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terça-feira, 28 de abril de 2026

Base 'Akademik Vernadsky ': a Ucrânia na Antártida , em paz



Parece uma piada de mau gosto, mas não: a Ucrânia mantém, e com brio, a sua base de investigação na Antártida ! Herdeira da britânica "Faraday Station", começou instalada na 'Wordie House' (Winter Island), construída em 1947,  e foi trasladada para a actual localização na Ilha Galindez, a sul do Canal Lemaire, em 1954, onde era conhecida como 'Station F'.


A Ilha Galindez fica na grande Península da Antártida, no arquipélago das Ilhas Argentinas, próxima do Círculo Polar Antártico. É acessível por mar via Canal Lemaire, o famoso estreito visitado por todos os cruzeiros para ver icebergs, baleias e pinguins.

Una Peaks, Canal Lemaire

Akademik Vernadsky Stantsiia (Station)

É uma base científica ucraniana em Marina Point (Ilha Galindez), Antártida. Desenvolve programas de investigação em meteorologia, física da alta atmosfera, ionosfera, ozono, geomagnetismo, sismologia, glaciologia, ecologia, biologia e fisiologia. Foi com dados da antiga Faraday Station que se identificou o 'buraco do ozono' em 1985.


Coordenadas: 65°15'S, 64°16'W, 140 km a Norte do Círculo Polar


Está constituída por uma dezena de pavilhões construídos em madeira e metal sobre rocha - um edifício principal de dormitórios e espaços comuns, tanques e abrigo de geradores para fornecimento de energia, vários laboratórios e equipamentos. Em 1980 foram melhoradas as condições de habitabilidade e de investigação, ampliando as capacidades para 24 residentes temporários (em rotação); por regra a ocupação é de uns 14-15 investigadores e pessoal.


O primeiro edifício para quem desembarca é a recepção, serviço postal e escritório administrativo. 

A mão de Boas Vindas em amarelo vivo é um sinal distintivo da estação.

A Ucrânia tomou posse da estação britânica em 1996, pelo preço simbólico de uma libra ! A moeda da compra está embutida no balcão do bar da estação.


A primeira equipa ucraniana chegou à estação em Novembro de 1995, e a transferência foi realizada pela troca de bandeiras.


Os ucranianos que vieram residir na estação adoptaram uma 'praxe' britânica - o habitual mergulho nas águas geladas vestindo apenas gravata e calções, no pino do Inverno Austral, que é a estação 'quente' ...


Os recordes de temperatura são - 43 º e +13º. Julho e Agosto são os meses mais frios, de Novembro a Fevereiro os mais 'quentes'. O Iverno Austral (ausência de Sol) é de Março a Outubro.

O edifício principal tem dois andares, em baixo o dormitório e laboratórios e em cima áreas sociais - cozinha, sala de jantar, centro médico-cirúrgico, ginásio, biblioteca, loja e bar, o célebre Faraday Bar.


Adelie House, em madeira revestida de chapa metálica.



Os excelentes Denon da antiga Faraday ainda dão música.

Um pinguim em mosaico de cacos decora o corredor 

A loja mais próxima do Pólo Sul.

A cabana dos geradores de energia, de 1979.

O fornecimento de energia está a cargo de um dos três geradores diesel, estando sempre dois em manutenção mas prontos a entrar ao serviço em caso de avaria.

O mais próximo local habitado é a base americana Palmer, de maior dimensão, a 20 km por mar.

Os dois pontos de referência vistos do mar são o poste indicador de distâncias e o tanque negro:

Tanque de combustível para os geradores

Celebrando a Passagem do Ano (no ameno inverno austral).

http://uac.gov.ua/en/vernadsky-station-en/

'O mais difícil é sobreviver ao frio e longo inverno, que aqui é entre Março e Outubro. Nem sequer as aves ficam, voam para Norte onde está menos frio. Não podemos usar os barcos insufláveis, porque o gelo fica impenetrável.  Estamos sempre sós, e é quase sempre noite escura - a luz do dia mal chega a três horas, e mesmo essas são uma espécie de crepúsculo. Com a Noite Polar, perdemos a noção das horas, andamos num estado permanente de dormência; saír, só  de lanterna na mão, atafulhados com roupa aquecida, de máscara e óculos de neve.'
[excerto do testemunho de um Vernadskyano]

Correio para muito longe.

