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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Três poemas de Ana Hatherly , sobre: o Saber, a Análise, os Portugueses.

Poemas extraídos de "Um Calculador de Improbabilidades", de Ana Hatherly, ed. Quimera, 2001.

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                                      sobe o sabor do saber
                                      acima da indiferença

                                      por onde passa
                                                                o saber
                                                      passa
                                                                o sabor da diferença

                                                                                                          [de O Cisne Intacto]


A Análise

Peguei numa agulha bem fina,
enterrei a sua ponta na parte inferior
da cabeça do dedo indicador esquerdo.
Extraí uma gota de sangue. Coloquei-a
sobre a pequena lâmina de vidro, estendi-a
bem e examinei-a ao microscópio, aumentada
200 vezes, vi uns discos brilhantes como sóis.
Comecei a contar mas desisti. Eram em número
excessivo. A gota devia conter cerca de
5.000.000 de discos. Aumentei portanto
a potência do microscópio para 1.000 e
colori uma das células. Vi uma armação em
forma de rede de qual pendia um grânulo de
estrutura complicada rodeado por muitos outros
mais delicados. Aumentando a potência do
microscópio para 5.000 os cordéis que formavam
a rede revelaram-se como fios de pérolas. 
Elevei então a potência do microscópio para
100.000, seu máximo. Nas pérolas apareciam 
desenhos semelhantes aos de cristais de
neve.
Nesse momento minha irmã abre a porta e diz:
Olha que a banheira está a transbordar.


                    Balada do Português que dói

                      O barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o corpo cai
                      o corpo dói

                      português vai
                      português cai

                      o barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o país cai
                      o país dói

                      o tempo vai
                      o tempo dói

                      português cai
                      português vai

                      português sai
                      português dói


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Tão actual.

sábado, 7 de junho de 2025

Palavras herdadas da presença Sueva na Gallaecia , e o pouco mais que há

É sabido que a presença de uma população antiga num território deixa marcas mais duradouras na língua falada que nas pedras, documentos escritos e joalharia. 

Quase nada temos dos Suevos , e pouco dos VIsigodos, povos germânicos vindos de entre o Elba e o Oder, e a sul até ao Danúbio - que cá chegaram depois dos Romanos, nos séculos V e VI, atravessando os Pirinéus que estavam já desguarnecidos de legiões. Uma hipótese é que viessem a fugir da ameaça dos Hunos.

Taça sueva, Museu da Baviera

A mais conhecida 'moda' sueva era apanhar o cabelo entrançado em novelo ('nó suevo'). Os guerreiros eram receados entre os  romanos pelo uso da lança, que manejavam com perícia.

Foi Hermerico, rei dos Suevos, quem liderou em 406 a sua migração desde a margem direita do Reno até chegarem à Península Ibérica, três anos depois, estabelecendo-se na faixa atlântica ocidental - o que fora a Gallaecia romana, um pouco expandida mais a sul. Não seriam mais de 30 000; abandonaram o nomadismo e fixaram-se na agricultura, em grandes quintas nos terrenos planos e nos antigos Castros, aproveitando o que estava já construído. Foram mais de trinta anos de 'paz', e o reino foi-se ampliando até Conímbriga.

Réquila foi o rei dos Suevos na Iberia, entre 438 e 448; ambicioso, avançou para Sul conquistando Mérida em 439 e Sevilha em 441, assim tomando posse de grande parte da produção do precioso azeite. Os Romanos enfurecidos enviaram o temível magister militum Vitus, que juntou às suas as tropas visigóticas; Réquila avançou e dizimou os dois exércitos aliados, pondo Vitus em fuga. Não percebo como, se os Suevos eram poucos milhares e dispersos.

O Rei Réquila morreu em 448; foi o último rei Suevo pagão, com 10 anos de vitórias e quase um 'império'.

Rei Requiário (448-455)

Requiário sucedeu-lhe, já convertido ao cristianismo. Foi tambám o primeiro monarca desde os Romanos a cunhar moeda em nome próprio, em Braga: a síliqua de prata onde se lia "por ordem do Rei Requiário".

