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quarta-feira, 17 de março de 2021

George Steiner sobre a herança Grega


Independentemente de tudo o que não concordo no que George Steiner escreve, ele é com Fukuyama o pensador mais marcante da passagem do século. Não concordo com a admiração e referência que Steiner atribui à filosofia germânica (Nietzsche, Hölderlin, Hegel, Heidegger, Schopenhauer, Kierkegaard) que antes me parece a origem de toda a grande tragédia alemã e europeia do século XX; e não concordo com o gosto musical de Steiner, admirador de Wagner nec plus ultra e dos seguidores do horrendo Adorno - Boulez, Messiaen, Ligeti, Nono, Berio, toda a escória musical do atonalismo e serialismo, isso sim apenas ruído.

Mas quando Steiner fala da herança europeia e da superioridade da cultura clássica tendo a concordar, mesmo que ele exagere no desprezo pela cultura anglo-americana do pós-guerra, de que nitidamente não percebe nada. Nestas entrevistas que concedeu a Ramin Jahanbegloo diz a certo ponto:

' Tenho a convicção íntima de que certas ordens de especulação intelectual só podem encontrar-se num mundo limitado no qual os escravos asseguram aos abastados a subsistência necessária bem como o ócio, que lhes permite discutirem as secções cónicas ou a álgebra dos números irracionais na Academia. Com efeito, o privilégio insensato que a Grécia conheceu consistia nesse luxo de um pensamento político baseado na escravatura e na redução da mulher a um estatuto de inferioridade. Tudo o que é nosso foi pensado durante esse breve período da história humana; somos filhos desse mundo. Depois dele, o nosso conhecimento só muito pouco enriqueceu. A nossa ciência, as nossas matemáticas são um banal prolongamento das dos Gregos. Schelling dizia que, quando pensamos, somos todos gregos. Talvez sejamos '"todos" * hebreus quando rezamos ou sofremos, mas o pensamento, concebido de modo especulativo, formal e plástico, vem-nos dos gregos. Ser professor é ser grego. Receber alguém numa universidade ou numa academia é ser ateniense. '

Isto eu subescrevo, atento e agradecido; senti-me grego e ateniense algumas vezes. O mais nobre pensamento da humanidade foi obtido em condições do que hoje seria  repugnante injustiça social. Argumento a sustentar portanto que a injustiça social nada tem a ver com o nível de cultura e civilização como pretende o socialismo clássico.

Quando pensamos somos todos gregos. 


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*aspas minhas; não sou nada hebreu.

terça-feira, 16 de junho de 2020

'Doch wird die Seele leben', mas que alma será essa ?


'Denn ob der Leib gleich stirbt, doch wird die Seele leben.'
Pois se o corpo morre agora, ainda assim a alma vive.

                                                                     Coro de Paulus de Mendelssohn [cf. as Escrituras]

É o arquétipo mais universal das crenças humanas - a ilusão de que temos uma alma imortal. Há por aí gente como eu que não o partilha, para quem 'alma' não existe, mas apenas uma consciência emanada da actividade cerebral. Quando morre, morre tudo. É uma forma de conforto como qualquer outra: talvez um átomo de uma pestana minha, sob o vento solar, esvoace para um sistema planetário em Andrómeda.

Mas como é lindo de verdade, animador, exaltante mesmo, acreditar que 'die Siele Lieben' . De certa maneira imaterial Petrarca ou Borges ainda estão conosco, vivem em nós que deles aprendemos ; mas não a sua alma, pois não ? E é pena, é pena que esta espécie humana com termo de alma ainda seja o elo terminal da evolução, tão básica, tão mal acabada, tão efémera.

Veados ou elefantes ou tartarugas já vêm de tão longe, já viram os humanos nascer e ultrapassá-los e competir com eles pelos recursos do planeta - então porque raio não veio ainda, não vem agora outra espécie que nos faça a nós o mesmo ? Terá de ser um invasor de outro sistema ? Precisamos tanto de ser superados, transmutados ! Gostava muito de conviver com o meu sucessor na cadeia biológica, um ser divinal, belíssimo, mágico, capaz de conseguir, talvez, a alma eterna...

As crenças greco-romana, judeo-cristã, islâmica ou outras são idênticas nisso mesmo: a sobrevivência eterna de "qualquer coisa" nossa. E tanto assim que se lhe vai prestando homenagem com flores e potes de cinza e velas e estatuetas. A ciência dá-nos uma consolação mais vaga, mais diluída, mas mais universal - as nossas partículas serão parte futura de nuvens estelares, galáxias, planetas. Mas a Natureza só terá atingido um grau decente de evolução na sua cadeia de vida quando nos der um "Eu" que de facto perdure; e para que valha a pena perdurar, tem que ser mais perfeito - tem que ser sublime.

Este macaquito inventor e construtor ainda é um esboço tosco, esboço a vários títulos selvagem, totalmente imerecedor da imortalidade. Mesmo que se extinga ao ser ultrapassado, já deixa, mesmo na sua bruteza, alguma herança a valer eternidade:

Mendelssohn, "Sihe, wir preisen selig",
Kurt Masur dirige a Gewandhaus Leipzig


A propósito, lembrei-me do poema de Mary Frye:

    Do not stand at my grave and weep
    I am not there. I do not sleep.
    I am a thousand winds that blow.
    I am the diamond glints on snow.
    I am the sunlight on ripened grain.
    I am the gentle autumn’s rain.
    When you awaken in the morning’s hush,
    I am the swift uplifting rush
    Of quiet birds in circled flight.
    I am the soft stars that shine at night.
    Do not stand at my grave and cry;
    I am not there. I did not die.


                                                         Mary Frye

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                             Não fiques junto à minha campa a chorar
                             Não estou lá. Eu não durmo.
                             Eu sou mil ventos que sopram.
                             Sou cintilações de diamante na neve
                             Sou luz do Sol na espiga madura
                             Sou a suave chuva de Outono.
                             Quando acordas no silêncio da manhã
                             Sou o levantar repentino e apressado 
                             de pássaros serenos em voo circular.   
                             Sou as ténues estrelas brilhando na noite.
                             Não fiques junto à minha campa a chorar
                             Não estou lá. Não morri.

r
         

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Fim do Mundo, versão XXI - Schwarze


O filão das Teorias do Fim do Mundo vem de longe, a escatologia é uma filosofia com pergaminhos que tem no trans-humanismo (*) a sua corrente mais actual. Sempre me pareceu um modo de pensar de gente senil que sublima no Fim do Mundo o seu desespero perante a morte.

No século XX o cinema de Hollywood explorou até à exaustão esse tema sempre popular, ou melhor, 'populista' diria eu. Pois, as Teorias do Desastre conseguiam records de bilheteira explorando os medos de forma muito inventiva: foi a invasão de marcianos ou coisa pior, foi o asteróide que ia rebentar contra a Terra, os robots que vinham do futuro eliminar a humanidade, foram tsunamis gigantes, tornados em cadeia, epidemias de vírus incontroláveis, e também terroristas com armas nucleares q.b.. Se essas narrativas estivessem num 007, James Bond salvava o mundo e nós divertíamo-nos e riamos do ridículo. Mas a maioria desses filmes levava-se a sério !  Apresentavam avisos dramáticos para o que 'pode acontecer', morria boa parte da humanidade, e os espectadores assustavam-se ou não, conforme estivessem ou não vacinados. A esquerda-barra-gauche achava aquilo tudo uma palhaçada ou (se fosse radical) propaganda do medo a favor do domínio americano do planeta. Com o 11 de Setembro, ainda mais se agravou a paranóia, dando lugar a várias Teorias da Conspiração para acabar com o mundo, e conheço gente muito socialista que acreditava: a imprensa estava toda manipulada pela CIA, FBI, NSA e as farmacêuticas para esconder a 'verdade'. Até já andam extraterrestres e mutantes entre nós... o anti-cristo ! ...

Ora bem: houve uma evolução recente. Agora temos o Fim do Mundo aí à porta por causa dos Estados Unidos abandonarem o acordo de Paris e tratarem mas é de ter o seu petroleozinho a bom preço por bons anos, ou décadas. Ou séculos. O desastre iminente é o aquecimento global, ui, é a subida dos mares, ui, é o Niño e os fenómenos extremos. Inundações. Secas. Tudo ao mesmo tempo e em força. É a extinção da natureza e o colapso da civilização por culpa de Trump. Ui, ui. Mas quando vamos a medidas, o mar sobe poucos centímetros e a temperatura umas décimas de grau; ai jesus.

