domingo, 12 de abril de 2026

Salas de concerto : algumas das nossas melhores memórias pela Europa


Nas nossas viagens, tentei sempre conseguir algum concerto ou ópera numa sala local; foram afinal muito poucos, uns em boas salas de concerto, outros em igrejas, palácios, pavilhões. 

Começo em 1991, no Grand Théatre de Genève

Guillaume Tell de Rossini
com Chris Merritt, José Van Dam, Gregory Kunde, Jane Eaglen


Formidável produção!  O 'Asile hereditaire'  de Merritt foi de arrepiar, os quadros de conjunto inesquecíveis - os pastores, o povo dos 4 cantões, os bailados, e sobretudo a tempestade no lago, à noite, os rochedos sob relâmpagos e trovões; Até ao rallentando famoso no Grand Finale, o melhor que conheço em toda a Ópera. A récita que mais me emocionou, e na altura nem tive a noção exacta de que seria afinal uma das melhores da minha vida.


[Gravação sonora de 'Asile hereditaire' aos 3:02:11 , o genial Finale aos 3:33:30,
 aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qozLQMFbjkY]

Em frente, nos jardins da Place de Neuve, havia jogos de xadrez gigante !


Em Edimburgo, no Usher Hall, estive em 1995 para ouvir András Schiff acompanhar Peter Schreier no ciclo Winterreise de Schubert.


Lembro-me de termos ficado sentados abaixo do nível do palco, o que já era desagradável, com um órgão enorme a erguer-se por trás. A acústica da vasta sala redonda, tipo Coliseu ou Albert Hall, era mazinha !

1996 - Rudolfinum de Praga

Em pleno Inverno, nevava com temperaturas de arca frigorífica. Fomos ao Concerto de Ano Novo, em que a Filarmónica de Praga tocou Donizetti, Korngold, Rossini e Dvorak, claro, que tem estátua à entrada. 


Dirigia Gerd Albrecht, um concerto fraco e tristonho, quem diria.

Outra sala feia. 

2000 Scuola Grande San Rocco, Veneza

A sala nobre da Academia é um sonho para concertos barrocos, linda de morrer. 


O agrupamento barroco Solisti Veneziani fundado por Claudio Scimone foi tocar música de Vivaldi, Corelli e Telemann mais ou menos ao quilo, sem grande entusiasmo. Mas estávamos a celebrar o ano 2000, na Páscoa, sentados em cadeiras colocadas para o concerto num dos mais bonitos salões de Veneza !



2002 - Ópera de Graz, Neujahrskonzert

Com receio do 'vírus' Y2K , estivemos a passar 2001 / 2002 em Graz.

Uma bela sala de Ópera, em Graz.

Phillipe Jordan dirigiu obras de Haydn, V. Williams, Elgar, Strauss. Foi assim-assim, o que se espera de um concerto de fim de ano, mas ... tristonho. Valeu mais ver a casa.



2003KKL de Lucerna

Este foi o nosso máximo requinte em salas de concerto, a melhor de sempre: o Kultur- und Kongresszentrum Luzern.

Em  2003 estivemos lá para ouvir Claudio Abbado dirigir uma retumbante 2ª de Mahler, cantava Anna Larsson; e dias depois com Cecilia Bartoli, divertidíssima, acompanhada  pelos músicos do “Le Musiche Nove”.

O KKL foi obra do arquitecto francês Jean Nouvel. Construído entre 1995 e 2000, é uma das mais belas e de melhor acústica salas de concerto do mundo.

A 2ª de Mahler por Abbado foi gravada e acabaria mesmo por ser editada em disco. Um momento único, que me marcou intensamente - estava de cadeira de rodas na sequência de uma violenta entorse do tornozelo. 


2007 - Ópera Real de Estocolmo

Cosi fan Tutte, de Mozart, com Maria Fontosh, Susann Végh.
Gostei muito de ouvir Végh, o cenário do jardim estava espantoso, boas cenas de conjunto. Uma récita decente mas dentro do mediano.


2010  - Ópera de Zurique

Estreei-me em Wagner com Os Mestres Cantores de Nuremberga, encenação de Nikolaus Lehnhoff, direcção de Philippe Jordan. Cantaram Matti Salminen, Michael Volle, Alfred Muff, Robert Dean-Smith.

Talvez a melhor récita a que já assisti. Nem sou fã de Wagner, mas os Mestres ainda não são demenciais como as obras seguintes; canto, teatralização, orquestra, tudo ajudou a umas horas de suspensão do tempo. Mesmo com cenários muito desiguais - excelente a viela em escadaria no 1º acto e a fortificação no 3º, mas o 2º acto era uma macacada moderna de fugir.


2011 - Ars-en-Ré, Salle de la Prée

Um dos mais surpreendentes locais de concerto foi em Ars-en-Ré, na primeira edição do Festival Ré Majeure; Marc Minkowski com o seus Musiciens du Louvre tocaram uma versão de concerto do Cosi Fan Tutte, e conheci Julia Lezhneva  e a sua bonita voz no papel de Fiordiligi. A 'sala de concerto' foi o Ginásio "La Prée" de Ars-en-Ré...



