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domingo, 20 de setembro de 2026

Michael Ondaatje, três poemas pasmados perdidos




A obra de Michael Ondaatje é complexa, meditativa, vai muito além do âmbito deste blog ; vou-me limitar a três poemas que mais gostei de ler,  quando da publicação recente da colectânea The Distance of a Shout.

What were the names of the towns

What were the names of the towns
we drove into and through

stunned   lost

having drunk our way
up vineyards
and then Hot Springs
boiling out the drunkenness

What were the names
I slept through
my head
on your thigh
hundreds of miles
of blackness entering the car

All this
darkness and stars
but now
under the Napa Valley night
a star arch of dashboard
the ripe grape moon
we are together
and I love this muscle

I love this muscle
that tenses

and joins
the accelerator
to my cheek

                                                           1998 
                                                        In The Distance of a Shout, 2026



Quais eram os nomes das cidades

Quais eram os nomes das cidades
onde entrámos, que atravessámos

pasmados perdidos

tendo bebido no caminho
que sobe pelos vinhedos
e depois nas fontes termais
cozendo a embriaguez no calor

Quais eram os nomes
enquanto dormia
com a cabeça
na teu regaço
centenas de milhas
de escuridão a penetrar no carro

Tudo isso
escuridão e estrelas
mas agora
sob a noite de Napa Valley
o arco de estrelas do painel
a lua cor de uva madura
estamos juntos
e eu adoro este músculo

Eu amo este músculo
que se retesa

unindo
o acelerador
à minha face.



A grande colectânea de poemas anterior era A year of last things, de 2024


5 a.m.

The wilderness of our youth, an empty barn,
dancing with friends into the small hours,
then daylight and the cars swerving away
wordless into the dawn

It arrives all at once tonight,
not as memory, but as a gift
from forgetfulness,
as a desire can wake you

or this poem
based on the accidental change of speed
in a friend’s camera into slow motion

So now I remember
the rest of our shadows
as we danced, all our heartbeats
under the thunder

and I can speak to you the way
we once sang farewells out of our cars
late at night, when those
goodbyes remembered everything


5 da manhã

A rebeldia da nossa juventude, um celeiro vazio,
dançando com os amigos até altas horas,
depois a luz do dia e os carros a que se desviam
em silêncio rumo à alvorada

Tudo isto chega de repente esta noite,
não como memória, mas como dádiva
do esquecimento,
como desejo que te pode despertar

ou este poema
inspirado na mudança acidental da velocidade
no vídeo de um amigo para câmara lenta

Então agora recordo
o resto das nossas sombras
enquanto dançávamos, todo o nosso sobressalto
sob o trovão

e posso falar contigo de como
uma vez cantámos despedidas dentro dos carros
já tarde na noite, quando aquelas
despedidas recordavam tudo

                                                                  
                                                  

A Year of Last Things  abre com este poema:

Lock

Reading the lines he loves
he slips them into a pocket,
wishes to die with his clothes
full of torn-free stanzas
and the telephone numbers
of his children in far cities

As if these were
all we need and want,
not the dog
or silver bowl
not the brag of career
or ownership

Unless they can be used
—a bowl to beg with,
a howl to scent a friend,
as those torn lines remind us
how to recall

until we reach that horizon
and drop, or rise
like a canoe within a lock
to search the other half of the river,

where you might see your friends
as altered by this altitude as you

The fresh summer grass,
the smell of the view—
dark water, August paint

How I loved that lock when I saw it
all those summers ago,
when we arrived
out of a storm into its evening light,

and gave a stranger some wine
in a tin cup

Even then I wanted
to slip into the wet dark
rectangle and swim on
barefoot to other depths
where nothing could be seen
that was a further story


A Eclusa

Tendo lido os versos que adora
ele guarda-os no bolso,
deseja morrer com as roupas
repletas de estrofes desgarradas
e os números de telefone
dos seus filhos em cidades distantes.

Como se fossem
tudo o que é preciso e querido,
não o cão
ou a taça de prata,
não a vanglória da carreira
ou da propriedade.

A menos que possam servir
—  a tigela para pedir esmola,
ladrar para sentir o cheiro de um amigo,
e versos rasgados que nos lembram
de como recordar

até atingirmos esse horizonte
e tombar, ou subir
como uma canoa numa eclusa
para explorar a outra metade do rio,

onde talvez possas ver os teus amigos
tão alterados como tu por essa altitude.

