quinta-feira, 3 de setembro de 2020

No Museu Britânico, dez assombros e uma galeria


Que falta sinto de viagens com Museu no roteiro...

Há sítios com os 10-must-see de muita coisa, museus incluídos. O Museu Britânico não é um mundo, é um Universo, mas senti-me tentado a fazer a mostra dos meus 'dez mais', como statement e como relato de uma visita guiada pelo meu gosto...  dez peças de assombrar, por onde agora naveguei de novo como se lá estivesse.

1. O Standard (padrão) de Ur


Proveniente da Suméria, no 3º milénio A.C.. Uma caixa de madeira oca, com as faces laterais embutidas com um mosaico de conchas, calcário vermelho e lápis-lazúli. Lembra outra peça do Museu que já qui referi, o magnífico Jogo Real de Ur.


Foi encontrado num túmulo real em Ur, a capital Suméria; uma face descreve cenas de paz, a outra cenas de guerra, numa preciosa banda desenhada com mais de 4000 anos.

2. O Selo cilíndrico de Dario
    Séc. VI - V AC.


Encontrado em Tebas, Egipto, o selo real sumério tem a forma de um cilindro em quartzo de Calcedónia, em baixo relevo negativo, que ao rodar sobre uma placa de barro mole imprime uma cena de caça aos leões em carro puxado a cavalos entre palmeiras, sob a protecção de um deus.


À direita, imprime uma inscrição cuneiforme: "Eu sou Dario o Grande Rei", em três línguas - persa, elamita e babilónio. No carro, de pé, Dario I aponta o seu arco de caça.


3. O Vaso de Sophilos.
    Atenas, 580–570 A.C.


Taça festiva de vinho com pé, com a inscrição 'fabricado por Sophilos'. Está decorado com cenas da mitologia heróica grega.



4. Pedra da Roseta.
     196 A.C., Egipto

Não podia aqui faltar - o milagroso dicionário trilingue, que converte escrita hieroglífica em texto demótico do Egipto e Grego antigo. Uma daquelas descobertas para a eternidade.



5. Gargantilha (torque) Céltica
    ca. 75 A.C.

Este colar céltico tem um quilo de ouro ! Data da idade do Ferro, e foi encontrado em Snettishham, Norfolk. É uma obra soberba, da mais requintada arte de ourives.



6. Vaso romano 'Portland'.
    Século I (primeiros anos da Era, 1-25).


De uma beleza deslumbrante, este vaso romano de vidro azul com camafeu branco em baixo relevo é o mais famoso do género.

 

Começou por ser conhecido como Vaso Barberini em Itália, por ter pertencido à família da Toscânia. Compras sucessivas acabaram no 3º duque de Portland: o vaso mudou de nome e de casa; desde então inspirou o célebre Wedgwood e outros a fabricar camafeu de vidro.



7. Vénus no banho, ou Vénus 'de Lely'.
    Roma, século II

Vénus agachada no banho, escultura em mármore, versão Romana de uma estátua helenística da deusa Afrodite.


Com um olhar frágil e intimidado, parece que se sente espreitada durante o banho. Absolutamente... ϟ❊ϟ!!⋆⋆⋆!


[Lely foi um pintor inglês do séc. XVII, um dos proprietários da escultura.]

8. O Xadrez de Lewis.
    Séc. XII
aqui fiz um post sobre este jogo de xadrez Viking.

Esculpidas em marfim de morsa e osso de baleia, estas peças não foram ainda suficientemente bem atribuídas, mas está aceite que tenham provindo da Noruega para a Escócia, já no declínio do período Viking. Foram encontradas numa pequena caixa enterrada, como se fosse um tesouro, na ilha de Lewis, Hébridas.



9. Trompa tibetana de concha.
    Séc. XVIII - XIX

Deve produzir um som portentoso e exótico, esta trompa baseada numa grande concha e hiper-decorada com cobre, esmalte e pedras preciosas.

No estandarte há um dragão ricamente esculpido.


10. O próprio Museu Britânico.


Foi o primeiro  Museu Nacional no mundo, aberto ao público em 1759 com a colecção do irlandês Hans Sloane. O edificio original neoclássico, com uma frente de 44 colunas iónicas,  é de Robert Smirke, mas muitos outros se foram adicionando ao longo dos anos.

'Reading Room', a sala de leitura circular adicionada em 1854-57.

