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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

No Rivoli do Porto: 'Dance' de Lucinda Childs com música de Philip Glass


Passou pelo Porto a histórica criação de Lucinda Childs 'Dance', que fez parte de um movimento de renovação do bailado pelas salas e ruas de Nova Iorque, onde Childs trabalhava junto com outros coreógrafos como Merce Cunningham ou Trisha Brown.

Criado em 1979, 'Dance' é um bailado minimalista, sem espargatas nem elevações nem piruetas em bicos; ao som da música de múltiplas repetições com variações súbitas e encadeadas de forma cada vez mais complexa composta por Phillip Glass, com momentos de génio e grande beleza, os dezassete bailarinos dançam movimentos amplos, em corrida ou em rotação, retomados vezes sem fim com pequenas variações, no espaço e no tempo, culminando em jetés e saltos cruzados de belo efeito coreográfico; este efeito é enriquecido com a projecção do filme que duplica e amplia os movimentos dos bailarinos no palco.  O todo cria uma espécie de "paisagem geométrica" de formas brancas bailando ao som dos ritmos arrebatados e impetuosos, paisagem onde a matemática se transforma em feérica poesia.



O Ballet de l'Opéra de Lyon trouxe esta obra maior do século XX retomando a coreografia original; só a filmagem projectada é nova, realizada com os bailarinos actuais, utilizando habilmente as possibilidades das tecnologia digital.

Um breve excerto de uma actuação anterior em Montpellier:




sábado, 2 de fevereiro de 2019

'Fratres' de Arvo Pärt, bailado num vídeo


Só acredito na Arte quando é fruto de uma dedicação exclusiva, prolongada, muitas vezes obsessiva, de alguém que dá pouca ou nenhuma importância à vida privada e mundana. Um criador contemporâneo que se ajusta ao perfil de Artista como o entendo, à maneira clássica, é Arvo Pärt, o músico estoniano que nos tem dado composições brelíssimas e inovadoras, faltando apenas aquela obra magistral, com dimensão de génio, para que se junte à galeria dos grandes compositores. O seu perfil de vida recatada, quase solitária, votado à música, permite esperar que isso venha a acontecer.


Aqui deixo uma coreografia para o comovente Fratres, interpretada ao violino por Hagar Maoz, e dançado pela bailarina Tamar Bardos, israelitas, num cenário que evoca as povoações do Médio Oriente assoladas pelos confrontos.




sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Príncipe dos Pagodas

Outra das minhas noites culturais em Londres vai ser o bailado The Prince of the Pagodas, no próximo dia 27, na ROH Covent Garden, com o Royal Ballet.

The Prince of the Pagodas foi criado em 1957, tendo a música sido composta por Benjamin Britten para texto e coreografia de John Cranko. Mas foi a coreografia de Kenneth MacMillan em 1989 que tornou o bailado num sucesso.

Cranko inspirou-se no Rei Lear de Shakespeare. Um imperador tem de decidir qual das filhas casar para garantir descendência; a feia e má, Épine, ou a bonita e bondosa, Rose. Convida reis dos quatro cantos do mundo, que escolhem Rose, mas Épine faz um golpe palaciano e expulsa Rose, que é levada por magia ao reino do Príncipe de Pagoda (Birmânia?), transformado em salamandra. O príncipe é devolvido à forma humana e ajuda Rose a derrotar a peste da Epine, casam e pronto.

Há ainda várias ambiguidades, duplicidades e piscadelas aos clássicos que enriquecem o texto.

Britten incorporou elementos de música do Bali na partitura, para conseguir exotismo oriental, recorreu à escala pentatónica e usou "estratificação polifónica", uma técnica frequente na música asiática, também designada por heterofonia: uma linha melódica em simultâneo com uma ou mais variações sobrepostas. Britten usou-a com frequência.

Extractos :





Mais aqui

terça-feira, 14 de julho de 2009

Sombreros, de Philippe Découflé

Só agora tenho oportunidade de comentar o mais belo espectáculo de palco a que assisti este ano, no TNSJ, a 4 de Julho.



Sombreros é uma obra prima, que nos maravilha com uma espécie de mundo alternativo onde a luz, a sombra e o movimento são os elementos essenciais, a que se juntam texto, voz, corpo, canto, música, orquestra...



O que me conquistou logo nos primeiros minutos foi a estética: lindíssimos quadros de dança a preto e branco, imagem e reflexão, transportando-nos para um universo poético próximo do de Peter Pan, com magnifica movimentação e efeitos de sombra projectada ou a 3 dimensões (corpos-sombra). As sombras também podem ser rebeldes e ter vida própria...





Depois vêm outros quadros onde nos deslumbra também a tecnologia: com vários planos do palco a ser usados simultâneamente, num difícil trabalho de sincronização, há texto falado, há a orquestra a interagir ao vivo, há dois ou três planos de fundo iluminados, ora verticais, ora horizontais, ora inclinados, com projecções de padrões que interagem com os bailarinos, há a magnífica música de Bryan Eno - um esfuziante e vertiginoso espectáculo de criatividade total que por vezes não cabe nos meus olhos e ouvidos, passa além das capacidades dos sentidos - só podia abarcar uma parte daquela torrente audiovisual.






Com ritmo variado, a complexidade cresceu até um ponto paroxístico e depois amainou num final algo frustrante, humorístico mas de nível inferior, com uma citação do "Era uma vez no Oeste" de Sérgio Leone, os olhos de Henry Fonda a fazerem o bailado final, aquela música na harmónica de Ennio Morricone...



Só lamentei não poder repetir: beleza, é isto, é criar uma realidade de onde não apetece sair.

Já tinha feito uma referência a Sombreros aqui neste blog.