quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Richard Ford, um Banville do interior rural americano


E tenho também andado a ler obras de Richard Ford (n. 1944), um norte-americano que escreve crónicas e contos tão desolados como a aridez da paisagem e da vida nas comunidades do noroeste interior dos E.U. - Montana, Idaho, Wyoming...

Aqui na Europa, mesmo neste nosso recanto marginal e periférico, não haverá provavelmente uma solidão, uma falta de futuro, uma mediocridade existencial tão deprimidas como as que Richard Ford descreve nessas comunidades onde se sobrevive de expedientes, nas margens ou à margem da legalidade, onde nada é estável nem garantido. Empregos precários que vêm e vão, casamentos que se fazem e desfazem num ápice, famílias dispersas por vários estados, sem qualquer apoio afectivo, muitas vezes, pelo contrário, feridas de vários ódios. Hoje há trocos para a cerveja e o burger, amanhã não. Pesca-se qualquer coisa no rio para sobreviver. Se for preciso roubar, vigarizar, sacanear, ok, é a vida. Vale provavelmente menos, a vida, que a morte.

A educação é muitas vezes a utopia máxima. Tirar um curso - o tal que os pais não conseguiram - e se possível arranjar emprego na administração pública, emprego certo, seguro, mesmo que modesto. Mas um curso é duramente pago em trabalho, diurno e nocturno, a lavar carros, ou casas de banho, e há que vender o velho Chevy (que ainda mexe), usar a mesma roupa meses a fio. Não admira que os jovens sem expectativas só pensem em emigrar para a cidade, o que nós muito bem conhecemos por cá, muitas vezes com trágico desenlace.

Custa a acreditar, mas a América interior parece o país rural que tivemos nos anos 40, 50, 60. E enquanto de Sul entram mexicanos para empregos servis e mal pagos (domésticos, serviço à mesa...), do Norte saem americanos para o Canadá - Manitoba e Saskatoon, as fugas mais rápidas para quem tem "problemas" e uma miragem de refazer a vida, embora sejam também regiões menos prósperas do Candá. Ainda há minério lá para o Norte, parece.

São, na verdade, territórios demasiado grandes, e por de mais desiguais, onde não pode deixar de haver formas de miséria. Não há PIB nacional que lhes valha.

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O romance Canada, de Richard Ford, teve em França o prémio Femina de 2013.

" it is just low-life, some coldness in us all, some helplessness that causes us to misunderstand life when it is pure and plain, makes our existence seem like a border between two nothings, and makes us no more or less than animals who meet on the road - watchful, unforgiving, without patience or desire."

Going to the dogs, 1979

" Construed as turf, home just seems a provisional claim, a designation you make upon a place, not one it makes on you. A certain set of buildings, a glimpsed, smudged window-view across a schoolyard, a musty aroma sniffed behind a garage when you were a child, all of which come crowding in upon your latter-day senses / those are pungent things and vivid, even consoling. But to me they are also inert and nostalgic and unlikely to connect you to the real, to that essence art can sometimes achieve, which is permanence."

Wildlife, 1990

“How amazingly far normalcy extends; how you can keep it in sight as if you were on a raft sliding out to sea, the stitch of land growing smaller and smaller. Or in a balloon swept up on a column of prairie air, the ground widening and flattening, growing less and less distinct below you. You notice it, or you don't notice it. But you're already too far away and all is lost.”

Canada, 2012


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Pode-se dizer das vidas que Richard Ford narra,

And yet, the ways we miss our lives are life.
Randall Jarrell, "A Girl in a Library"


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