quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Dalby e Harlösa, duas igrejinhas rurais da Suécia medieval


Na Escânia sueca cruzam-se várias rotas antigas de peregrinos, que se encontram sinalizadas por se tratar de um património único que vem da época medieval (tardia na Suécia): várias dezenas de igrejas românicas, muitas delas de tijolo caiado, com torres de duas águas e empenas em degraus.


De viagem para Ystad, paramos em duas dessas igrejas brancas que dizem ser das mais antigas na Suécia. O interior é de uma simplicidade pobre, talvez ganhasse em ter a pedra nua; mas vistas na paisagem compõem uma arquitectura integrada única, algo estranha.

Começo por Harlösa, a nordeste de Lund. A Igreja de Harlösa está situada num alto - coisa rara por aqui - com um belo miradouro sobre a paisagem: um vastíssimo vale glaciar de há milhões de anos que atravessa em diagonal a Escânia, assente numa importante falha do substracto rochoso (falha de Vomb); o vale, agora verdíssimo, fértil como quase toda a região, é percorrido pelo pequeno rio Kävlinge. Geológicamente, é um canyon, um barranco sobre o abismo, que a sedimentação e a erosão amaciaram para pequena ondulação de terreno !



À entrada da igreja, um painel recorda que estamos numa das rotas de peregrinação centradas na Catedral de Lund.


Os Caminhos de Lund.

A Igreja de Harlösa é de pedra calcárea da região; deve ter sido construída nos séc. XI-XII, mas a torre é muito mais recente.



A maioria dos acrescentos são do séc XVIII e XIX. Os restauros tentaram recuperar a simplicidade medieval.



Nos bancos da frente, duas esculturas em madeira polícroma do séc. XVII:



A Igreja de Dalby é ainda mais antiga, talvez a primeira de pedra na Escandinávia (as igrejas Viking do início da cristianização eram de madeira, e há-as bem bonitas, sobretudo na Noruega).


Dalby foi uma das primeiras dioceses católicas, no século XI, sede de um importante bispado; deve ter sido construída por volta de 1060, mas foi sendo restaurada com acrescentos; do original há a preciosa pia, ou o triplo pórtico:




O inevitável incêndio no séc. XIV também obrigou a grandes obras, e a igreja aumentou para um grande mosteiro luterano, que as guerras com Dinamarca no séc XVII destruiram em boa parte. A edificação que vemos actualmente data de 1758.

A parede original em tijolo foi deixada à vista, no lado sul; mas o mais interessante é a pia baptismal de ca.1100.




E a luz do fim de tarde.



Não tenho por hábito correr capelinhas, mas neste caso havia a memória dos filmes a preto e branco de Bergman e Dreyer, com cenas marcantes no interior de igrejas. É uma viagem no tempo.



Tenho pena de não ter visto mais desta Rota. De coisas destas se fez (faz) a coesão da Europa.


domingo, 23 de setembro de 2018

Porque vou deixar de viajar de avião


Os aeroportos tornaram-se lugares de horror, o verdadeiro abominável 'mundo novo' em todo o seu esplendor de inferno. E isto desde que, claro, vieram as low cost. Massificar é estragar, já se sabe - as coisas melhores são as que só estão ao alcance de alguns. Sempre será assim.

Ainda me lembro da expectativa alegre de voar numa companhia nacional - Swissair, British Airways, KLM, Alitalia - quando a chegada ao aeroporto marcava o início da aventura. "Já me sinto em férias", pensava, e dizia, mal tinha o check-in feito e me encontrava naquele lugar de fantasias e ilusões. Não havia multidão? Havia, sim, gente de todos os cantos do mundo, com as suas pastas, malas cheias de autocolantes, vestes exóticas. O que não havia era aflição, atropelos, angústia, bruteza; receio de não chegar a tempo, de que o voo não partisse, de que a porta de entrada estivesse a meia hora a pé, angústia de não poder fumar nas próximas oito ou dez horas, daquele bruáuá, daquela iluminação excessiva, daquela clausura. Não se passava as horrendas, feias máquinas que devassam as nossas malas para logo desaguar em infinitos zig-zagues de corredores de duty-free, uma visão de inferno na forma do consumismo mais inútil, supérfluo, feio, idiota, gigantesco. E depois, corredores infindáveis de lojas e luzes e montras e balcões e assentos para comprar e comer, comer e comprar - tudo o que há de pior !