Recentemente os pavilhões da base foram pintados de verde.


Renovação.

O Noosfera

Mas o protagonismo da Ucrânia como potência Antártica não se fica por aqui; em 2021, um ano antes da invasão militar russa da Ucrânia, o antigo quebra-gelos britânico RRS James Clark Ross entrou ao serviço da Ucrânia, restaurado e remodelado: o Noosfera. É um belo apoio logístico à Vernadsky e à investigação dos mares e da atmosfera.


Com 5700 toneladas, está equipado com uma bateria de laboratórios e equipamento submarino, podendo pesquisar até 8 km de profundidade.


Além dos 27 tripulantes podem viajar cerca de 40 investigadores.


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V. I. Vernadsky (1863 - 1945) foi um cientista pioneiro nas Ciências da Terra, fundou a bioquímica e a radiogeologia, criou a tese da biosfera / noosfera; tem estudos aprofundados sobre a crosta terrestre - mineralogia, cristalografia, .... Foi o primeiro Presidente da Academia das Ciências da Ucrânia. Descendente de uma família de cossacos de Kiev, passou a infância em Kiev e Kharkiv. Na sua vida académica em S. Petersburgo, declarou-se sempre, em palestras e textos, pela causa do povo ucraniano oprimido e empobrecido; nos seus estudos, publicações, viagens e contactos frequentemente abordava a questão ucraniana, em franca divergência da posição oficial soviética.
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terça-feira, 2 de abril de 2024

Caleta Tortel, na costa do Pacífico a leste da ilha Wager (de má memória)

- Coisa rara aqui, uma viagem muito meridional, a 47º Sul -

Em estreia no Livro de Areia, uma visita à Patagónia Chilena. É um dos locais mais distantes da Europa, de acesso demorado, notável pela sua espantosa natureza, ora selvagem, ora repousante. 

Desde há anos, no final do séc. XX, se tornou famosa a Carretera Austral, a estrada chilena CH-7 que vai para sul o mais longe possível - até ao lago O'Higgins -, passando por algumas das paisagens fabulosas da Patagónia na região de Aysén, entre o Perito Moreno e a costa do Pacífico.

Carretera Austral CH-7 - ainda hoje nãp pavimentada.

Bordejando o rio Baker 

O final da Ruta CH-7 é por enquanto no cais lacustre de Villa O'Higgins:

Ainda nem chegamos aos 49º S de latitude. A partir daqui só continuando de barco, e pode-se navegar até ao distante Estreito de Magalhães, ou mesmo até ao temível Cabo Horn. 


Caleta Tortel fica num desvio da Carretera Austral, a sul da cidade de Cochrane, região de Aysén.

Entre o Perito Moreno e o Pacífico.

Rodeada de rio e mar (rio Baker e Golfo de  Peñas), entre encostas florestadas, o enquadramento de Tortel é fenomenal. 


O desvio para Tortel é pela estrada X-904, percorrendo a margem do grande rio Baker.

Esta ligação rodoviária só foi concluída em 2003: antes disso, o acesso só era possível de avioneta ou de barco. 

Caleta Tortel ainda está longe de ser Antártica; fica a 47º S, na foz do rio Baker, o maior rio do Chile. É de fundação recente, e tem pouco mais de 500 habitantes.

Caleta Tortel é uma aldeia palafítica, ao longo da margem esquerda do Baker.  Todas as casas são em madeira de cipreste. Não há ruas, todas as deslocações se fazem por passadiços sobre estacas e escadarias em tábuas de cipreste. 

A cor azul-turquesa das águas deve-se a sedimentos de origem glaciar.




Plataformas, pontes e escadas interligam as habitações e o cais. Há ainda algumas 'plazas' dispersas, algumas cobertas, para descanso ou lazer.

Plaza San Pedro

Plaza Elicura

São quilómetros de passadiços, uns pela margem do lago e outros mais acima , subindo ou descendo a encosta. 


Fundada há apenas algumas décadas como base para a indústria madeireira local, Tortel está rodeada de uma extensa floresta de ciprestes.

O chamado Cipreste de Las Guaitecas, endémico, é a conífera mais austral do planeta. 

