Mostrar mensagens com a etiqueta sinfonia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta sinfonia. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Armadura da luz - texto bíblico da grande sinfonia coral de Mendelssohn


Não é todos os dias que cito aqui no Livro versos bíblicos ! Estes são da carta aos Romanos, cap. XIII, 12.

A noite está a acabar, o dia chega em breve
afastemos as obras da escuridão
e enverguemos a armadura da luz.

Foram estes, em alemão, que Mendelssohn usou na Sinfonia nº2, Lobgesang, para celebrar a 'Luz '. Mas atenção, aqui é louvada a Luz da Razão, do Iluminismo, pois o que Mendelssohn celebra são os 400 anos da Prensa Móvel de Gutemberg, e a explosão editorial de livros que lhe sucedeu.

Uma sinfonia/cantata em 11 andamentos para solistas, coro e orquestra, de 1840, que anos mais tarde viria a ser registada como Sinfonia nº 2. É uma obra grandiosa e de beleza empolgante que infelizmente poucas vezes tem sido levada ao palco com dignidade, embora haja boas gravações.

O coral "Der nacht is Vergangen" cantado na sinfonia é este:

der nacht ist vergangen der tag aber herbei kommen: 
so lasst uns ablegen die Werke der Finsternis
und anlegen die Waffen des Lichts.

Paavo Järvi dirige a Tonhalle de Zurique.

Talvez a melhor interpretação seja a de Riccardo Chailly; não me é permitido inserir o vídeo, mas deixo o 'link ':

Riccardo Chailly com a Gewandhaus Leipzig:
https://youtu.be/V18uiBni654?si=ctVoPhFgD5fIDpxz&t=2471

««««««««««««««««««««<>»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»


Bónus:  O Dueto "Ich harrete des Herrn", um dos trechos mais conseguidos da Lobgesang, cantam Sonya Yoncheva e Regula Mühlemann, com a orquestra de Dresden.



sábado, 2 de outubro de 2021

Haydn 2032, vol.10: de novo um assombro, grazie Giovanni, e que Mozart !

Finalmente chegou-me o décimo volume das sinfonias de Haydn, que vão sendo gravadas por Giovanni Antonini com Il Giardino Armonico. Desta vez, são as nº 6, 7 e 8, Manhã, Meio-dia e Tarde, complementadas pela Serenata Notturna de Mozart. Toda esta brincadeira com a duração de um dia do nascer ao pôr do sol justifica o título da edição, "Les Heures du Jour".

Tenho  uma preferência pessoal pela 6ª sinfonia: a manhã é anunciada por uma suave introdução, que começa quase imperceptível, que é rasgada de súbito por um fortíssimo clarão de sol... habilidades que Haydn repetiria mais tarde na Criação. Toda a sinfonia é uma sucessão de inovações melódicas, tímbricas, rítmicas, num fluxo vertiginoso.

A comparação que tenho à mão é com a igualmente excepcional interpretação de Harnoncourt com o Concentus Musicus, já "velhinha" de 1999 na Teldec. Não sei dizer qual é melhor. A qualidade de gravação certamente é melhor agora, na ALPHA. 

Antonini é sistematicamente mais rápido ( ex: 1 minuto a menos em andamentos de 4 minutos!), mais preciso e rico nas cordas. Os solistas de violinos são uma preciosidade de expressiva doçura, os sopros estão ao nível de excelência da gravação de Harnoncourt. Mas Antonini não usa o cravo, a diferença maior para as outras gravações, o que pode ser considerado má opção pois a harmonia resulta menos 'ampla' - o continuo é dado pelo contrabaixo. O legato foi anulado, claro; as entradas e os staccatos são mais bruscos, o contraste dinâmico é maior ainda. O som é menos germânico, mais italiano, é verdade; com paixão e alegria, o Giardino Armonico canta Haydn que é um gosto ouvir !

Depois de Haydn, que dizer da Serenata de Mozart? Fiquei sem fôlego. Uma obra tantas vezes ouvida é interpretada com esfuziante dinamismo, como nunca antes, salientando-se de novo o enlevo do violino. Fenomenal, apetece ouvir, ouvir, ouvir... e dançar. Assim comemorei o Dia Mundial da Música.

