A Casa Mustonen, centro de Artes, é onde se concentra a actividade do bairro.
domingo, 11 de maio de 2025
Na Finlândia, perto da ameaça russa: Joensuu
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domingo, 10 de setembro de 2023
À espera dos Bárbaros, agora mais que nunca
O poema de Constantin Cavafy era uma metáfora, que o meu título acima retoma. Os Bárbaros tanto podem vir de Leste como de Sul, podem ser outras tribos ou mesmo vir de dentro da nossa tribo. Há esta sensação que tenho de que algo de mau está para nos atingir em breve, e há muitos candidatos a maus. Felizmente nenhum ainda é poderoso ao ponto de brutalmente destruir o nosso mundo de conforto, e as nossas múltiplas defesas ainda impõem respeito. Mas que há monstros no horizonte, ou uma nuvem de tártaros, ou uns arsenais à espera de ser usados - há, sim. O maior perigo é, como diz o poema, que se transformem num desejo nosso - venham, venham lá de vez e acabem com este medo permanente.
Há quem prefira a outra face da metáfora - inventamos medos de ameaças que não existem para esquecer os nossos falhanços e frustrações. Que pena não existam, essa até era uma boa solução.
Voltando à poesia: deixo a tradução de Marguerite Yourcenar do poema de Cavafis, e depois uma minha em que também consultei uma tradução inglesa.(*)
En attendant les barbares
Sena, mas francamente não gosto.
"Qu'attendons-nous, rassemblés sur l'agora?
On dit que les Barbares seront là aujourd'hui.
Pourquoi cette léthargie, au Sénat?
Pourquoi les sénateurs restent-ils sans légiférer?
Parce que les Barbares seront là aujourd'hui.
À quoi bon faire des lois à présent?
Ce sont les Barbares qui bientôt les feront.
Pourquoi notre empereur s'est-il levé si tôt?
Pourquoi se tient-il devant la plus grande porte de la ville,
solennel, assis sur son trône, coiffé de sa couronne?
Parce que les Barbares seront là aujourd'hui
et que notre empereur attend d'accueillir
leur chef. Il a même préparé un parchemin
à lui remettre, où sont conférés
nombreux titres et nombreuses dignités.
Pourquoi nos deux consuls et nos préteurs sont-ils
sortis aujourd'hui, vêtus de leurs toges rouges et brodées?
Pourquoi ces bracelets sertis d'améthystes,
ces bagues où étincellent des émeraudes polies?
Pourquoi aujourd'hui ces cannes précieuses
finement ciselées d'or et d'argent?
Parce que les Barbares seront là aujourd'hui
et que pareilles choses éblouissent les Barbares.
Pourquoi nos habiles rhéteurs ne viennent-ils pas comme à l'ordinaire
prononcer leurs discours et dire leurs mots?
Parce que les Barbares seront là aujourd'hui
et que l'éloquence et les harangues les ennuient.
Pourquoi ce trouble, cette subite
inquiétude? - Comme les visages sont graves!
Pourquoi places et rues si vite désertées?
Pourquoi chacun repart-il chez lui le visage soucieux?
Parce que la nuit est tombée et que les Barbares ne sont pas venus
et certains qui arrivent des frontières
disent qu'il n'y a plus de Barbares.
Mais alors, qu'allons-nous devenir sans les Barbares?
Ces gens étaient en somme une solution."
trad. Marguerite Yourcenar
À espera dos Bárbaros
De que estamos à espera, reunidos no fórum?
Diz-se que os Bárbaros vão chegar hoje.
Porque nada se passa no senado?
Porque estão os senadores sentados sem legislar?
Porque os Bárbaros vão a chegar hoje.66cc
Para que se haviam de fazer leis agora ?
Em breve serão os Bárbaros a fazê-las.
Porque se levantou tão cedo o nosso imperador ?
E porque está na Porta Grande da cidade, sentado solenemente no trono, usando a coroa ?
Porque os Bárbaros vão chegar hoje
e o Imperador espera receber o seu chefe.
Preparou até um pergaminho para oferta
onde lhe confere numerosos títulos, nomes imponentes.
Porque saíram hoje os nossos dois cônsules e pretores
vestidos das suas togas escarlate bordadas?
Porque usam braceletes com tantos ametistas
e anéis onde cintilam polidas esmeraldas ?
E porque levam preciosa bengalas
finamente ciseladas em prata e ouro ?
Porque os Bárbaros vão chegar hoje
e essas coisas deslumbram os Bárbaros.
Porque não vêm os nossos distintos oradores, como é hábito,
discursar e dizer o que têm para dizer ?
Porque os Bárbaros vão chegar hoje
e aborrecem-se com a retórica e o discurso público.
Porquê esta agitação, esta súbita inquietude ?