A erva fresca do Verão,
o cheiro da paisagem —
água escura, tinta de Agosto

Como adorei aquela eclusa quando a vi
tantos verões já passados,
quando chegámos
saindo de uma borrasca para a luz tardia,

e demos vinho a um estranho
numa caneca de lata

Mesmo nessa altura, eu queria
deslizar para o molhado escuro
rectângulo e ir nadando
pés nus rumo a outras profundezas
onde nada se pudesse ver
que fosse já uma outra história




Michael Ondaatje nasceu em Colombo, Ceilão (Sri Lanka), em 1943. Em 1954 foi ter com a mãe na Inglaterra, onde ficou a estudar até 1962, ano em que emigrou para Montréal no Canadá e adquiriu nacionalidade canadiana, prosseguindo depois estudos em Quebec e Toronto. Tornou-se mais conhecido quando o romance O Paciente Inglês foi transposto com sucesso para o cinema.



domingo, 28 de junho de 2026

W. B. Yeats, partir para Innisfree ! (traduzido)


Loch Gile

Traduzir o intraduzível, poemas, mania minha. Como já disse uma vez, só o faço porque fico a gostar ainda mais do original, a conhecê-lo melhor e a sentir que foi escrito, também, para mim.

Este é um daqueles Yeats que nunca teve uma tradução decente, seja em francês, espanhol ou português. É preciso sempre recorrer a alterações radicais de forma a manter uma linguagem minimamente coerente; tentei que, sendo radicais, mantivessem a essência do que (penso) o poeta quis dizer. Pareceu-me que manter a rima era essencial; mas atropelar a métrica, minimamente aqui e ali, foi a consequência, espero ter mantido um ritmo aceitável. Horas e horas à volta de Yeats.

Na Irlanda do período enegrecido e enevoado da primeira indústria, a utopia de regresso à Natureza pristina que nunca esquecemos, como um filho pródigo ao seu lar. Uma tentação da meia-idade.


W. B. Yeats, The Lake Isle of Innisfree
[tradução minha]

Vou levantar-me já e partir, partir para Innisfree,

Onde hei-de erguer uma cabana, de vime e de madeira,

Aqui nove renques de feijão, e uma colmeia de mel ali,

Irei viver a sós, eu e as abelhas zumbindo na clareira.


Lá terei sossego, pois a paz vem descendo devagar,

Desce dos véus da manhã e pousa onde os grilos cantam.

Lá a meia-noite cintila, o meio-dia é urze roxa a fulgurar,

E a tarde cheia de asas dos pintarroxos que voltam. 


Vou levantar-me já e partir, pois noite e dia 

Ouço as águas do lago, nas margens de leve a chapinar;            

Andando eu na estrada ou em cinzenta rodovia, 

No mais fundo do coração as ouço ecoar.

                                                                                        1889


Lake Isle of Innisfree


domingo, 31 de maio de 2026

E livros ? Também, incluindo poesia, BD e enciclopédia.


Livros em espera ou apenas iniciados.

The still point, Amy Sackville (trad. francês: Là est la Dance)

Portobello, 2010

"Still point' é um ponto fixo, o Pólo Norte, que não se movimenta durante a rotação diária. A narrativa recorda a vida de Edward Mackley, explorador (ficcional) do Ártico que, em rota para o Pólo desaparece subitamente na paisagem de gelo, sem deixar traços. 

New York Times: Sackville agita a linguagem como uma varinha mágica ... a sua prosa recorda-nos o prazer de ser transportados para mundos longínquos apenas pela palavra escrita; a proeza parece mágica, não técnica.

The Guardian: Os dois mundos do gelo e do calor, separados por um século, no cuidado equilíbrio de uma prosa requintadamente contida.

Bagatelles, Jenny Erpenbeck

Albin Michel, 2004

Tradução francesa de 'Tand ' (Bugigangas), são dez contos de 2001. Tema: a inexorável marcha do tempo e a inevitabilidade de, tal como as pessoas, as suas obras desparecerem também um dia. Bagatelas.

Tand, Tand/ Ist das Gebilde von Menschenhand! 
(Tralha, tralha ! É o que constrói a mão dos homens. )

Conversation Poems,  Coleridge

Extracto (traduzido):

Minha pensativa Sara ! a tua face assim reclinada

sobre o meu braço, ainda mais doce torna

estar aqui sentados junto à nossa casita, recoberta

de branco Jasmim florido, e densa folhagem de Mirto,

(aí estão sinais de Inocência e Amor !)

e olharmos as núvens, tão belas há pouco na luz da tarde,

entristecendo devagar, ver surgir a estrela da alvorada,

serenamente luminosa (tal como a Sabedoria) 

a brilhar no lado oposto!  Como são refinados os aromas

emanados daqueles feijoeiros! e o mundo tão apressado !

