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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Mark Edwards, arte do distanciamento


Cada vez mais é raro surgirem obras de Arte que me agradem. Há sempre duas possibilidades - não há artistas de jeito, ou sou eu que estou desabilitado para os apreciar. Esta segunda é bem mais provável.


Seja como for, gosto deste Mark Edwards ; não é capricho meu, ele está bastante bem cotado nos meios britânicos, as galerias expõem-no  e as revistas publicam-no, como esta Art North. E uma das razões porque gosto das obras dele, estranhamente, é por retratarem solidão, isolamento, silêncio - tudo aquilo de que nos queixamos e detestamos quando somos obrigados "por decreto" como é o caso agora.

Acontece que esta não é uma solidão em reclusão, mas sim ao ar livre na Natureza. E aí, francamente, acho que há outra palavra para silêncio e isolamento: poesia, neste caso poesia visual.

Waiting for the key

Mark Edwards vive e trabalha nas Terras Altas da Escócia. Foi nos passeios pelos bosques nevados que se inspirou para esta série 'The White Wood', de 2008. Diz ele:

"Um dia (...) deparei com uma foto de 1950 numa revista, onde um homem estava reflectido numa janela de uma movimentada rua de Nova Iorque vestido com sobretudo e chapéu de coco, e então eu coloquei-o num bosque. Imediatamente surgiu uma tensão: que faz ele ali ?"

O actual e crescente interesse por Edwards reconhece a sua habilidade em criar estudos contemplativos de personagens, repetindo motivos capturados no intemporal fascínio da paisagem do Bosque Branco.

The Four Observers

É monotemático ? Depende da perspectiva. Modigliani ou Morandi ou Mondrian eram monotemáticos ? Tem os seus 'ritornellos': neve, árvores, frio, silêncio, homens de chapéu e sobretudo negro. De resto, cada quadro retrata uma situação diferente.

Stopping to look

Crow men

Watching the shadows

A todos, desejo uma quadra festiva quentinha e... saudável.


domingo, 6 de dezembro de 2020

Vamos ao Ponto Nemo ? Lá não há contágio ... nem nada.


Convencionou-se chamar Ponto Nemo, em homenagem ao (heróico) misantropo capitão Nemo de Verne, ao lugar do planeta mais inacessível, mais remoto, o que fosse mais afastado de qualquer ponto de acesso terrestre; em linguagem mais precisa, é o Pólo de Inacessibilade Oceânica.

Esse sítio está localizado no Oceano Pacifico, a mais de 2 700 km, equidistante, de três ilhas: a ilha atol Ducie (no arquipélago das  Pitcairn), território britânico; a ilhota Motu Nui (na cadeia da Ilha de Páscoa); e a Ilha de Maher, na costa da Antártida. Todas desabitadas e minúsculas.

O Ponto Nemo foi descoberto em 1992, pelo engenheiro e investigador Hrvoje Lukatela que, em terra firme, usou software informático onde modelou a forma elipsóide do planeta para obter maior precisão na localização dos três pontos equidistantes; "não há outros na superfície da Terra que pudessem substituir qualquer um deles", disse Lukatela.  

Mas se o Ponto Nemo está a mais de 2 700 km de qualquer sítio terreste, isso significa que os humanos mais próximos podem até ser os astronautas da I.S.S. ! Quando a órbita passa sobre essas coordenadas (48° 52.5′ S, 123° 23.6′ W), estão a uma distância de apenas 416 km, na vertical.

Lugar remoto, sem vida, sem chão, só águas profundas e céu, a natureza na mais pura imensidão. É o melhor sítio da Terra para um misantropo radical, há alturas em que seria mesmo o meu destino favorito. 

Mas poderá existir alguma forma de vida no Ponto Nemo ?

Em 1997, oceanógrafos da NASA registaram um ruído misterioso a menos de 2 000 km, para leste. Gerou-se grande emoção e algum receio. O som, a que chamaram "Bloop", mais forte do que o uma baleia azul, era uma ultra-baixa-frequência submarina de grande amplitude. Logo se levantou o espantalho do monstro marinho desconhecido .

Afinal tratava-se do eco subaquático de grandes icebergs chocando e rompendo-se nas profundezas do Oceano Antártico. Ou seja, nada de criaturas fantásticas, crença sugerida pelo imaginário monstro Cthulhu de Lovecraft.

O Ponto Nemo fica dentro do chamado Giro (Gyre) do Pacífico Sul, um grande sistema de correntes oceânicas em rotação, que é o maior deserto oceânico do planeta, um sítio hostil à vida marinha. A radiação ultravioleta tem níveis extremos, as águas são estáveis, atingindo uma temperatura superficial de 5,8°C no Ponto Nemo, segundo dados da NASA. A corrente giratória bloqueia a entrada de água mais fria e rica em nutrientes. 

Como resultado, há pouco alimento, o fundo do mar fica sem vida, é "a região menos biologicamente activa dos oceanos". Ainda assim, devido às muitas bactérias em torno de chaminés vulcânicas, existem alguns organismos excepcionais que conseguem sobreviver, como o caranguejo cego 'yeti'.

