quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

As Ilhas Solovetsky(Solovki)
- Arte e História na mais longínqua Europa


No 29 de Fevereiro, mais uma "viagem impossível" no Livro de Areia.
Este local remoto na costa ártica europeia bem podia ser candidato à Ultima Thule de Pytheas - um grupo de ilhas longínquas e misteriosas escondidas num braço de mar gelado conhecido como -

1. O MAR BRANCO


O Mar Branco é uma extensão do mar de Barents, na costa noroeste da Rússia.


O Mare Album já era conhecido no séc XI pelo negócio das peles - a navegação e os portos foram crescendo à custa das florestas costeiras ricas em animais de pele.

Entre o séc. XV e o séc. XVIII , o Mar Branco já fazia parte das mais importantes rotas de comércio na Rússia. O seu papel só diminuiu com a fundação da cidade de São Petersburgo, que abriu uma ligação mais favorável ao Báltico.

Na década de 1930, sob o regime de Estaline, foi construído à custa de trabalho forçado um canal de ligação do Mar Branco ao Báltico, que desaguava em S. Petersburgo:

Destinado inicialmente a transporte de mercadorias, a sua pouca profundidade acabou por ser um impedimento à dimensão dos barcos; hoje é um canal de transporte de pessoas e de cruzeiros turísticos.

A cidade mais importante do Mar Branco é Arkhangelsk; nos tempos do comércio marítimo de peles era um dos mais importantes portos russos. Actualmente é usada como base naval e de submarinos. É uma cidade feia e pouco acolhedora, marcada por decadentes blocos da era soviética, por esculturas e monumentos de propaganda ao longo de desoladoras avenidas. O Mar Branco é agora uma rota frequente da frota de submarinos russos, assim como local de depósito de abundante e ferrugenta sucata naval.


Durante décadas de reinado soviético, as ilhas do Mar Branco foram utilizadas como campos prisionais de dissidentes, ao que parece os primeiros, ainda antes de Estaline; ficaram tristemente conhecidas como o Arquipélago Gulag; actualmente reclamam o estatuto de local espiritual e religioso, dando abrigo a comunidades monásticas e recebendo visitas turísticas, sobretudo depois de reconhecido o seu valor patrimonial pela Unesco em 1992.

As ilhas do Mar Branco, na vizinhança do círculo polar ártico, têm vegetação de tundra e um perfil quase plano.

2. AS ILHAS SOLOVETSKY
(Património Cultural da Humanidade, 1992)

O arquipélago consiste em 6 ilhas e uns 100 ilhéus. A maior é Bolshoy Solovetsky , com 220 km2. Também têm relevância as ilhas Anzersky, Bolshaya Muksalma e Bolshoy Zayatsky.


As Solovetsky (ou Solovki) estão apenas 160 Km a sul do círculo polar, nas coordenadas de 65°N 35°E, mas escondem tesouros fabulosos de arqueologia e arquitectura, a par de testemunhos históricos do infame Gulag.


São ilhas sem relevo, em grande parte cobertas de floresta (pinho ártico envelhecido) e semeadas de centenas de pequenos lagos. As áreas restantes são território de tundra.

A combinação de bosques, lagos, clareiras pantanosas, terrenos cobertos de tapete de musgos e líquenes, costas pedregosas, cria um mosaico paisagístico único.


COs primeiros habitantes ( 2000-1000 B.C.) deixaram abundantes traços culturais do neolítico: labirintos, megalitos e empilhamentos. No fim da Idade Média, o arquipélago foi um lugar de grande actividade monástica desde o século XV, com várias igrejas que datam dos séculos XVI a XIX :

"exemplo extraordinário de um aldeamento monástico no ambiente inóspito do norte da Europa, que ilustra a fé, tenacidade e espírito empreendedor das comunidades religiosas tardo-medievais".

ILHA de ANZER (Anzersky)

A natureza da ilha de Anzer é surpreendente: num pequeno território há vários tipos de paisagem. É nesta ilha que existe a maior elevação - o Monte Gólgota, com 88 metros.

Ilha de Anzer no outono - e uma capela perdida na densa floresta.

O mosteiro da Santa Trindade, em madeira (1620)

Detalhe

A igreja Raspyatia Gospodnya, com cinco cúpulas, no topo da maior elevação da ilha - o monte Gólgota.

A ILHA BOLSHOY ZAYATSKY
Bolshoi Zayatsky é uma pequena ilha (1,25 km2) incrivelmenete rica de heranças arqueológicas e religiosas.

A Igreja de St. Andrei, em madeira, de 1702:
Ainda sobrevivem duas das habitações originais d séc. XV, ao lado da pequena igreja.


Mas a ilha é sobretudo conhecida como santuário pagão, com um complexo de estruturas de culto e sepulcrais datando do II-I milénio A.C., sendo as mais espectaculares e intrigantes os numerosos labirintos; o maior, com 25 metros of diâmetro, é também o maior do mundo no género.

