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domingo, 18 de outubro de 2026

Kirkenes face ao mostrengo: Murmansk, capital do nuclear na península de Kola


Atenção: este post mostra coisas muito feias e deprimentes, ao contrário do que é costume no Livro de Areia

Murmansk

Estónia e Finlândia têm as mais difíceis fronteiras da Europa, onde a ameaça da Rússia é mais premente. Mas à infeliz Noruega, que até parece mais afastada, calhou em sorte uma curta fronteira no Ártico, terrestre e marítima, como uma janela com vista para a distopia pré-apocalíptica : a fronteira de Kirkenes, que do lado russo enfrenta a lúgubre Península de Kola e sua capital Murmansk, cidade feia, decrépita e suja por excelência. 


É apenas o sítio mais militarizado do Mar de Barents, com bases da Frota Naval do Norte, de mísseis nucleares, pistas de bombardeiros e portos dedicados aos submarinos nucleares. A maior concentração de armas nucleares no planeta. Já para não falar do imenso amontoado de lixo nuclear e da intensa poluição de águas, terras e ar. O inferno às portas da Noruega.

 Quase toda a península fica a Norte do Círculo Polar Ártico. Parece que há praias e e estâncias de férias no sul, no Mar Branco.


Murmansk, capital da Península de Kola

A cidade é um misto caótico de blocos dos anos 70 da era soviética (a "Grande Muralha de Murmansk"), com um ou dois edifício nobres administrativos tipo revivalismo neo-clássico estalinista, e uns enormes caixotes multicoloridos mais modernos a fazer de centro comercial.

O centro 

Paragem de autocarro, na zona do porto. Não é aqui que se aplica a riqueza ganha no tráfego portuário.

O porto cá em baixo, o brutalismo soviético da Grande Muralha lá no alto.

Murmansk é um dos maiores portos do Ártico russo: porto de exportação de minério de ferro e carvão, e, inevitavelmente, de crude, graças à frota fantasma de petroleiros. Também alberga a frota de navios quebra-gelos e uma frota de pesca. É ainda o porto de base da Rota do Nordeste pelo Mar Ártico russo, razão porque lá ancoram os quebra-gelos. No ocidente, só o porto de S. Petersburgo é mais importante. 

Cargueiro, quebra-gelos e a doca seca flutuante para navios nucleares.

O porto de Murmansk é o términus de vias férreas vindas de leste e de sul que servem as minas, principalmente de carvão (SUEK)


Murmansk no Inverno

Portos e estaleiros de submarinos nucleares em Kola


Murmansk está no fundo de uma profunda entrada de mar, Kola Guba, um fiorde recortado e ramificado em várias baías, com 57 km, 4 a 7 de largura, e até 300 m de fundo. Os estaleiros de maior dimensão são o de Olenya Guba (guba= baía) e Nerpa, o porto fulcral de Severomorsk é sede da frota naval russa no Ártico, a Frota do Norte. Até à fronteira com a Noruega são 240 km.

Cemitério naval de Olenya Guba.

Vista aérea da base, protegida por uma rede.

O K-18 Karelia, de 1989 - o favorito de Putin - em Gadzhiyevo.

Em Saida-Guba está cerca de 2/3 da frota nuclear de submarinos. Aqui o K-18, à direita.

Os detritos nucleares

Durante as décadas de regime soviético e de guerra fria, os russos foram acumulando sucatas e detritos radioactivos de embarcações desmanteladas. Eram empilhadas ao ar livre onde calhava, ou deixadas a apodrecer na água. Com Chernobyl e outras desgraças, foram fazendo algum esforço para armazenar esse material de forma menos perigosa, em contentores. 

Andreeva, Saida e Nerpa não estão descontaminados, mas a maioria do lixo radioactivo está confinado.

"Garrafas" de combustível nuclear entre o mato no alto dum monte, em Andreeva Guba.

Saida-Guba (Baía de Saida ou Sayda) é um dos locais onde se armazenam os compartimentos de reactor de submarinos nucleares desactivados.

Não me parece um armazenamento seguro, mesmo em bidões blindados a descoberto, mas enfim.

Gigantescos, a céu aberto.

Interior do armazém de combustível nuclear.

Pesadelo. Haverá oiutro sítio assim no mundo?

Bases aéreas

Olenya

Um Tu-22M

Na base militar de Olenya estacionam dezenas de bombardeiros pesados Tupolev. Caças Mig e Sukhoi estacionam em Severomorsk-1 e Severomorsk-3, além dos Kamovs. A Ucrânia conseguiu atingir a base e destruir alguns, mas desde aí a protecção foi muito reforçada.

Os TU-95 têm estado muito activos na Ucrânia.