Esta edição, como nos volumes anteriores, é enriquecida por uma boa apresentação gráfica que inclui fotografias de Jerôme Sessini, da Magnum. Deixo dois exemplos:



Infelizmente não encontrei uma gravação disponível. Terei de recorrer ao Harnoncourt de 1999 com o Concentus Musicus. Bom dia, boa audição.



domingo, 20 de junho de 2021

Viviane Hagner e Arvo Volmer trouxeram o melhor de Sibelius à Casa da Música


Para Arvo Volmer é um regresso: já em 2018 tinha estado na CdM com a 5ª de Sibelius, como dei conta num post aqui. Disse na altura que tinha sido o melhor concerto do ano na Casa; desta vez vai pelo mesmo caminho, até agora não houve nada a este nível. Volmer é especialista em Sibelius e Tuni, um compositor estoniano que está a procurar promover.

Também Viviane Hagner voltou à Casa, agora com o empolgante concerto para violino de Sibelius. A violinista ficou conhecida pelas gravações de conceros de Vieuxtemps, que são virtuosísticos quanto baste. 

Tanto quanto apurei, dedica mais tempo ao ensino que a concertos, mas na CdM exibiu à fartura as qualidades técnicas - não se poupou em passagens difíceis e foi sempre intensamente emotiva em pianíssimos ou em mudanças de ritmo ou de tensão. O 2º andamento foi um momento comovente de expressivo lirismo, muitíssimo bonito.

Nunca tinha ouvido este concerto tão bem interpretado, só por isso valeu a pena. Perante a aclamação da assistência, Viviane tocou como encore uma obra de ... Tárrega! Transcrita de guitarra para violino, claro. Bem difícil.

Depois veio a 5ª de Sibelius, uma obra genial, uma de duas ou três entre as 8 que Sibelius escreveu. Nunca me canso de a ouvir, de tal modo a orquestração é rica e variada, usando todos os naipes e secções, alternando ritmos - é também bastante visual se atentarmos à espacialidade orquestral no seu todo. Volmer deve tê-la dirigido em palco já centenas de vezes, fez com que a Orquestra da CdM se elevasse ao seu melhor, muito bem coordenada e quase deslumbrante; apenas me pareceu que poderia ter sido um pouco mais incisivo, dinâmico, aqui e ali, havendo momentos em que a música soava como estando em piloto automático (sem prejuízo da execução técnica).

18 de Junho
Arvo Volmer direcção
Viviane Hagner violin
Sibelius
- Concerto para violino e orquestra
- Sinfonia n.º 5

Não terminar sem música ! Sarah Chang no Adagio do Concerto.

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Só agora fui tocado pelas 4 de Schumann, gratias Simon Rattle e Thomas Dausgaard

  Andei sempre renitente às sinfonias de Schumann, chatas e empasteladas, reverberantes nos metais e repetitivas. Suspeitei que andassem muito mal tocadas, e não é que andavam mesmo? O primeiro indício foi com Harnoncourt, que mostrou que se podia fazer diferente. Mas não foi tão longe quanto era preciso, só melhorou os tempi e cortou seco os ligati beneficiando as dinâmicas, mas o Schumann dele acaba por cansar também. Faltou tocar como quem gosta mesmo da obra, com entusiasmo. 

Entusiasmo surgiu com o segundo toque, de David Zinmann, com a Orquestra Zurique que tão bem se tinha saído com Beethoven. Zinmann livrou as sinfonias de gorduras excessivas, extirpou a chatice e o empastelamento, e comecei a descobrir a riqueza da orquestração, ouvi a gravação várias vezes; todavia Zinmann imprimiu algum excesso de secura, e eu continuava desconsolado - é tudo? Não se pode fazer ainda melhor por Schumann?

Ouvir a gravação de 2015 de Simon Rattle à frente da Filarmónica de Berlim é uma revelação !  Schumann renasce pujante de vida, é um milagre, digo eu, sr Rattle, santo milagreiro.

E consegue sistematicamente, em todas as 4 sinfonias, operar uma transformação radical, dos tempi, dos contrapontos, dos ritmos sobretudo, do equilíbrio cordas / metais, o homem é um génio para ver o que ninguém via. Conseguiu uma referência interpretativa intemporal. Bravo.