Dezenas de fast-food e cervejarias onde qualquer coisa com batata frita e ketchup é servida às centenas; dezenas de montras super-iluminadas de relógios que já poucos compram, malas, malinhas e maletas, camisas e fatos, sempre alternando com mais um balcão de pizza, seguido de joalharia, telemóveis, artigos electrónicos disparatados, chocolatarias, mas isto durante quilómetros de barulho e atropelos - há gente que leva tudo à frente, elefantes com trolley - e ainda as vozes no altifalante a dar notícias de partidas e voos cancelados, greves, pessoas em falta na porta de embarque, alterações no número da porta, 'não deixe as suas bagagens abandonadas', e não há um cantinho onde me sentar em repouso ! Talvez umas quatro cadeiras, sempre ocupadas, de resto só me posso sentar para comer ou beber. É um imenso shopping, mas obrigatório, imposto, aberrante, alucinado, quando este meu desgraçado ser só anseia por levantar voo. Não há já fantasia nem sonho que resistam, é uma via sacra sofrida até à Gate #  onde a espera pode ainda ser de horas. Para 2 ou 3 horas de voo, há outras tantas de aeroporto. Já não há rapidez no transporte aéreo. De combóio, pode-se atravessar a estação em minutos até entrar na nossa carruagem. Nos aeroportos, apresentamo-nos voluntariamente para duas ou três horas de massacre.


E há dois tipos de massacre. O 'standard', mínimo, que já descrevi, e só não existe em pequenas jóias como o aeroporto de La Rochelle, bem haja, um lugar ainda humano. E o especial, com brinde, que é o massacre do voo atrasado ou cancelado, ou da porta de embarque A1 que mudou para D23. Noutros tempos, funcionários afáveis e preocupados vinham-nos consolar e acalmar, às vezes com compensações. Agora gritam numa voz plástica, robótica.

E se isto em vez de acontecer uma vez à ida e outra à volta, acontece a meio também numa escala de voo ? Escala onde se julgava ter 2 horas para trasbordo mas o atraso reduziu a folga a 15 minutos com risco de perder o voo de ligação? E depois o próximo voo só com mais 4 horas de espera? Ou se, entrado no avião, os seus lugares estão ocupados e agora tem de se sentar lá para trás, por necessidades da companhia ? E se nas toilettes só há papel no chão - toalhetes e papel limpo já acabaram? E ainda se grama a gritaria das vendas a bordo com fantásticas promoções, as raspadinhas e tudo o mais que impeça de ao menos tirar uma soneca.


Bom, faltam as duas últimas torturas. Uma é a recolha da bagagem. Nalguns aeroportos nem funciona mal: mas em regra teremos de fazer 5 km em corrida pelos corredores à saída do avião para, chegados à sala dos tapetes rolantes com as bagagens, descobrir que o nosso é o nº 9 ( de um total de 9) e ainda falta mais um bom esticanço, e quando lá chegamos a nossa já é a única que anda ali abandonada às voltas... pois bem, ainda falta outra aventura épica: a fila para o táxi !! Sobretudo se já é de noite e chove, esta é uma sobremesa requintada. Porque para 200 pessoas em fila, eles chegam a conta-gotas, de 10 em 10 minutos. Há outros? Há, mas são muito mais caros, ou são de seriedade duvidosa. Quando, perto da uma da madrugada, chegamos ao hotel ou seja lá o que for, só queriamos estar na nossa casinha. Foram dez - dez ! - horas de viagem, só duas e meia em voo, a aventura está morta e enterrada. Vamos dormir pouco e mal, amanhã não será um novo dia como devia ser.

Não, não estou a inventar, tudo isto e pior já me aconteceu. Em Tours, em Stansted, em Hamburgo, em Copenhaga, em Bristol, em Luton... Não, isto já não é para mim, se calhar por ser velho. Tenciono só arriscar viagens de combóio ou quando muito de barco com partida da minha cidade. E mesmo assim, se tiver de usar táxi, não me livro de grande seca, porque é outro transporte que cada vez mais se parece com uma travessia do Letes. Chiça, que tormento.

Ah, a mitologia da Viagem, a magia da Viagem. Foi-se.

A ler : António Guerreiro na Estação Meteorológica:
https://www.publico.pt/2018/08/17/culturaipsilon/opiniao/low-cost-e-luta-de-classes-1840998

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Time Pieces, Memórias de Dublin, "just once, everything, only for once."


