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domingo, 11 de outubro de 2026

Cape Dorset ainda 'mexe' : novas gravuras dos estúdios Kinngait


Cape Dorset é uma povoação nativa de ca. 1400 hab. na ilha de Dorset, a sudoeste de Baffin.

Já aqui mostrei várias vezes obras gráficas e esculturas da escola de arte nativa de Cape Dorset, junto à grande ilha de Baffin, Arquipélago Ártico do Canadá. Especializada em gravura impressa e escultura em pedra-sabão ou estearite, todos os anos publica novas obras por esta altura.

Há em Cape Dorset ('Kinngait') uma instituição, o Kenujuaq Cultural Center , onde funcionam os Kinngait Studios de criação e impressão de gravuras e espaços para exposições, palestras e cursos. 

Trabalham aqui não só artistas locais como de outras povoações da Ilha de Baffin, que vêm aprender ou ensinar. O centro artístico resulta de uma cooperação entre o município e a cooperativa inuit, a autoridade nativa local.

Além dos estúdios dos artistas gráficos e escultores, tem uma loja que promove todos os anos as novas criaçōes e edita um calendário em vários formatos para divulgação.


Qavavau Manumie (Kavavao Mannomee) 


É já desde há alguns anos o mais reputado continuador da arte gráfica em Cape Dorset, onde agora também ensina a nova geração de artistas.

Kaivattuit (Circling Whales), Qavavau Manumie, 2026

‘Dog Team Spirit ’ , Qavavau Manumie, 2026, uma obra recente onde é patente a paixão pelo Ártico e as suas paisagens e desafios. 

Susie Seeta Saila

Susie Seeta Saila nasceu em 1998, é da nova geração de artistas gráficos.

Quvianaqtuk Pudlat, Impassioned wolf, 2026

Quvianaqtuk Pudlat nasceu em 1962, em Cape Dorset. É também um clássico dos estúdios Kinngait, reconhecido em todo o país.

Quvianaqtuk Pudlat, Flock, 2024


Ningeokuluk Teevee, Whistling Teapot

Outra das artistas com mais produção e anos de carreira é Ningeokuluk Teevee. Nascida em 1963, desde 2004 tem conquistado prémios e realizado exposições por todo o Canadá.

Ningeokuluk Teevee, Owl courting Goose

Padloo Samayualie

Nasceu em Kinngait em 1977, começou a cerreira em 2001. Além de Cape Dorset, tem tido exposições em Toronto.


Padloo Samayualie , 2024


 Padloo Samayualie , Sunset, 2026

Nuna Parr. escultor , recentemente falecido. Esta é uma das últimas obras, de 2025.

Numa Parr, Striding polar bear caught a scent, serpentinite, 2025

Parr costumava extrair ele próprio da pedreira a pedra que queria trabalhar, de preferência em larga escala; ficou mais conhecido pelos seus ursos polares.
  

A serpentinite é extraída de uma pedreira em Kangiqsukutaaq, 160 km a leste de Cape Dorset.





domingo, 4 de outubro de 2026

Mestersvig, uma base defensiva a reconfigurar na costa leste da Gronelândia, a norte da solitária Ittoqqortoormiit

Assinado o acordo a três entre Dinamarca, a Gronelândia e os Estados Unidos , no sentido de garantir a segurança no Ártico Euro-Canadiano, esperam-se as concretizações - como e onde haverá reforço de defesa.

Há muito que a Dinamarca tem um programa de vigilância que abrange a costa Norte e Leste da Gronelândia; destina-se sobretudo a observações sobre a natureza, o ambiente e as alterações climáticas, mas inclui precauções e exercícios em caso de indícios de ameaça estrangeira, em particular sistemas de detecção modernos e equipas de intervenção.

Chama-se este projecto "Northeast Greenland National Park", uma área protegida de quase 1 milhão de km2. A maior povoação nas proximidades é Ittoqqortoormiit. A base aérea mais bem apetrechada é a dinamarquesa Station Nord, lá para Norte, que já referi aqui. A que poderá ser usada pela NATO para controlar o GIUK é Mestersvig.


