domingo, 10 de maio de 2026

Coleridge, 'Frost at Midnight' (Geada à Meia-noite), intemporal


É um poema bem conhecido de Samuel Coleridge (1772-1834) poeta romântico, contemporâneo da máquina a vapor e do início da industrialização, antecessor de Thomas Hardy (1840-1928). Viveu o início da Pax Britannica (1815-1914) que precedeu a era victoriana, em que a Europa Ocidental esteve em paz quase um século, período de prosperidade e de florescimento das artes. Isso favoreceu a esperança no futuro, uma mentalidade positiva romântica - o completo inverso de hoje - que se reflecte no desejo do regresso à Natureza, uma Natureza deificada, como Colerige conheceu no Lake District.

Referi Thomas Hardy porque ele admirava Coleridge e em particular este poema, que o emocionava intensamente. Soube isso com a leitura de Winter, o livrinho de    que acabei de ler.

Há imensos estudos sobre o significado de Frost at Midnight, de 1798, fáceis de encontrar na net. O que não há é boas traduções, pelo menos em português ou espanhol (castelhano). Aventurei-me , esforcei-me, e este é o resultado. Durante a tradução, curiosamente, fiquei a gostar ainda mais do poema. Genial. Mesmo que invoque Deus, fá-lo numa perspectiva neo-platónica, menos mal. 

Nota: a palavra 'stranger' (que traduzi como estranho, visitante) é uma referência ao termo popular que designa a luzita azul quase extinta sobre as brasas, prenúncio de alguém ainda desconhecido que está a chegar.


Geada à Meia-noite   [Frost at Midnight]

A Geada prossegue no seu ofício secreto

sem ajuda de vento algum. O canto da coruja

soou alto — e ouçam! Tão alto outra vez.

Os residentes da minha casita, que descansam,

deixaram-me nesta solidão, que propicia 

mais abstrusas reflexões; excepto que, ao meu lado

a minha criança de berço dormita serenamente.

Mas que calma ! Tanta calma que até perturba

e irrita o pensamento, com essa estranha

e extrema quietude. Mar, colina e bosque,

que povoada aldeia ! Mar, e colina e bosque,

com todos os múltiplos cursos da vida,

inaudíveis como sonhos ! A ténue chama azul

paira sobre as brasas da lareira, já não treme;

só a fina película, que dançava sobre a grelha,

ainda ali trepida, única coisa palpitante.

E penso: a sua agitação neste sossegado ambiente

dá-lhe uma leve afinidade comigo, que vivo,

tornando-a uma forma companheira,

cujos míseros tremores e caprichos a mente ociosa

interpreta conforme seus humores, a toda a volta

buscando eco ou espelho de si mesmo, 

e faz do Pensamento brincadeira.


                        Mas, ah! Quantas vezes,

quantas vezes, na escola, de mente crédula 

e cheia de presságios, eu observei as grades

à procura daquele trémulo 'visitante' ! E tantas vezes 

sem fechar as pálpebras, eu já sonhava

com a doce terra onde nasci, e a velha torre da igreja

cujos sinos, única música dos pobres, soavam

da manhã até à noite, todo o dia de festa ao sol quente,

tão doces que me inquietavam e assombravam

com um prazer selvagem, soando aos meus ouvidos

como sons articulados de algo que está para vir !

Assim olhava eu, até que esses sonhos suaves

embalavam o meu sono, e o sono prolongava os sonhos!

E sntão eu ruminava toda a manhã seguinte

receoso diante do rosto severo do preceptor, de olhar fixo

a fingir atenção ao livro que flutuava.

Excepto se a porta se entreabria e eu podia lançar

uma espreitadela furtiva, o coração em sobressalto,

pois ainda esperava ver o rosto do 'estranho',

um conterrâneo, ou uma tia, ou uma irmã mais adorada,

parceira de folias quando ainda vestíamos de igual !


            Querida criança, que dormes no berço a meu lado,

teu suave respirar ouço nesta calma profunda,

preenchendo os intercalados espaços

e as pausas momentâneas do pensamento !

Meu bébé, tão bonito ! que o meu coração vibra

com terna alegria, só de te contemplar,

e pensar que hás de aprender tão vastos saberes,

e em outras distantes paisagens ! Pois eu fui educado

na grande cidade, fechado em claustros escuros,

e nada de belo via senão o céu e as estrelas.

Mas tu, meu filho! hás-de vaguear como uma brisa

pelos lagos e as praias de areia, sob as escarpas

de antigas montanhas, e sob as nuvens

que espelham no seu bojo os lagos e as praias

e as montanhas: assim, verás e ouvirás

as formas adoráveis e os sons inteligíveis

daquela língua eterna, a que o teu Deus

pronuncia, ele que desde a eternidade proclama

estar em tudo, e todas as coisas n’ele.

Grande Professor universal ! Ele dará forma

ao teu espírito, e ao dar, o fará querer mais.


       Deste modo, todas as estações te serão doces,

quer o Verão ao revestir a terra

de verdura, ou o tordo ao pousar e cantar

entre tufos de neve sobre o galho seco

na macieira coberta de musgo, enquanto palha fria

fumega derretida ao sol; quer as gotas de orvalho caiam

mal se ouvindo entre os transes do trovão,

ou ainda o ofício secreto da geada

as pendure em agulhas de gelo, silenciosas,

brilhando serenas à serena Lua.

                                                                              Samuel Taylor Coleridge

                                                                              [tradução minha]

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Este poema faz parte de uma colectânea intitulada "Conversation Poems"

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