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quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Três poemas de Ana Hatherly , sobre: o Saber, a Análise, os Portugueses.

Poemas extraídos de "Um Calculador de Improbabilidades", de Ana Hatherly, ed. Quimera, 2001.

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                                      sobe o sabor do saber
                                      acima da indiferença

                                      por onde passa
                                                                o saber
                                                      passa
                                                                o sabor da diferença

                                                                                                          [de O Cisne Intacto]


A Análise

Peguei numa agulha bem fina,
enterrei a sua ponta na parte inferior
da cabeça do dedo indicador esquerdo.
Extraí uma gota de sangue. Coloquei-a
sobre a pequena lâmina de vidro, estendi-a
bem e examinei-a ao microscópio, aumentada
200 vezes, vi uns discos brilhantes como sóis.
Comecei a contar mas desisti. Eram em número
excessivo. A gota devia conter cerca de
5.000.000 de discos. Aumentei portanto
a potência do microscópio para 1.000 e
colori uma das células. Vi uma armação em
forma de rede de qual pendia um grânulo de
estrutura complicada rodeado por muitos outros
mais delicados. Aumentando a potência do
microscópio para 5.000 os cordéis que formavam
a rede revelaram-se como fios de pérolas. 
Elevei então a potência do microscópio para
100.000, seu máximo. Nas pérolas apareciam 
desenhos semelhantes aos de cristais de
neve.
Nesse momento minha irmã abre a porta e diz:
Olha que a banheira está a transbordar.


                    Balada do Português que dói

                      O barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o corpo cai
                      o corpo dói

                      português vai
                      português cai

                      o barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o país cai
                      o país dói

                      o tempo vai
                      o tempo dói

                      português cai
                      português vai

                      português sai
                      português dói


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Tão actual.

domingo, 23 de março de 2025

Primavera, dois poemas de Maya C. Popa


Para já a Primavera é um Inverno prolongado, se há flores estão murchas da chuva e do vento, se há sol e calor é noutras paragens. Ouvem-se tambores de guerra, cada vez mais fortes. É a Primavera do meu descontentamento. A poeta romeno-americana Maya C. Popa (n. 1989) é, nesta situação, um braço de apoio para a melancolia.

Spring

Time persists, yes, I can see there are new branches.

The grass, first in a line of transformations,
seemingly risen overnight.

Color is pouring back into the hours,
or forgiveness, whatever the case may be.

With one decisive tug at the earth, the robin’s drawn forth
a shimmering worm,

with such precision, it is almost a cruel pleasure.

This, the nightmare we dreamed but did not wake from.

Time is passing, I concede. A squirrel leaps
from one branch to another.

A hawk studies the field at dusk.

The park announces the season over and over
to no one,

and the silence cranes to listen.

Terraces of light now that the day is longer.

When joy comes, will I be ready, I wonder.

[in 'Wonder is the origin of Wound']

                 Primavera 

O tempo persiste, sim, posso ver que há ramos novos.

A relva, primeira de uma sequência de mudanças,
parece ter crescido durante a noite.

A cor derrama-se de novo com o passar das horas,
ou o perdão, conforme seja o caso.

Com um puxão decisivo na terra, o tordo extraiu
um verme cintilante,

com tanta precisão, é quase um prazer cruel.

Este, o pesadelo que sonhámos, mas do qual não acordámos.

O tempo vai passando, admito. Um esquilo salta
de um galho para outro.

Um falcão estuda o campo ao anoitecer.

O parque anuncia a estação uma e outra vez
para ninguém,

e o silêncio prolonga-se para ouvir.

Terraços de luz agora que o dia é mais longo.

Quando a alegria chegar, estarei eu capaz, questiono.




February Clear

Sky rinsed blue above the yellow grass and wind-shorn clouds as thin as mist - how often I have failed to look when looking would have changed me. I can't name much beyond the obvious handful of features of the patient whole, branches poised for next month's bloom, triangle of geese, the peat set low against the largest rock formations the wind interrupts repeatedly against, and the tree that grows at such a slant it tests the verdict of the eye, sending mind down roots as serious and sure and green as sunlight's own renewing. 