O murmúrio sussurrado do mar distante

Fala-nos do silêncio.

                                                                      [início do poema A Harpa Eólica]

BD J'ai toujours rêvé d'être un fermier, Jean Harambat

Dargaud, 2026

Uma evocação bucólica das paisagens e dos trabalhos rurais, em tintas sfumato - ocre, beige, verde água - e destreza no traço.

E o mais vistoso para o fim:

PETIT LAROUSSE 2027

Se quer saber sem browsear
é só abrir e folhear.

Um gozo, estético e táctil.

Duas consultas 'modernaças' a termos ingleses incorporados no francês:




Uberizar? Uberização ?? Credo, livra ! Estes franceses...


domingo, 10 de maio de 2026

Coleridge, 'Frost at Midnight' (Geada à Meia-noite), intemporal


É um poema bem conhecido de Samuel Coleridge (1772-1834) poeta romântico, contemporâneo da máquina a vapor e do início da industrialização, antecessor de Thomas Hardy (1840-1928). Viveu o início da Pax Britannica (1815-1914) que precedeu a era victoriana, em que a Europa Ocidental esteve em paz quase um século, período de prosperidade e de florescimento das artes. Isso favoreceu a esperança no futuro, uma mentalidade positiva romântica - o completo inverso de hoje - que se reflecte no desejo do regresso à Natureza, uma Natureza deificada, como Colerige conheceu no Lake District.

Referi Thomas Hardy porque ele admirava Coleridge e em particular este poema, que o emocionava intensamente. Soube isso com a leitura de Winter, o livrinho de    que acabei de ler.

Há imensos estudos sobre o significado de Frost at Midnight, de 1798, fáceis de encontrar na net. O que não há é boas traduções, pelo menos em português ou espanhol (castelhano). Aventurei-me , esforcei-me, e este é o resultado. Durante a tradução, curiosamente, fiquei a gostar ainda mais do poema. Genial. Mesmo que invoque Deus, fá-lo numa perspectiva neo-platónica, menos mal. 

Nota: a palavra 'stranger' (que traduzi como estranho, visitante) é uma referência ao termo popular que designa a luzita azul quase extinta sobre as brasas, prenúncio de alguém ainda desconhecido que está a chegar.


Geada à Meia-noite   [Frost at Midnight]

A Geada prossegue no seu ofício secreto

sem ajuda de vento algum. O canto da coruja

soou alto — e ouçam! Tão alto outra vez.

Os residentes da minha casita, que descansam,

deixaram-me nesta solidão, que propicia 

mais abstrusas reflexões; excepto que, ao meu lado

a minha criança de berço dormita serenamente.

Mas que calma ! Tanta calma que até perturba

e irrita o pensamento, com essa estranha

e extrema quietude. Mar, colina e bosque,

que povoada aldeia ! Mar, e colina e bosque,

com todos os múltiplos cursos da vida,

inaudíveis como sonhos ! A ténue chama azul

paira sobre as brasas da lareira, já não treme;

só a fina película, que dançava sobre a grelha,

ainda ali trepida, única coisa palpitante.

E penso: a sua agitação neste sossegado ambiente

dá-lhe uma leve afinidade comigo, que vivo,

tornando-a uma forma companheira,

cujos míseros tremores e caprichos a mente ociosa

interpreta conforme seus humores, a toda a volta

buscando eco ou espelho de si mesmo, 

e faz do Pensamento brincadeira.


                        Mas, ah! Quantas vezes,

quantas vezes, na escola, de mente crédula 

e cheia de presságios, eu observei as grades

à procura daquele trémulo 'visitante' ! E tantas vezes 

sem fechar as pálpebras, eu já sonhava

com a doce terra onde nasci, e a velha torre da igreja

cujos sinos, única música dos pobres, soavam

da manhã até à noite, todo o dia de festa ao sol quente,

tão doces que me inquietavam e assombravam

com um prazer selvagem, soando aos meus ouvidos

como sons articulados de algo que está para vir !

Assim olhava eu, até que esses sonhos suaves

embalavam o meu sono, e o sono prolongava os sonhos!

E sntão eu ruminava toda a manhã seguinte

receoso diante do rosto severo do preceptor, de olhar fixo

a fingir atenção ao livro que flutuava.