E como é sabido não se 'colou' à Filarmónica de Berlim , aceitou mesmo um modesto regresso a Londres ! Está de entrada no painel dos deuses da Música, este Simão.

Thomas Dausgaard é um caso muito diferente: um maestro dinamarquês (n.1963), país que tem crescido ultimamente muito para a música. Dausgaard fez carreira sobretudo na Orq. de Câmara Sueca e na excelente Orq. Nacional da Dinamarca; é com esta colecção das sinfonias de Schumann em 2008 (ando sempre atrasado) que se revelou como grande dirigente na escola de rigor histórico. 


Vai sem dúvida mais longe que Zinmann, as opções agógicas com que trabalha as sinfonias, sejam ou nao autênticas, tornam a audição um prazer intenso que se agarra com sofreguidão. O vigor e a precisão combinam com a luminosa exposição de detalhes nunca ouvidos, salientados por contraste com a 'massa' orquestral que também não é pastosa mas vibrante, exuberante. Logo aos primeiros acordes, o entusiasmo é finalmente completo !



Parece um catraio a brincar com a orquestra, mas um catraio muito sabedor, que estudou muito a fundo a lição e resolveu fazer um brilharete: se a lição lhe foi apresentada enfadonha, ele vai dar-lhe a volta e mostrar os segredos e maravilhas que ela afinal encerra. E conseguiu !  É o meu maestro fétiche para os proximos tempos. 


Balanço: Simon Rattle mais sério e clássico com a Berlim, Dausgaard atrevido e inovador com a Danish.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Haydn, sinfonia 'Palyndrome', por Bruno Weil


Cada vez admiro mais a obra musical de Haydn, que foi muitas vezes mais longe do que Mozart - se exceptuarmos a Ópera. Sinfonias e concertos de Haydn são em muitos casos mais inovadores e complexos, enquanto as de Mozart são mais inspiradas.

Esta de que falo hoje, a número 47, é mais interessante do que a Relógio, a Surpresa ou a Militar, já fatigantes. A Sinfonia nº 47 de Haydn levou baptismo de Palíndrome, que designa palavras como ana, ovo, radar, osso, reviver ou luz azul, ou madam (inglês), palavras ou frases que se mantêm quando se inverte a ordem das letras.

No caso da nº 47, Haydn usou várias vezes o "contraponto invertido", acompanhando uma sequência de notas com a sequência simétrica uma oitava acima (ou abaixo) noutros instrumentos. No  "Minuetto al Roverso", o de maior impacto, fez o mesmo mas sequencialmente: a segunda parte é a primeira de trás para a frente, como reflectida no espelho.  

Al roverso symfonie 47 Haydn.png

O efeito é engraçado. Ouçamos, por Bruno Weil e a Tafelmusik,
o Menuetto alla rovescio é aos 15:54


Todos os detalhes da escrita musical são invertidos, não só a altura ou duração das notas: também as pausas, as articulações, as acentuações e os contraste dinâmicos, tudo está calculado para ser ouvido em perfeita simetria; e o mais engraçado é que a estrututa harmónica invertida não só 'funciona' mas é mesmo realçada pelo processo de inversão. Há ainda outro nível de simetria menos óbvio, na ordem dos andamentos (minuettos e trios), que em 'da capo' são repetidos por ordem inversa.

Mas é claro que a sinfonia merece ser ouvida no todo; o adagio (aos 8:08) é particularmente bonito. Esta sinfonia de 1772 era particularmente admirada por Mozart, que se disse por ela influenciado.

Bom domingo, e que isto tenha ajudado a passar dez minutinhos.


sábado, 6 de abril de 2019

Douglas Boyd dirige o concerto do ano na CdM


Já tinha previsto que isto podia acontecer; mas foi uma confirmação retumbante. Ter um maestro de primeira água faz a diferença, e a Orquestra da Casa da Música tocou Schubert como nunca - e deu uma fenomenal 9ª (Grande)  ao auditório quase cheio.