               Limpeza de Fevereiro

Céu lavado de azul acima da erva amarela e nuvens tosquiadas pelo vento tão finas quanto névoa - quantas vezes deixei de olhar quando olhar poderia ter-me mudado. Não consigo referir muito para lá do punhado óbvio de características deste sereno todo, galhos prontos para a floração do mês que vem, triângulo de gansos, o mato rasteiro junto às maiores formações rochosas que o vento interrompe sem cessar, e a árvore que cresce numa inclinação tal que desafia o veredicto dos olhos, enviando a mente a descer para raízes tão sérias e firmes e verdes quanto a própria renovação da luz do sol.


domingo, 6 de agosto de 2023

'Dear Life', a poesia de Maya Catherine Popa


Maya Catherine Popa (n. 1989) é uma escritora, académica e escritora Romeno-Americana, filha de refugiados políticos, que vive em Nova Iorque. Na sua poesia exprime perspectivas inesperadas e bastante desesperadas sobre o mundo, com uma acutilância rara, onde alguma alegria periclitante consegue ainda sobreviver.

Dear Life
Maya Catherine Popa

I can’t undo all I have done unto myself,
what I have let an appetite for love do to me.

I have wanted all the world, its beauties
and its injuries; some days,
I think that is punishment enough.

Often, I received more than I’d asked,

which is how this works—you fish in open water
ready to be wounded on what you reel in.

Throwing it back was a nightmare.
Throwing it back and seeing my own face

as it disappeared into the dark water.

Catching my tongue suddenly on metal,
spitting the hook into my open palm.

Dear life: I feel that hook today most keenly.

Would you loosen the line—you’ll listen

if I ask you,

if you are the sort of  life I think you are.


Vida querida

Não posso desfazer tudo o que a mim própria fiz,
o que deixei que um apetite de amor me fizesse.

Eu quis o mundo todo, suas maravilhas
e suas mazelas; nalguns dias
penso que já é castigo suficiente.

Muitas vezes, recebi mais do que pedi,

e é assim que isto funciona - pescamos em mar aberto
prontos a ser feridos por aquilo que vem na linha.

Deitá-lo fora de volta era um pesadelo.
Deitá-lo fora de volta e ver o meu próprio rosto

enquanto desaparecia na água escura.

Fisgar de repente a minha língua no metal,
cuspindo o anzol na palma aberta da minha mão.

Vida querida: hoje sinto esse anzol mais intensamente.

Afrouxarias a linha? – ouvirás tu

se eu perguntar,

se és o tipo de vida que eu acho que és?


- ∞ - ∞ - - ∞ - ∞ - - ∞ - ∞ - - ∞ - ∞ - ∞ -

Maya Popa já publicou várias edições dos seus poemas.

São poemas amargos, onde qualquer vislumbre mais feliz é logo desmentido em palavras de desencanto por vezes violentas, no mínimo num desalento conformado. Há sem dúvida pontos de contacto com a poesia de Emily Dickinson.

 
Milton Visits Galileo in Florence

Hard to say if what they saw
was geometry or God, galaxies roiling
wordlessly each night, a summary of light
painted fresh across the firmament.
Ink bringing daybreak into Eden, the angels,
listless in their graces, latent good
pooling with nothing to war over.
A jug of water on the table between them
like an artifact of loneliness, the telescope’s
moons on Satan’s shield—it was, after all,
a human friendship, full of mortality’s tokens.
Both went blind in their old age.
Begin again in darkness, life says sometimes.
Picture the trees burning in autumn,
the earth’s relief, at last, at being fallen.


É difícil dizer se o que eles viram
era geometria ou Deus, galáxias em torvelinho
caladamente cada noite, um condensado de luz
pintado fresco em todo o firmamento.
Tinta trazendo a alvorada ao Éden, os anjos,
inertes nas suas graças, bondade latente
reunida sem nada para guerrear.
Um jarro de água na mesa entre eles
como um artefato de solidão, no telescópio
as luas do escudo de Satanás - era, afinal,
uma amizade humana, cheia de símbolos da mortalidade.
Ambos ficaram cegos na velhice.
Começa de novo na escuridão, diz-nos às vezes a vida.
Imagina as árvores queimadas no outono,
o alívio da terra, finalmente, ao ir-se declinando.