No pior cenário, o mar sobe 1 metro em 2100, previsão a 80 anos. Isso seria o fim da Civilização ? Se já subiu quase 30 cm desde 1900...
Não podemos adaptar-nos ?


Muito gostava que o petróleo simplesmente se esgotasse agora, já. Ver o que é que se fazia sem aviões nem navios, portos e aeroportos obsoletos e os viajantes de negócio e turistas obrigados ao combóio, provavemente a vapor onde não há ainda rede elétrica. Como é que se faziam todos esses encontros e fóruns mundiais vogando devagarinho num navio à vela, pois não haveria combustível para iates ou paquetes ? Como iriam as mamãs ambientalistas buscar as criancinhas ao colégio numa bicicleta ?  Como se deslocariam bombeiros e ambulâncias na alta velocidade da bateria Li-ion ? Pois, foi isto mesmo que o génio Schwarzenegger, ecologista fake, desejou: poder voltar ao século XIX para anular a descoberta do petróleo na Escócia e por conseguinte impedir a (segunda) revolução industrial. Esse mesmo Schwarzenegger de Hollywood que fez tanto filme-catástrofe em que eram as máquinas inteligentes quem destruía a civilização.

Detesto a indústria do petróleo com toda a corrupção e ganância associadas. Embirro com o excesso de trânsito nas cidades, que deveriam ser mais planeadas a favor do peão. Mas não vejo como poderíamos viver sem combustíveis a não ser ao nível do século XVIII. Por tudo isso dou ao Aquecimento Global / Fenómenos Extremos / Alterações climáticas, com os seus centésimos de subida do mar e da temperatura, a mesma perigosidade que tiveram o bug do milénio Y2K, os marcianos invasores e o buraco do Ozono. Previsão acertada, só se for que, dentro de 800 milhões a 1 bilião de anos, a vida se terá tornado impossível na Terra devido à evolução estelar do Sol, que provocará o esgotamento de dióxido de carbono no planeta.

Como sempre, com técnicas, ciência e sabedoria iremos ultrapassar dificuldades que a Natureza nos impõe. Não é com recuos e abstinência. Para isso nem vale a pena cá estar.

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(*) prevê uma  mutação que traga uma nova raça humana, com extinção da actual.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O tempo - entropia, campo quântico, ou seja lá o que for

  [Vou quebrar a sequência de publicações de viagem com este 'ensaio'.]

Nunca ninguém foi capaz de definir o tempo, já se sabe. Rios e rios de tinta foram gastos desde pelo menos os pensadores da antiga Grécia. Podia aqui listar centenas, milhares de citações, a maioria hoje disparatadas, como a do tempo como "eternidade", uma duração sem fim em que estamos mergulhados. A mais genial e eterna,

Aristóteles, “O tempo é o número do movimento", ou "o tempo é a medida da mudança" - (conforme as traduções)

estabeleceu a base para a filosofia do tempo como ilusão dos sentidos, construção da mente sem correspondente realidade física. Quem deu cabo desta abordagem, cerca de um milénio mais tarde, foi Isaac Newton, quando descreveu com precisão de relógio o movimento dos planetas, baseado num tempo absoluto e universal, um tempo matemático (a variável contínua t), que havia de reinar por vários séculos - foi a era da Ciência positiva e determinística. Perdurou até à Relatividade de Einstein, que fez uma síntese dos dois e veio dar novo significado ao tempo matemático: ele depende de cada observador, da sua posição no espaço e no campo de forças gravitacionais. O tempo de A nos Himalaias não é o tempo de B no fundo do Canyon do Colorado, mesmo que a diferença seja mínima. O tempo de A, em órbita num satélite próximo do Sol, não é o tempo de B, pousado em Marte. Os tempos pessoais aproximam-se entre vizinhos quietos, afastam-se entre viajantes longínquos. O tempo é movimento, sim, Aristóteles, mas também obedece à Matemática, Newton.

Ora bem: agora, nem isso ! Nem um, nem outro. E pouco adiantam os argumentos filosóficos: o tempo não é um conceito, nem um fenómeno, não é uma realidade, não é uma ilusão; as últimas notícias da Ciência dizem simplesmente que "o tempo não existe", ou melhor, "não é necessário, não faz falta" ao nível da Física de partículas, da Física Quântica. No mais profundo e íntimo que se alcança do nosso mundo, não há passagem do tempo, os acontecimentos podem suceder de trás para a frente, tudo o que existe são "campos interactivos", uma dinâmica de relações e interferências que não têm passado nem futuro, que só existem conosco, quando são observadas, redes de sobreposições de flutuações quânticas probabilísticas. Quite a mess, I'd say.


Quânticas ? Sim, descontinuas, granulares, por pequenos 'saltos', numerados; numa escala tão minúscula que não admira que as 'Leis da Física' deixem de se aplicar, que o tempo deixe de fazer sentido ! Isso ajuda alguma coisa a compreender o tempo à nossa escala ? Bom, também não existe 'tempo' à escala máxima: tanto quanto sabemos, o Universo também não tem história temporal; simplesmente existe (?), e pronto. Mais uma vez, campos de forças múltiplos - gravítacionais, magnéticas - em infinitas camadas sobrepostas que não têm passado nem futuro... mas neste caso aparentemente contínuas, devido à escala que desfoca, torna 'baça' a estrutura quântica. O nosso problema com o mundo, com o conhecimento do mundo, é termos dele uma visão míope, baça, estrábica ! Ah, tivéssemos olhos quânticos, que Universo tão diferente teríamos à vista !

De tudo isto, resulta estar a correr vulgarmente de novo a velha ideia de que o tempo é uma ilusão, uma construção da mente humana para descrever e poder agir na sua pequena paróquia do Universo. Mas isso não pode também ser verdade: que nascemos, crescemos, adormecemos e acordamos, até finalmente morrer, não é uma ilusão, e pior que isso, tem uma direcção única e irreversível. Isso está relacionado com um conceito físico fundamental chamado Entropia: a Entropia nunca diminui num dado sistema isolado, aumenta sempre. A Natureza, num sistema restrito do nosso mundo, tende sempre a desorganizar-se, vai no sentido do caos, da indiferenciação, e é esse grau de (des)organização que a Entropia indica.


Quando se refere "sistema", neste caso, refere-se uma parte do Universo isolada ou fechada a influências externas. Por exemplo, o Sol vai no caminho irreversível da desagregação e do caos: não é alimentado, não recebe energia do exterior. Um ser humano enterrado vivo numa urna hermética vai no mesmo sentido: pó... Uma vela que vai ardendo consome-se até ser cinza. Uma nave espacial com as baterias e painéis solares mortos, só pode desagregar-se, tão lentamente como um calhau de granito, por muitos biliões de anos (neste caso, se a nave "ardesse" seria até uma diminuição de entropia, resultante de calor externo). Caso a Entropia pudesse diminuir nestes sistemas, teríamos uma vela eterna e cada vez mais brilhante, um cadáver ressuscitado, as baterias dos carros cada vez mais carregadas... enfim, "disparates" que o senso comum já interiorizou sem saber que se trata de Entropia.

"O tempo é em si mesmo causa de destruição mais do que de geração."
Aristóteles de novo, precursor !

Neste nosso "sistema" onde vivemos, o Universo conhecido, não se pode voltar atrás por força da inflexível Lei da Entropia. Será essa Lei que nós traduzimos na nossa mente por "tempo" ? Acontece que pode haver (em geral há) perturbações externas que diminuam a Entropia. Um exemplo bonito que li é este: precisamos de energia para viver; mas se fosse só de energia, bastava estarmos ao Sol a receber fotões, como um painel, e não precisávamos de alimento. Na verdade, o que precisamos, como seres altamente complexos e organizados e de baixa entropia, para mantermos baixa a nossa entropia ! Por isso comemos alimentos que, eles próprios. são coisas vivas, portanto fontes de baixa entropia. Também por isso é que nunca ninguém se podera alimentar só de comprimidos ou produtos feitos em laboratório: temos de ingerir coisas vivas que nos restituam baixa entropia ... ou seja, nos dêem mais TEMPO ! Pois é, estar débil ou moribundo é um sinal de aumento da entropia do nosso corpo...