Grande direcção, e preparação, do escocês Douglas Boyd. Deu toda a atenção ao detalhe, à estrutura fina, ao diálogo dentro da orquestra, preteriu um som poderoso usando uma formação relativamente parca e tirando o máximo partido de sopros e metais, realçados no seu particularmente rico contributo nesta sinfonia. O equilíbrio do conjunto, os magníficios staccatos e pianos, a dinâmica da secção de metais, compensam largamente alguma perda de impacto sonoro nas cordas. Douglas Boyd começou como oboísta, talvez isso tenha tido influência nestas opções.

Mau, mau, só as notas da Folha de Sala:
"A herança de Beethoven deixa de funcionar como um peso inultrapassável ou até parali­sante."
"Ritmos apoteóticos e esplendor do desenvolvi­mento temático fazem deste andamento uma prefiguração quase perfeita das amplas sinfo­nias de Bruckner."
"Um dos grandes passos em frente na arte da instrumentação clássico ­romântica".


Esta ideia de progresso, de que algo "antecipa" ou "prefigura"  ou é "passo em frente" na música e na arte em geral, é um completo disparate. Dizer de alguém, suponhamos Fra Angelico, que teve o mérito de antecipar, digamos, Rafael, não faz sentido; porque Fra Angelico vale por si, não "antecipou" coisa nehuma, nós é que a posteriori perspectivamos a evolução que levou de um ao outro. Braque "prefigura" Dealaunay ? Hugo "antecipou" Wells? Pois o pateta que escreveu as notas sobre Schubert diz que esta Nona Sinfonia "prefigura" as de Bruckner, como se isso fosse grande mérito; e logo esse bruto, tosco, medíocre Bruckner. Ainda se fosse Mahler... mas é um disparate! A Sinfonia é inovadora e genial por mérito de Schubert, que é inovador e genial; tal como a seguir foram Mendelssohn e sobretudo Brahms, depois Mahler. Nenhuma obra "antecipa" outra obra, a não ser que seja uma evolução do mesmo autor. Ah, e Beethoven como "travão"? isto é coisa que um crítico decente escreva ? Um 'peso' 'paralisante' ?

Curiosamente, a assistência portou-se à Europeia: uma aclamação à altura, com três regressos ao palco, mas sem se pôr de pé a fazer figura pacóvia. Não podia ser a mesma gente que se levanta logo a gritar bravô a qualquer medíocre, como tem sido costume.

Um concerto perfeito, até nisto. Portanto, uma grande noite de música.

Para não ficar sem música, deixo o Finale com Harnoncourt:

sábado, 26 de janeiro de 2019

Magnífico Currentzis - 'nova' 6ª de Mahler (I)


Depois de ter recentemente  citado Teodor Currentzis como um dos grandes maestros para os próximos anos, eis que é editada uma nova gravação da 6ª sinfonia de Mahler, com Currentzis a dirigir a 'sua' MusicAeterna. Há vários casos precedentes, mas esta simbiose maestro-orquestra é um absoluto espanto. A orquestra MusicAeterna nasceu em 2004 na cidade russa de Novosibirsk, completamente à margem dos tradicionais circuitos de culto da música clássica. O próprio Currentzis, grego de nascença, nunca se teria notabilizado no seu país - é sabida a nulidade absoluta da Grécia na História da Música. Pois, viajando primeiro para S. Petersburgo, e depois Novosibirsk, Teodor Currentzis construiu a partir do nada uma formidável orquestra barroca e um prestígio como estudioso, director e concertista; desde 2011 estabelecido na cidade de Perm, destacou-se em obras de Purcell, Handel, Mozart, e muita ópera, até chegar, agora, a Tchaikovsky, Bruckner e Mahler ! Claro que a MusicAeterna teve de ser grandemente alargada, mas para uma orquestra de que ninguém ouvira falar há cinco ou seis anos, atingiu em velocidade cósmica um nível de execução admirável, de primeiro plano. Sucesso estrondoso, e para quem se entusiasma com estes talentos que partem do nada para a excelência, é um case study que transmite um certo gosto pela espécie humana, em dias de profundo desgosto.


Aqui fica a tremenda, contagiante direcção de Teodor Currentzis no Allegro energico inicial da 6ª de Mahler, obra prima absoluta. Toca, esfuziante, poderosa, a MusicAeterna. Atenção particular ao relevo que é dado aos sopros, invulgar.