O GIUK em causa é a brecha, ou corredor marítimo, que condiciona a navegação entre a Gronelândia e a Islândia, e entre a Islândia e o Reino Unido (UK).


A NATO já tem vigilância desde a Islândia, a Escócia (Lossiemouth), a Noruega (Bodø) e as Ilhas Faroe (radares e outros detectores). O controle mais crítico a Norte, entre a Gronelândia e a Islândia, é onde a frota naval russa tem intensificado a actividade, incluindo os submarinos nucleares.


A intenção da NATO deverá ser equipar Mestersvig com um grande aeródromo, uma base da Força Aérea e um porto capaz de dar abrigo à sua Marinha, de modo a impedir acções agressivas dos submarinos russos. O local é bem escolhido por ser desértico - não há interferências nocivas de e para os gronelandeses. 

Mestersvig
72° 14′ N, 23° 56′ W


A estrutura actual da base é rudimentar: pista (cascalho alisado e 'polido' ou gelo) com cerca de 1800 m, torre de controle com comando e dormitório, armazéns, abrigos. A sua especialidade é em cães de trenó com treino militar ('Slædepatruljen Sirius', Patrulha em trenó Sirius), as rondas de vigilância são executadas regularmente. 


' Forsvarets Vagt ', Guarda das Forças Armadas dinamarquesas.


A ocupação da base pode ir até 27 pessoas, mas a capacidade irá aumentar certamente com a presença da NATO.


Cobertura renovada da pista, preparada para os Hércules.

Aterragem de um Twin Otter em pleno Inverno. É o avião mais usado.



A patrulha Sirius foi criada em 1950, com o início da Guerra Fria, para missões de vigilância e soberania, salvamento e protecção da fauna ártica. Porquê 'Sirius' ? Porque, contando essencialmente com os cães de trenó, quis prestar-lhes homenagem: Sirius (ou Alpha Canis Majoris) é a estrela (*) mais brilhante do Céu Ártico, carinhosamente a "Estrela do Cão", visível na noite pouco acima da linha do horizonte.


O Sirius executa missões de patrulha para reforço da soberania mas também de salvamento, em caso de acidente aéreo ou outro. São cerca de 12 militares e 70 cães.


Certamente não é este o modo de vigilância que a NATO implementará. Mas o cenário dará com certeza às equipas militares muito para mirar e admirar.



É possível em caso de necessidade ir de Mestersvig até Ittoqqortoormiit por terra firme, em veículos de neve; são pouco mais de 200 km. Mas havendo pistas em ambas as localidades a deslocação mais frequente é de helicóptero ou em Twin Otter.



Ittoqqortoormiit
70° 29′ N , 21° 58′ W


Esta designação substitui a original Scoresbysund herdada da fundação dinamarquesa. O nome dado pelos Inuit significa "lugar com uma casa grande".


Foi fundada em 1925 por cerca de 70 Inuit, por iniciativa do explorador dinamarquês Ejnar Mikkelsen. É a mais setentrional na costa leste da Gronelândia, e uma das povoações mais remotas, mais frias e mais recentes do país. 

Acima dos 70º N de latitude, é de esperar cobertura de gelo quase todo o ano.

A igreja, de madeira pintada de vermelho, tal como é comum no país. 

A população actual ronda os 600 cidadãos, que vivem num isolamento que só é quebrado pela visita semanal do helicóptero, e de barco nos três meses de degelo do mar. Mesmo para a Gronelândia, é uma pequena aldeia.

Escola

Por essas razões, Ittoqqortoormiit beneficia de instalações que a sua dimensão não justificaria: escola, hospital, hotel, pavilhão de desportos, sauna pública. 


Pavilháo de Desportos

Caçar e pescar ainda são as actividades económicas principais, pois a vida selvagem abunda: ursos, bois almiscarados, raposas, focas, morsas, narwhals, marisco e halibute. Há algum turismo de élite.




