sexta-feira, 20 de maio de 2011

A Memória do Elefante - revisitar os (meus) anos 70


aqui uma vez relembrei este jornalzito "de culto". Mas há pouco tempo recordei-o em conversa inesperada - não imaginava que ainda estivesse na memória de quem por ele passou a vista - o que me instigou a procurar no "sótão" cá de casa: onde andariam os velhinhos exemplares ? Lá os encontrei, contente.
Foi parte importante da minha auto-aprendizagem adolescente. Foi com a Memória que comecei a escrever mais sistematicamente (escrevia imensas asneiras !! ) , a reflectir sobre o que escrevia, sobre música em particular.

Na altura, acreditava piamente que a música se pode dissecar analiticamente e valorizar de forma objectiva como, digamos, a arquitectura. E acreditava no "progresso" em música, pobre palerma ...

Esses eram também os tempos, digamos, épicos!, do genial e único "Em Órbita", o programa da rádio que conseguia o milagre de conjugar música clássica com música popular (anglo-americana) e aplicar a esta critérios de qualidade. Pedro Albergaria e Jorge Gil eram os meus heróis...

Da Memória, publicaram-se 13 números (nº 1, 1971- nº 13, 1974 ).

Nº 6 - 1971
Nº 4 - 1971
Nº 8 - 1972

Nº 9 - 1972

nº 10 - 1973


Os meus textos

Entrei para o jornal com este texto sobre Leonard Cohen, no número 1:

Nem comento o tipo de linguagem, descontem lá isso pelos meus 20 anos.

Melhorzinho este, sobre Simon e Garfunkel:


Pior, bem pior, foi quando me lembrei de fazer poesia. Fiz um longo "poème-fleuve"... aos Beatles! Acabava assim:


OS TOPS

Tal como era moda, elegiam-se no fim do ano os melhores temas e álbuns. Esta lista é de 1971. Alguns ainda são clássicos, outros não resistiram muito tempo.

Verdadeiramente mau, só o Tarkus dos ELP...

Um ódio de morte aos Stones!

Ui, como eu detestava os Rolling Stones!

algumas pérolas:

"Podridão hipócrita", "condicionalismo acústico de feira", "chinfrin paranóico", "batida à ferreiro em bigorna", guitarrista "com goma arábica nos dedos", "cozinhado monótono de ritmos primários" - e ainda há pior, LOL!

Os álbuns "Sticky Fingers" e "Exile on main Street" eram os objectos de toda esta repulsa.

Visto à distância, tem graça, os mais detestados trogloditas do rock foram os que mais tempo sobreviveram com sucesso...

A PUBLICIDADE

Até os anúncios tinham graça e arte !

A Casa Ruvina vendia instrumentos musicais.

Armazéns Confiança, praça Carlos Alberto

Idem

Assinem, OU...

Devo agradecer em particular a um grande grande amigo, o Octávio Augusto Fonseca e Silva, que me levou para o jornal e foi o companheiro inesquecível de muitas tardes e noites a escrever, a debater, a ouvir...

A Memória suicidou-se no dia em que, contagiada à esquerda pelo 25 de Abril, se deixou comandar pelas opções políticas. Uma tristérrima edição "vermelha", dedicada à balada de intervenção , estéril e paupérrima forma musical, foi o canto do cisne que terminou as veleidades críticas e melómanas de um jornal que foi marcante enquanto se publicou. Nunca dantes nada se tinha visto assim. E, em boa verdade, nem depois.

Três "tops" da Memória:

Riders of the storm, Doors

Broken Barricades, Procol Harum

The first time, Mary Travers

9 comentários :

Alberto Velez Grilo disse...

Mário

Que belas memórias. Vou ler mais detalhadamente estes seus artigos.

Um abraço

Mário disse...

Confesso alguma "vergonha", hesitei em publicar um post tão narcisista, enfim, uma vez não são vezes.

"Preserve your memories,/ they're all that's left you", cantavam Simon e Garfunkel.

Edward Soja disse...

Olá, amigo!

13, mais o número 0, experimental, de 1970.

Pus ontem os olhos em todos eles.
:)

Abraço e obrigado pelo que fizeram. Tenho 31 anos ("eu não estava lá, eu não estava lá...") e é refrescante perceber como podiam ser inventivos e interventivos os escritos sobre música. Por outro lado, sinto-me ultrajado pela pobreza destes nossos tempos. E isso vê-se por exemplo na criatividade que havia nas publicidades (da Ruvina e da Confiança...)

Que se passou?
Somos uns produtos-brutos do meio-cheio em que somos mal-criados, diria um Aleixo dos nossos dias...

:)

Eduardo,
Braga

Joaquim Fernandes disse...