- como estão sérios os rostos das pessoas !
Porque se esvaziam tão depressa as ruas e praças,
e toda a gente regressa a casa, com ar preocupado ?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E alguns dos nossos homens regressados da fronteira
dizem que já não existem Bárbaros.
Mas então que vais de nós sem os Bárbaros?
Essa gente afinal era uma espécie de solução.
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Escreveu-se um livro, realizaram-se dois filmes baseados neste poema; mas fazem a metáfora bem mais pobre, panfletária, ora ant-fascista ora anti-colonial: os Bárbaros são concretamente tártaros, dentro de muros fala-se italiano ou alemão, junta-se um romancezito... muito mais que isso vale o poema.
Estejamos prevenidos, eles já se preparam há muito.
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(*) Há uma tradução de Jorge de Sena, mas francamente não gosto.
quarta-feira, 21 de abril de 2021
Não, não é ainda medo. É o derramar da mediocridade. [Rafael Guillén]
Rafael Guillén é um poeta difícil de encontrar. Neste poema, parece que fala por mim, ou eu por ele. Tão actual que até dói.
Medo, não é. Talvez uma bruma alta,
a possibilidade do medo, o muro
que pode desabar, porque é certo
que por detrás está o mar.
Medo, não é. O medo tem um rosto,
é exterior, concreto,
como um fuzil, um aloquete,
como um menino que sofre,
como o negrura escondida
em todas as bocas dos homens.
Medo, não. Talvez só o estigma
dos filhos do medo.
É uma apertada rua, interminável
com todas as janelas às escuras.
É um cordel de mãos viscosas,
amáveis, sim, não amigas.
É um pesadelo
de horripilantes e corteses ritos.
Medo, não é. O medo é uma alta portada.
Estou a falar aqui de um labirinto
de portas entreabertas, com supostas
razões para ser, para não ser,
para classificar a desventura
ou a ventura, o pão, ou um olhar
-- ternura e medo e frio -- pelos filhos
que crescem. E o silêncio.
E as cidades cintilantes, vazias.
E a mediocridade, como uma lava
quente, derramada
sobre o trigo, e a voz, e as ideias.
Não é medo, não.
O medo a sério ainda não chegou.
Mas há-de vir.
É a consciência dúbia
de que a paz também é movimento.
E digo isto em voz alta e receoso.
E não é medo, não. É a certeza
de que estou a jogar, numa só carta,
o pouco que pude empilhar,
talhe a talhe, para os meus companheiros homens.
Rafael Guillén (Granada, 1933 - )
Nota: de momento é o que tenho a dizer para o 25 de Abril
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021
Anselm Kiefer expõe quadros tremendos na Gagosian - Le Bourget
Já referi Kiefer como um dos maiores pintores destas últimas décadas. Vi-o em Zurique, em Basileia e em Viena; agora, em plena pandemia, expõe até fim de Março nos antigos hangares do aeroporto Le Bourget de Paris, desde 2012 convertidos pour Jean Nouvel em galeria de arte Gagosian.
Anselm Kiefer inspirou-se desta vez no Campo do Pano de Ouro (Camp du Drap d'Or), local do encontro de reis em Junho de 1520: Henrique VIII da Inglaterra e Francisco I da França reuniram na costa francesa, um pouco a sul de Calais, com o objectivo de estreitar os laços de amizade, em consequência do tratado anglo-francês antes assinado. A guerra voltaria ... no ano seguinte.
Esse encontro foi celebrado num quadro do séc. XVI (~1545), poucos anos depois:
Afirma Kiefer que o título não explica a exposição, é antes uma 'alusão'. A História é um dos materiais que usa, como o gesso na escultura ou a cor na pintura. Assim como usa mitos e metáforas dos Evangelhos.
Por outro lado, em cada quadro há referências literárias. A poesia de Paul Célan está presente, há muito que é recorrente em Kiefer.
Des coeurs et des esprits
Naissent les épis de la nuit,
et un mot, prononcé par des faux,
les incline vers la vie.
From Hearts and Brains
The Stalks of Night are Sprouting,
And one Word, spoken by Scythes,
Inclines them to Life.
Nas fotos não se nota, mas os monumentais quadros adquirem uma terceira dimensão, pois sobre a pintura são colados outros elementos como palha, madeira, metal, areia, cinzas e lamas, chumbo, cimento, vidro e raízes de plantas, que determinam um "relevo quase visceral." E que representam ? Campos de ouro sob céu negro ou campos de destruição sob céu de ouro, uma dualidade que podemos interpretar como "a destruição da vida humana" a par, ou alternando, com a "persistência do seu lado divino".