CD Sony Classical, 2018

terça-feira, 12 de junho de 2018

A 5ª de Sibelius por Arvo Volmer na Casa da Música


Na passada sexta-feira, 8, esteve na Casa da Músiica Arvo Volmer a dirigir a Orquestra num belíssimo programa (finalmente !) com o jovem violinista Benjamin Schmid.

Começo pela irritação dos lugares vazios, certamente assinaturas de gente que prefere futebol, algarve ou centro comercial. E bons lugares!.. A iniciar o concerto, a abertura do Sonho de uma Noite de Verão de Mendelssohn, obra muito ouvida mas cuja sábia e dinâmica arquitectura é sempre de apreciar. Não saiu mal, mas não deslumbrou. Volmer não é Gardiner.

Seguiu-se o concerto para violino nº 3 de Mozart. Embora igualmente bem conhecido, não tem sido muito frequente na CdM. Como Volmer não é Gardiner, o Mozart dele saiu convencional, mas o violino de Schmid não ! Até me desconsolou na primeira entrada, mas à medida que aqueceu foi mostrando uma mestria admirável e uma abordagem pessoal de algumas passagens, sempre muito bem executadas. Só as cadenzas modernaças não me agradaram, mas o virtuosismo foi em crescendo e a obra terminou em ovação. Não é von Mutter, mas foi uma audição empolgante. Tivemos direito a um Paganini vertiginoso como encore (Caprice nº 24).


A 5ª é a minha preferida sinfonia de Sibelius, uma obra genial que deu ao compositor muitas dores de cabeça: o trabaho foi muito atribulado, com várias reescritas, devido sobretudo à má recepção da anterior 4ª (fraquinha) e às novidades que corriam no campo musical europeu, com o surgimento de dissonâncias, atonalidade, música contínua e outros experimentalismos que tentavam quebrar as convenções, sobretudo no campo sinfónico.

Com toda essa efervescência, a 5ª acabou por ficar riquíssima de invenções - harmonias inesperadas, quebras de ritmo, sincopismo, transição do lirismo para explosivos tutti com os sopros em destaque a dar uma sonoridade operática; o mais genial é que Sibelius consegue fazer a sinfonia transitar por todo este percurso acidentado de uma forma fluida, melódica, poética - como se sabe, a inspiração, dizia ele, vinha da natureza nórdica, florestas e lagos, montanhas e fiordes. Não digo que se 'vejam' esta coisas no decorrer da música, mas sim que tem uma beleza variada, rica de detalhe, luxuriosamente harmónica, que se assemelha a uma paisagem escandinava.


A surpresa maior foi a direcção de Volmer, com uma desenvoltura e expressividade de quem já 'nasceu' com esta música no sangue - ele é Estoniano, mesmo de ali ao lado. Deixou a orquestra respirar, solta, mas sempre com a sonoridade controlada. Foi a melhor 5ª que já ouvi, e o melhor concerto da Casa da Música este ano até agora: tremendamente bom.

Para quem não conhece, duas gravações recomendadas:
- Colin Davis com a LSO
- Osmo Vanska com a Orq. da Letónia (Lahti)

No youtube, para aqui deixar, encontrei em vídeo uma razoável interpretação - e muito bem filmada:
Thomas Dausgaard, Orquestra Real da Dinamarca


sexta-feira, 9 de março de 2018

'Tempora mutantur' - Sinfonia de Haydn com misantropia.


Tempora Mutantur, escreveu Haydn no topo do manuscrito da Sinfonia nº 64, citando um verso de Ovídio adaptado por John Owen (1613):
Tempora mutantur, nos et mutamur in illis.
Quomodo? Fit semper tempore peior homo.
'Fit semper tempore peior homo', O Homem piora sempre com o passar do tempo. Haydn era geralmente positivo e bem disposto, mas aqui professa uma descrença total na espécie humana. Como o entendo. Se existe progresso, como ainda creio, se em geral há melhoria civilizacional, tanta coisa sucede por esse mundo que desacredita a raça humana, tanta coisa abjecta, revoltante, imbecil, bárbara, que é muito difícil entrever uma linha de progresso.