A maravilhosa net. Estava eu a navegar, veio-me à memória a Memória.
Após pesquisar eis-me aqui a reviver aqueles tempos. Eu ansiava pela saída d'A Memória do Elefante" como pela saída dum Lp, ou single, dos meus músicos favoritos.
E agora encontro aqui um dos autores dum texto que na altura me irritou imenso.
É que eu adorava o Cohen, o T. Buckley, o Ian Matthews, os Yes, os Gentle Giant, os Van der Graf, o Dylan, os Velvet E OS STONES, e não entendia esse ódio de estimação. Então quando num único artigo, desancaram o S. Fingers e o Exile (fizeram um belo jogo de palavras que agora não me lembro), fiquei mesmo muito chateado.
Mas continuei a ser fiel leitor, porque como diz no post, e muito bem, não havia, nem houve depois, ninguém que falasse de música como vocês. Por isso, com um atraso bastante significativo, envio-lhes os parabéns por terem escrito as melhores páginas em português sobre a música popular (e quanto aos Stones estão desculpados).
Joaquim Fernandes

Mário Gonçalves disse...

Olá, Joaquim Fernandes, prazer em reencontrá-lo aqui...
Tim Buckley, sim, lembra bem esse enorme poeta esquecido. Já fui reouvi-lo, que saudades.
O Exile Fingers, ou Sticky on Main Street, continua a ser um ódiozito privado, eh eh. Os Stones de que gosto não chegam aos cinco dedos da mão.

Mas certamente fomos muito injustos com outros que na altura não apreciámos devidamente. Sabe de um prazer maior do que um leitor esperar a saída da nova Memória do Elefante ? Pois, era o de alguém que escrevia ver o seu texto sair à rua publicado. Era uma sensação de arrepio na espinha. Obrigado por ter sido fiel leitor e por este comentário.

josé disse...

Andava perdido na net à procura do A Memória do Elefante e vim parar aqui, em boa hora.

Como tenho 60 anos, em 1971 comecei a despertar para a música popular depois de ter levado um banho de Beethoven e Dvorak.

Com as sonoridades de Oh Darling!, dos Beatles e My Sweet Lord de um deles comecei a ouvir melhor a batida rock. Quem me indicava o caminho era uma jukebox de um café onde todos os dias de manhã, antes de ir para a escola secundária, jogávamos uma partida de bilhar e púnhamos uma moeda ( quando havia...) a tocar o disco single do momento.

Brown Sugar era um deles. Antes disso, uns meses antes deslumbrara-me com o álbum Let it Be, numa caixa e com preço proivbitivo, à venda na Sonolar ( Braga, com filial em Viana do Castelo, que foi onde vi) Que beleza! Um livro ilustrado e a música do grupo inatingível para quem ainda nem tinha gira-discos mas os ouvia na "discoteca" local, pedidos ao dono que os passava pensando que iria vender mais algum...

Era esse o modo usual de conhecer a música popular. Depois havia o rádio e certos programas, muito a horas mortas ou nem sequer despertos para tal tipo de música em 1971. A Página Um, claro, foi a descoberta de 1972, para mim.

Quando apareceu a Mundo da Canção em finais de 1969 ainda era um modo simples de ler as letras das canções do Festival, por esta altura, incluindo o da Eurovisão, em Maio. Quase só isso mas depois, relendo os números, vezes sem conta, trazia lá tudo o que era importante na música popular ( incluindo, em 1971, as letras todas do Sticky Fingers, um portento dos Stones, com Wild Worses, Dead Flowes ou o tal Brown Sugar.


A par da Mundo da Canção, comprada religiosamente a partir do número 6 ( capa com Paulo de Carvalho e do tempo da Flor sem tempo) havia o Disco, música&moda dirigido salvo erro pelo Ruben de Carvalho. E o Musicalíssimo.
A Memória do Elefante era demasiado elitista no gosto e idiossincrático na escrita para merecer a mesma atenção e agora arrependo-me de nunca o ter comprado, porque o gostaria de ter, integralmente.

Haverá a colecção dos números de 1971 e 1972 na Biblioteca Municipal do Porto?

Agradecido pelas memórias e pela oportunidade em relembrar as minhas.

Mário Gonçalves disse...

José, não faço ideia se a Biblioteca tem exemplares da Memória. Há tempos, para um trabalho sobre design de imprensa nos anos 60 e 70, cujo autor não encontrava a Memória em lado nenhum, cedi os meus exemplares para cópia.
Obrigado pela partilha de... memórias. Concordo com tudo, menos, claro, o que diz respeito aos Stones :D

josé disse...

Muito obrigado. Vou continuar a procurar, pode ser que alguém tenha perdido a Memória num alfarrabista qualquer.

José

Edward Soja disse...

Olá, a Biblioteca Pública de Braga tem. Foi lá que os consultei.

:)