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domingo, 1 de dezembro de 2024

- Restoring Intelectual Day - : audição comparada de "As steals the morn"


Este é um dos mais bem conseguidos duetos de Händel, com que termina a ode "L'Allegro, Il Penseroso ed Il Moderato" (O Alegre, o Pensativo e o Moderado), de 1740, cujo libretto em inglês foi inspirado em Milton e em Shakespeare (The Tempest).

Duas das melhores gravações em vídeo:

Kate Royal e Ian Bostridge, com a Freiburg Barock, dirige Stephen Devine - talvez o melhor duo.
Juliet Papadopoulos e Michaël Hudetz, dirige Masaaki Suzuki.

Texto do dueto:   

Il Moderato:

    As steals the morn upon the night,
    And melts the shades away:
    So Truth does Fancy’s charm dissolve,
    And rising Reason puts to flight
    The fumes that did the mind involve,
    Restoring intellectual day.

                                  Assim como rompe a manhã
                                  E afasta as sombras da noite,
                                  A Verdade dissolve a Fantasia,
                                  E a ascendente Razão afugenta 
                                  Os vapores que a mente envolviam,
                                  Restaurando o intelectual dia.

A ode pastoral L’Allegro, il Penseroso ed il Moderato foi composta por Händel em apenas três semanas, no início de 1740. O texto das duas primeiras partes – L’Allegro (o homem alegre, impulsivo) e Il Penseroso (o homem pensativo, introspectivo) – foi adaptado de poemas de John Milton.


Händel, no entanto, quis uma terceira parte positiva que desse à obra um “fecho moral”. Encomendou-a ao seu libretista Charles Jennens: Il Moderato (o homem moderado, equilibrado), é uma superação ou sublimação dos dois primeiros temperamentos.

A letra do dueto que encerra a obra, As Steals the Morn, é uma adaptação do Acto V da peça A Tempestade, de William Shakespeare:

      And as the morning steals upon the night,
      Melting the darkness, so their rising senses
      Begin to chase the ignorant fumes that mantle
      Their clearer reason.

Deixo aqui também um pequeno filme nocturno da BBC, em que Rosa Mannion e  Mark Ansley cantam o dueto, acompanhados por Harry Bicket a dirigir a Orchestra of the Age of Enlightenment:

 

Quanto a CD recomendado, o melhor é sem dúvida o de Lucy Crowe e Mark Padmore, fabuloso par, com o English Consort dirigido com mão de mestre por Andrew Manze:


 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"M'appari" da ópera 'Martha'


Uma breve ária romântica daquelas em que os tenores puxam pelo aplauso.
Do compositor alemão Friedrich von Flotow e das suas muitas óperas - basicamete pastiches melodramático/cómicos franceses do tipo Offenbach - só não foi esquecida esta ária popular da ópera Martha, raramente interpretada.

A acção passa-se em Richmond, Inglaterra, no ano de 1710. Duas jovens aristocratas aborrecidos da vida decidem procurar animação numa feira rural, disfarçadas de criadas, Marta e Julia. Mas Lyonel, um camponês, deslumbra-se com Marta e contrata-a para o seu serviço; Martha será mesmo obrigada, legalmente, a servi-lo como criada por um ano. Entretanto Lyonel perde-se de amores pela servente, ela escapa-se de noite pela janela, e é no seu desespero que Lyonel canta a ária 'M'appari'. Texto xaroposo, mas vale a pena ouvir.

Para além dos óbvios del Monaco, Lanza, Caruso, Pavarotti, Domingos, Alagna, escolho esta interpretação de Vittorio Grigolo:

          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volò
          Mi ferì, mi invaghì
          Quell'angelica beltà
          Sculta in cor dall'amor
          Cancellarsi non potrà
          Il pensier di poter
          Palpitar con lei d'amor
          Può sopir il martir
          Che m'affanna
          E strazia il cor
          E strazia il cor
          M'appari tutto amor
          Il mio sguardo l'incontrò
          Bella si che il mio cor
          Ansioso a lei volo.

          Marta, Marta, tu sparisti
          E il mio corcol tuo n'ando!
          Tu la pace mi rapisti,
          Di dolor io moriro.
          
Ao vivo, Marcelo Alvarez, entre os melhores:

A ópera Martha tem um happy end meloso do tipo casaram e foram muito felizes, que deve ter ajudado ao grande sucesso popular na época, e a que rapidamente tenha sido esquecida. Nem a abertura de fanfarra se salva.

À maneira antiga, lembremos o mítico Beniamino Gigli, em 1959, ainda havia público para Martha:


Tu la pace mi rapisti !
Bra'vo!

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

' Ah! ergermi dove mortal, mortal non va! ', canta Marcelo Álvarez


Inesquecível, esta interpretação do tenor suíço Marcelo Álvarez de "La mia letizia infondere vorrei" (I Lombardi, Verdi), quer dizer, 'A minha alegria quero insuflar'.


Tante armonie nell'etere
quanti pianeti egli ha:
ah! ir seco al cielo, ed ergermi
dove mortal, mortal non va !


Ninguém mais foi capaz de tal brilhantismo. Muitas vezes cantou esta aria ao vivo Luciano Pavarotti, mas nunca assim, com esta convicção.

Plácido Domingo ainda se aproxima, mas nem esse:

segunda-feira, 13 de abril de 2020

'Cosi potessi anch'io' de Vivaldi em triplo comparativo; e um extra.


assim pudesse eu também ...
[Alcina]

Esta ária magistral de Vivaldi faz parte da ópera Orlando Furioso, estreada em 1727; era frequente um compositor reutilizar composições suas em diferentes obras, e Vivaldi assim fez. Ouvi Cosi potessi anch'io pela primeira vez num programa da Antena 2 que muitos conhecem - o Questões de Moral de Joel Costa - na versão cantada por Lucia Valentini Terrani, com I solisti Veneti, direcção de Claudio Scimone:



Così potessi anch'io
Goder coll'idol mio
La pace, che trovar non può Il mio cor.

Ma unito alla mia stella,
E perfida, e rubella
Sol tormenti minaccia il dio d'amor.


Esta interpretação portentosa marcou-me tanto que dificilmente me contento com outra.

A primeira alternativa é Sonia Prina, com os Venice Baroque, numa versão mais conforme à renovação 'autêntica' do barroco - ganha precisão e clareza mas perde carga dramática, e o agrupamento não é nenhuma perfeição.



Jenifer Larmore, muito aclamada na récita integral de 2011 no Théatre des Champs Elysées, canta algo insegura e com excesso de vibrato. [ária aos 1 : 04]


O Orlando Furioso é uma das grandes óperas do barroco italiano, sobre texto de Ariosto; estreada sem sucesso em 1727, é um longo estudo de amores contrariados e do ciúme, com três horas de duração e vários momentos musicais preciosos.

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Um brinde pascal (para Vivaldianos), ainda do Orlando:

Vivica Genaux e a sua habitual pirotecnia vocal, em
Agitata da due venti, dir. Fabio Biondi