Toda a região ao redor do Ponto Nemo é bem conhecida pelas agências espaciais: é utilizada como depósito de lixo espacial. Um “cemitério" onde jazem desde satélites e navios de carga até a extinta estação espacial Mir.

O Pólo de Inacessibilidade do Norte, ou Pólo Ártico,  fica no oceano ártico a 1008 km de terra (também equidistante de três ilhas), actualmente em 85°48′N 176°9′W , a uns 100 km do Pólo Norte. Está, como o do Pacífico, "no meio de coisa nenhuma".

A Sul, na Antártida, depois de erradamente reivindicado pelos russos, foi atingido em 2005 - com grande dificuldade apesar dos meios modernos -  por uma expedição espanhola, a 3000 metros de altitude e 40º negativos, o local mais interior do continente; é designado Pólo de Inacessibilidade do Sul, a 82° 53′1 4″ S, 55° 04 ′30″ E.

A equipa espanhola dispunha de bons veiculos para o gelo irregular.

Antes, em 1958, uma estação russa sinalizava o Pólo de Inacessibilidade com... um busto de Lenine! Ainda lá está, a olhar para nada, no sítio errado.

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Ora bem, nesta feroz pandemia de confinamento, sítios de inacessibilidade têm uma maravilhosa vantagem: não é preciso de usar máscara nem preocupar-se com distanciamento. Ali, podemos fazer o que quisermos, que ninguém se manifesta num raio de mais de mil quilómetros. A liberdade é total. Falta tudo, também, é o preço.

Por abuso, também o 'Pólo de Inacessibilidade' de uma dada região (Europa, Austrália...) é o lugar mais distante da costa nessa região. Na Península Ibérica fica perto de Otero, a noroeste de Toledo. 

O pólo de continentalidade da Península.

Otero, campeão ibérico de interioridade

Fonte:
http://www.bbc.com/earth/story/20161004-the-place-furthest-from-land-is-known-as-point-nemo

sábado, 12 de setembro de 2020

Gente a mais? Eis os sítios onde a Natureza virgem reina.


Que o planeta está sobrepovoado, é a sensação que tenho no dia a dia, e de que muitos se queixam: gente de mais. Sofre quem vive nas cidades da Europa, Estados Unidos, Índia, Ásia do Sudeste, Brasil. Sufoca-se.

Mas contra a sensação de sobre-população, város artigos da revista Nature mostram outra realidade: a Natureza ainda reina em cerca de metade das terras emersas do planeta: desertos, tundra, selva, pântanos, cadeias montanhosas, ainda são 50% da superfície sólida.

[Fonte, L'Express/Nature]

As maiores zonas inóspitas em que a actividade humana é quase nula são árticas ou antárticas, mas entre os trópicos também abundam.

1. O Norte do Canadá e o Alasca, com imenso território vazio e selvagem, em particular as muitas ilhas, grandes e pequenas, do Arquipélago do Ártico. Podemos anexar a glaciária Gronelândia.
Ulukhaktok (Holman) é a única aldeia na ilha de Victoria, que é do tamanho de França; lá vivem ao todo 400 pessoas.

2. O Norte da Rússia, a enorme zona de tundra ártica entre a Lapónia e a penísula do Kamchatka, descendo até à taiga do Baikal. Zona também alagada por grandes rios.

Entre os Urais e Yakutsk (a chamada 'capital do frio'), são 6 000 km de tundra gelada e montanha de taiga quase deserta.

3. O deserto Africano, Sahara e anexos, um território no todo maior que a Europa e com população residual.

Tahua, Niger.

4. O interior da Austrália, área também muito vasta de deserto ou quase, inóspita em extremo.
O Red Centre australiano, em Uluru Kata.

5. A Amazónia, que ainda contém uma larga área desabitada de selva e montanha.

Roraima, norte da Amazónia.

6. O planalto Tibetano, deserto montanhoso que se estende para Norte até à Mongólia.



7. A Antártida (excepto a Península)

Tirando centenas de pequenas bases científicas como esta Trollstasjonen, todos os 14 milhões de km2 (= China + Índia) são deserto gelado.

Se a Terra tem 134 milhões de Km2 habitáveis, quase 60 milhões estão praticamente desabitados, mais do que todo o continente americano. É uma imensidão. Não consigo imaginar que não se aproveitem territórios desses se houver uma crise climática grave. Ou mesmo que não haja !

Mogadouro e Montalegre a Norte, e Mértola a Sul, são os concelhos menos povoados em Portugal, sem contar as Ilhas.

Guadiana junto à ponte de Serpa; daqui até Mértola a N265 atravessa a região mais deserta de Portugal (~5 hab/km2), nas duas margens do Guadiana. 

Azenhas do Guadiana, junto a Mértola. Deserto bem simpático !


domingo, 15 de dezembro de 2019

Olivia, cidade-mentira, uma das 'Invisíveis' de Calvino


Já mais de uma vez referi que As Cidades Invisíveis de Italo Calvino é para mim uma das obras primas da literatura de sempre, livro a que sempre regresso e que foi também em parte fundador deste meu Livro de Areia.

