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domingo, 27 de setembro de 2026

' Portugal Cove ' - aldeia(s) costeira(s) no Canadá, o nosso parceiro associado !


Portugal Cove - St Philip's, uma cascata de casario numa baía remota da Terra Nova.


Portugal Cove é uma aldeia na Península de Avalon, na ilha da Terra Nova, encaixada na encosta de uma baía ou concha (cove), na contra-costa da capital St. John.

Coordenadas: 47° 37′ N, 52° 51' W
População: ~ 8500

A Terra Nova é o território americano mais próximo de Portugal (~ 3550 Km).

É consensual que o nome foi atribuído pelo navegador português Gaspar Côrte Real, que recebeu do rei D. Manuel, no início do século XVI, a comissão de explorar a América Do Norte. Convém lembrar que, segundo o Tratado de Tordesilhas, a costa oriental americana cabia a Portugal e não a Espanha; para exercer este direito, fora reconhecida a "descoberta" da Terra Nova ao pai do navegador, João Vaz, em 1472 - mas mantida em segredo até 1497, quando lá desembarcou o genovês Giovanni Caboto ao serviço da coroa inglesa (rebaptizado John Cabot ). Nessa altura, a Terra Nova era muito mais fria e inóspita, gelada a maior parte do ano, e não ineressou ao rei Henrique VII.

Em 1501, navio(s) (um ou dois) sob comando de Gaspar Côrte Real aportaram na Península, deram o nome e seguiram adiante, também sem fundar colónia. Foram as primeiras expedições europeias modernas a alcançar a Terra Nova, desde as célebres expedições dos Vikings de Leif Erikson. 

Por três vezes Leif Erikson levou os drakkar Vikings até à costa do Canadá.

Para 'celebrar' o acordo de associação da União Europeia com o Canadá (*), que espero dê frutos e peso político-militar aos dois lados, resolvi publicar este pequeno artigo sobre

Portugal Cove - St. Philip's

É este o nome completo da povoação! Foi adoptado desde o século XVI, como posto colonial de pescas, e essa actividade manteve-se depois até ao século XX. Actualmente llimita-se a pesca desportiva e tem uma marina de recreio.


Encimada pela igreja Anglicana, o casario desce até ao cais marítimo do ferry. 



O 'centro' é um emaranhado de suas íngremes, em curvas e contracurvas, vielas transversais, até lá abaixo. Uma delas é Roses Lane, a viela das Rosas.

Casa em Roses Lane, nº 8. Exterior em madeira.

A casa mais famosa é  White House, de 1820-1830. 


É um exemplo notável da arquitectura e das técnicas dos colonos Irlandeses, em particular a grande lareira em nicho (inglenook) no centro do edifício, ladeada de dois bancos. A casa está rodeada de verdura, um belo jardim que a torna ainda mais valiosa.



A parte mais 'chique' da povoação é em West Point Road, um desvio para poente da estrada costeira para sul. Casas modernas, com vista do alto sobre o mar.




Pôr do Sol em West Point Road

A Igreja católica de Stª Maria, de 1917, desactivada, está à venda.

Igreja Anglicana de St. Philip, em madeira; gótico revivalista de 1848/1894, também cancelada e usada para alojamento, bastante degradada. 


Vamos para o extremo sul da península.

Portugal Cove South


Ainda mais espantoso é haver outra Portugal Cove na mesma península: Portugal Cove South é uma comunidade piscatória ainda mais pequena, esparsa na planície costeira do sul, com menos de 250 habitantes, que desde o final da pescaria intensa do bacalhau se tornou pouco a pouco um lugarejo junto ao mar.


Traumatizada pela moratória da pesca de 1992, a população começou a decair continuadamente até menos de uma centena. Até a igreja ia ser vendida para a Airbnb, se não tivesse sido ocupada e protesto, e com sucesso.


A península de Avalon está localizada junto aos melhores bancos de peixe do mundo, os Grand Banks, onde a corrente fria do Labrador encontra em sentido contrário a corrente quente do Golfo. A pescaria de arrasto intensiva ao longo de décadas causou o declínio das espécies até perto do esgotamento; só há 2 anos, em 2024, voltou a ser permitida a pesca controlada, com quotas e períodos de defeso.


O mais interessante na costa sul é o lugar arqueológico Mistaken Point.