Como exprime Haydn o seu desconforto ? Tem sido bastante estudado, e polémico, mas parece consensual que usou a composição sincopada (interrupção brusca de uma linha, que fica em suspenso) para deixar subliminarmente uma sensação de perda. Há acentuações deslocadas, frases distorcidas, cadências que não terminam onde deviam. Mais: há várias tentativas 'falhadas' para acertar o que está errado ! Isso nota-se mais no Largo, em que começa com as cordas em surdina para maior melancolia, e depois surgem mudanças inesperadas de temperamento, primeiro com a entrada das flautas, depois pelas trompas, que terminam num soturno pianissimo, talvez a pensar no 'peior homo' . Uma assimetria acentuada logo a seguir, no presto final, nova mudança radical, com total quebra de tempo

A escrita, claro, é genial, e anuncia claramente Mozart.

Gosto mais da interpretação da Tafelmusik de Bruno Weil, mas para aqui colocar a escolha era limitada, optei pela Academy of Ancient Music de C. Hogwood.

Largo aos 9:00
Menuetto e Trio aos 15:18


Com os séculos que já passaram entretanto, certamente que haveremos de ser bem peior homo. A predição de Ovídio/Owen confirma-se. Como reagiria Haydn hoje, se visse um telejornal ? Que música seria impelido a compor ?




domingo, 22 de outubro de 2017

Subir à montanha com a Sinfonia Alpina de Strauss (*****)


Casa da Música, sexta 20 de Outubro
Michael Sanderling, direcção
Richard Strauss, Uma Sinfonia Alpina, op.64

Uma première, ouvir em concerto a majestosa Sinfonia Alpina de Richard Strauss, um projecto megalómano para 120 músicos no palco mais as trompas e trombones nos bastidores, mais as máquinas de trovões e de vento. Não admira que seja raramente executada, devido às dificuldaes de reunir e dirigir tão numerosa orquestra. A secção de percussão dó por si já é visualmente impressionante, mas todo o colorido orquestral deslumbra. A Sinfonia Alpina foi composta entre 1911 e 1915 como poema sinfónico; Strauss quis experimentar caminhos entre Mahler - falecido em 1911 - e Wagner, procurando fazer 'música contínua' que superasse os tradicionais 3 ou 4 andamentos e ilustrasse a filosofia de Nietsche de purificação pessoal pela força anímica e pela adoração da Natureza eterna.

É, digamos, um andamento único "narrado" em 22 episódios que seguem a ascensão ao cume da montanha e o regresso, com temas como "Durch Dickicht und Gestrüpp auf Irrwegen (Perdidos entre o Bosque e o Matagal). A música pretende ser descritiva da natureza e das sensações no alpinista. As influências de Mahler são evidentes na orquestração e na percussão.

Um tema inicial, desenvolvido depois no cume e retomado na coda final, cria uma estrutura que organiza a obra para além dos 22 episódios. Genial é o épico Ausklang (Final), com surpreendente contraponto em desarmonia, e terminando em sublime beleza no regresso da Noite, dolente como um adagio de Mahler. O menos conseguido são os momentos mais "niilistas" (Strauss admirava Nietsche) que pontuam por exemplo no Durch Dickicht... acima referido, onde a composição perde élan e, em boa verdade, perde coerência também.

A gravação que prefiro é de C. Thielemann com a Orq. Fil. Viena.

Devido à sua vasta escala dinâmica, a obra tornou-se uma referência para gravações de alta fidelidade; o primeiro teste de um disco compacto (CD) foi com uma gravação da Sinfonia Alpina.

Quanto à prestação da ONP Casa da Música e do Maestro Sanderling, escalaram com brio a montanha que tinham pela frente. Receava que a empresa pudesse ser demasiado exigente, mas não, a orquestra esteve muito bem controlada e suficientemente precisa para evitar desmoronamentos, foi ora grandiosa ou ora delicada conforme o momento exigia. De parabéns, grande concerto.

Um extracto por Simon Bychlov à frente da Fil. Berlim:



[devo dizer que evitei cuidadosamente a primeira parte do concerto, com a Metamorfose de Paul Hindemith, compositor que de todo dispenso]


quinta-feira, 25 de junho de 2015

συμφωνία - uma sinfonia grega


Acordo, em grego, é  συμφωνία ou seja: sinfonia ! Belíssima palavra, polissémica.

