terça-feira, 4 de junho de 2013

Memórias: os Programas de Cinema


Ir ao cinema era um acontecimento. Não era um acréscimo às pipocas ou ao Jumbo, era o fim-em-si. Cada sala exibia em regra um só filme (às vezes dois, alternados). Escolher o filme implicava alguma logística - o trajecto era em geral muito diferente conforme a sala. Não se ia nunca "a uma sala qualquer" ver "seja o que fôr". E as salas estavam bem distribuídas pela cidade - além da baixa, com maior concentração, e a zona alta da Batalha, havia também na da Boavista, em Costa Cabral,  no Vale Formoso, junto ao Palácio...

Ao longo dos anos , os preços aumentaram rapidamente, de acordo com a inflação elevada. Como os bilhetes mostram:
Em 15 anos, aumentaram 20 vezes ! Ao mesmo ritmo estariam agora a mais de 20 euros.

Mas o que me trouxe a fazer este post foram os Programas. Eram uma bela instituição. Cada sessão era acompanhada de um desdobrável gratuito onde constava a ficha técnica e artística, com os nomes relevantes, e alguma(s) referência(s) - extractos publicados em jornal ou revista - sobre o filme, desde uma sinopse a uma crítica, passando por dados sobre o "making of", expressão inexistente à altura, ou pela carreira do realisador.

Era não só um modo de fixar referências, mas também uma "memória" do filme que ficava para arquivar.


Por exemplo, o Cinema Passos Manuel, que era a versão cinéfila dos vizinhos Olímpia e Coliseu e só passava filmes "de qualidade" :

Este 'António das Mortes', exibido em 1973 (!), tinha textos críticos de nada menos que 5 autores. Extraídos entre outros do Le Monde, do Osservatore Romano e do Diário de Lisboa - neste caso escrito por Lauro António, claro.

Notar o anúncio da pasta medicinal Couto e, na contracapa, uma nota sobre o filme exibido em complemento - o famoso Las Hurdes de Buñuel ! Magnífico programinha.
A Sala Bébé do Batalha foi durante anos uma coqueluche dos cinéfilos, com uma programação tendencialmente alternativa de fazer água na boca. Aqui "O sal da Terra", filme de propaganda anti-McCarthysta sobre o "Caso Biberman", que caía bem nos anos pós-25 de Abril - o programa é de Setembro de 1976.

Este exemplar do Cinema Estúdio, extensão do Trindade à zona da praça do Marquês no Porto, é uma perfeição: ficha técnica e artística ao centro, duas páginas "A propósito de..." o filme em exibição, com texto de Guy Braucourt da revista francesa Cinema e outro do nosso saudoso Lauro António. Ambos muito bons.
O filme é o 'Remorso' ("Juste Avant la Nuit") de Chabrol, a data 1972, e lá está a notinha "visado pela delegação de espectáculos do Porto".  Ao menos sabíamos, mesmo que a "censura" usasse metáforas anódinas.

Às vezes parece-me que se via melhor cinema com censura , ou apesar da censura, do que agora com os critérios de bilheteira das distribuidoras.
Falta alternativa  e ... os programinhas !

   

Estúdio, Sala Bébé, Foco, Passos Manuel, Lumiére, Pedro Cem, Nun'Alvares, Batalha, Trindade, Olímpia, Águia d'Ouro, Carlos Alberto, Vale Formoso, Júlio Dinis, Charlot... e até o S. João ! Saudades sim, mas de coisas boas.

5 comentários :

Virginia disse...

Tem graça que não me lembro minimamente de haver programas em Lisboa. Lembro-me dos bilhetes, sim, que até guardava religiosamente mas não de qualquer programa de cinema.

Curioso!

Mário disse...

Que me lembre. só fui ao cinema em Lisboa duas vezes, anos 80-90, quando no Porto também estavam a fechar salas e os programas desapareciam.

Devo dizer que tenho más memórias: o público entrava (muito) depois de o filme começar, continuavam na conversa que traziam lá de fora, um inferno. Fartei-me de ver sombras em contra-luz e desisti.

Virginia disse...

Ia ao cinema sempre à tarde, que é quando os cinéfilos vão. Em Lisboa havia sempre três sessões, de modo que escolhia a das 3 ou das 6 e raras vezes ia à noite. Por causa das telenovelas, muita gente chegava tarde aos espectáculos, fossem eles concertos, conferencias, reuniões, ou cinema!!

Gostou do Sokolov?

Mário disse...

Passable. O menos bom dos concertos dele a que assisti. Ele é excelente em Rameau e Scarlatti, bom em Schubert, mas o Beethoven... quase confrangedor. Martelado, mesmo, passe a piada.

Virginia disse...

Oiço tão poucos pianistas ao vivo na actualidade que acho sempre o modo de tocar dele excelente, a leveza dos dedos sobre as teclas. Desta vez, gostei mais do Schubert do que de Beethoven, mas também porque as sonatas do último não são my cup of tea.

Em contrapartida, o meu filho que sabe muito mais de música que eu, gostou muito mais da sonata - da fuga , sobretudo - do que do Schubert. Há gostos para tudo.
Ainda bem que não sou experte, aprecio música desde que não haja perturbações, nem barulho e desde que o pianista não se engane nas notas.

Para mim os melhores Impromptus que já ouvi foram os da M.Joao Pires.