Poluição

Toda  a península é uma catástrofe ecológica: ar, água e solo contaminados, nalguns locais de forma letal. Uma das causas é a exploração das minas de carvão e o seu uso em complexos industriais.


Também há mineração de níquel e ferro, em Monchegorsk, Kirovsk e Nikel. Na natureza amontoam-se detritos, poeiras, efluentes industriais.

Nikel : as minas e e o Buraco Fundo

O centro de Nikel

Os infalíveis blocos da URSS

Nikel é uma vila mineira, dependente das minas de níquel à volta. Intensamente poluída, decadente, pobre, vê toda a riqueza criminosa desviada para as camarilhas ricas de Moscovo e S. Petersbugo. 


É esta povoação e estas minas que fazem fronteira com a Noruega, junto à vila pesqueira de Kirkenes.

As minas de níquel

Poucos quilómetros a leste de Nikel, encontra-se o Poço de Perfuração de Alta Profundidade : é o sítio onde se perfurou mais fundo na Terra, 12 262 metros ! O furo foi realizado por fins 'científicos' entre 1970 e 1992, mas os trabalhos tiveram de parar porque lá em baixo se atingiram 180º C de temperatura! Partes da broca começaram a fundir (uma secção de 5 km partiu) e a deformar a rocha.

A mina foi abandonada neste estado.

O poço está selado com uma tampa de metal soldada. 

Este lindo cenário, paisagístico, ambiental, nuclear, militar, é o que oferece o lado russo da fronteira norueguesa. Imaginem ir viver para Kirkenes, com tudo isto à porta e a porta sem poder ser trancada e blindada.

Kirkenes, Noruega (Mar de Barents)

Vila de pescadores no Mar de Barents, é também a fronteira Norte da NATO, e a única ainda parcialmente aberta entre Rússia e Europa. 


É um porto de pesca importante na parte norueguesa do Mar de Barents, com indústria de transformação do pescado.


Torres de vigia disseminadas na floresta, elevam-de acima das copas de pinheiros e bétulas. Os habitantes já estão acostumados, desde há décadas - 50 anos ? - à ameaça permanente do lado de lá da fronteira. 


Navios e tripulação russos encostam frequentemente no cais de Kirkenes; até petroleiros vêm acostar, com a desculpa de uma emergência qualquer. Abusos. Não são raros os tripulantes que 'desaparecem', Noruega adentro - refugiados, emigrantes ou espiões ? Ainda há pouco foi detectado equipamento de vigilância e espionagem numa rusga a um navio 'de pesca'.

Navio pesqueiro russo ' Ester' em Kirkenes - a polícia encontrou a bordo equipamento de espionagem elctrónica.

Sede do consulado russo, a única casa de Kirkenes com janelas reforçadas. Abre só alguns dias.

O Mar de Barents

Também em Svalbard, ilha sob soberania da Noruega, a situação é tensa e ameaçadora: os russos têm presença garantida por um tratado de 1920, por direitos mineiros, em duas povoações semi-abandonadas, e os Noruegueses são obrigados a partilhar o território e sujeitar-se a encontros embaraçosos. Há uma força policial armada russa instalada e ultimamente, muitos navios da Frota se aproximam e fazem exercícios por perto da costa. 

Não há aeroportos, proíbidos pelo mesmo tratado ratificado pela Liga das Nações que autoriza a presença russa. Isso é bom ou mau? Para a NATO, é a impossibilidade de defender a ilha - e os russos têm uma enorme e moderna base militar ali ao lado, na ilha de Alexandra - Nagurskoye - cheia de Antonovs e Sukhois e TUs, sob comando de uma vasta equipa do FSB !

Parece estranho, mas aquele arquipélago ártico gelado de Svalbard ainda é Europa.


Uma boa fonte de informações para a região é o Barents Observer :
https://www.thebarentsobserver.com/



domingo, 4 de outubro de 2026

Mestersvig, uma base defensiva a reconfigurar na costa leste da Gronelândia, a norte da solitária Ittoqqortoormiit

Assinado o acordo a três entre Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos , no sentido de garantir a segurança no Ártico Euro-Canadiano, esperam-se as concretizações - como e onde haverá reforço de defesa.

Há muito que a Dinamarca tem um programa de vigilância que abrange a costa Norte e Leste da Gronelândia; destina-se sobretudo a observações sobre a natureza, o ambiente e as alterações climáticas, mas inclui precauções e exercícios em caso de indícios de ameaça estrangeira, em particular sistemas de detecção modernos e equipas de intervenção.