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M40

The wind moves the leaves
in multiple directions
like a mind caught between alternatives.

Bright arrows of sunlight
between lashes, the branches
cleared revealing nests.

One day, this grief
will seal from feeling,
a cool politeness round a thin raised scar.

The crows are hard at work again,
driving their beaks
into frozen fields.

What does it matter, you think.
Matter! Matter! they reply.


O vento move as folhas
em várias direcções
como uma mente presa entre alternativas.

Setas brilhantes de luz solar
entre os cílios, os ramos
despidos revelam ninhos.

Um dia, esta dor
selará o sentimento,
uma polidez morna à volta de uma cicatriz fina e rugosa.

Os corvos de novo em força a trabalhar,
espetando os seus bicos
em campos congelados.

Quero lá saber, pensas tu.
Quero! Quero! eles respondem.

 


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[todas as traduções minhas]

domingo, 5 de janeiro de 2020

Emily Dickinson deixou rascunhos de poema em envelopes



De Emily Dickinson já aqui publiquei alguns poemas, e gosto sempre de voltar a ler mais algum. Soube agora de muitas notas, ou rascunhos - ou talvez não... - que ela escrevia de forma bastante gráfica em envelopes, cartas, postais e até embalagens, aproveitando as dobras, vincos e marcas numa perspectiva visual e moderna, quase como origamis. Em tinta ou lápis, geralmente no papel de carta que se usava na casa de sua família, Dickinson escrevia continuamente sobre uma pequena mesinha junto à janela, à noite quase sempre, à luz das velas e com o quarto aquecido por um fogão Franklin na lareira.


Os famosos 'traços' de Dickinson são incontornáveis em todas as edições, mas poucas reproduzem os seus sinais '+', que marcam uma linha inacabada ou provisória, a ser preenchida posteriormente. Há marcas de água e relevos em torno dos quais Dickinson orienta a escrita; a tradução impressa das superfícies gráficas, dinâmicas e selvagens de Dickinson não cabe nos limites habituais.

Os poemas de envelope são uma mostra do trabalho de Dickinson, da sua actividade mental única, vinculada de maneira dramática a pedaços de papel com cento e cinquenta anos ou mais, cuja reprodução quase perfeitas só agora está disponível.

Na parte de trás de um envelope fechado, como Dickinson usou em "A 496/497", temos três triângulos justapostos, como as faces de uma jóia planificada. Ela escreveu dentro e, ocasionalmente, através das dobras e vincos dessa superfície. Para ler as linhas, temos de girar a imagem no sentido anti-horário. O prazer e o desafio desse tipo de leitura e inegável; ao lado de um fac-símile desses manuscritos, uma versão impressa parece uma espécie de imitação grosseira.

"As letras são sons que vemos", escreveu a poeta Susan Howe. Cartas manuscritas exprimem uma variedade muito maior de sons do que um papel impresso. E, se as letras são sons, também o são espaços entre as letras, as margens e os vazios, a forma e outros aspectos materiais do papel que ela escolheu. Alguns exemplos:

Aba de envelope: a forma de asa ('bird'), ou de baínha de espada...

           One note from one Bird
           Is better than a Million words
           A scabbard has - holds but - one sword


           In this short life
           that only /merely lasts an hour
           How much - how little -
           is within our power


           Look back on time
           with kindly eyes -
           He doubtless did his best -
           how softly sinks that / his
           trembling Sun
           in Human Nature's West -


           On that specific pillow
           Our projects flit away -
           the Nights' tremendous Morrow
           And whether sleep will stay
           Or usher us -
           a stranger -


           But are not all Facts dreams
           soon as we put them behind us.


           Talked with each other
           About each other
           Though neither of us spoke.


Fonte:
Emily Dickinson, Envelope Poems
New Directions Publishing