Os labirintos de pedra de Bolshoi Zayatsky estão bem conservados. Ao longo da beira-mar ou no fundo dos bosques, encontram-se pelo menos 18 labirintos de pedras, 600 megalitos funerários, e vários alinhamentos e círculos megalíticos.


Os mais belos labirintos são espirais de pedras pousadas sobre o solo, que o tempo cobriu com vegetação rasteira da tundra que tem sido cuidada para melhor apreciação.
Os labirintos de Bolshoi Zayatsky surgem em várias formas - espirais, círculos - e alguns datam de 3 000 A.C.

Um desenho por vezes complexo

Ainda não se sabe o propósito da sua construção, há a probabilidade de terem a ver com ritos sagrados.


3. O MOSTEIRO DE SOLOVETSKY
na ilha Bolshoy Solovetsky


O complexo de Solovetsky é um exemplo extraordinário de povoação monástica do extremo norte da Europa. Por isso foi classificado Património Cultural da Humanidade.

O Mosteiro foi fundado por três monges de Kirillo-Belozersky por volta de 1430, e no fim do séc XVI já era um dos mais influentes centros religiosos na Rússia.

A igreja de S. Nicolau, de 1834, (esq.), a galeria e a mais antiga catedral da Transfiguração, vistas do pátio interior.

A Igreja-Portal da Assunção , vista de uma janela da galeria.


A fortaleza foi construída entre 1582 e 1594, e Solovetsky tornou-se um centro económico, religioso, militar e cultural da região. A actividade artesanal abrangia pintura de ícones, escultura em madeira, gravura, litografia. A actividade comercial incluía salinas, pesca, colher e trabalhar pérolas, ferragens, fabrico de tijolos.

No seu auge, albergava 350 monges e dava trabalho a 600 artesãos, pescadores e camponeses.

Reflexos monasteriais

Dentro da muralhas há vários templos, capelas, e pátios dedicados a actividades domésticas.


A Igreja Refeitório da Dormição (1552-1557), com o seu pórtico de entrada para o pátio e a galeria sobreposta - a parte mais antiga do mosteiro, como atestam os pedregulhos de sustentação.


O Refeitório, de 500 m2, com o tecto sustentado por uma única coluna central de 4m.


A CATEDRAL DA TRANSFIGURAÇÃO (1558-1566)

O principal templo do mosteiro ao entardecer.

Os pináculos com cúpula de cebola, coberta de escamas de madeira (clicar para aumentar).

Interior
O Iconostasis da catedral.


Um ícone precioso pertencente ao mosteiro.

O relógio de sol numa parede do pátio principal.

Topo da Torre Sineira (1776-77)

O mosteiro expandiu-se ao longo de séculos não só pelas ilhas, com várias secções e capelas, mas inclusive em largas faixas do território costeiro.

Os monges do mosteiro eram reputados pelas suas invenções. Há mais de 600 lagos na ilha - os monges ligaram-nos por uma rede de canais estreitos que dão passagem a um barco pequeno, construindo uma sistema de comunicação que ao mesmo tempo renovava a água potável, permitia mais riqueza em peixe e em aves.

O armazém do pequeno porto, e à esquerda o memorial dos prisioneiros do Gulag.

Depois da revolução de 1917, o mosteiro foi fechado, os monges mortos ou deportados, e foi convertido num campo de concentração e trabalhos forçados integrado no sistema Gulag até 1939. Lá pereceram mais de 100 000 pessoas - oficiais, cientistas, religiosos, escritores, artistas, negociantes, a elite russa. O campo de Solovetsky ficou também como memória desse genocídio cruel e sem sentido.

A aldeia do Mosteiro
A aldeia de Solovetsky inclui capelas, hospedarias de peregrinos, uma doca seca, escolas, um museu... e recentemente um pequeno hotel para turistas.

Quase todas as construções são em madeira.

A escola primária
O antiga residência do abade superior, agora museu.

Detalhe da estação de investigação biológica.

Les Iles aux mille lumières

Violet, orange, ocre, rose, noir, gris aux nuances infinies, le ciel se teinte de couleurs presque surnaturelles dues à la proximité des îles avec le cercle polaire, il n’est pas rare d’ailleurs d’y apercevoir des aurores boréales.

Violeta, laranja, ocre, rosa, preto, infinitas variações de cinzento, o céu pinta-se de cores quase sobrenaturais, e devido à proximidade do ártico as Auroras não são raras...


SOLOVETSKY NO INVERNO








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Ler mais:
http://www.anatol.org/projects/travel/russia/solovki-archipelago.html
http://www.solovky.com/en/labyrinth.htm


Espanta que isto ainda seja Europa, e que aqui junto ao círculo polar e num canto afastado da Rússia europeia se venha encontrar tão abundante e valioso testemunho do nosso passado comum.


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