No ginásio foi montado um palco, mais umas cadeiras, e pronto. Um belo concerto barroco, com os Musiciens du Louvre no seu melhor.

Inesquecível.

2012 - Berlioz em St Paul's Cathedral

O Requiem de Berlioz, obra monumental se a há, com a London Symphony Orchestra dirigida por um Colin Davis que a idade obrigou a conduzir sentado. Dois coros a apoiar a orquestra.


À noite numa igreja destas dimensões não há boas fotos... posso só descrever como alucinante e ribombante o espectáculo sonoro e visual, com os solistas em galerias superiores e não um  mas dois coros a encher de ressonâncias as altas  abóbadadas. Sem distorção, claro, mas com o volume no máximo!


Não ouvi nada que se compare ! Quadrifonia espacial. E no Verão fomos ao La Fenice .

2012 - Veneza, La Fenice

O Teatro de La Fenice está emparedado pela densa rede de casario e canais de Veneza. Não se consegue uma perspectiva larga do edifício.

Rigoletto, de Verdi, dir. Daniele Abbado, com Dimitri Platanias, Désirée Rancatore, Celso Albelo.

Que grandes vozes! Albelo deslumbrante, um belo 'Caro Nome', mas uma encenação triste - esperava mais do La Fenice do que trajes escuros do século XX e um cinzentão de paredes com portas e janelas em papelão de recorte cúbico.


Albelo e Rancatore, vozes admiráveis.


2015  - Lubeck,  MuK (Musik und Kongresshalle) 

Outra sala feia.


Ouvimos Brahms, a 2ª Sinfonia, pela Sinfónica da NDR dirigida por Thomas Hengelbrock; decorria o Festival de Schleswig-Holstein

O interior não deixa de lembrar a Casa da Música do Porto.

Uma coisa que me chocou foi a sofreguidão com que as pessoas saíam para o intervalo entre Mozart e Brahms; cá fora vi porquê: era uma corrida às mesas de comes e bebes ! Canapés, bolinho, espumante...

2015 - Palau de les Arts, Valencia 

Engolidos pelo monstro de Calatrava. À noite é mais feio.

Fomos ouvir a Norma de Bellini , direcção de Davide Livermore, com uma Mariella Devia perto da reforma mas ainda com muita classe ! 

A récita foi excelente, gostei da encenação clássica e pesada como deve ser, a ária da Norma muito bem cantada dadas as limitações da idade. 

Tal como em Lubeck, fiquei embasbacado com o intervalo. Sim, havia mesas com pastéis de camarão e espumante; mas o mais admirável eram as senhoras a desembrulhar guardanapos que escondiam empadas e bolos e sei lá que mais, todos avidamente a degustar o lanche antes de Norma se imolar...

A sala... enfim...

Concerto improvável foi em Cheltenham, em 2016 quando passeei pelos Cotswolds. A sala foi a antiga Câmara, de bela arquitectura.

Cheltenham Old Townhall

O edifício agora é usado como sala de concertos, e em particular durante o Festival de Cheltenham... que é uma sequela dos Proms. 


Foi a um desses concertos que assistimos: Purcell, Corelli, Vivaldi, Rebel, J.S. Bach, Handel e os seus Fireworks - até tivemos direito ao fogo de artifício, não no rio mas no palco por trás da orquestra!  Música interpretada de forma esfuziante pelos Barokksolistene de Bergen, dirigidos pelo norueguês Bjarte Elke, um pândego. Belo e divertido.


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Alguns outros houve, por vezes grandes concertos - Madrid, Viena, Glasgow, Heidelberg, Bolonha, Valladolid, Barcelona, Paris, Roma... mas não tenho suficientes documentos para os acrescentar a esta lista.

30 anos de concertos e ópera (incluindo Lisboa e Porto). 



domingo, 5 de abril de 2026

Klaipėda, a bela Lituana

O antigo moínho de arroz do séc. XIII foi convertido no Hotel "Old Mill", obra de arquitectura moderna.

A Lituânia é o maior mas provavelmente o mais frágil dos Estados Bálticos: além do escasso  território, tem uma economia e uma cultura incipientes, não goza da vizinhança fronteiriça de nenhum estado rico - tem uma fronteira deplorável com a Bielorrússia e uma fronteira terrível com Kaliningrado, e está muito mais afastada da Escandinávia do que as mais sortudas Estónia e Letónia. O estéril e muito perigoso corredor Suwalki separa-a da Polónia, é de pouco uso. A melhor rota de entrada e saída é pela costa marítima, pouco extensa comparada à dos vizinhos. É nessa costa que se encontra Klaipėda. Soube há pouco que um contingente português vai participar em exercícios num local próximo de Klaipéda - sinal do alerta europeu contra o perigo russo.