Com tudo o que tem sido o "processo da Grécia", sobretudo desde que o Syriza foi eleito,  já não há outra saída honrosa senão o acordo, queira o FMI ou não. Se estou a favor da perda de soberania dos países em favor de um governo central da União Europeia, é porque quero este forte e firme, na defesa da Europa. Muito bem, abdicamos da fronteira,  da moeda, de muita legislação nossa, de preceitos constituconais até; mas queremos que o poder central europeu seja um factor de unidade, equidade e justiça, e que se afirme e dê cartas no plano internacional.

Portanto, se só o FMI está contra o acordo, por pressões próprias ou alheias, que vá bugiar o FMI. Aqui, manda a Europa. E se tive dúvidas sobre a capacidade do primeiro ministro Tsipras, agora tiro-lhe o chapéu pela resiliência, pela sabedoria tanto em ceder como em ser firme recusando.

Pela Sinfonia da Grécia na Europa, fica aqui uma obra do compositor grego Manolis Kalomiris (1883-1962):

Sinfonia nº1 - Levendia (*)
3º andamento: Festa Helénica à mistura com lamento -- Scherzo. Vivo.
(versão 1920)



(*) Levendia = Valentia !

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O Brahms de Zinman

Empolgante, primorosa, a leitura da 4ª de Brahms que David Zinman apresentou à frente da Orquestra Gulbenkian. Nunca ouvirei melhor. O acumular de tensões quase insuportáveis no 1º andamento, o nítido e espacial destaque das secções da orquestra salientando as diversas linhas melódicas e o incomparável contraponto de Brahms, ou seja - o oposto do irritante empastelamento que a maioria das interpretações não consegue evitar.

No final, curto aplauso, um regresso ao palco, e acabou. Parece que não reconheceram o valor daquele momento único. Ainda há pouco na CM do Porto um concerto medíocre mereceu 4 regressos e um encore. Até nisto há injustiça e incompreensão.

Pois não é que na 1ª parte (concerto para violino de Beethoven) a excelente prestação de orquestra foi praticamente arruinada por um violinista medíocre, apático e inexpressivo - excepto nas cadenzas excessivas e modernaças, em feio contraste com o resto da prestação ? Adivinhe-se quem teve Bravos. Não Zinman - mas o amador Baremboim filho, violinista.

Ficam-me para sempre os 13 minutos geniais do Allegro non troppo da quarta.
À falta de melhor, vai aqui com o grande Carlos Kleiber:

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Chailly e a Gewandhaus triunfam de novo

Depois do sucesso com Beethoven, numa das melhores gravações de 2012, Riccardo Chailly oferece um Mendelssohn energético, firmemente ajudado pela sonoridade da Gewandhaus Leipzig, com que ao longo do ano passado foi executando em concerto.

Irresistível, um gosto:
Mendelssohn, Sinfonia No 3, 'Escocesa'


Riccardo Chailly é para mim, neste momento, o grande maestro da actualidade. Não me venham com destrambilhados Dudameis nem insípidos Baremboins. Nesta simbiose imprevisível de director e orquestra, Chailly transborda de mestria e deixa marca própria como poucos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Adagio, segundo Max Bruch

Da sinfonia nº3 de Max Bruch, não consta que seja obra maior nem sequer popular. Mas o Mestre dos adagios tem aqui um dos seus melhores.

Em youtube e em colunas de plástico não se vai com certeza tirar grande sonoridade. Mas experimentem ouvir isto numa boa aparelhagem. É contagiante, apetece cantar, entusiasma. O crescendo é irresistível, e Bruch mostra nesta peça como sabe jogar com as várias secções orquestrais.

Kölner Philarmoniker, dir. James Conlon
Bruch, Sinfonia nº 3 Op.51 (1882)
Adagio ma non troppo aos 12:16 min. - 22:52

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

cábula para Mahler

O Mezzo publicou no Facebook esta grelha para identificar sinfonias de Mahler:


Se não as conhece de cor aos primeiros acordes, bom proveito :D

quinta-feira, 22 de março de 2012

A 2ª de Mendelssohn, cantata grandiosamente esquecida


------- Série "obras menos conhecidas" --------

Mendelssohn foi mesmo um grande sinfonista, embora seja pouco cultivado como tal. E a Segunda, como mais tarde a de Mahler, é uma obra imensa, coral, com páginas belíssimas e exaltantes.