Excepto se a porta se entreabria e eu podia lançar

uma espreitadela furtiva, o coração em sobressalto,

pois ainda esperava ver o rosto do 'estranho',

um conterrâneo, ou uma tia, ou uma irmã mais adorada,

parceira de folias quando ainda vestíamos de igual !


            Querida criança, que dormes no berço a meu lado,

teu suave respirar ouço nesta calma profunda,

preenchendo os intercalados espaços

e as pausas momentâneas do pensamento !

Meu bébé, tão bonito ! que o meu coração vibra

com terna alegria, só de te contemplar,

e pensar que hás de aprender tão vastos saberes,

e em outras distantes paisagens ! Pois eu fui educado

na grande cidade, fechado em claustros escuros,

e nada de belo via senão o céu e as estrelas.

Mas tu, meu filho! hás-de vaguear como uma brisa

pelos lagos e as praias de areia, sob as escarpas

de antigas montanhas, e sob as nuvens

que espelham no seu bojo os lagos e as praias

e as montanhas: assim, verás e ouvirás

as formas adoráveis e os sons inteligíveis

daquela língua eterna, a que o teu Deus

pronuncia, ele que desde a eternidade proclama

estar em tudo, e todas as coisas n’ele.

Grande Professor universal ! Ele dará forma

ao teu espírito, e ao dar, o fará querer mais.


       Deste modo, todas as estações te serão doces,

quer o Verão ao revestir a terra

de verdura, ou o tordo ao pousar e cantar

entre tufos de neve sobre o galho seco

na macieira coberta de musgo, enquanto palha fria

fumega derretida ao sol; quer as gotas de orvalho caiam

mal se ouvindo entre os transes do trovão,

ou ainda o ofício secreto da geada

as pendure em agulhas de gelo, silenciosas,

brilhando serenas à serena Lua.

                                                                              Samuel Taylor Coleridge

                                                                              [tradução minha]

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Este poema faz parte de uma colectânea intitulada "Conversation Poems"

domingo, 18 de janeiro de 2026

O Natal 'negro' genial de T. S. Eliot, 'Journey of the Magi'

Foi no blog The Silvertree Café  que li, ou reli talvez, não me recordo, este poema de Thomas Stearns Eliot, escrito, segundo ele próprio, depois da missa e de meia garrafa de gin. É inesperada a perspectiva da Natividade vista por um dos Reis Magos (que seriam reis/sacerdotes persas zoroastrianos), e perturbador ou mesmo subversivo o que ele tem para nos dizer.

 A Jornada dos Reis Magos

Uma vaga de frio, que sorte a nossa,
foi só a pior época do ano
para uma viagem, e uma viagem tão longa:
Os trilhos profundos e o clima agreste,
no pino do inverno.
E os camelos irritados, com os pés doridos, refractários,
deitados sobre neve a derreter.
Houve momentos em que chorámos
os palácios de Verão em socalcos, os terraços,
e as meninas de seda trazendo sorvete.
Depois, os homens dos camelos que praguejam e resmungam
e fogem, e querem álcool e mulheres,
e o fogo nocturno que se apaga, e a falta de abrigos,
e as cidades hostis e as vilas inóspitas
e as aldeias sujas que cobram preços altos:
Passámos momentos difíceis.
Acabámos por preferir viajar toda a noite,
dormindo de quando em quando,
com vozes nos ouvidos a dizer
que tudo isto é uma loucura.

Depois, de madrugada, descemos para um vale temperado,
húmido, abaixo da cota da neve, um cheirinho a vegetação;
Com um riacho a correr e um moínho de água vencendo a escuridão,
e três árvores que se recortam no céu baixo,
e um velho cavalo branco a galopar pelo prado.
Depois passámos numa taberna com folhas de videira no lintel,
seis mãos jogando aos dados por moedas de prata,
e pés golpeando os odres vazios,
mas não havia nenhuma informação, e então continuámos
e chegámos ao anoitecer, por pouco já era tarde
quando encontrámos o lugar; foi (por assim dizer) satisfatório.

Tudo isso foi há muito tempo, recordo,
e eu voltaria a fazer o mesmo, mas que fique registado
isto fique registado
isto: o que nos guiou na caminhada foi
Nascimento ou Morte? Houve um Nascimento, certamente,
Ttvémos provas e nenhuma dúvida. Eu tinha visto nascimento e morte,
mas pensava que eram diferentes; este Nascimento foi
uma severa e amarga agonia para nós, como a Morte, a nossa morte.
Voltámos às nossas terras, a estes Reinos,
mas já não estamos à vontade, na antiga indulgência,
entre um povo estranho agarrado aos seus deuses.
Devia sentir-me feliz por outra morte.

