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domingo, 1 de novembro de 2026

As minhas melhores leituras de 2026


Já fiz a lista de melhores gravações de música clássica, agora são estas as melhores edições que li este ano.

Atlas of improbable places

Aurum Press, 2017

Uma espécie de enciclopédia de locais que são aberrações, estranhos ou tenebrosos, desde ruínas de cidades a bunkers da guerra fria, passando por castelos assombrados. Textos acompanhados de bons mapas e fotos B&W. 

Maryhill Stonehenge, uma aberração perto de Washington

Escolho ao acaso: o Santuário de Madonna della Corona, a norte de Verona. Está encostado a uma alta escarpa sobre o rio Adige, e só permite acesso por uma escadaria escavada na parede rochosa, com 1500 degraus, que demora hora e meia a descer.

Leituras que nunca mais acabam sobre lugares onde nunca irei. 

Gradiva, de Wilhelm Jensen

Leopold Classic Library

Nunca tinha lido o texto completo, e é imparável. Dispenso, ou desprezo, o que Freud possa ter dito, não me interessa. A historinha ficcional de Jensen é que me prende. ´Ver´ uma jovem romana de Pompeia num baixo-relevo renascer na imaginação do protagonista, com vitalidade esfuziante, é um prazer literário e histórico. 

... "it seemed to his judgment unquestionable that he had been utterly foolish and irrational to believe that he had sat with a young Pompeiian girl, who had become more or less corporeally alive again, and this clear view of his madness formed incontestably an essential advance on the return to sound reason; but it was not yet restored entirely to normal condition, for, even if it had occurred to him that Gradiva was only a dead bas-relief, it was also equally beyond doubt that she was still alive."


L'odyssée de l'Odyssée, Cristophe Ono-dit-Bio 

Grasset, 2026

Muito me diverti com esta narrativa de Ono-dit-Biot , escritor e jornalista do Le Point. Sábio e sabedor de muita referência literária, ele faz uma leitura acompanhada da obra de Homero, tornando-a mais viva, realçando o que há de surpreendente, encontrando revelações pouco frequentes, e sempre remetendo para a actualidade (cinema, técnica) ou para literatura posterior onde descobre inesperadas conexões. Nunca me entediou, fez-me reviver a Odisseia com humor e suspense, estou-lhe grato por ter enriquecido a minha relação com o manhoso Ulisses.

Nature Tales for Winter Nights
Colecção de contos, reunidos por Nancy Campbell : Darwin, Defoe, Thoreau, Whitman...

Elliot & Thompson , 2023

"The atractions, fascinations there are in sea and shore! How one dwells on their simplicity, even vacuity! What is it in us, arous’d by those indirections and directions? That spread of waves and gray-white beach, salt, monotonous, senseless — such an entire absence of art, books, talk, elegance — so indescribably comforting, even this winter day — grim, yet so delicate-looking, so spiritual — striking emotional, impalpable depths, subtler than all the poems, paintings, music, I have ever read, seen, heard. (Yet let me be fair, perhaps it is because I have read those poems and heard that music.)."

                                                                                                Walt Whitman

trad: 

As atracções, os fascínios que existem no mar e na praia! Como nos detemos na sua simplicidade, ou mesmo vacuidade! Que há em nós, que é despertado por essas imprecisões e direcções? Aquela extensão de vagas e de areia branco-cinza, salgada, monótona, sem sentido - uma total ausência de arte, livros, conversas, elegância - um conforto tão indizível, mesmo neste dia de inverno - sombrio, mas de aparência tão delicada, tão espiritual -  tocando profundezas emocionais, impalpáveis, mais subtis do que todos os poemas, pinturas, músicas que já li, vi, ouvi. (Mas pensando melhor, talvez seja justamente por eu ter lido esses poemas e ouvido essa música !)