Num "pequeno" mundo à nossa volta, a entropia cresce, e o tempo como variável é indispensável e não tem nada de ilusório.  Não se poderia enviar naves e satélites em rotas interplanetárias sem entrar com a variável tempo, que é intrínseca às equações relativistas do espaço-tempo que Einstein escreveu. Equações que mostram por outro lado que o tempo não é único e universal - cada um tem o seu tempo, o tempo do astronauta que regressa não é o de quem cá ficou. Nuns casos a décalage é ínfima, difícil de detectar; noutros já é significativa, tanto maior quanto maior for a distância e as diferenças de forças gravitacionais. Talvez as forças gravitacionais e outras sejam a única "coisa" que realmente existe, os tais campos de forças, e talvez o tempo seja uma manifestação em simultâneo dos campos de forças e da Entropia. E ainda também da limitação da velocidade da luz. Mas o que é velocidade se não houver tempo? Sem tempo, a propagação é instantânea, "velocidade" não tem sentido...

Foi aliás com base numa diferença de tempo real, mensurável, que decorreu a recente experiência que conduziu à detecção de ondas gravitacionais: a diferença dos tempos prórios de cada onda/ partícula é que tornou possível detectá-las.

As certezas sobre o tempo são portanto escassas. É certo que:  1) ao nível fundamental das partículas constituintes da matéria, não existe tempo, nem entropia. Mas se recuarmos no "zoom" afastando-nos para escalas maiores, a certa altura, em certa situação, quando o mundo das partículas fica desfocado, vago, indistinto, começa a haver entropia e tempo. E é também certo:  2) que as equações que eram indiferentes à variável t passam então a reflectir a "flecha" do tempo, os fenómenos deixam de ser comutativos, ou seja, deixam de poder suceder num sentido ou no seu inverso temporal.


Portanto, a concluir, se ilusão houvesse não era humana, mas sim uma ilusão (tipo miopia) provocada pela nossa escala de observação, e é a mesma escala de observação de qualquer ser vivo no Universo, porque não existe vida ao nível das particula quânticas... Quando Schopenhauer escreve "Ninguém viveu no passado e ninguém viverá no futuro. Apenas o presente é a forma de toda a vida.", está afinal a descrever o mundo quântico, não o mundo humano. "Ninguém" será um fotão ou um gravitão. Para o Homem, mais acertado seria dizer que toda a gente vive no passado, o passado é o modo de toda a forma de vida, e não o presente: tudo o que a nossa mente abarca é já passado (ou melhor: várias camadas de passado), o presente em si mesmo é não-existente, sem sentido. Nem começou e já foi. O meu presente não é o teu. O presente, sim, é uma ilusão.


O tempo, então.
Concluo eu, o tempo seria, por exemplo, talvez, o modo como cada um, à sua escala no Universo, e na sua posição relativa aos campos gravitacionais, assume a sua entropia. Quer dizer, afinal, a sua História. Nesse sentido, é um tempo também psicológico... Bom, escrevi isto agora, depois de muita leitura ao longo de anos. Serve como "minha" definição, relativa a eu estar sentado aqui ao computador, neste estado de entropia, a  41.1579° N, 8.6291° Wº, no planeta Terra, Sistema Solar, sessenta e tal milhões de anos depois da extinção dos dinossauros, mais coisa menos coisa (só não devo dizer "agora", nem as horas que são no meu relógio !). Qualquer outro terá uma outra definição mais a seu gosto, mas para nenhum de nós o tempo é apenas ilusão.

E depois, também para mim, há sempre um argumento definitivo: então e a Música ?! Se o tempo é uma ilusão, se o passar do tempo não existe, como é possível a Música ? 


Leitura 'obrigatória' - foi este livro que desencadeou o meu texto:
       Carlo Rovelli, L'Ordre du Temps , Flammarion
       trad: A Ordem do Tempo, ed. Objectiva    
       (cuidado com as traduções de artigos científicos).

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Nota: todas as imagens são "artísticas", não procuram ilustrar qualquer fenómeno científico.




sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Dúvidas cartesianas: 'Acaso sueño haber soñado', etc


De Jorge Luis Borges. 'La cifra', 1981

Descartes

Soy el único hombre en la tierra y acaso no haya tierra ni hombre
Acaso un dios me engaña.
Acaso un dios me ha condenado al tiempo, esa larga ilusión.
Sueño la luna y sueño mis ojos que perciben la luna.
He soñado la tarde y la mañana del primer día.
He soñado a Cartago y a las legiones que desolaron Cartago.
He soñado a Lucano.
He soñado la colina del Gólgota y las cruces de Roma.
He soñado la geometría.
He soñado el punto, la línea, el plano y el volumen.
He soñado el amarillo, el azul y el rojo.
He soñado mi enfermiza niñez.
He soñado los mapas y los reinos y aquel duelo al alba.
He soñado el inconcebible dolor.
He soñado mi espada.
He soñado a Elisabeth de Bohemia.
He soñado la duda y la certidumbre.
He soñado el día de ayer.
Quizá no tuve ayer, quizá no he nacido.
Acaso sueño haber soñado.
Siento un poco de frío, un poco de miedo.
Sobre el Danubio está la noche.
Seguiré soñando a Descartes y a la fe de sus padres.




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Sinto um pouco de frio, um pouco de medo.
Sobre o Danúbio cai a noite.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O Homem Novo soft deste novo Orçamento.


Foi o mito de um Homem Novo que alimentou revoluções e ditaduras. Muitos filósofos - Heidegger, Gramsci, Adorno, Marcuse - sustentaram esse objectivo sem se darem conta ( ou deram ?) de que promovia regimes destrutivos do próprio Homem. Foi o desastre nazi e o desastre soviético, o da China maoísta e o da Cuba guevarista, e agora o desastre islâmico do Daesh/Isis. Também a Igreja católica prega o Homem Novo que advirá com a cristandade universal, tão carneiro no rebanho como qualquer dos anteriores. Desconfiemos, portanto.



A democracia moralista reinante na Europa e no Ocidente tem outra aproximação ao Homem Novo, mais soft, apoiada no "politicamente correcto" que nasceu do relativismo e do ecologismo. Diz-se igualitária, ecológica e social, mas não deixa de ser uma imposição estatal de um modelo de vida que culpabiliza como criminosos os que não cumprem, fazendo-os pagar caro nos impostos e na censura social.

O Homem Novo da moda actual, plasmado no nosso novo Orçamento de Estado, é ciclista ou usa transporte público não poluente, é vegetariano, magrinho e saudável, faz jogging, recicla cuidadosamente, compra no comércio justo, faz campismo de aventura; não fuma, não bebe, não consome açúcares nem comida processada; instalou energia solar para aquecer a casa e trata um cão exemplarmente como irmão animal, um igual. Não tem vícios, é completamente  insípido. E o regime gasta milhões em propaganda - revistas, TV, cartazes na rua - a apelar ao seguimernto do canon; para Homem Novo soft, um Big Brother soft.


Felizmente, a ficção dita "cientifica" e o cinema têm-se encarregado de divulgar outras imagens do Homem Novo que será o nosso futuro: mais ou menos o mesmo que agora ! Robotizado, informatizado, mas sempre fraco ou genial, criminoso ou herói, gordo ou magro - nunca carneiro.

O verdadeiro homem não está no futuro, não é um objectivo, um ideal a que se aspira; está aqui, no presente, existe mesmo: seja eu quem for, alegre ou enfermo, criança ou velho, confiante ou céptico, a dormir ou bem desperto, sou Eu. Eu sou o verdadeiro Homem.
                                                                                                                                              Max Stirner


quinta-feira, 15 de junho de 2017

Jardim, Música, Etimologias, Xadrez, Stevenson, e outras salvações do mundo segundo Borges


Los Justos

Un hombre que cultiva su jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología. 
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
El tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada.
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.


Jorge Luís Borges, "La cifra".
Obras completas II, Buenos Aires, 1989


segunda-feira, 1 de maio de 2017

ditadura = iliberalismo



Navegamos à vista, sem rumo, num mar aberto e livre mas junto às costas fatais da ameaça totalitária.  Acontece que estas costas sabem iludir os navegantes com verdura e nevoeiro a disfarçar negras arribas e rochedos.

Os candidatos a ditadores já aceitam ir a votos. Manobram como podem, e acima de tudo mal se vêem a controlar o Estado tornam-se absolutistas e até são tentados a nomear herdeiros. Mas continuam sempre a reclamar-se democratas, e defensores dos direitos humanos. Democracia e direitos tornaram-se a vegetação que cobre as arribas, um argumento irrecusável, consensual, mesmo que muitas vezes aberrante. A Coreia do Norte é a única excepção que se assume ditadura à antiga, férrea e tenebrosa. Os outros - Orbán da Hungria, Maduro na Venezuela, dos Santos em Angola, Erdogan na Turquia, Putin na Rússia... - são caudilhos pós-modernos, cautelosos e ardilosos, com gosto pelos media e até pelas redes sociais, apoiados num aparelho de Estado com poderes excessivos que lhes garante eleições (e referendos) favoráveis.