"IUSSU RICHIARI REGES", por ordem do Rei Requiário cunhada em Braga, capital do reino Suevo. [Museu de Braga]

Para garantir a convivência pacífica na península, Requiário casou-se com a filha do rei Visigodo Teodorico II em 449, e alargou o reino sem resistência mais para sul até ao mar, dominando todo o lado ocidental da península. 

Expansão máxima do Reino Suevo cerca de 456, conquistada Mérida e Sevilha; até Lisboa seria Sueva em 469 ! A Hispânia do mapa era Visigótica cristã.

Tanto domínio territorial desafiou a rivalidade e a ambição visigótica: Teodorico pediu de novo apoio militar aos Romanos e fez uma prolongada guerra aos Suevos, que de início venceram, até conseguir impôr-lhes uma pesada derrota, e perseguindo Requiário até à sua morte no Porto, em 455. Só lhe presta agora homenagem uma estátua em ... Madrid.

Soldado suevo captivo , mostrando o típico enrolamento espiral do cabelo (nó suevo) que distinguia os homens livres. [Biblioteca National de França]

Até finais do século VI os Suevos foram sendo dominados e assimilados pelos poderosos Visigodos, que tinham estabelecido capital em Toledo e um vasto reino que abrangia Espanha e França; foi um longo período de escaramuças com avanços e recuos; sob comando do rei Leovogildo, os Visigodos conseguiram tomar os bastiões suevos restantes - Astorga e finalmente Braga, em 585. O então rei Miro, o último monarca prestigiado dos Suevos, aceitou um tratado de paz que que marca o fim do reino Suevo, e os povos mixigenaram-se de vez - estavam já convertidos ao catolicismo desde 560.

Onde existem mais marcas suevo-visigóticas é na nossa língua: uma abundância de termos quase incrível, sobretudo a Norte do Mondego. E sabendo que os Suevos eram menos de 30 000 - nem sequer nos invadiram, foi simplesmente uma onda de imigrantes ! - a herança linguística é admirável.

Palavras de origem sueva/gótica

agasalho (gasalja)albergue (haribaírgo), aleive (lewjan), arreio (ad ræd), banda*, brétema (suevo brāþm)broabrotar (brozzen, brut) , bruma (breþmaz), escárnio (skernjan), escuma (skuma), faisca (falwiskan, depois romanizada) , feltroganso, guardar (wardon), guerra (werra), íngreme (?), luva (lōfô, que deu glove), marco (mark) , mofo, rapar (hrapon), roubar, roupa (raupjanrauben), trégua (triggwa) ! ...

Nomes próprios também não faltam:

Afonso Adalfuns , Álvaro alwais, Adosinda  hadu sind, Ermelinda ermens lindFernando fardi nand, Gonçalo guntherOrlando Roland,  Reinaldo ragin wald, Rodrigo RudericusRonaldo Rögn Waldr ...

Toponímia:

Aldoar (Alde War) , Baltar, Bertiandos (de bairths, nobre), Ermesinde (Airmans Sinths), Esmolfo **, Esmoriz, Esposende, Fânzeres, Fão, Fiães (de ulfi, lobo), Freamunde, Gondomar (=cavaleiro), Gualtar, Gueifáes, Lordelo, Mondim, Nevolgilde (Leuba Gilds), Resende, ti), (saal), Vermoim...

E em geral nomes terminados em -engo e -ães. Estiveram cá por menos de 200 anos e impuseram tantos vocábulos, fóra muitos outros cuja etimologia ainda se discute. Não admira que algumas dessa palavras não existam noutros países de línguas românicas.

Quanto a património material, temos de facto muito pouco: destaca-se o suevo Mosteiro de S. Pedro de Rocas, em Ourense, a mais antiga construção monástica da Galiza; as primeiras três capelas foram escavadas directamente na rocha granítica no alto do monte Barbeirón, certamente no século VI, constituindo na origem um mosteiro rupestre eremita, provavelmente dedicado a S. Martinho de Dume.