Pronto, está eleito: é o melhor livro do ano, para mim: Time Peaces, de John Banville (capa aqui ao lado direito). *


« I am convinced, and will not cede in my conviction to any expert, that there is a special and unique quality to the bricks of which so much of Georgian Dublin is built. People speak of “red brick” houses, but red is the least of it: the colors range from rosy pink through cadmium yellow and yellow ochre to a chalky – textured madder, and burnt sienna, and patches, tiny patches, of a strangely aquatic, darkly shining purplish blue that seems to be picked out only by the light of certain late summer evenings. The hues alter subtly with each passing hour, from an early morning watery paleness to twilight’s glowing umbrage. And when it rains the bricks gleam and glitter like the flanks of a galloping racehorse.»


Estou convencido, e não cederei na minha convicção a nenhum especialista, de que há nos tijolos usados para construir grande parte da Dublin georgiana qualquer coisa de especial e único. Costuma falar-se das casas de ‘tijolo vermelho’, mas vermelho é o mínimo que se pode dizer: as tonalidades vão do cor-de-rosa carregado, assando pelo amarelo-cádmio e pelo amarelo-ocre, até à purpurina com textura de giz e ao ocre da terra de Siena queimada, tudo isto salpicado de manchas minúsculas, de um azul purpurino, estranhamente aquático, de brilho sombrio, que a luz parece pôr em relevo somente em certos crepúsculos do Verão tardio. Os cambiantes de cor alteram-se ubtilmente a cada hora que passa, da molhada palidez matinal às sombras resplandecentes do fim da tarde. E quando chove os tijolos brilham e faíscam como os flancos de um puro-sangue lançado a galope.

« And the great windows, how they flare and flash, furnace-white, with the sun on them, at dawn and dusk especially, when thet seem to be themselves the source of their own radiance.»

«The city breathes, it has its own life, apart from us, who are its parasites, its relentless, teeming virus.»

Time Pieces” é uma passeio em zigue-zagues pelo passado, tanto o passado de Banville como  de Dublin, ilustrado com evocativas e nostálgicas fotografias de Paul Joyce *. Banville conduz-nos por portais Georgianos, através de parques verdes povoados pelas sombras de memórias, descendo ladeiras empedradas molhadas pela chuva, entrando por pubs de outras eras. E conta histórias desses lugares; o género de histórias contadas numa noite íntima com amigos em que ninguém quer deixar que a conversa acabe.

Outro exemplo: Banville adorava os Iveagh Gardens, perto da catedral, pequeno jardim com grutas, fontes, cascata, bosque, e um labirinto que ele, nas muitas visitas com Stephanie, nunca conseguiu encontrar.

« Now, it is one thing to be lost in a maze, but that there should be a maze one cannot find seems to me a truly marvelous thing, a conceit straight out of a wonder-tale by Borges.Thinking it over, i entertain the fancy that if there were indeed to be an afterlife - horrible possibility - there would be worse ways of enduring it than in an endless Borgesian circular search for this ever-elusive garden feature within a garden.»


Também estou grato a John Banville por uma riqueza imensa de citações memoráveis, desde testemunhos históricos a poetas como Larkin ou Rilke, Yeats, Beckett, Joyce, Kafka ... Esta, por exemplo, da 9ª das Duineser Elegien :

But because being here amounts to so much, because all this
that's here, so fleeting, seems to require and strangely
concern us. Us the most fleeting of all. Just once,
everything, only for once. Once and no more. And we, too,
once. And never again. But this
having been once, though only once,
having been once on earth - can it ever be cancelled ?


Só uma vez, tudo, só por uma vez. Mas tendo sido uma vez, apesar de uma única vez, tendo sido neste mundo uma vez - poderá ser algum dia cancelado ?


Uma obra prima, a que ainda voltarei. E que vontade de revisitar Dublin.

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* Trad. portuguesa "Retalhos de um tempo", Relógio d'Água
** sobrinho bisneto de James Joyce...


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Finalmente, Lund e Ystad


Uma derradeira viagem tem de ser especial... tenciono viver Lund, a bela cidade universitária sueca, como quem lá morasse de vez, na fantasia do país mais feliz onde tudo é planeado para o bem estar dos cidadãos.


Um lugar único, saído de algum éden do passado que a riqueza social-democrata restaurou, Lund não parece deste mundo, mas é: está nas 100 melhores Universidades do mundo !

Kulturen, museu a céu aberto.


Um salto mais breve à pequena Ystad, antigo porto hanseático de que 'só'  resta um centro antigo notável de coerência - a beira mar portuária foi destruída na 2ª grande guerra. Com visita também às pedras Viking de Ales.