Na costa em direcção a sudeste há uma sequência de falésias de placas de ardósia onde se observam fósseis com cerca de 565 milhões de anos ! Datam do período Ediacaran, e são o maior e mais antigo conjunto de fósseis conhecido, das primeiras formas de vida a que podemos chamar 'organismos'. São mais de 10 000 fósseis embutidos em camadas inclinadas de turfa vulcânica (pedra pomes), arenitos (grés), argilas e xistos, que emergiram de fundos marinhos de cinza vulcânica.


Estão classificados pela UNESCO como património da humanidade. Os fósseis demonstram o período fulcral da História da Vida onde tudo mudou - surgiram seres vivos complexos, multicelulares, organismos com um corpo mole.


A área é Reserva Ecológica Mistaken Point.



Os fósseis mais abundantes são de uma espécie que parece uma folha de feto que estaria assente no fundo marinho, crescendo verticalmente. Este é do tipo 'Fractofusus'.

Este é do tipo 'Charnia'.


Pronto, Portugal está associado por nome a duas localidades costeiras da Terra Nova. Por mim, acho que o Canadá merecia bem uma Rua, Praça ou até uma Baía do lado de cá do Atlântico - esta aqui em Salgueiros / Madalena, por exemplo: Baía do Canadá. Para retribuir.

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(*) O local das Américas mais próximo da Europa é Hans Island (Tartupaluk), uma ilhota no Estreito de Nansen entre a Gronelândia (Europa) e o Arquipélago Ártico canadiano. A anedota é que até fazem fronteira ! Por acordo mútuo, a ilha foi dividida a meio - ali fica a única fronteira euro-canadiana em terra firme.



domingo, 13 de setembro de 2026

Inverness, onde começa e termina a rota NC500, e onde se passam bem dois ou três dias.


INVERNESS


A capital das Highlands escocesas é a cidade principal na estrada circular NC500 de que tenho vindo a reportar. Não é uma cidade bela, nem sequer bonita, até ostenta alguma fealdade, ao contrário de Edimburgo, Glasgow, Aberdeen; vou tentar mostrar que, apesar de não ser um destino turistico, merece atenção, no início ou no final da Rota.


Inverness é uma cidadezita de província com 50 000 habitantes, menos que Guimarães, mas em termos logísticos governa uma ampla região: as Terras Altas da Escócia.


Está nas margens do Rio Ness, que nasce mais a sul do famoso Lago Ness e vem deitar águas no fiorde de Moray. A vista das duas margens do rio é mais interessante que as ruas interiores. A famosa ponte pedonal de Greig Street é uma ponte suspensa, construída em 188; pintada de branco cria um cenário único.


São as margens do Ness que oferevem as melhores vistas da cidade

Old High St. Stephen's é o mais antigo edifício de Inverness, data do século XVIII mas a base da torre já vem do séc. XIV, de edificação anterior, com o seu ar Românico.



Seria o 'monumento' distintivo de Inverness, mas foi desactivada, para ser recuperada pela administração local com vista a serviço cívico; infelizmente, não há verba para financiar uma obra tão cara.


A porta da frente na torre: a parte mais antiga.

Um dos vitrais victorianos de 1899.




Como seria de esperar, esta é a parte mais antiga da cidade. Pela margem do rio Ness, para Norte, Douglas Row é uma das marginais mais bonitas, com casas do séc. XVIII.


Casas do período Georgiano fazem de Douglas Row um passeio apetecível.



Em frente, na outra margem, Huntly Street.

Uma antiga igreja palladiana em Huntly Street, vista da outra margem: uma espécie de Veneza da Escócia ?

Mais adiante, a Igreja de Stª Maria, católica.

Na outra margem do Loch Ness há um percurso viário ao longo das águas, uma zona turística e de Hotéis - The Ness Walk.

The Ness Walk, com os torreões do Palace Hotel.

Visto desde Castle Road, na outra margem.

Vistas as margens, entremos na cidade; a área mais apelativa é a da escadaria Market Brae Steps.





As escadas dão para Inglis Street, avista-se Falcon Square. O melhor é cortar à esquerda para Church Street, até à igreja velha Old High; paredes meias está outro atractivo inesperado é a Leakey's Bookshop, um monumento ao livro e à leitura.








A ler !

As principais ruas do centro de Inverness são escuras, feias, de arquitectura incoerente; só uma 'arcada' vitoriana, uma galeria fechada a imitar o estilo Arte Nova, alegra um pouco. Afastemo-nos para sul.


