domingo, 30 de outubro de 2016

Sinos a faíscar pela liberdade, obra-prima de Dylan
(com 'tradução' )



Chimes of Freedom
Bob Dylan

Far between sundown's finish an' midnight's broken toll
We ducked inside the doorway, thunder crashing
As majestic bells of bolts struck shadows in the sounds
Seeming to be the chimes of freedom flashing

Flashing for the warriors whose strength is not to fight
Flashing for the refugees on the unarmed road of flight
An' for each an' ev'ry underdog soldier in the night
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing

Through the city's melted furnace, unexpectedly we watched
With faces hidden as the walls were tightening
As the echo of the wedding bells before the blowin' rain
Dissolved into the bells of the lightning

Tolling for the rebel, tolling for the rake
Tolling for the luckless, the abandoned an' forsakened
Tolling for the outcast, burnin' constantly at stake
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing

Through the mad mystic hammering of the wild ripping hail
The sky cracked its poems in naked wonder
That the clinging of the church bells blew far into the breeze
Leaving only bells of lightning and its thunder

Striking for the gentle, striking for the kind
Striking for the guardians and protectors of the mind
An' the poet and the painter far behind his rightful time
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing

In the wild cathedral evening the rain unraveled tales
For the disrobed faceless forms of no position
Tolling for the tongues with no place to bring their thoughts
All down in taken-for-granted situations

Tolling for the deaf an' blind, tolling for the mute
For the mistreated, mateless mother, the mistitled prostitute
For the misdemeanor outlaw, chaineded an' cheated by pursuit
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing

Even though a cloud's white curtain in a far-off corner flared
An' the hypnotic splattered mist was slowly lifting
Electric light still struck like arrows, fired but for the ones
Condemned to drift or else be kept from drifting

Tolling for the searching ones, on their speechless, seeking trail
For the lonesome-hearted lovers with too personal a tale
An' for each unharmful, gentle soul misplaced inside a jail
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing

Starry-eyed an' laughing as I recall when we were caught
Trapped by no track of hours for they hanged suspended
As we listened one last time an' we watched with one last look
Spellbound an' swallowed 'til the tolling ended

Tolling for the aching ones whose wounds cannot be nursed
For the countless confused, accused, misused, strung-out ones an' worse
An' for every hung-up person in the whole wide universe
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing.



Uma tentativa de tradução, mesmo que só de oito das doze estrofes, é um trabalho ingrato: sei que não sou fiel nem ao texto nem ao ritmo; tento apenas reproduzir imagens e a mensagem com palavras minhas, talvez manter alguma musicalidade. E mais, pretendo mostrar a quantas milhas, milhares de milhas, a poesia de Dylan está das "letras" das cançonetas portuguesas que por aí se ouvem, patetas, inúteis, feias, fúteis, panfletárias, lixo. Sem excepções dignas de menção.

Lá por diante entre o sol-pôr e o bater da meia-noite
Abrigámo-nos à soleira, com trovoada a ribombar.
O majestoso repicar dos raios jorra sombras sobre os sons
Parecem ser sinos a faíscar pela liberdade.

Faíscar pelos guerreiros cuja força é não lutar
Faíscar pelos refugiados na indefesa rota de fuga
e por cada desvalido soldado na escuridão
Víamos os sinos a faíscar pela liberdade.
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Entre o martelar demente do granizo a lacerar
O céu estoirava em poemas numa nua fantasia
Que o bater dos sinos ecoava no soprar da brisa ao longe
Deixando badaladas de relâmpagos e trovões.

Batem pelos afáveis, e batem pelos meigos
Batem pelos guardas e os que o espírito protegem
Pelo poeta e pelo pintor à frente do seu tempo
Nós víamos os sinos a faíscar pela liberdade.
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E apesar da cortina branca de uma nuvem a brilhar
E as manchas de hipnótica névoa que devagar se estava a abrir
Luzes eléctricas ainda rasgam como setas lançadas sobre aqueles
Condenados à deriva, ou a quem vedada está a deriva.

Dobram pelos que procuram, no seu trilho silencioso,
Pelos amantes solitários, de histórias tão sofridas 
E por cada inocente e gentil alma por engano aprisionada
Nós víamos os sinos a faíscar pela liberdade.
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Com os olhos a ver estrelas e rindo ao ser apanhados 
Distraídos pelas horas que pareciam estar suspensas.
Ouvimos mais uma vez e deitamos um última olhar
Pasmados e aturdidos, até aos sinos se calarem.

Dobram pelos que sofrem, com feridas que não têm cura,
pelos inúmeros acusados, abusados, exaustos ou ainda pior
E por cada enforcado em todo o vasto universo,
Víamos os sinos a faíscar pela liberdade.



Esta angústia com as liberdades sob ameaça ganha hoje nova perspectiva; estávamos em 1964 na guerra fria, o conflito era o do Vietname, e agora pode parecer que ainda estamos pior, com atentados e guerra ainda mais próximos de nós e a tentação autoritária pendente. A actualidade de Dylan é por isso ainda mais perturbadora e genial.


Como saudosista dos Byrds, aqui vai a inesquecível versão:


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Já agora, a propósito do Nobel, atenção ao primeiro grande livro de Svetlana Alexievitch (Nobel 2015), "A guerra não tem rosto de mulher", só agora editado em Portugal, que traça um retrato comovente da vida da Rússia sob a escuridão da ditadura soviética.


2 comentários :

Virginia disse...

Muito obrigada pela informação. Nunca li nada do Bob Dylan...a sério. Conheço apenas as canções de protesto. Bom domingo

Fanático_Um disse...

Também nada li dele. Agradeço a divulgação e tradução (excelente) deste texto.
Era escusada a figura que fez em prolongar o silêncio sobre a atribuição do Nobel e, finalmente, como se nada tivesse acontecido, acabar por aceitar... caprichos de vedetas (mesmo destas).