                                                                                                             T.S.Eliot, 1927

A narrativa dos Reis Magos encontra-se no Evangelho de S. Mateus; Eliot foi lá buscar muitas ideias e mesmo citações, como a dos "odres vazios" da taberna onde não há informação, leia-se, o mundo secular pagão sem regras, da magia e astrologia, onde o divino está ausente. Jorram metáforas, verso após verso - "jogando aos dados por moedas de prata", alusão à traição de Judas...
A primeira edição, na Faber and Gwyer

Eliot debatia-se com problemas teológicos, tendo aderido à igreja cristã anglicana. Disse que o poema pergunta “Até que ponto foi a Verdade revelada aos que foram inspirados a reconhecer Nosso Senhor tão depressa após a Natividade ?”  Dúvida essencial: fomos todos ludibriados com 'fake news' que os Evangelhos propagaram ? O poema exprime abundantemente as dificuldades e contrariedades do percurso, não há nenhum guia seguro nem caminho sem perigos nem transporte fiável, é uma tragédia contínua, e afinal em demanda do Nascimento ou da Morte?

Mais importante: o nascimento de um mundo novo é o fim do mundo velho, nascimento e morte interligados. E tragicamente trata-se da NOSSA morte afinal.

Não existe outra tradução decente, as que há são brasileiras e muito más, de tradutores atabalhoados que desvirtuam tudo. Mas tive dúvidas também e ainda não compreendi bem o verso final. Se calhar traduzi-o mal - 'another death ' será 'outra' ou 'uma outra' , ou seja, no sentido de 'mais uma' ou de 'uma diferente' ?

Poema fenomenal, poema terminal. O original aqui.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Três poemas de Ana Hatherly , sobre: o Saber, a Análise, os Portugueses.

Poemas extraídos de "Um Calculador de Improbabilidades", de Ana Hatherly, ed. Quimera, 2001.

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                                      sobe o sabor do saber
                                      acima da indiferença

                                      por onde passa
                                                                o saber
                                                      passa
                                                                o sabor da diferença

                                                                                                          [de O Cisne Intacto]


A Análise

Peguei numa agulha bem fina,
enterrei a sua ponta na parte inferior
da cabeça do dedo indicador esquerdo.
Extraí uma gota de sangue. Coloquei-a
sobre a pequena lâmina de vidro, estendi-a
bem e examinei-a ao microscópio, aumentada
200 vezes, vi uns discos brilhantes como sóis.
Comecei a contar mas desisti. Eram em número
excessivo. A gota devia conter cerca de
5.000.000 de discos. Aumentei portanto
a potência do microscópio para 1.000 e
colori uma das células. Vi uma armação em
forma de rede de qual pendia um grânulo de
estrutura complicada rodeado por muitos outros
mais delicados. Aumentando a potência do
microscópio para 5.000 os cordéis que formavam
a rede revelaram-se como fios de pérolas. 
Elevei então a potência do microscópio para
100.000, seu máximo. Nas pérolas apareciam 
desenhos semelhantes aos de cristais de
neve.
Nesse momento minha irmã abre a porta e diz:
Olha que a banheira está a transbordar.


                    Balada do Português que dói

                      O barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o corpo cai
                      o corpo dói

                      português vai
                      português cai

                      o barco vai
                      o barco vem

                      português vai
                      português vem

                      o país cai
                      o país dói

                      o tempo vai
                      o tempo dói

                      português cai
                      português vai

                      português sai
                      português dói


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Tão actual.

domingo, 2 de novembro de 2025

Um paraíso no meio da guerra - o parque Shevchenko em Kharkiv


Já aqui publiquei post sobre Kharkiv, a cidade mais mártir da Ucrânia, constantemente bombardeada. Falei também do seu excelente Museu e da magnífica arquitectura. Uma publicação de há alguns dias no Threads mostrou-me uma perspectiva do Parque Shevchenko admirável de paz e elegância.


Fundado em 1804 como Jardim da Universidade, é também Jardim Botânico e encerra um Observatório Astronómico  com cúpula de observação e um museu. 

Só quero ilustrar o jardim das fontes, que se prolonga na base de uma monumental escadaria:




É um dos sítios onde os habitantes gostam de vir esquecer as noites de terror, de rebentamentos e de casas esventradas a arder e de zumbidos inimigos sobre as cabeças que podem cair aqui ou ali em qualquer momento. Quando não há sinais de alerta e o sol ajuda, o mundo parece melhor no Parque Shevchenko.