Conhecida por sinfonia-oratória Lobgesang (1840), sobre textos bíblicos, foi composta para celebrar os 400 anos da invenção da imprensa por Gutenberg, juntamente com a Festgesang Cantata (da qual foi extraído um muito conhecido hino natalício ...)

A sinfonia Lobgesang consiste em três andamentos orquestrais, seguidos de 11 andamentos para côro , solistas e orquestra.

Gravações:
- recomendo a versão de Kurt Masur, com a orquestra da Gewandhaus de Leipzig, a versão mais equilibrada, ao menos tempo contida, sóbria, mas sem poupar pathos e força interpretativa nos tutti. O Côro da Runfunk Leipzig também está muito à altura.
- John Eliot Gardiner, apesar as expectativas, é totalmente anémico, matando a obra com excesso de contenção e sobriedade, e um côro sub-dimensionado.
- Claudio Abbado faz um pastelão mole e desequilibrado que se arrasta penosamente, e há ainda uma versão aceitável de Jun Märkl com a O.S. MDR, mas demasiado pobre de efectivos, rápida e seca.
- Riccardo Chailly é grandioso, messiânico, tudo é majestoso desde a fabulosa Gewandhaus ao coro da Ópera de Leipzig. Precisa, claro, de um bom hi-fi.

Apresento outra razoável escolha, Andrew Litton dirigindo bem a Filarmónica de Bergen.

Eis o excelente adagio:



quinta-feira, 8 de março de 2012

O Mahler tão diferente de Iván Fischer

Que diferente soa ! Uma atenção infinita ao detalhe, uma valorização dos sopros como nunca antes, a enfatização extrema do crescendo/decrescendo frequente em Mahler. Estes dois andamentos são do mais sublime que já ouvi.

Mahler, Sinfonia nº4
3º e 4º andamentos
aos 27:55
Ivan Fischer, Orq. Concertgebouw

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

M & M

Mozart and Mackerras :), no dia M.

Revisitar Mozart em gravações de Sir Charles Mackerras, ficar enfeitiçado pela mágica musicalidade desvendada por sir Charles, mais que ninguém, em Mozart. Irrepetível agógica.

A melhor Haffner de sempre, a melhor Linz de sempre, com a Scottish Chamber Orchestra ! Viva Mozart...





sábado, 31 de dezembro de 2011

Coisas boas de 2011: o ano das Sinfonias

As edições das integrais de Brahms (por Zinman) e Beethoven (por Chailly) marcaram, quanto a mim este 2011 sinfónico, com extraordinárias interpretações que, quanto mais ouço, mais aprecio. Mesmo que outras gravações ainda se possam manter como primeiras escolhas, tenho agora de lamentar alguns comentários menos encomiásticos que aqui fiz - Zinman e Chailly tem sido um caso de "primeiro estranha-se depois entranha-se".

Trata-se de edições verdadeiramente sumptuosas quer na sonoridade orquestral, com duas orquestras em estado de graça, quer na "marca" que dois vultos grandes da direcção orquestral do nosso tempo conseguiram imprimir. Um prazer de escuta sem fim.

Um exemplo misto: Beethoven por Zinman.

E assim acabo 2011. Nem tudo foi mau.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Chegou Chailly !

Beethoven por Riccardo Chailly com a Gewandhaus Orchester Leipzig.

A referência definitiva ? Sem liberdades agógicas nem excessos historicistas, este é um ciclo luxuriosamente clássico: talvez a melhor (e mais entiga, desde 1743 !) grande orquestra da Europa, uma execução vibrante, entusiástica, com gravitas q.b. contrabalançada por alguma leveza e celeridade nos tempi. Na esteira das geniais interpretações de Harnoncourt e Zinman, acompanha com mérito e galhardia Kleiber e Wand - as gravações tradicionais de referência.

E depois, a gravação em estúdio é magnífica de espacialidade.
Uma integral arrebatadora para acarinhar.



As próximas semanas são só-Beethoven!