Em 2026 ouvi menos música, mas continuam a aparecer muito boas gravações, algumas de anos anteriores mas que só agora conheci. Aqui estão as que mais me entusiasmaram este ano.
Hourglass, Simone Dinnersteine o agrupamento Baroklyn
Que revelação ! Sublimes, estas obras de Philip Glass, e interpretadas como nunca - com sensibilidade, um conjunto de músicos de elite que nitidamente se apaixonaram pelo que tocavam, e a direcção mestra da pianista Simone Dinnerstein.
Começa pela suite musical "The Hours", composta por Glass para o filme de Stephen Daldry que aborda a vida e obra de Virginia Wolfe.
Para mim, é o disco do ano. Ouçam este 3º andamento do Concerto do Tirol, para piano.
Genial.
Night, de Ola Gjeilo
É polémico de deveria figurar aqui, como música clássica. Há quem fale de 'nova' música clássica, mas é um disparate. Há música, há beleza sonora, um pouco de Phillip Glass, um pouco do fraquinho Einaudi e do mediano Wim Mertens.
Nighté uma colecção de temas simples, fáceis, nocturnos. Musiquinha de embalar. Mas reconheço que Ola Gjeilo faz umas habilidades bem feitas, umas variações no final, que enriquecem bastante os 3 a 4 minutos de cada 'noite'.
Before Dawn
Gjeilo naceu na Noruega, estudou música na prestigiada Juliliard School de Nova Iorque e no Royal College of Music de Londres - lá pergaminhos, tem. Compõe sobretudo obras corais, que têm sido premiadas. Deixo 'Dreamweaver" ao vivo pelo coro de Vilnius:
Atenção ao 3º andamento, Bridge (aos 05:34)
Uma bela obra do século XXI (2023)
Bruckner, Sinfonia nº 7
Simon Rattlecom aLondon Symphony Orchestra (2023)
Eu nunca fui muito de Bruckner. Há um culto aficionado, sobretudo às interpretações de Celibidache e Furtwängler, diz-se que uma sinfonia de Bruckner é como escalar uma montanha, devagar. com muita pedra e tojo pelo caminho, sempre a sofrer até chegar lá acima - mas quando se chega é um êxtase. Tudo isto me parece uma treta de pedantes, que se aproveitam da impopularidade de Bruckner e se extasiam com as múltiplas versões, cada sinfonia foi alvo de mais que uma edição ! Comparar as edições Haas e Novak é um regalo para brucknerianos.
A audição é difícil, requer total dedicação (não serve de música de fundo), repete trinta vezes a mesma coisa, não há nada que se pareça com contraponto; apenas a massa orquestral com interminável 'legato' e a massa descomedida dos metais, trompas, trompetes, trombones e tubas - as reclamadas "catedrais de som". Até hoje, Gunter Wand parecia-me ter conseguido as interpretações mais focadas.
Mas enfim, a 7ª é das que têm mais novidade e tensão dramática, e Rattle é especialista. Usou uma edição ainda inédita em disco, e parece-me boa escolha. Não é Mahler nem Brahms, mas há nesta 7ª uma narração sinfónica criativa, rica de temas e variações, rica de contrastes, com momentos de dissonância mas também de bela suavidade, e até ums raríssimos diálogos contrapuntísticos.
O ponto forte é o Adagio. Bruckner conseguiu uma melodia notável, que desenvolve à maneira de Mahler, muitas vezes parece ter-se nele inspirado; mas compôs de facto à sua maneira uma bela peça de música, 21 minutos de Sehr feierlich und Langsam - muito solene e muito lento. O clássico Karajan demorava 23, Jochum 25... felizmente, Rattle soube encontrar o equilíbrio. Obra prima de Bruckner, que vai construindo sabiamente um crescendo e o faz explodir num clímax tremendo.
[N.B. Adagio aos 20:09]
Gosto menos dos dois últimos andamentos, espalhafato orquestral de energia descontrolada, volume excessivo nos metais; mas sou eu, não-bruckneriano.
Qualidade sonora quase impecável (a acústica da sala não é das melhores).
Aaron Copland, Sinfonia nº 3
LSO, dir. Antonio Pappano
Uma espantosa gravação da Sinfonia nº 3, onde Copland utiliza a sua famosíssima Fanfarra para o Homem Comum. Não há delicadeza nem introspecção aqui - é mesmo grandioso e épico, the american way. E a London Symphony Orchestra mais uma vez, tem estado em grande.
Ah, também acabou de ser posto à venda o volume 20 de Haydn 2032, a colecção de sinfonias com a Orquestra de Basel dirigida por Giovanni Antonini. Normalmente dou aqui notícia com algum extracto, mas este volume tem três das mais fracas sinfonias Haydn, as nº 76, 77 e 78. Não recomendo.
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