Água a jorrar contribui para o bem estar. Rimei.


Um dos mais bonitos parques urbanos do mundo, parece-me.

Aqui vê-se a Catedral da Assunção.

Uma fonte recentemente restaurada.


Taras Shevchenko foi um poeta nacionalista Ucraniano, nacionalista no sentido de melancolia e messianismo patrióticos. Numa época como a que se vive agora, compreende-se que seja objecto de culto.

Fica aqui um poema dele de que gostei, apesar do desânimo:

                                Refulgem as luzes, há música a tocar,
                                a música chora, uiva;
                                Como um belo e valioso diamante,
                                os olhos dos jovens brilham de alegria,
                                à luz da esperança, à chama do prazer;
                                lampejam os olhos, pois à vista
                                de inocentes tudo parece bem.

                                E todos riem, riem,
                                E todos dançam. Só eu,
                                triste maldição, olho
                                e em segredo choro, choro.

                                Por que estou a chorar? Talvez lamente
                                que, sombria como um dia de chuva,
                                a minha juventude, inútil, já passou.

[tradução livre minha]



Kharkiv, grande cidade de Cultura, capital europeia da coragem.


domingo, 17 de agosto de 2025

Cinco poemas de W. B. Yeats, por mim traduzidos



Tive o atrevimento de me meter a traduzir Yeats. O resultado não me desagrada, enfim, avalie quem ler. Os originiais são de génio, claro.
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The Cloak the Boat and the Shoe

‘What do you make so fair and bright?’
‘I make the cloak of Sorrow:
O lovely to see in all men’s sight
Shall be the cloak of Sorrow,
In all men’s sight.’

‘What do you build with sails for flight?’
‘I build a boat for Sorrow:
O swift on the seas all day and night
Saileth the rover Sorrow,
All day and night.’

‘What do you weave with wool so white?’
‘I weave the shoes of Sorrow:
Soundless shall be the footfall light
In all men’s ears of Sorrow,
Sudden and light.’

O manto, o barco e o calçado

          'Que estás a fazer, tão bonito e brilhante?'
          'Estou a fazer o manto da Tristeza:
          Oh, lindo de ver, à vista dos homens
          Vai ser o manto da Tristeza,
          À vista de todos os homens.'

          'O que constróis com velas para voar?'
          'Construo um barco à Tristeza:
          Oh, ligeira nos mares, dia e noite,
          Navega a vadia Tristeza,
          Sempre, de dia e de noite.'

          'Que teces tu com lã tão branca?'
          'Estou a tecer o calçado da Tristeza:
          Sem ruído, seus passos são leves
          Aos ouvidos da Tristeza dos homens,
          Súbitos e leves.'


He Wishes for the Cloths of Heaven

Had I the heavens' embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half-light,

I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

                                              
Quem me dera as sedas do céu

           Tivesse eu as sedas bordadas do céu,
           Lavradas em luz de ouro e de prata,
           As sedas azuis e pálidas e sombrias
           Da noite e da luz e da meia-luz,

           Todas estenderia a teus pés:
           Mas sou pobre, só tenho os meus sonhos;
           Estendi os meus sonhos a teus pés;
           Pisa de leve, estás a pisar os meus sonhos.


An Appointment

Being out of heart with government
I took a broken root to fling
Where the proud, wayward squirrel went,
Taking delight that he could spring;
And he, with that low whinnying sound
That is like laughter, sprang again
And so to the other tree at a bound.
Nor the tame will, nor timid brain,
Nor heavy knitting of the brow
Bred that fierce tooth and cleanly limb
And threw him up to laugh on the bough;
No government appointed him.


Uma Nomeação

            Estando eu a discordar do governo,
            Colhi um troço de raiz e lancei-o
            Na direcção de um bravio e rebelde esquilo,
            Deliciado a vê-lo saltar;
            E ele, com aquele grasnar reiterado
            Que parece uma risada, saltou de novo
            E lá foi outra árvore alcançar.
            Não foi vontade submissa, nem cérebro medroso,
            Nem um pesado franzir do sobrolho
            Que gerou o dente feroz, a precisão dos membros,
            E o lançou para cima, a rir, sobre um ramo;
            Nenhum governo o terá nomeado.


The Great Day

            Hurrah for revolution and more cannon-shot!
            A beggar upon horseback lashes a beggar on foot.
            Hurrah for revolution and cannon come again !
            The beggars have changed places, but the lash goes on.