Casa de la Cultura

https://www.tortel.cl/tag/casa-de-la-cultura/

Ciclos de cinema, ateliers de trabalho artesanal em madeira, têxteis, oficinas de luthier, festivais de música (clássica, folclórica) , apresentação de livros, reuniões...


Teatro de Marionetas

Subindo de Tortel ao ponto alto mais próximo, tem-se uma vista alargada da foz do rio Baker, que desagua no Pacífico entre múltiplas ilhas e ilhotas do arquipélago da Patagónia.

Em direcção ao Oceano Pacífico, para poente, encontra-se o Golfo de Peñas e o Archipiélago Guayaneco ; é um território inóspito, a Norte da entrada para o Estreito de Magalhães.


O arquipélago é formado por duas ilhas sinistras, a ilha Wager e a ilha Byron. Chuvas ou nevões torrenciais sucedem-se ao longo do ano, os mares quase permanentemente revoltos sob furiosas rajadas de ventos de oeste.

Uma costa selvagem propícia a naufrágios.

ilha Wager é uma sucessão de terras altas de barrancos. cumes e promontórios. A costa é agreste, e no interior alternam floresta, pântanos e rocha nua, canais e poços, muitos ainda mal mapeados e nunca visitados.


Numa destas praias desenrolou-se a tragédia da HMS Wager.

Mount Anson, o cume mais alto da ilha Wager.

Porque é a Ilha Wager de má memória? Porque em 1741 ali encalhou e naufragou a fragata HMS Wager, e na tragédia seguiu-se um motim dos marinheiros sobreviventes contra os oficiais do navio, história que se tornou famosa , "viral" como se diz agora, narrada em muitos artigos e livros e diversas opiniões, representada em quadros e gravuras. Fez-se também já um filme, e vai agora haver outro, de Scorcese e com Di Caprio !

O naufrágio do HMS Wager, gravura de 1809

Era o ano de 1741, a Inglaterra em guerra com a Espanha por causa do negócio na Américas, sobretudo o ouro do Peru e o tráfico de escravos; a HMS Wager foi enviada numa frota de 6 navios com a missão secreta de causar danos aos Espanhóis, em terra e no mar, tomando, afundando ou queimando todos os navios inimigos que encontrassem. 

Durante uma tempestade ao largo do Cabo Horn, perdeu-se das outras cinco e foi à deriva para Norte pela costa chilena. Tudo correu mal: de novo sob um furacão, a Wager encalhou nos mares revoltos do Golfo de Peña, os marinheiros em desespero revoltaram-se e assaltaram as reservas de comida e álcool; completamente ébrios, desataram a lutar uns contra outros enquanto o navio se desfazia e afundava. 

Os oficiais e parte da tripulação conseguiram escapulir-se nos barcos salva-vidas para a ilha de Wager, alguns como John Byron (avô do poeta) para a ilha vizinha; todos os 140 que sobreviveram ao naufrágio ficaram vários meses na ilha deserta, cada vez mais debilitados ao frio e à fome; 81 amotinados construíram uma jangada e após 100 dias em mar bravio, 29 conseguiram alcançar a costa do Brasil. Os que tinham ficado na ilha foram resgatados por indígenas que ali passaram. 

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Abundam na geografia local nomes de origem inglesa - Byron, O'Higgins, Cochrane, Fitz-Roy. Porquê ? Primeiro, foram muitas as expedições britânicas que ali passaram, ou dobrando o Cabo Horn, ou atravessando pelo Estreito de Magalhães, e aproveitavam para ir dando nome a elementos geográficos marcantes - montes, ilhas, baías e golfos, glaciares.  

Houve também a partir do séc XVIII, e mais ainda na época vitoriana entre 1810 e 1914, um grande surto de emigração britânica (mais de 50 000) para o Chile, sobretudo Valparaíso e Punta Arenas; esta povoação floresceu então como importante porto marítimo a nivel mundial para os navios que cruzavan o Estreito de Magalhães do Atlântico para o Pacífico. 

A comunidade britânica é a maior comunidade estrangeira no Chile, que fez do inglês a segunda língua no país, e deu nome a imensas famílias miscigenadas. Alguns britânicos ao serviço do império espanhol adquiriam relevância na História chlilena. Além disso, ficaram tradições como o chá, os clubes, o ténis e o cricket.

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*Militar chileno que conduziu o processo de independência do país