Rua antiga de Ystad

Praça central

Não é Italia. é Ystad, Suécia, Báltico. Convento de S. Pedro (Sankt Petri Kloster)

A Escânia - gosto mais de Scânia - é de resto uma província de castelos, igrejas brancas, pomares, cultivos e floresta, plana e verde, que ao que dizem oferece belas imagens, uma espécie de Toscânia aplainada face ao Báltico. Será que Skäne e Toscana têm algum parentesco linguístico ?


Arte e História? Também, basta a fabulosa Catedral de Lund:



domingo, 9 de setembro de 2018

Süsse Stille, sanfte Quelle / Doce silêncio, suaves fontes


Audição comparada, coisa que já não fazia há bastante tempo.

As 9 Árias Alemãs (Neun Deutsche Arias) de Handel estão entre as suas obras menos frequentemente executadas. Com textos de Barthold Heinrich Brockes (1680-1747), um poeta do Iluminismo, as árias reflectem a perspectiva da presença divina na Natureza. São árias da capo para soprano, baixo contínuo (órgão, cravo) e outro instrumento não especificado.

Escolhi, das 9 árias, a belíssima Süße Stille, Sanfte Quelle.

Vou comparar três versões de três grandes (grandíssimas) sopranos: Emma Kirkby, Dorothea Roschmann e Núria Rial. Roschmann tem uma voz maior, mais ampla e versátil, dada a uma morosidade mais trágica, mas Kirkby foi muito tempo considerada a melhor soprano da música barroca com a sua voz quente e meiga; ambas se combinam com violino, mas Núria Rial está acompanhada à flauta; curiosamente parece-me a mais conseguida, absolutamente divinal, comovente numa serenidade que consola a alma.

Süße Stille, sanfte Quelle
Ruhiger Gelassenheit.
Selbst die Seele wird erfreut,
Wenn ich mir nach dieser Zeit
Arbeitsamer Eitelkeit
Jene Ruh vor Augen stelle,
Die uns ewig ist bereit.

Doce silêncio,  suaves fontes
gentil serenidade !
A alma mesma se alegra
Quando depois deste tempo
de laboriosa futilidade,
Verei enfim essa paz
na eternidade que nos espera.


1. Emma Kirkby, com o London Baroque


2. Dorothea Roschmann, com Akademie für Alte Musik Berlin


3. Núria Rial, com a Austrian Baroque, dir. Michael Oman


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P.S.
A parolice não tem classe, mas a das élites é mais grotesca. A Operália já existe há 26 anos. 26 anos passaram sem que dela se falasse por cá. 26 anos passaram sem vir a Portugal ! E nem sequer é um evento marcante na cena musical internacional.
- Mas agora veio cá. Ui ! que coisa magnífica ! Ui ! somos os maiores ! Ui! a nossa cultura vai de vento em popa. E ele até gosta de fado, meu deus !!!
Pronto, vamos criar uma Fadália. Uma Fadália para o Mundo, depois do CR, que prestígio.


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Mais dois poemas de Catherine Barnett, "The Game of Boxes"


À medida que o ano se vai terminando, começo a ter uma ideia do que valeu mesmo a pena ler e vai deixar marcas. "The Game of Boxes" de Cateherine Barnett é um desses livros. Já aqui publiquei três poemas, mais dois agora.

Chorus

Every night cars drive by with windows,
buses filled with windows fly right by,
windows filled with windows head home and away from home,
windows opening,
windows closing,
windows in suit and ties,
wearing the eyes of strangers or stars.


                  Todas as noites os carros passam com janelas,
                  autocarros de muitas janelas voam aqui ao lado,
                  janelas de muitas janelas de regresso a casa ou deixando a casa,
                  janelas abrindo,
                  janelas fechando,
                  janelas de fato e gravata, janelas
                  com olhos de estrangeiros e estrelas.

 


Apophasis at the All Night Rite Aid *

Not wanting to be alone
in the messy cosmology
over which I at this late hour
have too much dominion,
I wander the all-night uptown Rite Aid
where the handsome new pharmacist,
come midnight, shows me to the door
and prescribes the moon,
which has often helped before.


                  pela meia-noite, põe-me à porta da entrada
                  e prescreve em receita a Lua,
                  já outras vezes para meu bem aviada.



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 * Rite Aid é uma cadeia americana de farmácias, 24/24.