E finalmente, o indispensável, leal amigo e sábio ajudante, o 

Larousse 2027 





sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A bela Basileia, dos Museus e da Kammerorchester, das fontes e do 'Fasnacht'



Basileia, em 2014, foi uma das surpresas das nossas viagens europeias. Partimos algo desconfiados, mas ao terceiro dia já estávamos rendidos: bem melhor que Zurique no sossego e nos cuidados urbanos, não fica atrás (pelo contrário) em Museus nem na Catedral, a Câmara é bem mais rica de arquitectura, tem duas frentes de rio muito mais bonitas que as do Arne, um canal a deambular pelas vielas na parte antiga, as melhores salsichas que já comi - só o café a 3€ - há 12 anos ! - é que tinha de ser um duplo partilhado... Acabou por ser uma das nossas melhores viagens pela Europa, e uma das minhas cidades favoritas para viver.

A escolha do Hotel foi perfeita. Hotel Victoria, frente à Bahnhof (Praça da Estação), e frente a um hub de trams (elétricos) para toda a cidade.


E o Hotel tinha decoração Art Nouveau !



Um dos nossos melhores hotéis de sempre.

Na praça da Estação, várias linhas de transporte; a que vai para Barfüsserplatz foi das mais usadas.

A primeira menção escrita a Basileia é do século III, referindo uma fortificação em Basilia. O ponto alto foi no Renascimento, quando Erasmo aqui se instalou; quase se pode dizer que o Humanismo nasceu aqui. Agora ofereceu a si própria e à Europa a extraordinária Orquestra de Câmara de Basileia, a Kammerorchester Basel, que tem dado nas vistas com gravações excepcionais do período barroco, tem aliás em curso o projecto Haydn 2032 com Giovanni Antonini. 



Basileia está próxima de Augusta Raurica, cidade Romana que é a maior e mais bem conservada da Europa Central. Basileia está nas margens do Reno, o grande e mítico rio germânico, numa encruzilhada de estradas, uma posição estratégica preciosa. É cidade do Humanismo desde Erasmo, das Artes com dois museus magníficos, e finalmente é a cidade do Basler Fasnacht, um carnaval de elevado nível cultural, diferente de todos os outros, nocturno, surpreendentemente calmo.

Grossbasel

Há em Basileia dois núcleos antigos: Grossbasel em torno da Catedral e da Câmara, e Kleinbasel na margem Norte, ligadas pela Mittlere Brücke (a ponte do meio). 
Na Grossbasel está a Rathaus, a Câmara de Basileia, com a sua fachada avermelhada e frescos, e as ruas por trás da Marktplatz que conduzem à Basler Münster (catedral). Prédios medievais coloridos, e no rés do chão padarias e confeitarias. A Kleinbasel é um bairro mais pacato, residencial e académico, que convida ao lazer e oferece o melhor passeio à beira rio.

1 - A Ponte,  2 - a Catedral, 3 - a Câmara; salientei também o Museu e o bairro St. Alban.

Augustinergasse, uma das ruas estreitas na colina da Catedral.

Por onde começar? Logo que saímos do Hotel fomos directos à Praça da Catedral, a 

Münsterplatz


O centro histórico de Basileia, onde decorrem eventos culturais.



A Praça deve datar dos séculos  XIV e XV, tal como a Catedral, que começara por ser românica cerca de 1220 e a acabou gótica desde 1270; mas em 1356 um forte abalo de terra destruiu as torres e as abóbadas, cujo restauro em 1363 acabou por trazer muitas alterações já no gótico tardio, até 1500. Erasmo está aqui sepultado.


É uma larga praça, que ora está vazia, ora se preenche com feiras e todo o tipo de actividades de lazer - recentemente foi aqui instalada uma grande roda giratória panorâmica. 


A animação a que assistimos foi no dia de Carnaval, pois é aqui que se concentram as famosas Lanternas do Basler Fasnacht, num espectáculo nocturno único no mundo.


Foi uma das razões porque fomos a Basileia em Março.


O desfile Morgenstreich dos grupos de gaiteiros nas flautas (que efeito faz na desfilada de noite !) ou as bandas de trompas, e outras de tambores... 
[no final do post inseri um vídeo do cortejo nocturno]


Uma noite única, onde a festa profana se une ao templo sagrado num enlace nocturno admirável. A Suíça é um mundo, cultural e historicamente. 