Chama-se este projecto "Northeast Greenland National Park", uma área protegida de quase 1 milhão de km2. A maior povoação nas proximidades é Ittoqqortoormiit. A base aérea mais bem apetrechada é a dinamarquesa Station Nord, lá para Norte, que já referi aqui. A que poderá ser usada pela NATO para controlar o GIUK é Mestersvig.


O GIUK em causa é a brecha, ou corredor marítimo, que condiciona a navegação entre a Gronelândia e a Islândia, e entre a Islândia e o Reino Unido (UK).


A NATO já tem vigilância desde a Islândia, a Escócia (Lossiemouth), a Noruega (Bodø) e as Ilhas Faroe (radares e outros detectores). O controle mais crítico a Norte, entre a Gronelândia e a Islândia, é onde a frota naval russa tem intensificado a actividade, incluindo os submarinos nucleares.


A intenção da NATO deverá ser equipar Mestersvig com um grande aeródromo, uma base da Força Aérea e um porto capaz de dar abrigo à sua Marinha, de modo a impedir acções agressivas dos submarinos russos. O local é bem escolhido por ser desértico - não há interferências nocivas de e para os gronelandeses. 

Mestersvig
72° 14′ N, 23° 56′ W


A estrutura actual da base é rudimentar: pista (cascalho alisado e 'polido' ou gelo) com cerca de 1800 m, torre de controle com comando e dormitório, armazéns, abrigos. A sua especialidade é em cães de trenó com treino militar ('Slædepatruljen Sirius', Patrulha em trenó Sirius), as rondas de vigilância são executadas regularmente. 


' Forsvarets Vagt ', Guarda das Forças Armadas dinamarquesas.


A ocupação da base pode ir até 27 pessoas, mas a capacidade irá aumentar certamente com a presença da NATO.


Cobertura renovada da pista, preparada para os Hércules.

Aterragem de um Twin Otter em pleno Inverno. É o avião mais usado.



A patrulha Sirius foi criada em 1950, com o início da Guerra Fria, para missões de vigilância e soberania, salvamento e protecção da fauna ártica. Porquê 'Sirius' ? Porque, contando essencialmente com os cães de trenó, quis prestar-lhes homenagem: Sirius (ou Alpha Canis Majoris) é a estrela (*) mais brilhante do Céu Ártico, carinhosamente a "Estrela do Cão", visível na noite pouco acima da linha do horizonte.


O Sirius executa missões de patrulha para reforço da soberania mas também de salvamento, em caso de acidente aéreo ou outro. São cerca de 12 militares e 70 cães.


Certamente não é este o modo de vigilância que a NATO implementará. Mas o cenário dará com certeza às equipas militares muito para mirar e admirar.



É possível em caso de necessidade ir de Mestersvig até Ittoqqortoormiit por terra firme, em veículos de neve; são pouco mais de 200 km. Mas havendo pistas em ambas as localidades a deslocação mais frequente é de helicóptero ou em Twin Otter.



Ittoqqortoormiit
70° 29′ N , 21° 58′ W


Esta designação substitui a original Scoresbysund herdada da fundação dinamarquesa. O nome dado pelos Inuit significa "lugar com uma casa grande".


Foi fundada em 1925 por cerca de 70 Inuit, por iniciativa do explorador dinamarquês Ejnar Mikkelsen. É a mais setentrional na costa leste da Gronelândia, e uma das povoações mais remotas, mais frias e mais recentes do país. 

Acima dos 70º N de latitude, é de esperar cobertura de gelo quase todo o ano.

A igreja, de madeira pintada de vermelho, tal como é comum no país. 

A população actual ronda os 600 cidadãos, que vivem num isolamento que só é quebrado pela visita semanal do helicóptero, e de barco nos três meses de degelo do mar. Mesmo para a Gronelândia, é uma pequena aldeia.

Escola

Por essas razões, Ittoqqortoormiit beneficia de instalações que a sua dimensão não justificaria: escola, hospital, hotel, pavilhão de desportos, sauna pública. 


Pavilháo de Desportos

Caçar e pescar ainda são as actividades económicas principais, pois a vida selvagem abunda: ursos, bois almiscarados, raposas, focas, morsas, narwhals, marisco e halibute. Há algum turismo de élite.




A mais surpreendente atracção da região é uma fonte termal, com águas até 62º, em Kap Tobin (Uunarteq) apenas a 8 km de Ittoqqortoormiit. A extensão do fenómeno vai muito além do lago / piscina quentinho: pode vir a ser uma fonte sustentável para aquecimento urbano e produção de energia geotermal.



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(*) Na verdade não é uma, são duas: Sirius é uma estrela binária, em que a menor (Sirius B, anã) orbita em torno da maior (Sirius A). É bem visível em noites límpidas de inverno, para Sul (máx. ca. 22h)