Klaipėda, Lituânia
População: ~160 000


Foi fundada em 1252 por cavaleiros da Ordem Teutónica e por cruzados de Lübeck (7ª cruzada), com o nome de Memel (Memelburg). Mas a designação actual (Caloypede e depois Cleupeda) já estava em uso em 1413, e em plena era hanseática. Memel refere-se às margens do rio, Cleupeda ao terreno pantanoso; pois Klaipėda está também na foz arenosa de um rio, o Danė.

Ponte Biržos, Ponte da Bolsa sobre o Danė

A ligação a Lübeck permaneceu quando a cidade foi integrada no reino da Polónia, e depois no reino da Suécia, mas sempre vinculada à Liga Hanseática. A história de Klaipėda é uma tumultuosa sucessão de pertenças: depois da Suécia foi ocupada pela Alemanha, pela Rússia... hoje, o porto marítimo mantém a vitalidade de outras eras - estratégico no Báltico oriental, é o principal porto livre de gelos no Inverno -, e a cidade ganhou maior dimensão, com quase 200 000 habitantes e uma Universidade. O porto é talvez a principal fonte financeira da Lituânia.


A entrada mais aliciante é pela Ponte da Bolsa seguindo pela Tiltų gatvė, Rua da Ponte. Estamos de imediato no núcleo antigo, e logo ali podemos optar pelo cais, onde não faltam esplanadas e atractivos, ou seguir em frente pela rua da Ponte, ladeada de casas do séc. XVIII.


A casa com nº 1 foi construído em 1915 no estilo Arte Nova, com uma varanda de esquina famosa com trabalho em estuque. De início foi o Memel Bank. agora é o Café Vero.


Para começar bem a visita...

Acontece que o nº 10 da rua Tiltų , logo a seguir,  é também um café ! Mas o requinte é outro.




Também sui generis é o prédio nº 13, com um bonito trabalho em tijolo.

No 13 , outro restaurante


Várias ruas perpendiculares atravessam a Tiltų, mas o bairro histórico concentra-se num quarteirão que começa na esquina com a rua Didžios Vandens, uma das mais importantes.


Uns metros adiante uma viela à esquerda, a Vežėjų gatvė, e depois a Bažnyčių g. e a Daržų g. , constituem o essencial do núcleo do séc. XVIII. 

Rua Vežėjų


Bažnyčių , 11

São muitas as casas de enxamel com traves de madeira horizontais, verticais e diagonais, no estilo tradicional prussiano 'Fachverk'. O espaço entre as traves era preenchido com pedras, tijolos, barro, fibras ou pedaços de madeira. Devido a incêndios e às guerras, as poucas que sobram são já do dos séc. XVIII-XIX, com restauros mais recentes.

Teatro Kukielkowy , de marionetas


E mais ao fundo na rua Daržų

Daržų g. 1

A maior surpresa está numa viela em L , a Bažnyčių g. lateral à Didžios Vandens uns metros mais adiante, que é o coração do bairro. Os acessos são por túneis no piso térreo das casas. É quase uma pátio enclausurado.


Era aqui que se situava a Igreja de Klaipéda, destruída; também era lugar do mercado, com casas de comerciantes do séc. XVII - XVIII; agora é um espaço cultural e turístico.

Pátio dos Artesãos, galeria


Centro de Arte / Museu KKKC, numa das casas históricas mais cuidadas.

Suponho que por esta altura já ninguém duvida do prazer de visitar Klaipéda. Daqui até à Praça do Teatro ainda se passa noutros exemplos dispersos de Fachverk, primeiro na rua Aukštoji e a seguir pela Sukilėlių , ambas ainda bonitas ruas históricas.

Aukštoji nº 1 

Este "arranha céus" de enxamel ainda é mais impressionante visto das traseiras na rua Didžios Vandens nº 2.



Aukštoji 6,7

Aukštoji nº 7

Em direcção à Praça desviamos para a rua Sukilėlių

Sukilėlių 18

Residência Fachverk do séc. XVIII, foi a residência do mestre carpinteiro.


A rua Sukilėlių conduz à Praça do Teatro, o 'centro' de Klaipéda, e a fonte costuma ser usada como 'ex-libris'. É dedicada ao poeta local Simon Dach.




Em frente ao Teatro, a estátua no pedestal é a de Taravos Anikė, ou Ännchen von Tharau, a quem o poeta Simon Dach nascido em Memel dedicou um apaixonado poema.


No lado oposto da praça, esplanadas junto da esquina com a rua Sukilėlių.


Pronto. Estou convencido. Ia lá se pudesse.

O veleiro Meridianas, navio-escola construído na Finlândia, é um dos símbolos de Klaipėda. Está atracado no cais do Danė.


Contrariamente à maioria das cidades históricas na Europa, não há uma única igreja antiga notável. São todas feias, TODAS. E os museus também são irrelevantes.




Só a resistência da Ucrânia garante a segurança deste país.