Nas ruelas de acesso não faltam recantos pitorescos, como este na bonita Rittergasse:



Mas vamos continuar pela Grossbasel, seguindo em direcção à Marktplatz e à sua Rathaus. O centro antigo vive sobretudo na rua Gemsberg com a sua Gemsbergbrunen (fonte) e adjacentes.


A Fonte de Gemsberg está no centro da cidade antiga, e é uma das muitas fontes deste tipo em Basileia. É de base octogonal, foi instalada no século XIX. 




A Gemsberg e a Heuberg fazem parte de um labirinto de ruas íngremes no bairro mais turístico e comercial de Basileia - o Spalenberg.


A praça cívica de Basileia também é um espaço vazio para o mercado - em particular o do Natal - dominado pela reluzente e gritante Câmara de calcário escarlate, dourados e frescos.

Construída entre 1500 e 1600 , embora a torre as pinturas sejam mais tardias.

Embora começada em estilo gótico, a maioria dos acrescentos são renascentistas ou neo-góticos.

E deste lado não há mais que ver.



Deixámos a outra margem para o dia seguinte, fomos de tram para a Barfüsserplatz direitinhos ao grande Museu de Arte de Basileia. 

Kunstmuseum Basel


Mesmo antes de passear pelas ruas, era obrigatória a visita a um dos Museus mais ricos da Arte Europeia. Íamos lá em primeiro lugar ver os Paul Kleee, mas há tanta arte mais...

Modgliani

Kandinsky, Pequenos Mundos, II

Félix Valloton, La Mare (Honfleur)

Paul Klee, Uma Página do Livro das Cidades (sons estruturados)

Paul Klee, Som Antigo (Alter Klang)

" ... uma estrutura modular que marca o ritmo, uma correlação entre módulos que marca a cadência, e campos de côr que são ilustração da qualidade e intensidade do som. Pode ser uma sinfonia, pode ser um acorde a vários instrumentos..."

E havia: Matisse, Renoir, Pissarro, Picasso, Cézanne, Chagall, Van Gogh, Vieira da Silva...

Kleinbasel

A parte histórica mais atractiva da 'outra banda' começa na rua Lindenberg (pequeno círculo), e desce a Rheingasse até à Oberer Rheinweg.


Na manhã a seguir ao Carnaval, foi para lá que seguimos no tram. Um dos locais mais pitorescos é onde a Lindenberg termina e começa a Rheingasse, uma praceta triangular decorada com uma única tília.


Neste recanto tínhamos descido a acompanhar um dos cortejos de flautistas e lanternas. A animação agora era de feriado.



É na casa da esquina que está a caixa de correio mais famosa de Melchior Berri:

Há 6 destas caixas em Basileia, sempre em ferro, com um pombo-correio, em estilo Arte Nova, de 1844/45.

Descendo toda rua - e vale a pena  - vamos ter à Oberer Rheinweg, o passeio marginal à beira-Reno com vista para a Catedral.



Ainda havia sinais da noite anterior: a famosa Fonte do Basilisco estava... florida.


Basiliscos há muitos, em Basileia, é uma mascote desde 1440 !

A Fundação Beyeler


De eléctrico desde a nossa estação frente ao Hotel, fizemos a mais longa viagem; a Fundação Beyeler fica na Baselstrasse, em Riehen, já na periferia de Basileia. 


Esta foi uma surpresa e tanto. Mesmo já tendo ouvido falar, não esperava deste museu o impacto do seu belo enquadramento e arquitectura.


O edifício mal se vê no vasto espaço do jardim; paredes e colunas de mármore avermelhado alternam com superfícies vidradas, tudo rodeado de um espelho de água e relvados, de tal forma que o edifício parece pousado sobre água.


Giacometti, claro, junto com Paul Klee são os dois maiores suíços nas Artes.

As exposições temporárias eram obras de Odilon Redon e Anselm Kiefer. 



No jardim há esculturas, como este grande mobile de Alexander Calder.


Foi uma tarde no paraíso. Podia viver em Basileia, pensei, e penso ainda.

Na cafetaria, pode escolher este, ou esta, crème brûlée fabulosa.


Um dos videos que fizémos ao início da madrugada do Fasnacht: