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domingo, 19 de outubro de 2025

'An Cala', jardim na aldeia de ardósia Eillan-a-Beich, Isle of Seil

Sabia que há nas West Highlands da Escócia, a 56º N, uma pequena floresta tropical moderada ? E um jardim de maravilhas? 


Clachan Bridge, ponte que dá acesso à floresta de Aveleiras na ilha de Seil.

Ouvi falar de Ellenabaeich An Cala no livro 'Ce que prend la mer', uma história de desencontro familiar mais ou menos bem contada que se passa nestas paragens. Ficam numa pequena ilha de ardósia, na costa ocidental da Escócia: a Ilha de Seil, também desconhecida para mim. 

A visita começa quando se chega ao Atlântico pela estrada B844; para atravessar o estreito braço de mar entre a costa e a ilha, foi construída em 1792 uma ponte em arco elevado a imitar antigo, uma ponte de pedra. Leva o nome do estreito, "Clachan" :


O Canal de Clachan é um recanto do Firth of Lorn, a extensão de mar Atlântico entre a grande ilha de Mull e a costa (ver mapa).

Pode dar um arrepio saber que estamos numa ponte minúscula sobre o Atlântico; mas há muitas destas na Noruega, também para aceder a ilhas. A Escócia tem nada menos que 900, novecentas! , ilhas, das quais cerca de 100 desabitadas. Este grupo das Hébridas Interiores chama-se Slate Islands devido à riqueza em ardósia, que foi intensamente extraída no século XIX.

Depois da ponte, a estrada B844 curva a sul e vai pela beira mar, entre terrenos verdejantes e arborizados, até  chegar à aldeia portuária de Ellenabeich, a principal povoação da ilha.


Ellenabeich, Ilha de Seil

Coordenadas: 56° 17' N, 5° 39' W 


"Ellenabeich" tem origem no Gaélico Eillan-a-beitch, "Ilha das Bétulas". A aldeia é basicamente constituída por duas ruas em terreno plano, paralelas e pouco acima do mar, onde se alinham fileiras de casas térreas caiadas de branco, uma espécie de bairro piscatório - mas não é: toda a ilha vivia da extracção de ardósia desde 1751, e por volta de 1800 a actividade tornou-se uma indústria com dimensão nacional. Construíu-se um porto murado para a ardósia ser carregada em navios e enviada para o porto costeiro de Oban - no auge, 10 cargueiros a vapor por semana. Em 1881 uma grande tempestade no mar inundou as 'pedreiras' e acabou com a indústria de extracção. Estão agora à vista pequenos tanques cheios de água do mar.

A construção da vila para alojar os mineiros de ardósia começou em 1826, e em meados do xéculo XIX viviam aqui umas 400 pessoas. 

Front Street; a outra por trás é a Back Street.


Todas estas casas do séc. XIX foram contruídas em ardósia. São pequenas e baixas, não seria possível construir em altura neste material. Destinavam-se apenas aos trabalhadores das pedreiras.


Convergem num largo junto ao cais (há um guindaste no centro como memória ), onde se concentram bares e a única loja, Seafari Adventures.

As duas casas à esquerda são o afamado 'Oyster Bar', a terceira é a antiga destilaria da ilha.


A loja e o ' monumento '


Mas há uma outra rua na falésia sul do monte Dùn Mòr, de vivendas maiores, com dois andares e mansarda:


É lá em cima no topo da falésia que se passa o trecho mais intenso e bonito do livro que referi: um violoncelista de Paris, ainda jovem, sobe ao alto para tocar as suas músicas, inspiradas pelo cenário e pelas gentes; e as mulheres do povo começam a subir também e dançam, dançam... entre elas, uma jovem de férias, Isla, alojada numa destas casas.

Bilhete postal de Ellenabeich

Seil até deve ser agradável nos dias de sol - parece que a zona tem um clima suave já que estamos na Escócia. E é esse clima - muita chuva, bastante sol, frio e calor moderados - que permitiram ao solo argiloso ser tão fértil. 
Logo à saída de Ellenabeich. uma surpresa:

O Jardim 'An Cala'



'An Cala' (*) é uma fantasia de jardineiro: Thomas Mawson desenhou e executou este jardim a partir de 1930, como paraíso romântico para a moradia de um jovem casal. Demorou um ano a adaptar o solo: partir rocha, importar terra vegetal, criar terraços, degraus, caminhos, muros e relvados. Aproveitou uma pequena queda de água e alguns ribeiros. 


Azáleas e rosas, prímulas e papoilas azuis do Himalaia, cerejeiras japonesas e rododendros, e tanques com lírios e nenúfares.