Entre as galerias, destaco a Enllghtenment Gallery, onde se exibe documentação e objectos ligados ao Iluminismo, o início da era do Progreso. Manuscritos, instrumentos, mecanismos, e livros, muitos livros.


Um monumental vaso de mármore está de guarda à entrada - o Vaso Piranesi. Meticulosamente reconstruído no século XVIII pelo arquitecto e restaurador Piranesi a partir de milhares de fragmentos romanos, encontrados na Villa Adriana de Tivoli - o original dataria do do séc. II.


A galeria foi construída em 1828 como biblioteca de George III, e exibe também a colecção original do fundador Hans Sloane, dos séculos XVIII e XIX - desde peças antigas de variadas origens a mecanismos de precisão, espécimes de História Natural e várias esculturas.

Fauno de Duquesnoy, séc XVII (barroco)

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Homenagem prestada a um dos melhores Museus do mundo, o Brit. Deve ser também um dos posts mais bonitos de sempre, aqui no Livro. Bom fim de Verão.




4 comentários:

SilverTree disse...

Que post maravilhoso. Entre peças que também conheço e que é bom revisitar, e algumas em que ainda não reparei, e que é bom ficar a conhecer, como sempre é um gosto andar por aqui.

É impossível não falar do xadrez de Lewis: mesmo entre os visitantes mais desatentos ou desinteressados, há sempre alguém apanhado de surpresa pelas peças, e que acaba encantado e a sorrir, e isso é muito bom. E gostei muito que tenha incluído o próprio museu na sua escolha. Gosto tanto dos museus ingleses também por isso mesmo, por serem espaços com personalidade, que são obras por direito próprio. Acho que isso pode fazer diferença na maneira como se vive o próprio museu.
E é a mesma razão pela qual gosto de um par de museus pequeninos em Lisboa, bastante insignificantes no seu espólio, mas que mantêm essa traça antiga, de quando a arquitectura e a sua relação com o interior era pensada de maneira radicalmente diferente. Estão conservados assim por pura inércia e inépcia das entidades que os tutelam, e isso infelizmente implica também que estão esquecidos e degradados, mas mesmo assim há uma parte de mim que se congratula por ainda não terem sido engolidos por noções de arquitectura, "serviço público" e pedagogia pelas quais não tenho simpatia nenhuma...

Voltando ao Museu Britânico, eu gosto muito da Biblioteca de Ashurbanipal (uma dos meus "jogos" obrigatórios nas viagens é "coleccionar" Bibliotecas dignas de nota),e da Enlightenment Gallery. Gostava tanto de conseguir espreitar a Sala de Leitura!...

Não me lembro se o Mário já o referiu em algum dos seus posts ou não, mas eu gosto bastante do canal de Youtube do Museu. Há uma série de vídeos do Irving Finkel dedicados ao Jogo Real de Ur que são uma delícia. O canal do V&A também tem algumas pérolas, se se perder algum tempo, especialmente entre a série "How was it made?". Exploram também um conceito que me fascinou, e que são os "Living National Treasures" Japoneses. Uma lição que devia ser aprendida por mais países...

Mário R. Gonçalves disse...

Sim, Inês, vi tudo do Irving Finkel, que além de sábio é um pândego :D
Do V&A ainda não, vou procurar.
No Porto, sinto-me bem, em casa, de certa maneira num "warm hollow", no Museu Soares dos Reis, sobretudo as salas do Naturalismo português no 1º piso - Silva Porto, Marques de Oliveira, Henrique Pousão, Aurélia de Sousa e António Carneiro. Tantas obras bonitas para navegarmos em silêncio entre elas.

Devemos ser dos raros tugas a exibir um ar feliz frente aos Lewis Chessmen.

Fanático_Um disse...

Também partilho da opinião - post fantástico! Já visitei o Museu britânico várias vezes, é sempre deslumbrante, mas várias peças que aqui destaca e ilustra passaram-me despercebidas naquela imensidão de "coisas" deslumbrantes. Na minha próxima visita a Londres (quando será que a pandemia o permitirá??) , seguramente que visitarei novamente o Museu Britânico (e a National Gallery!) e vou tentar olhar com olhos de ver para estas peças que aqui nos oferece e deslumbra.

Mário R. Gonçalves disse...

Que seja em breve, Fanático_Um, que seja em breve.