S. Pedro de Rocas, na encosta do monte Barbeirón, Ourense

A situação numa parede rochosa de difícil acesso indica a procura de ascese monástica. A igreja primitiva está inserida nas rochas, por trás dos edifícios mais modernos.

Entrada da capela principal 


San Pedro de Rocas surgiu antes de 573, em período Suevo; a sua estrutura original, é um exemplo raro de uma igreja rupestre escavada. 


O Altar românico de S. Pedro de Rocas


Esta preciosa Ara pré-românica deve ser contemporânea da lápide. Museu Provincial de Ourense.


Abandonada durante a ocupação muçulmana, a igreja voltou a ser usada no século XII, com restauros Românicos e aplicação de pinturas murais. 

Mas sem dúvida o templo mais bem conservado e surpreendente do período suevo é Santa Comba de Bande, do século VI-VII, tempo misto suevo-visigótico; fica em Bande, no Xurês do lado espanhol, perto de Pitões das Júnias.


O templo destinava-se a igreja monástica de um mosteiro feminino; tem planta de cruz grega. O tratamento que se fai do espaço interior é semelhante aos panteões paleocristãos como o de Gala Placidia



Semelhanças inesperadas com Galia Placidia !  Byzantium chegou à Galiza !


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Quanto ao espólio suevo obtido em escavações, está disperso entre Museus, em paticular os de Conímbriga, Braga (Diocese e D. Diogo), Ourense, Lugo, Vigo, e Baviera, mas também no Núcleo Arqueológico de Dume e até na Casa do Infante do Porto. Para uma população que nunca terá ultrapassado os 100 000 (nos séculos VI e VII), até admira terem deixado marca na História.  

Colar de diademas encontrado em Beiral de Lima

Sarcófago, S Martinho de Dume / Museu D Diogo de Sousa, uma das mais belas obra suevas que se conhecem, jóia do Núcleo de Dume.

Jarro litúrgico do período suevo, séc. VII, Museu de Oviedo.

Fíbulas suevas, Museu de Conímbriga.

Cunho litúrgico, Museu de Conímbriga, séc VI (período suevo) com a inscrição "Vivas in Aeternum"

Guarnição de freio em liga de cobre, séc. V, Museu de Conímbriga

Desta época não há documentos escritos, todas as referências em livro são posteriores. Um é a Crónica Albeldense de 976, que está no Escorial; contém uma narrativa dos reinados visigóticos, em latim evidentemente.


Há nele uma referência a S. Martinho de Dume (510 -579), o apóstolo dos Suevos; vindo de uma região germânica a norte da Dalmácia, passou por Itália e França, até chegar à Ibéria onde se dedicou à conversão dos arianistas ao cristianismo. Amigo do Rei Miro, tornou-se Bispo de Braga em 569.

Outro é o registo paroquial suevo, Parochiale Suevorum ou Suevicum escrito durante o reinado de Miro, talvez redigido no concílio de Lugo em 569. É um registo de todas as dioceses e paróquias do Reino, está no Arquivo Distrital de Braga.


Simpatizo com os Suevos. Primeiro, eram um povo de temperamento pacífico e convivial, respeitaram - dentro dos limites de uma época de selvajaria - usos, língua e crenças dos anfitriões, defenderam-se com bravura quando atacados; souberam quando chegou a hora de abandonar a sua identidade colectiva, apagaram-se por anseio de paz e respeito por quem os tinha recebido. É todo o contrário do nacionalismo, todo o contrário do espírito tribal. Espero que tenham sido felizes aqui. 

A seguir veio a invasão africana, a Gallaecia foi ocupada por tribos berberes muito mais belicosas, mas a semente do que viria a ser Portugal tinha sido lançada pelos Suevos. Demorou a germinar mais de quatro séculos, e se calhar mais valia ter estiolado. Não deu grande planta.

