domingo, 18 de janeiro de 2026

O Natal 'negro' genial de T. S. Eliot, 'Journey of the Magi'

Foi no blog The Silvertree Café  que li, ou reli talvez, não me recordo, este poema de Thomas Stearns Eliot, escrito, segundo ele próprio, depois da missa e de meia garrafa de gin. É inesperada a perspectiva da Natividade vista por um dos Reis Magos (que seriam reis/sacerdotes persas zoroastrianos), e perturbador ou mesmo subversivo o que ele tem para nos dizer.

 A Jornada dos Reis Magos

Uma vaga de frio, que sorte a nossa,
foi só a pior época do ano
para uma viagem, e uma viagem tão longa:
Os trilhos profundos e o clima agreste,
no pino do inverno.
E os camelos irritados, com os pés doridos, refractários,
deitados sobre neve a derreter.
Houve momentos em que chorámos
os palácios de Verão em socalcos, os terraços,
e as meninas de seda trazendo sorvete.
Depois, os homens dos camelos que praguejam e resmungam
e fogem, e querem álcool e mulheres,
e o fogo nocturno que se apaga, e a falta de abrigos,
e as cidades hostis e as vilas inóspitas
e as aldeias sujas que cobram preços altos:
Passámos momentos difíceis.
Acabámos por preferir viajar toda a noite,
dormindo de quando em quando,
com vozes nos ouvidos a dizer
que tudo isto é uma loucura.

Depois, de madrugada, descemos para um vale temperado,
húmido, abaixo da cota da neve, um cheirinho a vegetação;
Com um riacho a correr e um moínho de água vencendo a escuridão,
e três árvores que se recortam no céu baixo,
e um velho cavalo branco a galopar pelo prado.
Depois passámos numa taberna com folhas de videira no lintel,
seis mãos jogando aos dados por moedas de prata,
e pés golpeando os odres vazios,
mas não havia nenhuma informação, e então continuámos
e chegámos ao anoitecer, por pouco já era tarde
quando encontrámos o lugar; foi (por assim dizer) satisfatório.

Tudo isso foi há muito tempo, recordo,
e eu voltaria a fazer o mesmo, mas que fique registado
isto fique registado
isto: o que nos guiou na caminhada foi
Nascimento ou Morte? Houve um Nascimento, certamente,
Ttvémos provas e nenhuma dúvida. Eu tinha visto nascimento e morte,
mas pensava que eram diferentes; este Nascimento foi
uma severa e amarga agonia para nós, como a Morte, a nossa morte.
Voltámos às nossas terras, a estes Reinos,
mas já não estamos à vontade, na antiga indulgência,
entre um povo estranho agarrado aos seus deuses.
Devia sentir-me feliz por outra morte.

                                                                                                             T.S.Eliot, 1927

A narrativa dos Reis Magos encontra-se no Evangelho de S. Mateus; Eliot foi lá buscar muitas ideias e mesmo citações, como a dos "odres vazios" da taberna onde não há informação, leia-se, o mundo secular pagão sem regras, da magia e astrologia, onde o divino está ausente. Jorram metáforas, verso após verso - "jogando aos dados por moedas de prata", alusão à traição de Judas...
A primeira edição, na Faber and Gwyer

Eliot debatia-se com problemas teológicos, tendo aderido à igreja cristã anglicana. Disse que o poema pergunta “Até que ponto foi a Verdade revelada aos que foram inspirados a reconhecer Nosso Senhor tão depressa após a Natividade ?”  Dúvida essencial: fomos todos ludibriados com 'fake news' que os Evangelhos propagaram ? O poema exprime abundantemente as dificuldades e contrariedades do percurso, não há nenhum guia seguro nem caminho sem perigos nem transporte fiável, é uma tragédia contínua, e afinal em demanda do Nascimento ou da Morte?

Mais importante: o nascimento de um mundo novo é o fim do mundo velho, nascimento e morte interligados. E tragicamente trata-se da NOSSA morte afinal.

Não existe outra tradução decente, as que há são brasileiras e muito más, de tradutores atabalhoados que desvirtuam tudo. Mas tive dúvidas também e ainda não compreendi bem o verso final. Se calhar traduzi-o mal - 'another death ' será 'outra' ou 'uma outra' , ou seja, no sentido de 'mais uma' ou de 'uma diferente' ?

Poema fenomenal, poema terminal. O original aqui.

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