Não, ir a votos já não basta para ser democrata. É preciso que o Estado continue limitado nos seus poderes, e que haja fortes contra-poderes: oposição livre e vigorosa, tribunais independentes, economia de mercado. É preciso, e cá chegamos, que haja LIberalismo !

Pois. Orbán disse, e com razão, que a Hungria é uma Democracia iliberal. Democracia agora dá para tudo - Trump e LePen são democratas, tal como Putin e o premier chinês Li Keqiang. Não são é Liberais, são chefes de um Estado absolutista, nacionalizador, não dão espaço de liberdade para a sociedade civil. O Liberalismo é actualmente a única alternativa à novi-Ditadura. Ser anti-liberal é nacionalizar, ter a oposição e os media sob controle, reforçar o poderio do exército - e isso é uma Ditadura.

Há evidentemente uma culpa da "extrema-esquerda" nisto tudo. Clamando contra o liberalismo, o Imperialismo, a Globalização e a soberania Europeia, abrem campo às ditaduras todas, aos "fascismos" de esquerda ou de direita, disfarçados ou assumidos. LePen é filha de Robert Hue e de Mélanchon. Trump está grato às esquerdices de Clinton e Sanders; o  Bloco de Esquerda admira Chávez e Mélanchon; o PC de Jerónimo Sousa admira a Coreia do Norte e até a Rússia, o contrapeso anti-democrático e estratégico que ainda lhes dá esperança.

Que viva o Liberalismo, digo eu, regulado, claro, com um Estado Social decente, mas liberalismo sério - como nos paises escandinavos, na Áustria, no Canadá, na Nova Zelândia.

E se a direita radical (que não é "extrema-direita")  ameaça agora as democracias liberais europeias, não esqueçamos a ameaça que foi durante décadas a esquerda radical, sempre à espreita do momento certo para o seu terrorismo anti-liberal, anti-globalização, anti-europeu. O alerta em mar costeiro é para as várias falésias negras do rochoso litoral.



Disso sei eu, por lá andei.


domingo, 26 de fevereiro de 2017

Califado kaput


Pensei que ia festejar a "limpeza" de Mosul, como se fosse possível uma guerra limpa. O número de vítimas civis é assustador.

Sem festa, sem alegria, sinto ainda assim uma alívio pelo desaparecimento do pesadelo 'daesh', apesar de tudo é uma vitória das forças democráticas (+ ou - ) e civilizadas (- ou + ). Oh, que maldita realidade esta tão pouco maniqueísta, em que os bons são tão maus, sem que os maus tenham nada de bondade.

Vejamos o lado positivo. Não me parece que haja espaço para nascer outra organização islamista deste calibre. Não vai haver quem queira ser "califa no lugar do califa" (René Goscinny, Iznogoud). Os sunitas radicais vão ficar incapacitados por longos anos, e tirando talvez ataques talibãs no Paquistão, o terrorismo islâmico vai decrescer. Se algum perigo está a espreita, vem da possível mas improvável coligação Irão-Rússia-(Turquia), tão incoerente que até custa a acreditar.

No lado de 'cá', Trump e LePen são a paranóia que se segue. A União Europeia até tem uma boa oportunidade de ganhar peso político, financeiro e negocial, assim queiram os países mediterrânicos e nórdicos aliar-se entre si sob liderança alemã, que remédio. Assim queira a liderança alemã desvalorizar ainda mais o euro e promover o federalismo. Com entusiasmo. É contra a corrente que se deve fazer o maior esforço, não é ? Se prevalecerem os nacionalismos, como parece ser o caso do Reino Unido e França, adeus Europa. É o que querem os extremos, tanto à direita como à esquerda.


Bom. Morra o ISIS, morra, Pim !
Celebração cumprida.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Almada Negreiros, (2) quadros dentro do quadro


Desenho, pintura, vitral, tapeçaria, poesia, romance e novela, conferência, teatro, bailado até... Almada Negreiros percorria vários caminhos na arte, simultaneamente, sendo nos estudos e artigos de opinião que ele exprimia de forma mais radical - chegando a ser violento e apologista da violência - as suas ideias sobre arte e sociedade.

O tempo relativizou a experiência futurista, que em parte se associou com culpas ideológicas ao pesadelo das guerras e suas indústrias, ditaduras e fanatismos, que arruinaram a Europa Feliz dos anos 20-30. Por mais interessante e até simpática que seja a adesão furiosa ao progresso, à tecnologia e à "libertação do homem" que prometia a geração do Orfeu, a verdade é que desempenhou um papel em última análise criminoso.

Nas artes plásticas, Almada Negreiros era de certa forma mais romântico, ou clássico, enfim, era mais temperado. Muita da sua arte acaba por ser de certa forma 'burguesa', ou seja, o insulto que ele mais odiava. Começo por este painel mural para os Correios de Portugal nos Restauradores.


Gente fina de calèche no terreiro do Paço. Burguesia.

Almada capricha mais no desenho e nas vestes que no rosto. Bonito, decorativo, pouco humano ?

Os famosos vitrais para o côro da Igreja de Nª Sª de Fátima (1938) são também exemplo de uma perspectiva estética inovadora mas que ao mesmo tempo contemporiza com a tradição, e em que elegância e harmonia prevalecem sobre a provocação.
Detalhes:
Lindo, maravilhoso até, mas algo frio, geométrico, formal demasiado. Cravo.

Alaúde.

Órgão.


Grafite e guache, sem título: atletas a jogar a bola:


Quadro dentro do quadro.

Este detalhe podia ser um abstracto dos anos 30 ou 40:



Mas o meu gosto "burguês" encanta-se mais com outro painel, o célebre "Eros e Psique" de 1954 (Almada tem 61 anos) que está na A.R., sortudos, privilegiados... haverá sítio mais conservador, institucional ?





Almada era, ele próprio, um verdadeiro Arlequim. Multifacetado, mascarado, faceto, enganador. E nem mesmo o Arlequim sabia bem se era ou não era.
Tinta da china, 1931.

Não tinha uma, tinha muitas maneiras de ser moderno, Almada. Nem todas admiráveis, diga-se.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

E então acredito em quê? Vamos lá a ver:


- Em Handel, Mozart, Beethoven, Brahms e Mahler, acredito no que dizem por música. Beatamente, confesso. E quase sempre em Bach também. E noutros às vezes. Mentir por música é absurdo, por isso é que ela é uma linguagem tão nobre.
[ Na Ópera já acredito mais moderadamente, com reservas, pois teatro é arte de mentir.]

- Em Chauvet, Pompeia e Herculano, Ghirlandaio, Rafael, DaVinci, Renoir, Turner, Matisse, Klee, também confio, sabendo que só revelam da verdade uma parte - se, cada um à sua maneira, falseiam a realidade, é com génio, para nosso deleite, e sem fazer mal a ninguém.

Tal como a literatura. Ficção, já a palavra o diz, não fala de realidade. Aqui é o engano elevado ao máximo requinte - a sublime mentira das palavras inventadas. A razão porque mesmo assim gosto de literatura é que nesse caso estamos avisados - atenção! a partir da primeira página, entrou no imaginário do autor. A questão de acreditar não se põe sequer.

- Acredito, sim, na Ciência, com selectivo cuidado. Evito cuidadosamente as pseudo-ciências sociais e humanas. Biologia, Física, Química, Astronomia - sim, têm-me dado gratas alegrias e sabedorias. Não deve haver outros como os cientistas que tão incansávelmente procurem a Verdade - não uma verdade relativa, cultural, tribal, mas a que tem V grande. Contudo há mentiras resistentes, como a dos quatro elementos - água, terra, ar, fogo - que persistiu séculos, a teoria do Flogisto, a geração espontânea só desmentida no séc. XVII, ou a treta de que os antibióticos sejam inúteis contra infecções virais, ainda em vigor.

- E na História ? A História é o Grande Problema. Escrevem-se tantas falsidades históricas que por vezes apetece duvidar totalmente dela como genuína fonte de conhecimento verdadeiro. E depois os factos prestam-se de tal forma a interpretações, quase todas preconceituosas, que acabam por ficar inacessíveis, como ouro escondido sob enorme camada de ganga. Na História não tenho confiança nem acredito - mas faz-me tanta falta que lhe aceito uma fina (muito fina!) camada duvidosa, em volta do núcleo de verdade.

