Foi no blog The Silvertree Café que li, ou reli talvez, não me recordo, este poema de Thomas Stearns Eliot, escrito, segundo ele próprio, depois da missa e de meia garrafa de gin. É inesperada a perspectiva da Natividade vista por um dos Reis Magos (que seriam reis/sacerdotes persas zoroastrianos), e perturbador ou mesmo subversivo o que ele tem para nos dizer.
A Jornada dos Reis Magos
Uma vaga de frio, que sorte a nossa,
foi só a pior época do ano
para uma viagem, e uma viagem tão longa:
Os trilhos profundos e o clima agreste,
no pino do inverno.
E os camelos irritados, com os pés doridos, refractários,
deitados sobre neve a derreter.
Houve momentos em que chorámos
os palácios de Verão em socalcos, os terraços,
e as meninas de seda trazendo sorvete.
Depois, os homens dos camelos que praguejam e resmungam
e fogem, e querem álcool e mulheres,
e o fogo nocturno que se apaga, e a falta de abrigos,
e as cidades hostis e as vilas inóspitas
e as aldeias sujas que cobram preços altos:
Passámos momentos difíceis.
Acabámos por preferir viajar toda a noite,
dormindo de quando em quando,
com vozes nos ouvidos a dizer
que tudo isto é uma loucura.
Depois, de madrugada, descemos para um vale temperado,
húmido, abaixo da cota da neve, um cheirinho a vegetação;
Com um riacho a correr e um moínho de água vencendo a escuridão,
e três árvores que se recortam no céu baixo,
e um velho cavalo branco a galopar pelo prado.
Depois passámos numa taberna com folhas de videira no lintel,
seis mãos jogando aos dados por moedas de prata,
e pés golpeando os odres vazios,
mas não havia nenhuma informação, e então continuámos
e chegámos ao anoitecer, por pouco já era tarde
quando encontrámos o lugar; foi (por assim dizer) satisfatório.
Tudo isso foi há muito tempo, recordo,
e eu voltaria a fazer o mesmo, mas que fique registado
isto fique registado
isto: o que nos guiou na caminhada foi
Nascimento ou Morte? Houve um Nascimento, certamente,
Ttvémos provas e nenhuma dúvida. Eu tinha visto nascimento e morte,
mas pensava que eram diferentes; este Nascimento foi
uma severa e amarga agonia para nós, como a Morte, a nossa morte.
Voltámos às nossas terras, a estes Reinos,
mas já não estamos à vontade, na antiga indulgência,
entre um povo estranho agarrado aos seus deuses.
Devia sentir-me feliz por outra morte.
A narrativa dos Reis Magos encontra-se no Evangelho de S. Mateus; Eliot foi lá buscar muitas ideias e mesmo citações, como a dos "odres vazios" da taberna onde não há informação, leia-se, o mundo secular pagão sem regras, da magia e astrologia, onde o divino está ausente. Jorram metáforas, verso após verso - "jogando aos dados por moedas de prata", alusão à traição de Judas...
A primeira edição, na Faber and Gwyer
Mais importante: o nascimento de um mundo novo é o fim do mundo velho, nascimento e morte interligados. E tragicamente trata-se da NOSSA morte afinal.
Não existe outra tradução decente, as que há são brasileiras e muito más, de tradutores atabalhoados que desvirtuam tudo. Mas tive dúvidas também e ainda não compreendi bem o verso final. Se calhar traduzi-o mal - 'another death ' será 'outra' ou 'uma outra' , ou seja, no sentido de 'mais uma' ou de 'uma diferente' ?
Poema fenomenal, poema terminal. O original aqui.

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