sexta-feira, 25 de março de 2016

A 1ª de Brahms, a melhor primeira de sempre.


À espera de melhores dias, consegui terminar um texto que já vinha preparando há uns tempos.
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Diria que esta 1ª sinfonia de Brahms é uma das mais narrativas que conheço - a música vai fluindo como uma história complexa que nos é lida, ao longo dos capítulos, através de peripécias, emoções, convulsões, pausas, regressos. 'Never a dull moment' - não há momentos mortos, acontece sempre algo de novo e prepara-se quem ouve para uma reviravolta emocionante no enredo, quase como numa novela policial ou num romance para a juventude. Digamos, um Graham Greene, um Tolstoi, um Stevenson.

O terceiro e quarto andamentos são arrebatadores em ritmos e orquestração, e o final dos mais apoteóticos que conheço. Em termos de construção musical, a primeira de Brahms deve ser uma das obras sinfónicas mais bem compostas de sempre, nesse sentido de aliar estrutura e dinâmica, espaço e tempo, num todo narrativo coerente. Não será inovadora na linguagem musical, certamente, nem os rasgos de génio criativo são fantásticos como os de Beethoven, mas mantém o ouvinte em tensão, suspenso nas sonoridades e invenções rítmicas que se desenrolam em cascata. Já li algures que Brahms escrevia no tempo e no espaço (precursor da relatividade ?) : as linhas musicais e o contraponto constroem uma rede multi-dimensional !

Como  a música barroca, Brahms foi de certa forma redescoberto pelo digital. A agulha sobre vinil não se sai bem com as fortes massas orquestrais, e a visão que havia de Brahms - músico de 2ª, acomodado, de boa vida, conservador e alheio à revolução musical já em curso - não lhe fazia justiça: produziam-se pastelões sinfónicos às vezes enfadonhos. Só há poucos anos a genialidade inventiva do contraponto e dos ritmos brahmsianos foram devidamente valorizados.

As duas versões modernas que mais aprecio são a de Günter Wand com a NDR e a de David Zinman com a Tonhalle de Zurich: tensas, contrastadas, dinâmicas, sempre alerta. Se Vladimir Jurowsky, com mais solenidade e macieza, vence quando se procura algum apaziguamento, Masur, o saudoso Kurt Masur, tem a interpretação mais meditativa, contemplativa, evitando drama e tensão - é a melhor escolha alternativa, mas a obra até parece outra ! O que ele tem, isso sim, é a melhor orquestra, a Gewandhaus Leipzig.

A primeira página.

Disponíveis no YT só encontro as versões de Wand e Zinman. As diferenças de tempo ( Gunter Wand 43'41'',  Zinman 44'54'') acentuam-se mais no 1º andamento - Wand é dois minutos mais rápido - e no 2º e no 4º, em que Zinman 'ganha' esses dois minutos. Masur amplia a duração para...57.06 ! Mais um quarto de hora, é obra.
O poderoso 1º andamento tem um arranque bélico, a lembrar o ritmo do tambor das trirremes, em ritmo ternário 6/8, obsessivo (ver pauta acima), com os violinos a criar um pathos intenso. Depois, durante cerca de quinze minutos, os "fios da história" apresentam-se, numa rede de linhas cruzadas, mantendo sempre um inquietude, uma ansiedade não resolvida. Se estivermos muito atentos ouvimos uma pulsação "tatata-tum" da 5ª de Beethoven em contraponto. Aos 9' 20'' chegamos ao cume, e lá se ouvem de novo as quatro "pancadas do destino" da 5ª, que voltam aos 11'. Estamos sempre à espera , "então?", que venha o anticlímax de paz e conforto. Não vem. Esta não é música de um burguês satisfeito, pelo contrário, espelha angústia e conflito. Talvez por isso me custou a entrar nesta sinfonia, é rebarbativa, ao contrário da minha imediata e entusiástica adesão à 2ª.

Começo então com Zinman e a Tonhalle:


2º andamento: aaaah! Chegou agora o repouso ? Brahms era um especialista em adagios prongados de grande lirismo, como o da 2ª sinfonia. Este só tem 8 minutos mas é para lá de genial. Compôr assim não é de homem, só de deus. A partir de 6'20'' entra o violino em solo e planamos no firmamento entre nebulosas e galáxias, e queremos lá ficar. Mas a paz celestial é enganosa.

Agora por Gunter Wand e a NDR:

O 3º andamento parece, mas não é, um Scherzo de 4 minutos, uma história de aventuras pícaras entre montes e vales, perseguições e escaramuças, tréguas também: termina, finalmente ... em paz ! A tormenta passou, quem diria. Só que...

O 4º, ah o 4º ! Voltamos ao sério do primeiro, em 16 minutos. Um novo desenvolvimento na "históra" parece desenhar-se, acompanhado em pizzicato, num tom de intriga policial. Até entrarem as trompas alpinas, e percebemos que se anuncia algo de grandioso e dramático. O momento vem pelos 4'26'', com um novo tema, uma longa melodia à Brahms mas a evocar claramente a 9ª de Beethoven. Só que o trabalho de composição, vertiginoso - variações de orquestração, contraponto, crescendos e stacattos - se constrói em enorme distanciamento de Beethoven. Há um primeiro desfecho de tensão a seguir aos 11', com o regresso à anterior melodia. Mas as coisas 'descontrolam-se' de novo, um pouco e aos 15' temos o clímax final, que se espraia numa intensidade inaudita até à tal apoteose algo brusca com que termina. Sem paz, sem redenção, ninguém feliz para sempre, tudo em aberto para nos deixar exaustos de tanta tensão não resolvida. Quer-nos causar uma apoplexia, Brahms, como quem nos diz, ah queriam um happy end à Mendelssohn, à Dvorak ? tomem lá e rebentem.

Voltamos à Tonhalle com Zinman:


E é ver os maestros no final, ofegantes e banhados em suor, como quem acaba de correr a maratona.

Pronto, queria prestar esta homenagem a uma obra prima de verdadeiro génio que não está nos tops de êxito nem enche salas facilmente, das tais que 'primeiro estranha-se ...'

Um estudo minucioso aqui:
http://www.kellydeanhansen.com/opus68.html


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