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domingo, 28 de junho de 2026

W. B. Yeats, partir para Innisfree ! (traduzido)


Loch Gile

Traduzir o intraduzível, poemas, mania minha. Como já disse uma vez, só o faço porque fico a gostar ainda mais do original, a conhecê-lo melhor e a sentir que foi escrito, também, para mim.

Este é um daqueles Yeats que nunca teve uma tradução decente, seja em francês, espanhol ou português. É preciso sempre recorrer a alterações radicais de forma a manter uma linguagem minimamente coerente; tentei que, sendo radicais, mantivessem a essência do que (penso) o poeta quis dizer. Pareceu-me que manter a rima era essencial; mas atropelar a métrica, minimamente aqui e ali, foi a consequência, espero ter mantido um ritmo aceitável. Horas e horas à volta de Yeats.

Na Irlanda do período enegrecido e enevoado da primeira indústria, a utopia de regresso à Natureza pristina que nunca esquecemos, como um filho pródigo ao seu lar. Uma tentação da meia-idade.


W. B. Yeats, The Lake Isle of Innisfree
[tradução minha]

Vou levantar-me já e partir, partir para Innisfree,

Onde hei-de erguer uma cabana, de vime e de madeira,

Aqui nove renques de feijão, e uma colmeia de mel ali,

Irei viver a sós, eu e as abelhas zumbindo na clareira.


Lá terei sossego, pois a paz vem descendo devagar,

Desce dos véus da manhã e pousa onde os grilos cantam.

Lá a meia-noite cintila, o meio-dia é urze roxa a fulgurar,

E a tarde cheia de asas dos pintarroxos que voltam. 


Vou levantar-me já e partir, pois noite e dia 

Ouço as águas do lago, nas margens de leve a chapinar;            

Andando eu na estrada ou em cinzenta rodovia, 

No mais fundo do coração as ouço ecoar.

                                                                                        1889


Lake Isle of Innisfree


domingo, 10 de maio de 2026

Coleridge, 'Frost at Midnight' (Geada à Meia-noite), intemporal


É um poema bem conhecido de Samuel Coleridge (1772-1834) poeta romântico, contemporâneo da máquina a vapor e do início da industrialização, antecessor de Thomas Hardy (1840-1928). Viveu o início da Pax Britannica (1815-1914) que precedeu a era victoriana, em que a Europa Ocidental esteve em paz quase um século, período de prosperidade e de florescimento das artes. Isso favoreceu a esperança no futuro, uma mentalidade positiva romântica - o completo inverso de hoje - que se reflecte no desejo do regresso à Natureza, uma Natureza deificada, como Colerige conheceu no Lake District.

Referi Thomas Hardy porque ele admirava Coleridge e em particular este poema, que o emocionava intensamente. Soube isso com a leitura de Winter, o livrinho de    que acabei de ler.

Há imensos estudos sobre o significado de Frost at Midnight, de 1798, fáceis de encontrar na net. O que não há é boas traduções, pelo menos em português ou espanhol (castelhano). Aventurei-me , esforcei-me, e este é o resultado. Durante a tradução, curiosamente, fiquei a gostar ainda mais do poema. Genial. Mesmo que invoque Deus, fá-lo numa perspectiva neo-platónica, menos mal. 

Nota: a palavra 'stranger' (que traduzi como estranho, visitante) é uma referência ao termo popular que designa a luzita azul quase extinta sobre as brasas, prenúncio de alguém ainda desconhecido que está a chegar.


Geada à Meia-noite   [Frost at Midnight]

A Geada prossegue no seu ofício secreto

sem ajuda de vento algum. O canto da coruja

soou alto — e ouçam! Tão alto outra vez.

Os residentes da minha casita, que descansam,

deixaram-me nesta solidão, que propicia 

mais abstrusas reflexões; excepto que, ao meu lado

a minha criança de berço dormita serenamente.

Mas que calma ! Tanta calma que até perturba

e irrita o pensamento, com essa estranha

e extrema quietude. Mar, colina e bosque,

que povoada aldeia ! Mar, e colina e bosque,

com todos os múltiplos cursos da vida,

inaudíveis como sonhos ! A ténue chama azul

paira sobre as brasas da lareira, já não treme;

só a fina película, que dançava sobre a grelha,

ainda ali trepida, única coisa palpitante.

E penso: a sua agitação neste sossegado ambiente

dá-lhe uma leve afinidade comigo, que vivo,

tornando-a uma forma companheira,

cujos míseros tremores e caprichos a mente ociosa

interpreta conforme seus humores, a toda a volta

buscando eco ou espelho de si mesmo, 

e faz do Pensamento brincadeira.


