romantismo, em ritmo pausado e acentuando devidamente; e a da capo esteve ainda melhor que de ínício, perfeita, de ir ao céu, terminando nas nuvens...

Não é Gould, mas pelo menos na ária desafia a primazia do mestre.

Para contrastar, ouçamos no cravo, por Pierre Hantaï:




E agora um extra... para quem como eu gosta de guitarra, aqui fica uma transcrição muito bonita da ária (1997). Toca o húngaro Jozsef Eötvös:



P.S. Hoje saiu no Público a opinião de Diana Ferreira. O título "Bach à Italiana" já é enganador, porque o virtuosismo de Beatrice Rana é bastante sóbrio, alemão mesmo. Depois, mente logo no subtítulo, "sala quase cheia": na minha posição a visão da sala era total, e estava quase vazia ! Finalmente, a autora ficou particularmente satisfeita com as variações nº 8, 15, 21 e 25 - justamente algumas das mais falhadas, que Rana tocou com menos empenho e rigor. Mas quem quer saber ? Qualquer coisa serve, só é preciso encher papel e marcar presença. Jornalismo.



quinta-feira, 4 de junho de 2015

Ainda o cravo Titus Crijnen tocado por Andreas Staier



Titus Crijnen me fecit


Baseado em modelos do fabricante holandês Ruckers, do séc XVII, este cravo esteve na Casa da Música cedido pela Associação Pró-Música da Póvoa de Varzim.

Foi estreado no 27º Festival da Póvoa em 2005, por Pierre Hantaï.


Entre os fabricantes de cravos flamengos, que caprichavam na decoração, era costume inscrever na tampa frases em latim alusivas à Arte, como esta, "A Arte não tem inimigo senão o ignorante" ; também gosto desta:

AUDI
VIDE ET TACE
SI VIS VIVERE IN PACE


mais aqui


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Casa da Música:
festa barroca em traverso e bisel, com Andreas Staier


E pronto! agora até Setembro não volto à Casa da Música, terminou a minha temporada.

E terminou bem com Andreas Staier a dirigir a Orquestra Barroca da CdM. Não são os premiados Freiburger Barockorchester, longe disso, mas desempenharam muito bem o programa de Bach e Telemann, em que Staier brilhou com a sua mestria.
Note-se o bom português: direcção com c, Maio com maiúscula...

O cravo era lindíssimo, um Titus Crijnen de 2005:

"Ars non habet inimicum nisi ignorantem"

O concerto terminou com o curto mas jubilatório Presto do concerto TWV 52 e1 de Telemann, para duas flautas (traverso e bisel) e cravo. Uma autêntica celebração, a que ninguém resiste.

Uma versão do Giardino Armonico:

Uma versão esfuziante, talvez de mais:





domingo, 9 de novembro de 2014

Scarlatti K 208, audição comparada.


Música para o fim-de-semana.

Scarlatti compôs esta bela Sonata K 208 em 1753. É uma obra instrumental (para cravo ou órgão) inspirada numa composição vocal sobre acordes de guitarra usual no sul da península, uma espécie de flamenco cortesão tornado elegante e adequado ao palácio dos reis de Espanha.

Começo por uma versão para guitarra, que faz jus às origens.

Domenico Scarlatti - Sonata em La Maior, K 208
Leo Brower, guitarra


Agora, mais fiel a Scarlatti, Scott Ross em cravo:


Por Maria João Pires uma versão em piano moderno, mais pensativa :



Quase me apetece colocar a sonata na lista da ilha deserta. Mas qual das três ?


domingo, 29 de junho de 2014

Sillly Season: duas obras de cravo ligeiras e bem dispostas.


Para começar o Verão, duas obras divertidas, onde o virtuosimo de compositor e intérprete é um duplo gosto. Disse 'música ligeira',  porque esta não desce às profundezas da alma, mas está longe de ser fácil : nesta escrita há muita técnica e sabedoria.
A mim, quando entram no ouvido não saem tão cedo.

1. As variações Harmonious Blacksmith de Handel, da suite No. 5, HWV 430

Começo por versões "sérias": esta, respeitando o original para cravo:


Vertiginosa rapidez, que mais nenhum instrumento é capaz de conseguir !

E esta, em piano, por Wilhelm Kempff - lenta, bem linda, a puxar para o introspectivo ( !!) :


É provavelmente a melhor que conheço.

Quem procurar encontra versões para harpa, flauta, etc.

Agora, em guitarra ? É de prever a dificuldade de execução, sobretudo das variações finais. Mas há quem não tema nada ! O resultado pode ser desagradável para alguns :D

Smaro Gregoriadou, menina prodígio grega, numa guitarra especialmente construída e afinada. Não começa mal...


mas as limitações da guitarra não dão hipótese.

Há uma transposição de Mauro Giuliani, tocada por John Williams, que se afasta muito do original justamente para evitar estes impossíveis últimos compassos.

A outra obra que proponho, um rondó também muito cantabile com variações, parece-me harmonica e estruturalmente similar :

2. A suite Les Niais de Sologne, de Rameau.

De novo, começo pela versão "autêntica", no cravo :

Sempre que ouço fica-me a cantarolar horas dentro da cabeça.

E acabo com Marcelle Meyer ao piano:
Mas que magnífica! Tocava-se muito bem, nos anos 50 !

Marcelle Meyer foi uma pianista francesa do entre-guerras (1897-1958) contemporânea de Milhaud, Poulenc, Honnegger, Satie, Ravel, que se dedicou à música de Rameau, pouco divulgada na época.

Marcelle Meyer retratada no "Grupo dos Seis"



quarta-feira, 28 de maio de 2014

O BWV 1056 por Andreas Staier na CdM


O cravista alemão vem tocar e dirigir peças de cravo neste sábado, na Casa da Música. Espero flutuar com o Largo do 1056 de Bach. Mas também haverá Georg Benda e Telemann, para terminar em festa.

Que a Staier lhe saia tão bem como aqui, na
Sonata BWV 968 :


Quanto a Benda, aqui fica - mas por C. Rousset - o esfuziante final do
concerto para cravo e cordas em si menor (1760) de Georg Anton Benda,
III - Allegro :


Cravo bem tocado assim, maravilha.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Bach, para começar musicalmente o ano aqui no Livro


O Largo do concerto nº5, BWV 1056, é uma daquelas (muitas) obras de J.S. Bach que não têm igual: são geniais e pronto, e por mais conhecidas que sejam resta-nos ouvir num estado entre o pasmo e a levitação . E talvez cantar.

Três escolhas:

A lentidão e interioridade sublimes, os silêncios do piano de W. Kempff


A pureza e a minuciosa perfeição de T. Pinnock no cravo, mais autêntico


O toque doce e contido (triste?) de Maria João Pires


Numa obra de 3 minutos, como pode uma interpretação ter mais 40 segundos que outra ? Não é incrível ? E sem que se lhe possa apontar defeito ! Mais ou menos 40 segundos, a obra de mestre Bach não se importa - fica até a ganhar com a variedade. Até porque o próprio J.S. usou este Largo numa das cantatas, e num concerto para oboé, e num concerto para violino...

Querem-me obrigar a escolher uma para a ilha deserta ?
Kempff. A mais "hereje".