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  * no sentido de sítio, de que banda é ?

** deu origem a 'esmolfe'

Fontes

Museu D Diogo, Braga
Museu da Diocese de Braga 
Colecção Arqueológica do Estado da Baviera (Alemanha) 
Museu Arqueológico Provincial de Ourense (Galiza, Espanha)
Museu Municipal de Vigo (Espanha)
Núcleo Arqueológico de Dume, Braga
Núcleo Arqueológico de Conímbriga


sábado, 29 de junho de 2024

Arcos de Valdevez é cidade agradável, mas o melhor é a estrada para Sistelo.


Gostei de estar bem instalado em Arcos de Valdevez a passar os dias de calor finais da Primavera. É uma cidade pacata, limpa e cómoda para passear, tem os seus recantos, e as margens do rio Lima facultam paisagem, sombra e refresco. O nosso hotel estratégico não podia estar melhor situado, e com espaços agradáveis para fruir as vistas e o rumorejar do Lima nos açudes.

A ponte dos arcos, de 1880.


Mas são muito mais as coisas que os Arcos não têm, umas boas e outras más. De mau, não tem turismo aos magotes, nem excursões de camionetas, nem bares e tascos por todo o lado, não tem Mac nem King nem Hut, quase nenhum trânsito urbano. THAT is good !

Mas também não tem sítio de jeito onde se faça uma refeição ao menos mediana; nenhum café clássico apetecível, apenas uma pastelaria vulgar, fecha tudo às 19 horas e pronto (nesta altura ainda há tanta luz...)´

O centro da vila. Zero animação, contra a multidão indigente nos bares em Ponte de Lima. Assim é melhor, mas...

Muito pior: não tem nadinha de cultura - nem Museu, nem Cinema, nem Teatro, nem Cafés (já disse) e nem sequer uma livraria consegui ver ! Jornais, há só um quiosque e poucas horas aberto. De arquitectura, umas casas solarengas vulgares. Pacata, pacata, sim, repousante e limpa e arrumadinha até mais não.

O bizarro pelourinho manuelino, para aqui trasladado, após várias deslocações anteriores.

O único edifício de alguma antiguidade é a Capela da Praça (a N. Sª. da Conceição), séc. XIV/XV, uma capela mortuária que sobreviveu por milagre, tão pequena que é e na realidade insignificante. A porta gótica é bonita, vá.

A Igreja de maior valia será a da Misericórdia, do século XVIII, mesmo mesmo no centro. Se calhar é de facto 'o' próprio centro, com banquinhos de pedra à sombra onde é bom recuperar os pés. 


E o interior até surpreende, já de inspiração neoclássica.



Tecto de madeira com três painéis figurativos de 1747.


Numa pequena vitrina, como se precisasse de protecção especial, uma imagem de Filomena, mártir grega do século III, com um ramo de palmeira na mão, símbolo da vitória sobre o martírio ás mãos de Diocleciano. E sobre esta curiosa imagem, nada mais se sabe. Estranho. Fica aqui o desafio.


Ao lado da Igreja fica o Palacete que é sede do Notícias dos Arcos.

Imponente mas desleixado.

Nas ruas estreitas mais antigas há raros motivos de interesse; achei graça a este prédio numa bifurcação de ruelas que me lembra muitas coisas 'parecidas' - mas muuuuuito mais belas - que vi lá fora, em Itália e na Suíça.



Pelo menos tem uma laranjeira, dois banquinhos e um poste dos correios. Que querido, o sítio mais fotogénico dos Arcos de Valdevez.

Com boa vontade, consegue-se descobrir um ângulo.



O Solar da Ponte merecia melhor sorte - seria uma imponente casa nobre, brasonada, se não tivesse ficado meio 'enterrado' pela rampa de acesso à ponte de pedra de 1880, que substituiu uma anterior de madeira.




O brasão da família, com as armas dos Araújo, Amorim, Azevedo e Coutinho, de ca. 1800, interrompe a cornija.


 Vamos mas é para Sistelo.