Agora o Castelo, um símbolo bem conhecido e de real valor arquitectónico.



Teve uma longa história de assaltos , combates, sucessivas destruições; o que vemos agora é do século XIX !


Simbolicamente, é o ponto de partida e de chegada da Rota NC500.

Museu e Galeria de Inverness


Fica em Castle Wynd, uma via de acesso ao Castelo.


Tanto quanto consegui apurar, o mais valioso será a colecção de arqueologia Picta e Viking - pedras rúnicas, cerâmica, joalharia e cutelaria.


A Eassie Stone é uma cruz de pedra Picta do século VIII, esculpida em calcário (lioz) avermelhado. O corpo da cruz está decorado com um desenho variado de nós entrelaçados.



Mas a atracção principal em arqueologia são outras pedras:


Ardross Wolf Stone


A pedra do lobo, encontrada em Ardross, é uma gravura Picta em pedra clasificada. Datando dos séc. VI ou VII, mostra uma técnica de gravação soberba; uma linha fina bem definida com um corte firme desenha um lobo que parece querer saltar da pedra.

Cabeça de veado 


Também de Ardross, é uma gravação Picta representando uma cabeça de veado vermelho, com espantosa vitalidade e naturalismo.

O que é raro e mesmo precioso nestas pedras é que são não há outros exemplares semelhantes, as pedras Pictas encontradas exibem em regra desenhos geométricos como espirais, Z-rods, etc., uma esboço de linguagem simbólica. Os Pictos eram um grupo de povos de língua celta/gaélica que viveram no norte e leste da actual Escócia, durante a tardia Idade do Ferro britânica, até ao primeiro período medieval. É um dos povos "perdidos" da Europa, sabe-se muito pouco acerca deles devido a não ter sido decifrada nenhuma inscrição com os seus símbolos pictográficos gravados em pedra.

A rota Picta na NC500 :

Além de Inverness, há núcleos de espólio Picta no Tarbat Discovery Center (Portmahomack), na Groam House de Rosemarkie,  na Nigg Old Church de Tain, e mais a norte no North Coast Visitor Centre de Thurso.

Mas voltando ao Museu de Inverness:

Vaso decorado da Idade do Bronze


Vaso ou caneco da Idade de Bronze,  2300-2100 AC , encontrado em Dalmore, Easter Ross. Provavelmente de uma população da Cultura da Cerâmica Campaniforme (sino invertido) em transição, com origem nas estepes da Ásia; terá atravessado o mar desde  a costa da Holanda ou Alemanha, e substituiu a população local do Neolítico.

Machado de encaixe ou soquete de há ca. 3000 anos (~ 1000 AC), finais da Idade do Bronze, Ballifeary.

A Bíblia em Gaélico

1ª edição, 1769



Quaichs

Quaich em madeira com embutidos de prata, ca. 1705-1720, por um ourives de Inverness

O Quaich é uma taça para beber típica da Escócia. O nome deriva do Gaélico cuach,  'chávena'. Começaram por ser em madeira, feitas à mão montando secções ou staves, atadas umas às outras com fitas de salgueiro. No século XVII os ourives da prata dedicaram-se a enriquecer este modelo com bordos, asas ou fundos em prata. Por volta de 1660 começaram a fabricá-los integralmente em prata.

Quaich em prata de Thomas Borthwick, 1750 - 1794

E mais um, de Charles Jameson, 1797-1829

De Ferguson & Macbean, 1880-1906

Cafés

Costumo citar George Steiner, um dos sinais identificadores da cultura Europeia está nos cafés. Na Europa do sul é uma vulgaridade, são aos milhares e inundados de turistas. Mas nesta latitude, e daqui para Norte, são raros, e é uma festa encontrar um de acordo com os padrões - bom 'espresso', mesas cómodas, jornal disponível.

Tanto quanto procurei, há dois ou três em Inverness, pequenos e modernos, nada de histórico evidentemente.

O mais parecido com o standard europeu é o Coffee Affair




Na arcada vitoriana em Academy Street há um café mais requintado. Já não falta nada de essencial em Inverness.

Victorian Market Arcade




Café do Paulo, Victoria Market

Não será uma grande capital cultural, mas está bem como 'starting / arrival ' da Rota NC500.