O Dia Glorioso

            Hurra pela revolução e tiros de canhão !
            Um mendigo a cavalo chicoteia um mendigo apeado.
            Hurra pela revolução e venha lá outro canhão !
            Os mendigos trocaram de lugar, mas o chicote continua.


The Wheel

Through winter-time we call on spring,
And through the spring on summer call,
And when abounding hedges ring
Declare that winter's best of all;
And after that there's nothing good
Because the spring-time has not come —
Nor know that what disturbs our blood
Is but its longing for the tomb.


A Roda

            Durante o inverno, invocamos a primavera,
            Durante a primavera, o verão,
            E quando as sebes abundam de flores,
            Declaramos que melhor é o inverno;
            E depois disso nada há de bom,
            Porque não chegou a primavera  —
            Nem sabemos que o que nos perturba o sangue
            É apenas anseio pelo túmulo.

sábado, 19 de abril de 2025

Livros e Música para uma Primavera imprevisível

A habitual selecção para as próximas semanas, a ver se lava a mente da sujeira que tem absorvido deste mundo.

The Glass Marker, Tracy Chevalier

Já me deu alguns dos melhores livros que já li: The Lady and the Unicorn, Girl  with Pearl Earrings, Burning Bright, A Single Thread. Este passa-se em Veneza e Murano, e também é uma novela histórica ligada às artes - neste caso à arte dos vidreiros de Murano. Duas famílias de fabricantes, os Rosso e os Barovier, competem e colaboram para garantir o mercado mais importante - o alemão, com o grande entreposto junto a Rialto. Toda a narrativa segue a vida de Orsola Rosso desde a adolescência, e sucessivas Orsolas através dos séculos. Um grande fresco, com vívidas descrições como esta, em que Orsola Rosso e o irmão Giacomo, conduzidos pelo remador Bruno, se dirigem para a feitoria alemã.

  "Seguiram pelo Grande Canal, tendo-se Bruno alinhado com uma longa fila de barcos que deslizava em direcção ao pórtico. Embora já tivesse feito este caminho antes, mantinha-se em silêncio, suando enquanto manobrava para não abalroar o barco que o precedia, carregado de tapetes. Outros em volta transportavam seda, madeira, barris de vinho, especiarias; havia mesmo um carregadinho de limões. Enquanto esperavam para desembarcar, Orsola viu passar por eles uma peata que levava caixotes de madeira de Murano, como os que os Rosso utilizavam. Estavam marcados com letras, mas não conseguiu ler.
  -"Moretti", esclareceu Giacomo ao dar conta da atenção intrigada da irmã. "O mercador deles deve ter inspeccionado os artigos de vidro e feito um inventório, e agora segue para São Marcos onde as caixas serão transferidas para navios que seguem primeiro para sul, depois para este ou oeste. A mesma coisa acontece com os nossos vidros."
  Orsola nunca tinha pensado na viagem que os vidros faziam após partirem de Murano, embora uma vez ou outra tentasse imaginar onde iam parar: numa mesa posta em Londres, por exemplo, cada lugar com os seus cálices Rosso. "


La Rochelle
Thomas Brosset e Maggie Cole, ed. Le Croît Vif

Um relato bem documentado da Liga Hanseática : as suas várias cidades e entrepostos, as ligações entre eles, os negócios e as políticas, tudo para ressaltar a magnífica cidade de La Rochelle, entreposto francês importante pela produção de sal e vinho. Poucos sinais restam da Liga, mas toda cidade foi construída sobre essa herança.

Casa ao estilo hanseático, Place Verdun, La Rochelle.

American Faith , poemas de Maya C. Popa
Sarabande Books

Já várias vezes aqui coloquei poemas de Maya C. Popa.

Hummingbird  ( 'Beija Flor') , excerto traduzido

      Batendo com o dedo na minha janela a sudoeste,
      Coloco um bebedouro, convite ao vandalismo.
      E embora o convidado tenha plumagem delicada,
      Nunca deixa uma pena caída, parábola inacabada,
      enquanto do lado de dentro, as perdas se acumulam 
      sem dó, sem lógica nem esquema, e questionamos:
      Que é que prepara um pássaro para tanto fracasso
      quando todo o seu esforço se resume a subsistência,
      não recebe trocos da água doce diária,
      nenhuma novidade no seu canto, nem um novo ninho.


