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domingo, 30 de dezembro de 2018
'Erinnerung', de Rilke, para mais um ano que passou
Este poema de Rainer Maria Rilke, 'Recordação', é impossível de traduzir decentemente, como já se comprovou pelas tentativas. O ritmo e a forma têm de se perder em favor da fidelidade ao significado. Mesmo assim, depois das consultas possíveis, achei que podia fazer melhor; e como está em causa a frustração de mais um ano que passou sem trazer nada de especialmente bom, vem a propósito da quadra, e aqui fica:
Erinnerung
Und du wartest, erwartest das Eine,
das dein Leben unendlich vermehrt;
das Mächtige, Ungemeine,
das Erwachen der Steine,
Tiefen, dir zugekehrt.
Es dämmern im Bücherständer
die Bände in Gold und Braun;
und du denkst an durchfahrene Länder,
an Bilder, an die Gewänder
wiederverlorener Fraun.
Und da weißt du auf einmal: das war es.
Du erhebst dich, und vor dir steht
eines vergangenen Jahres
Angst und Gestalt und Gebet.
Recordação
E tu aguardas, esperas o Único,
o que irá ampliar ao infinito a tua vida;
o Poderoso, o Invulgar,
o Despertar das Pedras,
a Profundeza que se te abre.
Escurecem na biblioteca
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países percorridos,
em quadros, nas vestes
de Mulheres mais uma vez perdidas.
E então de súbito percebes: era isso mesmo.
Ergues-te e diante de ti estão
Angústia e Forma e Oração
de um ano que já passou.
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Que o novo ano venha no mínimo ao encontro das melhores expectativas que acalentamos. Paz.
sábado, 8 de dezembro de 2018
Balanço do ano: bons livros que li em 2018
Quanto aos livros que li, 2018 não foi um ano dos melhores; saliento só o que mais apreciei, deixando de parte os desperdícios como as Crónicas de uma Sociedade Líquida de Umberto Eco, uma desilusão.
Sem dúvida obra-prima é Time Pieces (Pedaços de Tempo), a Dublin memory de John Banville. Já li muitas crónicas autobiográficas de cidades - Veneza, Roma, Paris, Londres - e nehuma atinge este nível literariamente requintado com que John Banville nos leva a deambular pelas ruas, ruelas, praças, margens, jardins, bibliotecas, salas de cinema, bares e cantos esconsos, pelo tempo de Dublin, ao mesmo tempo que recorda os seus primeiros amores. Vive-se com ele na Dublin do pós-guerra (1950-70), nostalgicamente, e sabe bem. Disse Banville ao Guardian:
"For all the crestfallen beauty of its buildings, Dublin was, of course, its people. I sketched a portrait of the Delahaye family, well-to-do Catholics residing – their sort always “resided” – in fashionable Fitzwilliam Square, and whose delightful daughter Stephanie I courted, in vain, among the autumnal shadows of the Iveagh Gardens, and in the ersatz glamour, though it seemed not at all ersatz to us, of the Grafton Street Cinema’s first-floor tea rooms."
Apesar de toda a esmorecida beleza dos edifícios, Dublin era, obviamente, a sua gente. Esbocei um retrato da família Delahaye, prósperos católicos que residiam - esse tipo de pessoas "reside" - na prestigiada Fizwilliam Square, e cuja encantadora filha Stephanie eu cortejei, em vão, entre as sombras outonais nos Jardins Iveagh, e no glamour postiço - embora a nós não parecesse postiço - da sala de chá no primeiro andar do Cinema Grafton.
Le Dernier des Nôtres foi o meu romance deste ano, escrito por Adélaïde de Clermont-Tonnerre. Ambicioso, juntando duas leituras - presente e passado - que convergem no final, peca por demasiadas páginas escusadas que enchem a trama de uma ganga que torna difícil isolar o minério. É a história de um casal moderno de Nova Iorque que descobre no seu passado longínquo, nos finais da 2ª grande guerra, uma terrível revelação. Essa descoberta lenta e entrecortada de episódios mais ou menos fúteis constitui o principal da história, onde Von Braun e a sua equipa fugida para os Estados Unidos têm um surpreendente protagonismo
Já aqui falei da colecção de Sci-fi editada em francês sob direcção de Jacques Bergier. (Re)li três dos volumes este ano:
Une porte sur l'été, Robert Heinlein
Solaris, Stanislav Lem
Lutte avec la nuit, William Sloane
Havia uma frescura criativa nestas obras que não encontro nas pesadas sagas de LeGuin ou Tolkien. O elemento alien ou sobrenatural era introduzido com sofisticação e elegância na vida quotidiana, fosse o planeta vivo de Solaris entre os membros da Estação Espacial, fosse a alma vinda de algures no Universo que incarnou num corpo de menina deficiente de Lutte avec la Nuit (To Walk the Night, 1937), fosse o famoso gato Pete (de Petronius) apreciador de ginger ale e a criogenia trapalhona de Une porte sur l'été (1957), um dos mais trabalhados enredos sobre viagens no tempo e as suas contradições. Todas estas, leituras que abrem perspectivas, e é disso que se trata num bom livro.
O Karluk foi mais um dos navios a vapor que se aventuraram no Ártico para encalhar e ser estilhaçado pelo gelo compacto. A tripulação salvou-se, e entre eles uma família esquimó do Alasca, com uma filha ainda bébé, que embarcou para ajudar com a sua sabedoria de sobrevivência.