                        Mas, ah! Quantas vezes,

quantas vezes, na escola, de mente crédula 

e cheia de presságios, eu observei as grades

à procura daquele trémulo 'visitante' ! E tantas vezes 

sem fechar as pálpebras, eu já sonhava

com a doce terra onde nasci, e a velha torre da igreja

cujos sinos, única música dos pobres, soavam

da manhã até à noite, todo o dia de festa ao sol quente,

tão doces que me inquietavam e assombravam

com um prazer selvagem, soando aos meus ouvidos

como sons articulados de algo que está para vir !

Assim olhava eu, até que esses sonhos suaves

embalavam o meu sono, e o sono prolongava os sonhos!

E sntão eu ruminava toda a manhã seguinte

receoso diante do rosto severo do preceptor, de olhar fixo

a fingir atenção ao livro que flutuava.

Excepto se a porta se entreabria e eu podia lançar

uma espreitadela furtiva, o coração em sobressalto,

pois ainda esperava ver o rosto do 'estranho',

um conterrâneo, ou uma tia, ou uma irmã mais adorada,

parceira de folias quando ainda vestíamos de igual !


            Querida criança, que dormes no berço a meu lado,

teu suave respirar ouço nesta calma profunda,

preenchendo os intercalados espaços

e as pausas momentâneas do pensamento !

Meu bébé, tão bonito ! que o meu coração vibra

com terna alegria, só de te contemplar,

e pensar que hás de aprender tão vastos saberes,

e em outras distantes paisagens ! Pois eu fui educado

na grande cidade, fechado em claustros escuros,

e nada de belo via senão o céu e as estrelas.

Mas tu, meu filho! hás-de vaguear como uma brisa

pelos lagos e as praias de areia, sob as escarpas

de antigas montanhas, e sob as nuvens

que espelham no seu bojo os lagos e as praias

e as montanhas: assim, verás e ouvirás

as formas adoráveis e os sons inteligíveis

daquela língua eterna, a que o teu Deus

pronuncia, ele que desde a eternidade proclama

estar em tudo, e todas as coisas n’ele.

Grande Professor universal ! Ele dará forma

ao teu espírito, e ao dar, o fará querer mais.


       Deste modo, todas as estações te serão doces,

quer o Verão ao revestir a terra

de verdura, ou o tordo ao pousar e cantar

entre tufos de neve sobre o galho seco

na macieira coberta de musgo, enquanto palha fria

fumega derretida ao sol; quer as gotas de orvalho caiam

mal se ouvindo entre os transes do trovão,

ou ainda o ofício secreto da geada

as pendure em agulhas de gelo, silenciosas,

brilhando serenas à serena Lua.

                                                                              Samuel Taylor Coleridge

                                                                              [tradução minha]

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Este poema faz parte de uma colectânea intitulada "Conversation Poems"

sábado, 15 de março de 2025

'Dedicação', de Robert a Clara Schumann, canta Siân Griffiths , e mais


Widmung , de Robert Schumann
Siân Griffiths, mezzo-soprano e Florent Mourier, piano


          Tu minha alma, tu meu coração
          Tu minha alegria, tu minha dor,
          Tu meu mundo, onde eu vivo,
          Tu meu céu, onde flutuo,
          Ó meu túmulo, onde verti
          Com ternura a minha dor.
          Tu és repouso, tu és paz,
          Foste para mim dádiva do céu,
          Que tu me ames, dá-me virtude
          O teu olhar transfigurou-me
          Elevas-me com amor acima de mim mesmo,
          Meu espírito bom, meu melhor Eu!

Widmung é um famoso lied de Robert Schumann, uma dedicatória apaixonada à sua mulher Clara. Devia ter boas razões, ele, percebo isso quando ouço por exemplo este Ich stand in dunklen Träumen  que Clara compôs para um poema de Heinrich Heine:

Katharina Konradi, soprano, com Eric Schneider, pianoano

Clara Wieck-Schumann desencadeava paixões pela sua sensibilidade de exímia pianista, e depois de Robert não lhe faltaram amigos e admiradores, entre eles Paganini e Brahms. Os seus concertos eram aplaudidos entusiasticamente, e uma récita com o concerto nº 4 de Beethoven chegou a inspirar um poema "Clara Wieck und Beethoven"



A acabar, uma interpretação diferente (masculina) da Widmung:   

Andrew Goodwin, tenor, e Daniel de Borah, piano.