- Na Europa. Eurocentrista, sou. Acredito na Europa, a minha maior crença talvez, sou mesmo fanático europeísta. Se a Europa, como um todo, tivesse de se defender em guerra, daria tudo por ela. Só por ela, quero lá saber de países. Este video diz quase tudo da minha amada Europa.


E pronto, mais nada. Alguns encontram a Verdade na Natureza (Zen, Gaya, etc). Não acredito, ela mente descaradamente, engana de forma traiçoeira; é aliás sobretudo contra a Natureza que se fez a Ciência, procurando desmascarar as suas ruins mentiras, contrariar os seus disfarces e escondidas ameaças. Desde o gravitão e dos vírus até aos buracos negros, passando por nós próprios, que ainda somos uma enorme falsidade !

Religiões, pior ainda; mentiras que o Homem inventou para sua comodidade e consolo.

Como toda a gente, acredito nos que me são próximos e queridos. Mas isso é outra fé, genética e afectiva, onde mentira e verdade não existem porque os valores são de outra ordem.

Fiz deliberadamente uma confusão entre "acreditar" e "gostar". Mas as preferências de uma pessoa não são afinal as coisas onde ela encontra mais Verdade ? Admiro, acredito, sinónimos.


sábado, 28 de janeiro de 2017

Pós-verdade, multiculturalismo, Hollywood, o afro-xunga de Bonga e os B Fachada.



Público, 27/1/2017

Esta fez-me rir, durante o regresso de Lisboa no Alfa.

Fala-se bastante das pós-verdades e verdades alternativas, mas são sempre os "outros", políticos ou jornalistas/comentadores, que caem nesse crime de opinião, nunca somos nós. Ora as piores mentiras que se querem fazer passar por verdade estão acima desse patamar - são culturais, para não dizer civilizacionais. Quase se resumem nisto: 1. Passar por arte, ou "património cultural", o que é "lixo cultural", e 2. Negar ou desvalorizar a História como único critério de seriedade no discurso.  Esta maneira de pensar teve origem na antropologia, que introduziu os conceitos de "verdade relativa" - cada cultura tem as suas "verdades", nenhuma é superior, a História é escrita pelos mais fortes, etc. - e no famoso multiculturalismo que prega a igualdade de tratamento a todas as culturas, sem hierarquias.

Esses pressupostos ditos "pós-modernos" trouxeram a valorização de lixo como se cultura fosse, do vale-tudo histórico, e do discurso "povero", andropóide e cheio de ícones que prolifera nas redes sociais como se fosse opinião. E vai até ao ruído do hip-hop e do afro - que não passa de palavreado social sobre batucada em dois ou três acordes básicos - como forma de música de vanguarda e de consciência, poética até !

Neste caso "povero" não quer dizer pobre de recursos: a burguesia "artística" de Hollywood é um dos exemplos mais tipicos destas atitudes. Está na frente de combate contra a administração agora eleita, mas não há classe mais burguesa, mentes mais cretinas e nível artístico mais baixo que essa tropa de actores/realizadores/produtores riquíssimos que se fazem passar por intelectuais com "consciência social"; os modos de vida e a sociedade tribal de que fazem parte são do mais fútil e medíocre, e isso nota-se nas realizações cinematográficas perfeitamente indigentes - imbecis mesmo - que se apresentam nos écrans ano após ano. Não se faz por ali cinema como arte, de há muitos anos para cá, desde o inicio do século pelo menos. Só entretimento, cenas de terror apocalíptico e panfletos de pós-verdade. Que autoridade têm esses para criticar ou se distanciar do sistema ?

Mas também não existe Arte nem Cultura (com C) na música e na criação plástica que se vai produzindo. É tudo simultâneamente feio, kitsch e comercial. As grandes 'novidades' como o hip-hop já referido ou o novo-kitsch de Björk ou o gosto parolo de Jeff Koons e Joana Vasconcelos são coisas palavrosas, coloridas, vistosas, apelando ao imediato do cérebro reptiliano, mas sem matizes nem harmonias nem conteúdo. De Arte só resta, talvez, alguma arquitectura que ainda se norteia pela beleza e imaginação - elegância, harmonia, estrutura funcional integrada no espaço.

Vamos ao que me fez rir, a tal pós-verdade cultural : tem a ver com tudo isto do multiculturalismo e das verdades alternativas. Era no Público de sexta-feira, um artigo central de 2 (DUAS) páginas com foto gigante sobre a genialidade de Bonga e os B Fachada. Em várias colunas laudatórias atribuem-se adjectivos como "tesouro", e cito um dos melhores parágrafos:

         "Bonga e B Fachada [...] estarão juntos na Galeria Zé dos Bois, a associação cultural lisboeta que é desde há muitos anos pólo fundamental, dinamizador, da vida musical e artística da cidade (o concerto está marcado para as 22 h e a lotação está esgotada)."


A GZB, como Mário Lopes abrevia, deve então figurar em todos os roteiros de arte da humanidade culta ! Os grande da música e da arte já por lá passaram ? Por exemplo Arvo Pärt, Phillip Glass, Joyce Didonato, Anselm Kiefer, Hodgkin...

Ah não, não, não é "essa" cultura.

O senhor M. L. que escreveu o artigo não se deve dar conta do disparate, da falsidade alternativa, da perversão de critérios de cultura, e até de jornalismo, que se reflectem na sua prosa. Está integrado no sistema de mentira mediática. Toma lixo por arte. Está prisioneiro da pós-liberdade.


Desenho de Jean para o Le Point.


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P.S. Não vou falar em detalhe do concerto de András Schiff na Gulbenkian, que foi decepcionante. Não tanto pela orquestra Cappella Andrea Barca, que tocou lindamente, com o som bonito, fluente e coeso de grandes músicos, mas sim pelo próprio Schiff, que de tudo querer - solista no piano e director de orquestra - tudo perdeu. Uma permanente distracção e movimentação corporal entre as duas funções resultou em mediocridade, sobretudo ao piano, com interpretações dispersas, desinspiradas, vulgares, secas, quase robóticas. Deixo de ser "cliente" deste Schiff.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Que as imposturas de 2016 morram em 2017


Este título é copiado do editorial de Franz-Olivier Giesbert no Le Point de 29 de Dezembro.

Em vários pontos, Giesbert elenca exemplos de manipulação da opinião pública, cada vez mais assustadora. Ao contrário de muitos, eu não receio o que se veicula nas redes sociais, as patranhas que seja quem for aí pode colocar. Quem tiver dois dedos de testa não frequenta esses sítios, ou então percebe ou desconfia logo da vigarice, e se esta se propaga é desmentida a curto prazo.

O que me assusta mesmo são os media de grande alcance público, mesmo os prestigiados, em que se acredita porque quem escreve são jornalistas e jornalista é uma profissão digna de crédito. Ora bem: não é. É preciso, é urgente, desconfiar dos jornais e ainda mais da TV, seja pública ou privada, tablóide ou "séria". Sem precisar de muita perspicácia, dou conta com frequência de pequenas aldrabices ou trapalhadas - números que não dão certo com o que se diz, adjectivos que distorcem a verdade num sentido ou noutro, destaques disparatados, ênfase no acessório, e tanta coisa importante que não é noticiada. Os debates que costumam seguir-se são uma perfeita anedota. Nos três canais nacionais, há ainda outra pecha (menor) - o atropelo constante da gramática - ortografia e sintaxe - quer pelos pivots, quer pelos inúmeros e impreparados repórteres in loco.


O mais grave é o enviesamento, ou seja, a forma tendenciosa como a notícia é dada. Giesbert identifica sete, mas não sei se serão sequer as piores imposturas. Por exemplo, o conflito sírio completamente distorcido (nunca ouvi os pershmerga !); Obama, que não foi de todo o grande presidente que se propagandeia - vaidoso, passivo, inábil e contemporizador, um inútil bem-falante; Erdogan, que foi desde sempre (e não de agora) inimigo da Europa e carrasco da oposição; e em geral o Mundo, que não está nada a bater no fundo, como reza a imprensa miserabilista criadora de falsas aparências, mas pelo contrário - o "progresso" continua a fazer o seu caminho, por mais que o tentem desacreditar. A pobreza recua (em 1990 uma pessoa em cada duas vivia abaixo do limite de pobreza extrema; agora são 14%); o analfabetismo está em vias de extinção, a tirania já é um fenómeno local de pequenos países, a abundância de alimentos e água contraria as previsões de fome e penúria ... e a qualidade de vida urbana tem melhorado significativamente, basta lembrar como eram as grandes e médias cidades há um século, sujas, poluídas, escuras, perigosas (à noite sobretudo), cercadas de bairros miseráveis. Claro que há um século não havia cobertura diária e ao vivo dos assaltos e crimes.