Alem do livro que relata a viagem do Karluk, tive o gosto de folhear "The Lamp, the Ice and the Boat Called Fish", uma adaptação de Jacqueline Briggs Martin para criança / adolescente com extraordinárias ilustrações de Beth Krommer. Uma linda prenda de Natal para quem leia inglês.
and soon the captain
was steering the ship between huge chunks of ice -
some as big as houses.
She had to wear goggles, too. Otherwise, the sun and snow
would cause snow blindness. Some wore goggles of amber glass.
Makpii didn't have to wear so many clothes
because she rode inside her mother's parka.
Por falar de ilustrações, também tive a sorte de receber pela net o álbum da Taschen de Ju-Go Hiroshige, On Hundred Views of Edo, em si um objecto de Arte.
Cem Vistas de Edo, cidade a oeste de Quioto, que foi a capital do shogunato no séc. XVII. É um gosto, folhear lentamente e mergulhar nas gravuras.
sábado, 1 de dezembro de 2018
Balanço do ano: maravilhas que ouvi em 2018 (CD)
Do que ouvi a estrear em 2018, algumas gravações já são bem antigas...
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Dirigidas por Phillipe Herreweghe, as duas oratórias de Haydn, A Criação e As Estações. Coros fenomenais - Collegium Vocale de Ghent ! -, a orquestra dos Champs Élysés sublime e uma direcção 'perfeita'. Não imagino melhor. René Jacobs compete a nível de orquestra, mas perde nas vozes. (PHI, 2014)
Ode a Santa Cecília de Handel pelo Dunedin Consort, 2018. Não é 'a' versão definitiva, como se anunciava; mas está ao melhor nível em termos orquestrais, sem dúvida o Consort estudou a fundo esta interpretação dinâmica, cristalina; mais uma vez, Carolyn Sampson é estratosférica (sem atingir contudo a prestação histórica de Felicity Palmer) mas a prestação dos restantes solistas é apenas mediana - falta 'paixão' nestas vozes...(Hanssler, 2018)
Depois de premiado noutro disco de Bach, Masaaki Suzuki voltou em 2016 com a Grande Missa em Do menor K 427 de Mozart, mais o Exultate Jubilate com Carolyn Sampson. Confesso-me 'fan' desta senhora: como em todas as suas gravações que antes ouvi, também nesta a voz de Sampson é um prazer que nunca cansa, o timbre e a firmeza inultrapassáveis. (BIS, 2016)
Não me costumam agradar concertos dirigidos pelo solista - do cravo, do piano, do violino. Neste caso abro uma excepção porque a orquestra é de tal nível que pouco se nota a "falta" de direcção em momentos fulcrais. A Royal Northern Sinfonia, de Newcastle, interpreta os concertos para piano de Beethoven com Lars Vogt no piano e direcção. (Ondine, 2017)
Não posso deixar passar ainda a leitura invulgar de Teodor Currentzis para a 6ª de Tchaikovsky, Patética. O que se conhece dele não deixava adivinhar estas incursões no romântico, mas ele concilia o impacto dinâmico que lhe conhecemos, com fortes contrastes e sem rubato, com um lirismo inesperado; o célebre allegro con grazia é mais rápido do que habitual, ganha em fluência e graça dançável o que perde em maneirismo e ostentação. Digamos que tentou 'desenfatuar" Tchaikovsky, o que tem o seu mérito, pois mesmo assim ainda é por vezes empastelado e entediante. Não deve haver muitos compositores tão incapazes de contraponto, por exemplo. (Sony, 2017)
A Tafelmusik foi durante umas décadas inultrapassável nas sinfonias de Haydn. Nunca tinha ouvido a nº 47 'palíndromo', esgotada no mercado. Dirigida por Jane Lamond, a gravação já é de 1994! Mas ouvi-la assim pela primeira vez é uma revelação. Há uma alternativa nada má, mas não atinge a perfeição do Tafelmusik: Thomas Fey com a sinfónica de Heildelberg. (Sony,1994)
A terminar, Brahms. Em 2017, finalmente, uma gravação actual, refrescante, muito estudada e preparada: a edição completa das Sinfonias por Robin Ticciati e a sua Scottish Chamber Orchestra. Nem maestro nem orquestra têm tradição nenhuma deste reportório: foi mesmo uma aventura a partir do zero. Resultado: nunca se ouviu Brahms com esta precisão e concisão, quase de câmara, com este destacar da percussão e metais relativamente à menor dimensão das cordas. Desempastelado, como o 'Tchai' de Currentzis - mas Ticciati vai mais longe. Nem tudo agrada, claro, quem se péla pelo pathos brahmisano tradicional não vai apreciar. As cordas da Scottish não tem a macieza das orquestras de Berlim ou Viena. Para gostos ultra-românticos, Ticciati pode parecer 'seco' e mecânico, é preferível outra escolha (Chailly, Nelsons). Mas nunca se ouviu com esta urgência o 1º andamento da segunda sinfonia, esfuziante, electrizante ! Bastava a garra formidável com que dirige toda a segunda para entrar na minha galeria de maestros. Com Ticciati a Scottish Chamber Orchestra faz milagres de dinâmica e coerência, oferece Brahms como nunca antes fora ouvido - preciso, tenso, transparente, detalhado, sóbrio. Já tenha sido tentado por Harnoncourt, mas... Thanks Robin !
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