[baseado nas notas da Galeria]
Abre com The Field of the Cloth of Gold / Camp du Drap de l'Or
Segue From Hearts and Brains the Stalks of Night are Sprouting
One word Spoken by Scythes
E vêm as sete pragas do Antigo Testamento, despejadas sobre os homens pecadores :
terça-feira, 11 de dezembro de 2018
O Fim do Mundo, versão XXI - Schwarze
O filão das Teorias do Fim do Mundo vem de longe, a escatologia é uma filosofia com pergaminhos que tem no trans-humanismo (*) a sua corrente mais actual. Sempre me pareceu um modo de pensar de gente senil que sublima no Fim do Mundo o seu desespero perante a morte.
No século XX o cinema de Hollywood explorou até à exaustão esse tema sempre popular, ou melhor, 'populista' diria eu. Pois, as Teorias do Desastre conseguiam records de bilheteira explorando os medos de forma muito inventiva: foi a invasão de marcianos ou coisa pior, foi o asteróide que ia rebentar contra a Terra, os robots que vinham do futuro eliminar a humanidade, foram tsunamis gigantes, tornados em cadeia, epidemias de vírus incontroláveis, e também terroristas com armas nucleares q.b.. Se essas narrativas estivessem num 007, James Bond salvava o mundo e nós divertíamo-nos e riamos do ridículo. Mas a maioria desses filmes levava-se a sério ! Apresentavam avisos dramáticos para o que 'pode acontecer', morria boa parte da humanidade, e os espectadores assustavam-se ou não, conforme estivessem ou não vacinados. A esquerda-barra-gauche achava aquilo tudo uma palhaçada ou (se fosse radical) propaganda do medo a favor do domínio americano do planeta. Com o 11 de Setembro, ainda mais se agravou a paranóia, dando lugar a várias Teorias da Conspiração para acabar com o mundo, e conheço gente muito socialista que acreditava: a imprensa estava toda manipulada pela CIA, FBI, NSA e as farmacêuticas para esconder a 'verdade'. Até já andam extraterrestres e mutantes entre nós... o anti-cristo ! ...
Ora bem: houve uma evolução recente. Agora temos o Fim do Mundo aí à porta por causa dos Estados Unidos abandonarem o acordo de Paris e tratarem mas é de ter o seu petroleozinho a bom preço por bons anos, ou décadas. Ou séculos. O desastre iminente é o aquecimento global, ui, é a subida dos mares, ui, é o Niño e os fenómenos extremos. Inundações. Secas. Tudo ao mesmo tempo e em força. É a extinção da natureza e o colapso da civilização por culpa de Trump. Ui, ui. Mas quando vamos a medidas, o mar sobe poucos centímetros e a temperatura umas décimas de grau; ai jesus.
Não podemos adaptar-nos ?
Muito gostava que o petróleo simplesmente se esgotasse agora, já. Ver o que é que se fazia sem aviões nem navios, portos e aeroportos obsoletos e os viajantes de negócio e turistas obrigados ao combóio, provavemente a vapor onde não há ainda rede elétrica. Como é que se faziam todos esses encontros e fóruns mundiais vogando devagarinho num navio à vela, pois não haveria combustível para iates ou paquetes ? Como iriam as mamãs ambientalistas buscar as criancinhas ao colégio numa bicicleta ? Como se deslocariam bombeiros e ambulâncias na alta velocidade da bateria Li-ion ? Pois, foi isto mesmo que o génio Schwarzenegger, ecologista fake, desejou: poder voltar ao século XIX para anular a descoberta do petróleo na Escócia e por conseguinte impedir a (segunda) revolução industrial. Esse mesmo Schwarzenegger de Hollywood que fez tanto filme-catástrofe em que eram as máquinas inteligentes quem destruía a civilização.
Detesto a indústria do petróleo com toda a corrupção e ganância associadas. Embirro com o excesso de trânsito nas cidades, que deveriam ser mais planeadas a favor do peão. Mas não vejo como poderíamos viver sem combustíveis a não ser ao nível do século XVIII. Por tudo isso dou ao Aquecimento Global / Fenómenos Extremos / Alterações climáticas, com os seus centésimos de subida do mar e da temperatura, a mesma perigosidade que tiveram o bug do milénio Y2K, os marcianos invasores e o buraco do Ozono. Previsão acertada, só se for que, dentro de 800 milhões a 1 bilião de anos, a vida se terá tornado impossível na Terra devido à evolução estelar do Sol, que provocará o esgotamento de dióxido de carbono no planeta.
Como sempre, com técnicas, ciência e sabedoria iremos ultrapassar dificuldades que a Natureza nos impõe. Não é com recuos e abstinência. Para isso nem vale a pena cá estar.
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(*) prevê uma mutação que traga uma nova raça humana, com extinção da actual.




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