Um dos mais geniais textos é o que descreve a imaginada Olívia. Espanta-me como nesta metafórica cidade há tanto das cidades onde actualmente vivemos na Europa, cidades de bem estar, requinte e cultura para muitos, mas de miséria, escravidão no trabalho ou servilismo para muitos outros; são duas cidades numa, e designá-la por um só nome é uma forma de mentira; mas a mentira, diz Calvino, "está nas coisas".

Há um colega bloguista que mostra o Porto nesta duplicidade - Cidade Surpreendente e Cidade Deprimente. Isso aplica-se a muitas outras por essa Europa fora.


[Marco Polo dirige-se a Kublai Khan (1260-1294), o neto de Gengis Khan, Imperador da Mongólia]

As cidades e os sinais.   5.

Ninguém sabe melhor que tu, sábio Kublai, que nunca se deve confundir a cidade com o discurso que a descreve. E contudo entre eles há uma relação. Se te descrevo Olívia, cidade rica de produtos e de lucros, para significar a sua prosperidade não tenho outro meio que não seja falar de palácios de filigrana com coxins de franjas nos parapeitos das janelas geminadas; para lá das grades de um pátio, uma girândola de repuxos rega um prado onde um pavão branco abre em leque a sua cauda. Mas deste discurso tu compreendes logo que Olívia está envolvida numa nuvem de fuligem e gordura que se pega às paredes das casas; que no tropel das ruas os reboques em manobra esmagam os peões contra as paredes. Se devo contar-te da laboriosidade dos habitantes, falo das oficinas dos arreeiros odorosas de couro, das mulheres que tagarelam entrelaçando tapetes de ráfia, dos canais suspensos cujas cascatas movem as pás dos moinhos: mas a imagem que essas palavras evocam na tua consciência iluminada é o gesto que acompanha o mandril contra os dentes da fresa ao ritmo fixado pelos turnos das equipas de trabalho. Se devo explicar-te de que maneira o espírito de Olívia tem a tendência para uma vida livre e uma civilização requintada, falar-te-ei de damas que navegam cantando de noite em canoas iluminadas por entre as margens de um verde estuário, mas é só para te recordar que, nos subúrbios onde desembarcam todas as noites homens e mulheres como filas de sonâmbulos, há sempre quem  no meio do escuro desate a rir, quem dê o sinal de partida às brincadeiras e aos sarcasmos.

Isto talvez tu não saibas: que para falar de Olívia não poderia fazer outro discurso. Se houvesse uma Olívia realmente de janelas e pavões, de arreeiros e tecelões de tapetes e canoas e estuários, seria um miserável buraco negro de moscas, e para o descrever deveria recorrer às metáforas da fuligem, do chiar das rodas, dos gestos repetidos, dos sarcasmos. A mentira não está no discurso, está nas coisas.



Há dias em que é assim que sinto a minha cidade. E cada vez mais.


sexta-feira, 9 de março de 2018

'Tempora mutantur' - Sinfonia de Haydn com misantropia.


Tempora Mutantur, escreveu Haydn no topo do manuscrito da Sinfonia nº 64, citando um verso de Ovídio adaptado por John Owen (1613):
Tempora mutantur, nos et mutamur in illis.
Quomodo? Fit semper tempore peior homo.
'Fit semper tempore peior homo', O Homem piora sempre com o passar do tempo. Haydn era geralmente positivo e bem disposto, mas aqui professa uma descrença total na espécie humana. Como o entendo. Se existe progresso, como ainda creio, se em geral há melhoria civilizacional, tanta coisa sucede por esse mundo que desacredita a raça humana, tanta coisa abjecta, revoltante, imbecil, bárbara, que é muito difícil entrever uma linha de progresso.

Como exprime Haydn o seu desconforto ? Tem sido bastante estudado, e polémico, mas parece consensual que usou a composição sincopada (interrupção brusca de uma linha, que fica em suspenso) para deixar subliminarmente uma sensação de perda. Há acentuações deslocadas, frases distorcidas, cadências que não terminam onde deviam. Mais: há várias tentativas 'falhadas' para acertar o que está errado ! Isso nota-se mais no Largo, em que começa com as cordas em surdina para maior melancolia, e depois surgem mudanças inesperadas de temperamento, primeiro com a entrada das flautas, depois pelas trompas, que terminam num soturno pianissimo, talvez a pensar no 'peior homo' . Uma assimetria acentuada logo a seguir, no presto final, nova mudança radical, com total quebra de tempo

A escrita, claro, é genial, e anuncia claramente Mozart.

Gosto mais da interpretação da Tafelmusik de Bruno Weil, mas para aqui colocar a escolha era limitada, optei pela Academy of Ancient Music de C. Hogwood.

Largo aos 9:00
Menuetto e Trio aos 15:18


Com os séculos que já passaram entretanto, certamente que haveremos de ser bem peior homo. A predição de Ovídio/Owen confirma-se. Como reagiria Haydn hoje, se visse um telejornal ? Que música seria impelido a compor ?