A mais surpreendente atracção da região é uma fonte termal, com águas até 62º, em Kap Tobin (Uunarteq) apenas a 8 km de Ittoqqortoormiit. A extensão do fenómeno vai muito além do lago / piscina quentinho: pode vir a ser uma fonte sustentável para aquecimento urbano e produção de energia geotermal.



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(*) Na verdade não é uma, são duas: Sirius é uma estrela binária, em que a menor (Sirius B, anã) orbita em torno da maior (Sirius A). É bem visível em noites límpidas de inverno, para Sul (máx. ca. 22h)


domingo, 23 de novembro de 2025

Ilha de Victoria , na Passagem ártica do Noroeste: uma Cratera gigante e duas aldeias Inuit


Um território de tundra arenosa, semidesértico, com relevo baixo.

Esta área do Arquipélago Ártico do Canadá foi intensamente explorada por navegadores, caçadores e aventureiros no século XIX. Barrow, Cook, Franklin, Rae, McClure, Amundsen são apenas os mais famosos entre muitos outros; a Hudson's Bay Company alcançou estas terríveis latitudes, acima de 70° N, com entrepostos nas duas povoações da Ilha Victoria: Holman e Cambridge Bay.

A Passagem do Noroeste segue ao longo dos canais a sul da ilha.

A Ilha de Victoria, que é a segunda maior do Canadá e a oitava maior do planeta (maior que a Grã-Bretanha), ganhou maior protagonismo devido à importância estratégica da Passagem do Noroeste, a rota marítima ártica que atravessa o Arquipélago junto à ilha, justamente onde navegaram tantos exploradores e onde se desenrolaram naufrágios e as muitas tragédias que lhes seguiram. Mas ainda ganhou ainda mais por ser um local de treino para estadias em Marte ! É na área a Nordeste, em redor de Collinson Inlet,  que as condições do terreno são mais próximas das marcianas - arenosas, pedregosas e com penhascos.

A Cratera Tunnunik

Começou por ser chamada "Prince Albert crater", por estar na península com esse nome. Mas hoje em dia a "correcção" anti-colonial dita que de designem acidentes geográficos na língua dos nativos. O que cientistas descobriram foi uma estrutura geológica de padrão circular, com 25 km de diâmetro, onde se encontraram estuturas cónicas de material e estratos sedimentares com forte declive que apontam para o impacto de um meteoro, com alguns quilómetros de diâmetro.


O impacto do meteoro libertou uma fonte de água que jorrou à suerfície e ao long de milhares de anos escavou um Canyon.

Canyon de Tunnunik

A garganta cavada por um rio na tundra, mostra estratos sedimentares em declive acentuado. Essas camadas deformadas são a elevação central que resultou da recaída de material após o impacto do meteoro, há 350-400 milhões de anos.

Um dos cones de fractura (shattercones), típicos de crateras de impacto.

Paisagem extraterrestre ? Os futuros visitantes de Marte já treinam nesta região da Ilha Victoria

A cratera Tunnunik a noroeste, o rio Ekalluk no sul, junto a Cambridge Bay.

Descendo para sul, encontramos um rio que se tornou particularmente famoso pela riqueza em trutas árticas (salvelino); muitos pescadores aventureiros vão para Holman com o intuito da pesca no rio Kuujjua.

Nasce no centro da ilha e corre 350 km para oeste através da tundra, desaguando em Minto Inlet, uma entrada do Mar de Beaufort.

A tundra estéril à volta do rio Kuujjua.

Outro rio muito peocurado pela pesca mas de curtíssimo percurso é o rio Ekalluk.

Nasce do lago Ferguson (Tahiryuaq) , corre apenas 3.5 km até a Wellington Bay, pouco a Norte de Cambridge Bay.  Foi John Rae o primeiro homem que descobriu estas geografias.



John Rae, Robert McClure e Roald Amundsen visitaram a Ilha Victoria. John Rae foi o primeiro explorador a subir o Monte Pelly, a norte de Cambridge Bay, quando procuava sinais do naufrágio dos navios de Franklin.

