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domingo, 4 de outubro de 2026

Mestersvig, uma base defensiva a reconfigurar na costa leste da Gronelândia, a norte da solitária Ittoqqortoormiit

Assinado o acordo a três entre Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos , no sentido de garantir a segurança no Ártico Euro-Canadiano, esperam-se as concretizações - como e onde haverá reforço de defesa.

Há muito que a Dinamarca tem um programa de vigilância que abrange a costa Norte e Leste da Gronelândia; destina-se sobretudo a observações sobre a natureza, o ambiente e as alterações climáticas, mas inclui precauções e exercícios em caso de indícios de ameaça estrangeira, em particular sistemas de detecção modernos e equipas de intervenção.

Chama-se este projecto "Northeast Greenland National Park", uma área protegida de quase 1 milhão de km2. A maior povoação nas proximidades é Ittoqqortoormiit. A base aérea mais bem apetrechada é a dinamarquesa Station Nord, lá para Norte, que já referi aqui. A que poderá ser usada pela NATO para controlar o GIUK é Mestersvig.


O GIUK em causa é a brecha, ou corredor marítimo, que condiciona a navegação entre a Gronelândia e a Islândia, e entre a Islândia e o Reino Unido (UK).


A NATO já tem vigilância desde a Islândia, a Escócia (Lossiemouth), a Noruega (Bodø) e as Ilhas Faroe (radares e outros detectores). O controle mais crítico a Norte, entre a Gronelândia e a Islândia, é onde a frota naval russa tem intensificado a actividade, incluindo os submarinos nucleares.


A intenção da NATO deverá ser equipar Mestersvig com um grande aeródromo, uma base da Força Aérea e um porto capaz de dar abrigo à sua Marinha, de modo a impedir acções agressivas dos submarinos russos. O local é bem escolhido por ser desértico - não há interferências nocivas de e para os gronelandeses. 

Mestersvig
72° 14′ N, 23° 56′ W


A estrutura actual da base é rudimentar: pista (cascalho alisado e 'polido' ou gelo) com cerca de 1800 m, torre de controle com comando e dormitório, armazéns, abrigos. A sua especialidade é em cães de trenó com treino militar ('Slædepatruljen Sirius', Patrulha em trenó Sirius), as rondas de vigilância são executadas regularmente. 


' Forsvarets Vagt ', Guarda das Forças Armadas dinamarquesas.


A ocupação da base pode ir até 27 pessoas, mas a capacidade irá aumentar certamente com a presença da NATO.


Cobertura renovada da pista, preparada para os Hércules.

Aterragem de um Twin Otter em pleno Inverno. É o avião mais usado.



A patrulha Sirius foi criada em 1950, com o início da Guerra Fria, para missões de vigilância e soberania, salvamento e protecção da fauna ártica. Porquê 'Sirius' ? Porque, contando essencialmente com os cães de trenó, quis prestar-lhes homenagem: Sirius (ou Alpha Canis Majoris) é a estrela (*) mais brilhante do Céu Ártico, carinhosamente a "Estrela do Cão", visível na noite pouco acima da linha do horizonte.


O Sirius executa missões de patrulha para reforço da soberania mas também de salvamento, em caso de acidente aéreo ou outro. São cerca de 12 militares e 70 cães.


Certamente não é este o modo de vigilância que a NATO implementará. Mas o cenário dará com certeza às equipas militares muito para mirar e admirar.



É possível em caso de necessidade ir de Mestersvig até Ittoqqortoormiit por terra firme, em veículos de neve; são pouco mais de 200 km. Mas havendo pistas em ambas as localidades a deslocação mais frequente é de helicóptero ou em Twin Otter.



Ittoqqortoormiit
70° 29′ N , 21° 58′ W


Esta designação substitui a original Scoresbysund herdada da fundação dinamarquesa. O nome dado pelos Inuit significa "lugar com uma casa grande".


Foi fundada em 1925 por cerca de 70 Inuit, por iniciativa do explorador dinamarquês Ejnar Mikkelsen. É a mais setentrional na costa leste da Gronelândia, e uma das povoações mais remotas, mais frias e mais recentes do país. 

Acima dos 70º N de latitude, é de esperar cobertura de gelo quase todo o ano.

A igreja, de madeira pintada de vermelho, tal como é comum no país. 

A população actual ronda os 600 cidadãos, que vivem num isolamento que só é quebrado pela visita semanal do helicóptero, e de barco nos três meses de degelo do mar. Mesmo para a Gronelândia, é uma pequena aldeia.

Escola

Por essas razões, Ittoqqortoormiit beneficia de instalações que a sua dimensão não justificaria: escola, hospital, hotel, pavilhão de desportos, sauna pública. 


Pavilháo de Desportos

Caçar e pescar ainda são as actividades económicas principais, pois a vida selvagem abunda: ursos, bois almiscarados, raposas, focas, morsas, narwhals, marisco e halibute. Há algum turismo de élite.




A mais surpreendente atracção da região é uma fonte termal, com águas até 62º, em Kap Tobin (Uunarteq) apenas a 8 km de Ittoqqortoormiit. A extensão do fenómeno vai muito além do lago / piscina quentinho: pode vir a ser uma fonte sustentável para aquecimento urbano e produção de energia geotermal.