Toda a Ilha de Seil abunda em salgueiros e bétulas (sobretudo bétula branca); mas é um bosque de aveleiras, uma pequena floresta tropical que cobre o sudeste da ilha junto ao canal Seil Sound, que se revelou uma raridade a proteger:


Ballachuan Hazelwood, floresta tropical temperada
56° 17' 37.03" N, 5° 38' 47.24" W
 

A zona de bosque actual estende-se entre o Ballachuan Loch, na imagem acima, e o Canal de Clachan entre Seil e a costa, visível mais ao longe, até ao extremo sul da ilha. 

À esquerda vê-se parte do bosque na margem do canal




A leste a a sul, desce para as águas Atlânticas do canal. 

Esta mata está protegida, pela antiguidade das espécies e do solo (7500 AC ?). A aveleira é, junto com a bétula e o salgueiro, a mais abundante árvore na ilha. 

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(*) O nome significa 'porto' ou 'ancoradouro' em gaélico. 

domingo, 6 de julho de 2025

Mata da Margaraça, um bosquezinho precioso no leste da Beira Litoral


No concelho de Arganil, na serra do Açor a uma altitude entre 600 e 850 m, há uma pequena floresta denominada Mata Nacional da Margaraça. Apesar de muito degradada no incêndio de 2017, nem tudo se perdeu, a mata recuperou bem e ainda é um valioso bosque de solo xistoso, rico de vegetação nativa da Península, um raro exemplo do coberto vegetal primitivo que existia há mais de  20 000 anos, quando o clima era mais tropical.

É um espaço verde muito calmo, denso, fora das rotas excepto para quem anda por perto do Piódão. Não tem estruturas turísticas como o Gerês, vê-se num dia, são apenas 68 hectares.
 
A M518 no início da descida para a Margaraça.

O acesso é a partir de Coja pela estada N344, desviando adiante para Pardieiros pela estrada municipal EM 518, que passa de asfaltado a empedrado e se estreita numa rampa de descida para a Mata.

 
A M518 entra pela Mata da Margaraça 
 
Encosta N-NE da serra do Açor coberta de arvoredo.

  

Carvalhos são as árvores mais abundantes, de variados tipos (alvarinho, negral, roble, cerquinho); muitos sobreiros, castanheiros, e também freixos, ulmeiros, vidoeiros, cerejeiras, medronheiros, aveleiras, loureiros; de salientar uma espécie rara - os azereiros.

As maiores manchas de azereiro no país.

O azereiro (Prunus lusitanica), também chamado loureiro lusitano, é uma planta rara: só existe na Península Ibérica e nalgumas pequenas manchas no sudoeste de França. Era abundante até ao final do Pleistoceno (antigo Terciário), há cerca de 15 000 anos, antes da última glaciação; agora constitui um relíquia histórica que sobrevive em climas onde não chega o frio seco, onde existe humidade elevada e temperaturas moderadas - em vales estreitos ao longo de linhas de água. 

Folhas e flor de azereiro
 
 
O fruto é uma pequna baga, muito amarga, que vai escurecendo à medida que amadurece.

Portanto, uma jóia vegetal preciosa na Margaraça. 

Alguns outros exemplos da variedade de espécies vegetais:

Selo-de-salomão (Polygonatum odoratum) 
 
 
 
Cerejeira brava
 
Medronhos

Na sombra destas árvores e arbustos, crescem muitas outras plantas, algumas raras, como o martagão (Lilium martagon) e outras invulgares, como a pombinha (Aquilegia vulgaris) e a Veronica micrantha, um endemismo ibérico ameaçado.

Lírio-Martagão, espécie rara.

Aquilegia
 
Uma das flores mais bonitas da Mata.

Veronica Micrantha
 
Espora-Brava 
 
Erva-benta 

Há também muito azevinho (Ilex aquifolium), protegido; a variedade de flores inclui ainda orquídeas e narcisos. Abunda os fetos, musgos, líquenes e cogumelos.
 
Feto-pente
 
O silêncio é a magia dos bosques - não perturbar é a primeira prioridade. 
 
Mais vale ir logo que possível, nunca se sabe quando será o próximo fogo.
 
Cascata da Margaraça
 


A nossa miséria florestal
 

As manchas verdes de floresta mista mais significativas do país são a Mata da Albergaria, no Gerês, e (era) a Mata da Margaraça. Outras de menor valia são a mata do Buçaco, a Serra de S. Mamede, a Serra da Arrábida. Se olharmos para a península, estas manchas são quase irrelevantes à beira da vasta verdura das maiores manchas de floresta, em torno e a norte da Cordilheira Cantábrica - Los Ancares, Somiedo, La Ubiña e Picos da Europa. É chamada a "Espanha Verde", de Léon a Santander.


Um dia também hei de publicar uma descrição detalhada dessa mancha verde Cantábrica.