The Crimson Sails
Alexander Grin, trad. Irina Lobatcheva e Vladislav Lobatchev

Já sei: se estou a ler historinhas para jovens adolescentes, está-se a agravar a minha senilidade. Acontece que nunca tinha lido Alexander Grin, não fez parte dos meus contos em criança; li Peter Pan, Alice, Irmãos Grimm, Andersen, Selma Lagerlof, depois C.S. Lewis, mas ninguém me falou de Alexander Grin. É um escritor russo do início do século XX de historinhas de ficção mágica, terras inventadas e narrativas heróico/românticas, digamos como a Narnia mas sem guerras. As Velas Escarlate (ou Velas Carmesim) é o conto mais famoso: muitíssimo bem escrito, com riqueza de detalhes e de peripécias, bem traduzido para inglês pelos irmãos Lobatchev.

CDs

Sonho de uma Noite de Verão, Mendelssohn
narrado por Judi Dench

Não só é uma versão integral , como a narradora é Judi Dench, aquela voz inimitável de um sublime inglês teatral. Conta ainda com Kathleen Battle na 1ª fada, e a direcção de Seiji Ozawa. Para a versão apenas orquestral, há melhores escolhas, mas escutar esta dicção cativante e amável é uma experiência sem igual.

Mozart, sonatas para violino
Alina Ibragimova (vln) e Cédric Tiberghien (pn)


E deixo talvez o melhor para o fim:

Árias de Telemann
Dorothee Mields, com a L'Orfeo Barockorchester

São cantatas seculares, Deo Gratias!, canções de paixão, esperança, desgosto e reconciliação. Uma alegria primaveril onde brilha o bonito e cristalino timbre da soprano Dorothee Mields.

domingo, 23 de março de 2025

Primavera, dois poemas de Maya C. Popa


Para já a Primavera é um Inverno prolongado, se há flores estão murchas da chuva e do vento, se há sol e calor é noutras paragens. Ouvem-se tambores de guerra, cada vez mais fortes. É a Primavera do meu descontentamento. A poeta romeno-americana Maya C. Popa (n. 1989) é, nesta situação, um braço de apoio para a melancolia.

Spring

Time persists, yes, I can see there are new branches.

The grass, first in a line of transformations,
seemingly risen overnight.

Color is pouring back into the hours,
or forgiveness, whatever the case may be.

With one decisive tug at the earth, the robin’s drawn forth
a shimmering worm,

with such precision, it is almost a cruel pleasure.

This, the nightmare we dreamed but did not wake from.

Time is passing, I concede. A squirrel leaps
from one branch to another.

A hawk studies the field at dusk.

The park announces the season over and over
to no one,

and the silence cranes to listen.

Terraces of light now that the day is longer.

When joy comes, will I be ready, I wonder.

[in 'Wonder is the origin of Wound']

                 Primavera 

O tempo persiste, sim, posso ver que há ramos novos.

A relva, primeira de uma sequência de mudanças,
parece ter crescido durante a noite.

A cor derrama-se de novo com o passar das horas,
ou o perdão, conforme seja o caso.

Com um puxão decisivo na terra, o tordo extraiu
um verme cintilante,

com tanta precisão, é quase um prazer cruel.

Este, o pesadelo que sonhámos, mas do qual não acordámos.

O tempo vai passando, admito. Um esquilo salta
de um galho para outro.

Um falcão estuda o campo ao anoitecer.

O parque anuncia a estação uma e outra vez
para ninguém,

e o silêncio prolonga-se para ouvir.

Terraços de luz agora que o dia é mais longo.

Quando a alegria chegar, estarei eu capaz, questiono.




February Clear

Sky rinsed blue above the yellow grass and wind-shorn clouds as thin as mist - how often I have failed to look when looking would have changed me. I can't name much beyond the obvious handful of features of the patient whole, branches poised for next month's bloom, triangle of geese, the peat set low against the largest rock formations the wind interrupts repeatedly against, and the tree that grows at such a slant it tests the verdict of the eye, sending mind down roots as serious and sure and green as sunlight's own renewing. 


               Limpeza de Fevereiro

Céu lavado de azul acima da erva amarela e nuvens tosquiadas pelo vento tão finas quanto névoa - quantas vezes deixei de olhar quando olhar poderia ter-me mudado. Não consigo referir muito para lá do punhado óbvio de características deste sereno todo, galhos prontos para a floração do mês que vem, triângulo de gansos, o mato rasteiro junto às maiores formações rochosas que o vento interrompe sem cessar, e a árvore que cresce numa inclinação tal que desafia o veredicto dos olhos, enviando a mente a descer para raízes tão sérias e firmes e verdes quanto a própria renovação da luz do sol.