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(*) Na verdade não é uma, são duas: Sirius é uma estrela binária, em que a menor (Sirius B, anã) orbita em torno da maior (Sirius A). É bem visível em noites límpidas de inverno, para Sul (máx. ca. 22h)


terça-feira, 28 de abril de 2026

Base 'Akademik Vernadsky ': a Ucrânia na Antártida , em paz



Parece uma piada de mau gosto, mas não: a Ucrânia mantém, e com brio, a sua base de investigação na Antártida ! Herdeira da britânica "Faraday Station", começou instalada na 'Wordie House' (Winter Island), construída em 1947,  e foi trasladada para a actual localização na Ilha Galindez, a sul do Canal Lemaire, em 1954, onde era conhecida como 'Station F'.


A Ilha Galindez fica na grande Península da Antártida, no arquipélago das Ilhas Argentinas, próxima do Círculo Polar Antártico. É acessível por mar via Canal Lemaire, o famoso estreito visitado por todos os cruzeiros para ver icebergs, baleias e pinguins.

Una Peaks, Canal Lemaire

Akademik Vernadsky Stantsiia (Station)

É uma base científica ucraniana em Marina Point (Ilha Galindez), Antártida. Desenvolve programas de investigação em meteorologia, física da alta atmosfera, ionosfera, ozono, geomagnetismo, sismologia, glaciologia, ecologia, biologia e fisiologia. Foi com dados da antiga Faraday Station que se identificou o 'buraco do ozono' em 1985.


Coordenadas: 65°15'S, 64°16'W, 140 km a Norte do Círculo Polar


Está constituída por uma dezena de pavilhões construídos em madeira e metal sobre rocha - um edifício principal de dormitórios e espaços comuns, tanques e abrigo de geradores para fornecimento de energia, vários laboratórios e equipamentos. Em 1980 foram melhoradas as condições de habitabilidade e de investigação, ampliando as capacidades para 24 residentes temporários (em rotação); por regra a ocupação é de uns 14-15 investigadores e pessoal.


O primeiro edifício para quem desembarca é a recepção, serviço postal e escritório administrativo. 

A mão de Boas Vindas em amarelo vivo é um sinal distintivo da estação.

A Ucrânia tomou posse da estação britânica em 1996, pelo preço simbólico de uma libra ! A moeda da compra está embutida no balcão do bar da estação.


A primeira equipa ucraniana chegou à estação em Novembro de 1995, e a transferência foi realizada pela troca de bandeiras.


Os ucranianos que vieram residir na estação adoptaram uma 'praxe' britânica - o habitual mergulho nas águas geladas vestindo apenas gravata e calções, no pino do Inverno Austral, que é a estação 'quente' ...


Os recordes de temperatura são - 43 º e +13º. Julho e Agosto são os meses mais frios, de Novembro a Fevereiro os mais 'quentes'. O Iverno Austral (ausência de Sol) é de Março a Outubro.

O edifício principal tem dois andares, em baixo o dormitório e laboratórios e em cima áreas sociais - cozinha, sala de jantar, centro médico-cirúrgico, ginásio, biblioteca, loja e bar, o célebre Faraday Bar.


Adelie House, em madeira revestida de chapa metálica.



Os excelentes Denon da antiga Faraday ainda dão música.

Um pinguim em mosaico de cacos decora o corredor 

A loja mais próxima do Pólo Sul.

A cabana dos geradores de energia, de 1979.

O fornecimento de energia está a cargo de um dos três geradores diesel, estando sempre dois em manutenção mas prontos a entrar ao serviço em caso de avaria.

O mais próximo local habitado é a base americana Palmer, de maior dimensão, a 20 km por mar.

Os dois pontos de referência vistos do mar são o poste indicador de distâncias e o tanque negro:

Tanque de combustível para os geradores

Celebrando a Passagem do Ano (no ameno inverno austral).

http://uac.gov.ua/en/vernadsky-station-en/

'O mais difícil é sobreviver ao frio e longo inverno, que aqui é entre Março e Outubro. Nem sequer as aves ficam, voam para Norte onde está menos frio. Não podemos usar os barcos insufláveis, porque o gelo fica impenetrável.  Estamos sempre sós, e é quase sempre noite escura - a luz do dia mal chega a três horas, e mesmo essas são uma espécie de crepúsculo. Com a Noite Polar, perdemos a noção das horas, andamos num estado permanente de dormência; saír, só  de lanterna na mão, atafulhados com roupa aquecida, de máscara e óculos de neve.'
[excerto do testemunho de um Vernadskyano]

Correio para muito longe.

Recentemente os pavilhões da base foram pintados de verde.


Renovação.

O Noosfera

Mas o protagonismo da Ucrânia como potência Antártica não se fica por aqui; em 2021, um ano antes da invasão militar russa da Ucrânia, o antigo quebra-gelos britânico RRS James Clark Ross entrou ao serviço da Ucrânia, restaurado e remodelado: o Noosfera. É um belo apoio logístico à Vernadsky e à investigação dos mares e da atmosfera.


Com 5700 toneladas, está equipado com uma bateria de laboratórios e equipamento submarino, podendo pesquisar até 8 km de profundidade.


Além dos 27 tripulantes podem viajar cerca de 40 investigadores.


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V. I. Vernadsky (1863 - 1945) foi um cientista pioneiro nas Ciências da Terra, fundou a bioquímica e a radiogeologia, criou a tese da biosfera / noosfera; tem estudos aprofundados sobre a crosta terrestre - mineralogia, cristalografia, .... Foi o primeiro Presidente da Academia das Ciências da Ucrânia. Descendente de uma família de cossacos de Kiev, passou a infância em Kiev e Kharkiv. Na sua vida académica em S. Petersburgo, declarou-se sempre, em palestras e textos, pela causa do povo ucraniano oprimido e empobrecido; nos seus estudos, publicações, viagens e contactos frequentemente abordava a questão ucraniana, em franca divergência da posição oficial soviética.
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