Outra enorme impostura são as "médias" e projecções de base estatística. As "médias" são quase sempre mal noticiadas como se fossem fiéis evidências, outras vezes de forma disparatadas - "uma média entre 3 e 5 óbitos por semana"- ou grotescamente errada - "a maioria dos rendimentos estão abaixo da média". Por exemplo, dizer-se de uma país maior que Andorra que o crescimento é X e subiu 0,1 é uma inutilidade enganosa. Espanha ou França, para não ir mais longe, podem ter variações regionais de crescimento de -1 a 6%, por exemplo. Na Rússia, na China, as diferenças são ainda mais extremas. E que é 0,1 senão zero, para mais com o erro intrínseco da medida ? As sondagens, já se sabe, são encomendadas para dar o que o encomendante quer, dentro de um erro à volta de 5% pelo menos. Porque é que "órgãos de informação" alinham nessa fantochada ? As sondagens reflectem a opinião dos-que-respondem-a-sondagens, ou nem isso - muitos divertem-se a mentir.

Giesbert termina com uma adequada citação de Shakespeare, comparando o noticiário actual a uma "tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing."

Não sou tolo ao ponto de achar que tudo vai bem no melhor dos mundos. Há as incómodas assimetrias, que outra mentira (a multinacional Oxfam é uma fábrica de intrujice) nos faz acreditar estarem a aumentar - não estão; mas no mundo dos homens, esses que já se combatem e matam sem parar há mais de 1 milhão de anos, desde que se puseram a andar de pé, esse ser fracote e quase irrelevante, capaz de bondade e maldade mas sempre à procura de melhor, não se pode ter expectativas demasiado optimistas; há que reconhecer, isso sim, um lento, muito lento, progresso.


Seria uma ajuda se a impostura mediática recuasse em 2017.


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P.S. Não tenho ilusões: o 'Le Point' também faz parte dessa máquina de mentira mediática.



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

As democraduras, invenção de fim-de-século consolidada no século XXI


Democradura, palavra inventada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano e também título de um livro:
La Democrature: Dictature camouflée, Démocratie truquée
Max Liniger-Goumaz

Sim, sim, vai-se a eleições aparentemente livres, há partidos e tudo; mas só um tem possibilidade de vencer, e depois tenta eternizar-se no poder e dominar todos os meios produtivos e informativos. Exemplo: um recente estudo sobre liberdade informativa põe a Turquia de rastos; depois do golpe, a entourage de Erdogan tudo controla, tudo corrompe, trata qualquer oposição com violência, ódio, desprezo.

Mas assim é também no Congo de Kabila, na Angola de Eduardo dos Santos,  na Rússia de Medelev/Putin, assim na Bolívia de Morales, na Cuba dos Castros, assim na Venezuela de Chávez/Maduro, e vários da Ásia central (Cazaquistão,...) e do Sul. Até o Irão embarca na imagem de democradura, com eleições, mas esse ainda é medieval, cultiva o atraso com afinco.

Às antigas ditaduras militares golpistas sucederam as democraduras civis legitimadas pelo voto. À "ameça comunista" ou à "ameaça fascista" que justificavam as ditaduras, sucedem as teorias da conspiração: existe um complot, um eixo do mal, uma conspiração enfim, venha ela de Madrid, Washington, Miami, Londres, Adis Abeba, Moscovo, União Europeia ou até Lisboa. Daí a 'suspensão' da democracia.

Na Rússia, Putin sucede a Medvedev sucede a Putin ....Na Bolívia, Evo Morales vai para o quarto mandato sucessivo, tendo para isso alterado a Constituição, modelo adoptado também por Mugabe no Zimbabwe, no poder há 36 anos por via eleitoral, ou Nazarbayev no Cazaquiatão há 18 anos, e por quase toda a Ásia central onde as ditaduras se procuram disfarçar (mal). "Que é que querem mais? Fomos a votos, ganhamos." E viva o fingimento, o verbo actual é 'fingir'.

Era preciso que a UN / ONU definisse democracia e ditadura, tornasse claro quem está em regime de liberdade autêntica e quem em regime de semi-liberdade condicionada. Liberdade não é beber coca-cola ou usar mini-saia, ter carro ou conseguir passar nos jornais (porque os jornais já são semi-livres, condicionados); nem sequer basta ter acesso às necessidades básicas, saúde e escola. Urge definir democracia como o regime onde há liberdade e impunidade de denunciar, sobretudo de denunciar abusos de poder.

Lista de Democraduras (provisória - aceitam-se sugestões):

Angola, Bolívia, Cazaquistão, Congo, Cuba, Rússia, Turquia, Venezuela, Zimbabwe.


Não incluí as pseudo-democracias islâmicas, que cumprem 'tudo' (!) menos a igualdade de direitos de género e de etnia, os direitos sindicais, a liberdade de vestuário... nem incluí a democracia indiana com as suas castas... nem os países sob ameaça bélica, de democracia semi-suspensa, como Ucrânia ou Arménia...

Outra lista é a das ditaduras puras e duras. Essa parece agora mais curta: Coreia do Norte e China e alguns africanos. Triste consolo.

Ah Europa, por mais mal que de ti digam, que luminoso oásis ! Não é uma organização deficiente nem líderes fracos que fazem uma democracia sadia, mas que diferença mesmo assim, és o modelo, o 'standard', para avaliar outros regimes. E que luminosa a tua extensão aos antípodas.
'Euro-Oceanic Democratic Community'


Amaldiçoados sejam pois os que nos querem fora da Europa.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A Europa nasceu na Itália renascentista, e nasceu contra Turcos, Muçulmanos e Mongóis.


No princípio, era a Itália...

Europa e capitalismo estão fortemente interligados pela sua génese: ambos nascem na transição da Idade Média para o Renascimento, ambos nascem do vigor comercial dos portos italianos e do mar do Norte, ambos de uma vontade de liberdade cosmopolita contra o domínio total(itário) da Igreja e contra as intenções ameaçadoras de turcos e muçulmanos.

Já durante as Cruzadas, quando era o proselitismo religioso que comandava, o contacto com o Médio Oriente tinha ao mesmo tempo unido os povos europeus e alargado o seu conhecimento do mundo. Pelo contacto com persas e mongóis, soube-se da Ásia, abriram-se rotas; dos magrebinos vinha o conhecimento de África; a busca do mítico reino do Prestes João esteve na origem da epopeia das Descobertas. Esta duplicidade entre a 'unidade cristã' e a 'abertura ao mundo' foi o caldo que, durante o Renascimento, iria gerar a ideia política e humanista da Europa, como entidade civilizacional possível; a par - não podemos esquecer - da acumulação de capitais pelo mercantilismo alargado que daria origem à banca florentina.

As principais cidades e rotas mercantis nos séc XIII-XIV, transição para o Renascimento.

Recentemente, Yves Hersant escreveu no Le Point:

"Do século XIV ao XVI, de um extremo ao outro da Europa, intelectuais e artistas, mecenas e príncipes, adquiriram a convicção de viver uma era nova: um 'despertar', uma 'regeneração', uma 'restauração', tantos termos, ou metáforas, pelas quais as elites europeias - as italianas à frente - formaram um grande projecto: reactivar os tempos antigos para abrir tempos 'modernos', olhar para trás para dar um salto em frente." (...) "Partindo das cidades italianas, essa revolução pouco a pouco conquistou a Europa, afectando as artes e as letras, as ciências e os costumes".


"Foi no curso da Renascença, num contexto muito conflituoso, que emergiu a ideia moderna de Europa, com consciência de uma pertença cultural comum. Primeiro marco: a queda de Constantinopla em 1453, desastre fenomenal, provoca um extraordinário sobressalto de consciências diante da mensagem turca. Testemunha disso é o humanista Enea Silvio Piccolomini, futuro Pio II, espantosa figura do 'quattrocento': foi um dos primeiros a introduzir a palavra Europeu, a pensar a Europa como unidade mais cultural que religiosa, a entrever a "república" da inteligência (expressão que Voltaire admirava, três séculos mais tarde). Segundo marco : George Podiébrad, rei da Boémia, é o político "imaginativo" que redige em 1463 o primeiro projecto de unidade europeia. Não só para fazer face ao poder otomano, mas para devolver à Europa uma consciência politica unitária - a concretizar pela limitação de soberanias (!), um orçamento federal, um exército comum, um parlamento europeu, um tribunal, uma capital rotativa... Terceiro marco : com Machiavelli confirma-se e apura-se a saída da Europa da cristandade medieval (a 'christianitas'). O escritor florentino é o primeiro dotar a Europa de carácter puramente laico, político, e independente da religião. A sua Europa é a da concorrência de partidos e de energias individuais." (...)


