domingo, 16 de outubro de 2016

A Guitarra Azul - John Banville inspirado em Wallace Stevens inspirado em Picasso.


Não será a melhor obra de John Banville, mas é mesmo assim a melhor obra literária que li este ano.

O narrador-Banville é mais uma vez um pintor, Oliver Otway Orme (O.O.O., 000, a brincadeira começa aqui) caído em desgraça criativa e existencial. Deixou de saber o que fazer com a "realidade", se ela é real ou se está dentro dele, se tem alguma essência captável ou se é totalmente inatingível... como no poema de Wallace Stevens que o inspirou:

They said, "You have a blue guitar,
You do not play things as they are."

The man replied, "Things as they are
Are changed upon the blue guitar."


Mas a crise é ainda mais vasta: Oliver está constantemente a ruminar a sua vida passada, como se estivesse à procura de um sentido, de um sinal, mas só encontra (só nos mostra) sinais errados, becos sem saída e vielas tortuosas. A crise estende-se mais ainda na relação com as mulheres, completamente instável, caótica, indo rapidamente do tresloucado ao indiferente, e descrita de forma cruel e sarcástica. Em novilíngua psico, dir-se-ia "bipolar". A complicar tudo, há a morte sempre presente da única filha, um leit motiv funesto a acrescentar um sofrimento de fundo:

“Ha! What I wrote down first, instead of painter, was painster.
(...)
Pain, the painster’s pain, plunges its blade into my barren heart."


Neste contexto, a história é rocambolesca, com episódios truculentos em sucessivas localidades (casa dos pais, atelier, casa dos pais da amante, casa do alemão rico lá da terra, "casa", jardim de inverno, Aigues Mortes há muitos anos...). Há algo de teatral nesta sucessão de cenários para um desenrolar dramático das catástrofes sucessivas de que o narrador é vítima, ou se compraz em ser vítima, ou se calhar é mesmo autor...

A instabilidade de O.O. também se reflecte nessa constante mudança de paradouro, como se estivesse sempre à procura, ou sempre em fuga - e está, está em fuga de si próprio. Como habitual em Banville, o sarcasmo mais cruel é contra si mesmo, vitimizado até ao enjoo; começa pelo nome e nunca mais acaba. E, como ele também costuma fazer, dá-nos a volta no fim: afinal não demos conta mas havia mais, havia outra 'coisa' nunca mencionada, que ele nunca quis ver, embora estivesse bem à vista. Ele próprio (o miserável O.O.) é ao mesmo tempo o mau da fita e a vítima, poor thing. Contra as expectativas, o livro termina numa nota de tranquilidade nostálgica quase feliz.

A escrita é que tem aquele toque único de Banville, com humor sardónico a temperar uma permanente inventiva que na língua inglesa até parece fácil. Jogos de palavras espertalhões, descrições buriladas, quase poéticas, preciosidades vocabulares ('asportation', 'haruspicating'), uma grande inteligência narrativa. Só me desagradou um detalhe, tanto mais que ao longo do livro Banville tem várias piscadelas ao leitor a lembrar que tudo aquilo é inventado, tudo vai sendo inventado à medida que é escrito: para quê o pormenor da cliptomania do autor ? Não parece ter nenhuma função, só atrapalha, e é demasiadas vezes referido. Só para rebaixar mais o carácter de Oliver ? Não era preciso. Fiquemos com o melhor:

"There was a big, scouring wind blowing and by now it was a Poussin sky all over, blue as blue with majestic floatings of cloud, ice-white, bruise-grey, burnished copper. I would have done it with a thin cobalt wash and, for the clouds, big scumblings of zinc white — yes, my old standby! — dark ash and, for the glowing copper fringes, some yellow ochre toned up with, say, a dash of Indian red."

"How I savour these late days, the last of the year, all dense blue and charcoal and honey hues with long-shadowed backgrounds by the Chico. The sun is still in turmoil and, thanks to its flares, our sham midwinter summer persists. A great silence reigns, as if the world were crouched in stillness, holding its breath. What is awaited? I feel sequestered, underground, poking out my snout now and then to take a measuring sniff of the air. Yes, see me there, old Brock* in his den, waiting too and watching  for he knows not what, his pelt prickling, sensing some fearful imminence."

A tradução "portuguesa" podia ser excelente, mesmo com algumas gralhas tipográficas; mas é lamentável ato e espetáculo e outras assim à moda do 'f***ing' acordo ortográfico. Muito melhor ler no original, claro.

Espero não ter sido spoiler, desmancha prazeres, para quem vier a ler.

Ler online:
http://nemaloknig.info/read-294938/?page=1

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Ah, falta esclarecer que Banville foi buscar o título a um poema de Wallace Stevens, que por sua vez se tinha inspirado numa guitarra azul de Picasso.


A Guitarra Azul de Wallace Stevens

Merecia uma menção à parte no 'Livro de Areia', mas já que há uma conexão de grande proximidade, aqui fica o magnífico "Homem da Guitarra Azul"; não na íntegra, pois é muito longo, mas os dois primeiros poemas:

Wallace Stevens, The Man with the Blue Guitar, I e II

                        I

The man bent over his guitar,
A shearsman of sorts**. The day was green.

They said, "You have a blue guitar,
You do not play things as they are."

The man replied, "Things as they are
Are changed upon the blue guitar."

And they said then, "But play, you must,
A tune beyond us, yet ourselves,

A tune upon the blue guitar
Of things exactly as they are."

                       II

I cannot bring a world quite round,
Although I patch it as I can.

I sing a hero's head, large eye
And bearded bronze, but not a man,

Although I patch him as I can
And reach through him almost to man.

If to serenade almost to man
Is to miss, by that, things as they are,

Say it is the serenade
Of a man that plays a blue guitar.



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Brock, personagem-texugo de Beatrix Potter
** a Shearsman of Sorts  ~ a taylor of types/samples

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