Monte Pelly, Cambridge Bay.

Num território tão grande como a Grã-Bretanha, é algo insólito haver apenas duas aldeias; mas estamos isolados no mar, e 160 km a Norte do Círculo Polar Ártico !

Holman  (Ulukhaktok)

População: 410 (cresce no Verão)
Coordenadas: 70° 44′ N, 117° 46′ W

O primeiro entreposto da Hudson's Bay Company foi estabelecido nesta área, em 1923, e mudado para Holman em 1939. Em 2006, o nome da aldeia foi mudado para o inuit 'Ulukhaktok'.

Holman é uma povoação arrumadinha, com uma frente de casas dispostas em arco ao longo de uma baía.


Igreja de madeira, anglicana, é da época da Hudson Bay Co.


Nesta aldeiazita ártica existe um centro de arte Inuit (gravura e escultura):


Mary Okheena

Mary Okheena

Helen Kalvak

Foi o nome de Helen Kalvak que foi atribuído à escola em Holman.

Em frente da escola há sempre um grande número de snowmobiles.

Alunos da escola numa saída de estudo, sob temperatura de congelar.

Lição de Geografia.


A outra povoação da grande ilha é mais caótica, mas também mais populosa e dinâmica:

Cambridge Bay  (Iqaluktuttiaq)

Para uma aldeia a quase 70º N, é maior do que seria de esperar.


Coordenadas: 69° 07′ N, 105° 03′ W
População: ~1800 (cresce no Verão)

Cambridge Bay é uma povoação Inuit na semi-desértica tundra ártica do sudeste da Ilha de Victória. É a última escala para navios de passageiros e de exploração científica no percurso da Passagem de Noroeste; por essa razão é de importância estratégica para o Canadá, uma base militar para o exercício da soberania nestas águas disputadas , que muitos querem ver declaradas "internacionais".

O nome inuit da aldeia é Iqaluktuttiaq, que significa "um bom sítio onde o peixe abunda".

A Hudson's Bay Company fundou aqui um entreposto em 1839.

Antigo posto da Hudson's Bay Company. Aqui nasceu Cambridge Bay.


Como centro regional, Cambridge Bay tem bastantes equipamentos e serviços : escola, centro de saúde, banco, ginásio com piscina coberta, alojamentos, polícia, a sede administrativa... e o aeroporto !

O terminal do aeroporto.

Escola Secundária Kiilinik 

A escola Kiilinik resulta de um projecto de arquitectura inteligente, adaptada ao local e ao clima, com grandes espaços interiores - hall, museu, biblioteca. Foi um marco na modernização da aldeia.



Biblioteca da escola

Artic Coast Visitors Centre, com informação sobre a região.

Mapa das viagens de exploração, em navios (vermelho) e a pé (preto) - as do orcadiano John Rae.

Os escritórios da Associação Inuit de Kitikmeot, outro edifício a marcar alguma diferença.

A relevância da aldeia nota-se em estruturas como o aeroporto ou este supermercado inuit COOP.

Há não um mas DOIS cafés em Cambridge Bay. Esdte Saxifrage leva o nome da mais famosa planta de flor ártica.


Aparentemente, a qualidade das casas é um pouco melhor, mas o clima nada mais ameno, entre -30 e +3ºC. Para servir as Escolas há um autocarro aquecido!

Paragem do autocarro escolar.

O North Warning System (NWS) e a operação Nanook

A soberania e a defesa deste território e sobretudo das águas nacionais Canadianas exerce-se com cada vez mais preocupação e intensidade. O sstema de radares do Ártico Canadiano já vem da 2ª Grande Guerra, mas tem sido modernizado e ampliado.


Por outro lado, as Forças Armadas do Canadá realizam exercícios de treino periodicamente, como este desembarque em Cambridge Bay, com o nome de código "Operação Nanook".


Os militares reunem sempre com a população nativa para explicar a operação e mater relações cordiais que possam motivar a mobilização.

Uma cerimónia Inuit - 'Qulliq' - com os convidados militares da Operação Nanook.