"Juntemos ainda as Grandes Descobertas que também ajudaram os europeus a definir-se mais nitidamente, por oposição aos outros; e concluimos que a Europa é um dos legados, e não o menor, que nos deixou a Renascença."

Colombo desembarca em Hispaniola (gravura do séc. XVI). Primeiro a América (1492), depois as Índias (1498), o Pacífico (1520)...

Marc Fumaroli, ensaísta da Academia Francesa, também no Le Point:

"A Itália foi o primeiro e o mais efervescente laboratório desta descolagem da Europa a que se chama Renascença". (...) "Os filhos dos negociantes italianos, os financeiros da Europa, são os grandes inovadores da época."


(...) "A sua riqueza assentava na banca, e no comércio e fabrico de lãs e sedas: a partir de 1422, a produção de brocados que misturam fio de ouro e de seda permite aos tecidos florentinos suplantar as sedas orientais e invadir os mercados europeus.
Vestidos de seda e ouro... "heaven's embroidered clothes, enwrought with golden and silver light", escreveria Yeats.

Um brocado florentino. Vermelho era a cor mais nobre.

(...) "Em 1439-1443, Florença foi o palco de um Concílio que reuniu a elite religiosa e a cultural bizantina, a fina flor dos teólogos e humanistas italianos. É então que a Renascimento latino se torna também Renascimento grego. Os banqueiros Medici fazem de Florença a capital do neoplatonismo ocidental e uma cidade-academia, onde os artistas trabalham no meio de colecções de obras antigas greco-romanas."

O conglomerado da banca florentina era o maior da Europa, com filiais em Génova, Nápoles, Veneza, Avignon, Bruges, Londres. Fundado em 1397 por Giovanni de' Medici, a sua fortuna bancária cresceu e atingiu o máximo sob a gestão do filho Cosimo, o famoso patrono das artes e governador de Florença durante o apogeu do Renascimento. Começaria a declinar, em sucessivas falências por falta de fundos de cobertura, nos tempos ainda gloriosos de Lorenzo, neto de Cosimo.


O sucesso da banca dos Medici era fundado sobre uma inovação: em vez de juros, condenados pela Igreja, actuava em termos de transações bancárias, como transferências : por exemplo, comprar lã inglesa nos Cotswolds e vendê-la em Florença, recebendo a paga em Londres, em libras. Para isso os Medici abriram filiais bancárias nas várias cidades onde negociavam. Manobrar moedas, pesos e medidas diferentes exigia um intenso e complexo trabalho financeiro que só muita disciplina  e bons conhecimentos de aritmética e geometria - sobretudo as proporções e a fundamental "regra de três" - permitiam dominar.

Toda essa riqueza era reciclada e investida em capital humano, transformada em património de arquitectura urbana, numa arte que não tem igual em nenhuma outra cidade. É um legado assombroso.

Villa encomendada por Lorenzo de' Medici, de 1480. Lorenzo foi um dos mais entusiásticos patronos da Renascença.

Fachada de Santa Maria Novella, Florença, séc XIV.

Capela Pazzi, Florença, de Brunelleschi.

Piero di Cosimo, Retrato de Senhora vestida de Maria Madalena, 1501.

Tapeçaria florentina encomendada pelos Medici.

Quatro filósofos apadrinhados pelos Medici.
Ghirlandaio (Florença), ~1488

Sala de leitura da Biblioteca Laurenziana de Florença, onde os Medici acumularam uma colecção de muitos milhares de livros e de manuscritos preciosos, postos à disposição de estudiosos de toda a Europa.

Entretanto, o humanismo e as artes iam alastrando ao Norte da Europa, não só pelo intenso tráfego de negócios mas sobretudo pelos mestres viajantes como Leonardo, Francis Bacon, Paracelso, Montaigne ou Erasmo, o grande Doutor Universal que esteve três anos em Itália e correu todos os centros de pensamento europeus. E, bem no centro europeu, a descoberta da imprensa marca a última etapa da revolução do Humanismo letrado.

Viagem a Itália de Michel de Montaigne, uma das maiores figuras do humanismo renascentista.

Humanismo, liberalismo, mecenato,  tudo nasceu em Itália. Stendhal atribui a Itália a invenção do homem universal e laico, o indivíduo moderno. Esse 'eu' generoso de Colombo, de Masaccio, de Petrarca e de Miguel-Ângelo; de Maquiavel, de Galilei, de Monteverdi, de Brunelleschi e de Bramante; também de Van Eyck, de Erasmo, de Montaigne e de Descartes, o 'eu' depois rejuvenescido - não traído - pelo 'eu' do romantismo e do modernismo.

Roger Pol-Droit, o filósofo francês, confirma: falando do liberalismo,

"As suas origens filosóficas são rigorosamente as mesmas que as da modernidade política, que começa, no essencial, com Maquiavel. Nesse sentido, não se trata de uma doutrina fixa, mas de um conjunto de linhas de força: direitos do indivíduo em vez de submissão à autoridade real ou religiosa, liberdade de consciência em vez de submissão à Igreja, separação do poder espiritual e do poder temporal, contrato social em vez de direito divino, direito à rebelião em vez de dever de obediência. E é preciso juntar esta afirmação central: para os liberais, as normas e os valores das sociedades humanas  são construídos, artificiais, e não naturais ou divinos".

(...) "A realização dessa mutação filosófica estendeu-se  da Renascença à Revolução Francesa."

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Falta uma referência a Leste: também contra a ameaça turca e mongol, também iluminado pelo fulgor de Itália, o império Czarista sob Ivan III fez uma revolução nas artes e costumes a partir de Moscovo.

O Renascimento acontecia na Europa, não esqueçamos, sob a ameaça permanente das hordas do Império Otomano, derrotadas em Viena e em Malta, mas voltando à carga ainda do séc XVII - o cerco de Viena foi em 1689. Os turcos tinham nessa altura um exército superior em número, organização e armamento ao de qualquer país europeu. E não lhes faltou com quem travar batalhas - portugueses, espanhóis, venezianos, húngaros, persas, polacos, russos... enfim, isso acabou por trazer algo de bom - foi para escapar ao controle turco das rotas do Mediterrâneo para oriente que se procurou um caminho alternativo para as Índias!

A ameaça mongol, por outro lado, arrasara as culturas orientais mais próximas da Europa e atacava a Rússia, conquistando Kiev. Era temida mesmo em Itália...

Se calhar, nunca na História se assistiu a um tão intenso caldo cultural, a uma tão vasta revolução nas ideias e costumes, como nesses séculos do Quattrocento e Cinquecento, XV e XVI, em que a Europa adquiria forma, conteúdo e ambição.


Convém pois lembrar quem foram os impulsionadores, aliados e opositores nesse percurso.



terça-feira, 30 de agosto de 2016

e contudo a violência está a diminuir, diz Steven Pinker:


Steven Pinker é um psicólogo, linguista  e pensador actualmente na Universidade de Harvard, depois de ter sido professor no M.I.T. na área do Cérebro e Ciências Cognitivas. Já é muito conhecido pelos seus estudos sobre o pensamento, a linguagem e a violência nas sociedades. Isto para que, mesmo discordando dele, se perceba que não é um falabarato qualquer.


Li há pouco (Julho) uma sua entrevista ao Le Point, onde verifico com surpresa que o que ele diz sobre a violência, o progresso e e as sociedades vem muito ao encontro do que eu sempre pensei e até já aqui escrevi: que os tempos que vivemos são (numa escala de ~ 50 a 100 anos) os melhores de sempre, coisa que quase ninguém aceita. Ou se preferirem, que todos os tempos passados foram bem piores que o presente em termos do bem estar global. Essa visão é optimista no sentido em que permite prever um futuro melhor, e não as catástrofes que está na moda anunciar nos media e em certos meios políticos. Anunciar catástrofes sempre rendeu votos de medo e submissão a tiranias.

Deixo aqui extractos dessa entrevista.

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Steven Pinker: e contudo a violência está a diminuir...
Entrevista ao Le Point  de 21 de Julho de 2016

Le Point : Porque é tão difícil acreditar, apesar de todas as estatísticas publicadas no seu livro, que vivemos o período mais pacífico da História ?

Steven Pinker : Os jornalista, e em geral os seus leitores, são vulneráveis a uma ideia falsa: " Se eu li hoje de manhã na imprensa, é porque é uma tendência histórica". Não vão procurar nos arquivos se esses acontecimentos eram mais frequentes no passado. No meu livro, situei as estatísticas de violência no tempo, e mostrei que em todas as categorias  - guerras, genocídios, homicídios, violações, tortura, pena de morte, violência contra mulheres e crianças - esses números são mais baixos hoje do que foram no passado.

L.P. : A culpa é dos media ? Deveríamos concentrar-nos menos nos crimes e no terrorismo ?

S.P. : Os media, certamente, merecem a nossa gratidão por aumentar a nossa sensibilidade aos sofrimentos do mundo. Mas muitos jornalistas têm maus hábitos. Esquecem a História, não recordando qual era o estado de terrorismo e guerras civis nos anos 70. E não têm um pensamento quantitativo. Cobrem a explosão de uma bomba pela manhã, mas ignoram as grandes forças que se vão desenrolando ao longo de anos. Acabam por ser explorados por empresários da violência como são os terroristas e os assassinos em massa, que sabem que ficarão instantaneamente célebres matando gente inocente.

L.P. : Apesar de duas guerras mundiais (80 milhões de vítimas) e vários genocídios, o século XX não seria o século mais violento da História. Isso precisa de ser explicado.

S.P. : A verdade é que não sabemos que século foi o pior, porque não temos dados da mesma qualidade hoje e na antiguidade. Mas sabemos que houve situações que dizimaram uma proporção da população comparável à das duas guerras: a queda de Roma, as invasões de Gengis Khan e Tamerlão, o prolongado comércio dos escravos, a queda das dinastias chinesas.

L.P. : A múmia Ötzi ou o homem pré-histórico de Kennewick teriam sido vítimas de agressões. Isso prova que Jean-Jacques Rousseau ia pelo caminho errado com o seu 'bom selvagem' ?

S. P. : São só dois exemplos, claro. Mas os dados arqueológicos e os estudos etnográficos sobre os caçadores - recolectores mostram que Rousseau se enganou muito sobre a vida antes da civilização.  As taxas de mortalidade por pilhagens ou escaramuças são bem mais elevadas nas sociedades tribais que nas sociedades modernas.


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Outras declarações mais detalhadas de Steven Pinker foram as que prestou ao site de conferências TED talks em 2007. Excertos:

Durante o século XX, assistimos às atrocidades de Estaline, Hitler, Mao, Pol Pot, no Ruanda e outros genocídios; e mesmo que o século XXI só tenha 7 anos, já vimos um genocídio no Darfur e horrores quotidianos no Iraque. Isso leva-nos a compreender mal a situação, pensamos que o progresso nos trouxe uma violênca terrível e que os povoados primitivos viviam num estado de harmonia que se perdeu.

Um exemplo disso foi publicado no Boston Globe há alguns anos: "A vida dos Índios da América era difícil mas não tinha problemas de desemprego, a comunidade vivia em harmonia, não havia abuso de drogas, nem crimes, e as únicas guerras eram inter-tribais, eram sobretudo rituais que só raramente se transformavam em massacres".

Viajemos no tempo em diferentes escalas -- desde milénio até ao ano -- a ver se vos consigo convencer. Até há 10 000 anos, todos os homens viviam da caça e das colheitas, sem casa permanente nem governo. E considera-se esse estado como de harmonia original. Mas o arqueólogo Lawrence Keeley, que estudou as taxas de mortalidade das tribos contemporâneas de caçadores-recolectores - que são a nossa melhor fonte de dados sobre essa maneira de viver - tirou uma conclusão bem diferente.


Aqui está o gráfico que ele elaborou, que mostra a percentagem de mortes masculinas devidas à guerra num certo número de tribos. As barras vermelhas mostram a probabilidade de que um homem seja morto por outro homem, em lugar de morrer de causas naturais, em diferentes sociedades na Nova-Guiné e na floresta amazónica. Vão desde uma taxa de quase 60% até, no caso dos Gebusis, só 15%. A pequena barra azul em baixo à esquerda mostra a mesma estatística nos Estados Unidos ou na Europa no século XX, incluindo os mortos das duas guerras mundiais. Se a taxa das guerras tribais se tivesse mantido haveria 2 mil milhões de mortos em vez de 100 milhões.

Passemos à escala do milénio. Podem-se estudar os modos de vida das primeiras civilizações tal como a Bíblia as descreve. E no texto que é costume ser citado como fonte dos nossos valores morais, há descrições do que eram as guerras, como neste extracto de Números 31: "Avançaram contra Madian, segundo a ordem que o Eterno tinha dado a Moisés; e mataram todos os machos. E Moisés disse-lhes : "Deixaram vivas todas as mulheres ? Agora, matem todos os machos entre as crianças e todas as mulheres que já conheceram homem dormindo com ele; mas deixem viver todas as meninas que não conheceram leito de homem." Noutros termos, matem os homens, matem as crianças, e se houver raparigas virgens podem poupá-las para as violar. Há mais quatro ou cinco passagens na Bíblia deste calibre. Também na Bíblia, a pena de morte era a punição habitual para a homossexualidade, o adultério, a blasfémia, a idolatria, o facto de responder aos pais (!) e apanhar lenha durante o Sabbat !

Avancemos agora à escala do século. Não há estatísticas sobre as guerras entre a Idade Média e a modernidade,  mas sabemos da História que houve uma redução das formas de violência aceites pela sociedade. Por exemplo, a História diz-nos que as mutilações e a tortura eram o castigo habitual para os criminosos. E o género de infracção que hoje poderia dar multa levava na Idade Média a língua ou orelhas cortadas, a ser tornado cego, ter uma mão cortada, e assim por diante. E havia inúmeras formas de penas capitais sádicas: queimado vivo, estripado, esfolado,  passado pelo suplício da roda,  ter os cabelos arrancados, etc.. E a pena de morte era o castigo para muitos crimes não violentos: criticar o Rei, roubar um pedaço de pão. A escravatura, claro, era o método favorito para economizar na mão-de-obra, e a crueldade uma forma de divertimento popular. O exemplo mais eloquente é o costume de queimar gatos, em que o animal era içado sobre um estrado e depois, suspenso de uma cinta, baixado sobre o fogo.

E quanto a assassínios? Disso temos boas estatísticas, porque muitas aldeias e cidades registavam as causas dos óbitos. (...) Numa escala logarítmica desde 100 mortos por 100 000 habitantes (que era grosso modo a taxa de homicídios na Idade Média) a taxa cai para 1 homicídio por 100 000 pessoas e por ano em 7 ou 8 países europeus. Há um ligeiro aumento nos anos 60. Mas desde a Idade Média até hoje houve uma queda de um factor de 100, e o ponto de viragem foi no século XVI.

Vejamos à escala do decénio. Segundo organizações não governamentais que guardam este género de estatísticas,  desde 1945 na Europea e nas Américas houve uma queda rápida de guerras entre estados, golpes militares, levantamentos étnicos.


Neste gráfico as barras amarelas mostram o número de mortos por guerra e por ano desde 1950 até hoje. A taxa de mortalidade cai de 65 000 mortes por conflito cada ano na década de 1950, até 2 000 por conflito e ano no decénio actual (2010).

Mesmo na escala anual há diminuição de violência. Desde o fim da guerra fria, há menos guerras civis, menos genocídios - uma reduçaõ de 90% após os números elevados da Segunda Grande Guerra - e mesmo uma inversão do pico já referido nos anos 60 em relação a crimes violentos. Isso segundo as estatísticas criminais do FBI: pode-se observar uma taxa de violência baixa nos anos 50 e 60, depois um forte aumento durante alguns decénios, depois uma forte baixa desde os anos 90.



A terminar, Steven deixa uma certeira alfinetada:
"ninguém alguma vez conseguiu atrair observadores, defensores e patrocinadores dizendo "as coisas vão cada vez melhor."

Vídeo da conferência de Steven Pinker no TED talks, 2007:
https://www.ted.com/talks/steven_pinker_on_the_myth_of_violence?language=fr

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P.S. : soube agora que a guerrilha das FARC na Colômbia provocou 260 000 mortos nos últimos 50 anos antes das tréguas. Isso é uma enormidade ! Não só terminou agora, parece, como não tem comparação com o número de vítimas nos conflitos das últimas décadas no Médio Oriente, ou de atentados na Europa, relativamente (só relativamente!) diminuto.