domingo, 9 de abril de 2017

Roma (após Paris) de Gogol - nem a bela Annunziata se lhe compara.


Annunziata d'Albano, só o nome é todo um programa de imaginário transalpino, mediterrânico, romano. É a mulher que Gogol descreve em "Roma", uma curta novela que arranca assim num rompante de puro génio:

"Tentem fixar o relâmpago, quando, dilúvio intolerável de luz, fende em ziguezagues um céu cor de seda: assim são os olhos de Annunziata d’Albano."

E continua:

"Tudo nela recorda os tempos antigos, quando o mármore se animava sob o cinzel fulgurante dos escultores. Os cabelos, negros como pez, enrolam-se num duplo diadema de onde escapam quatro longas tranças. Se ela se apresenta de frente, o esplendor nevado do rosto fica gravado no coração para sempre, uma marca indelével. Se a vemos de perfil, emana dessa silhueta uma beleza divina, uma pureza de linhas que desespera o desenhador. Se oferece, vista de trás, a suprema ordenação da cabeleira, a nuca deslumbrante e a majestade das espáduas como nunca se viu na terra, eis outro assombro portentoso. Mas nada vale tanto como aquele minuto em que o seu olhar mergulha no nosso, e sentimos o coração desfalecer. A voz quente tem sonoridades de bronze. A elegância, a desenvoltura, a nobreza dos movimentos deixariam envergonhada a mais flexível das panteras."


Esperava eu portanto um romance de amor tórrido do jovem príncipe regressado a Roma com a bela Annunziata. Mas os protagonistas deste mini-romance de Gogol são duas cidades: Paris, a efémera, e Roma, a eterna. Gogol começa por traçar um quadro entusiástico e exuberante de Paris, onde o príncipe foi passar uma temporada educativa:

"Aí está então essa Paris, cratera em eterna fusão; ( ...) esse bazar, essa feira da Europa ! Pasmado, desconcertado, deambulava ao longo das ruas invadidas por gente de todos os tipos, percorridas por veículos de todos os tipos. (...) Caía em pasmo perante o luxo real de um café; extasiava-se ao entrar nas famosas Passages, entontecido pelo ruído sobre o pavimento de uma multidão compacta composta quase só por gente jovem, encandeado pelo esplendor cintilante dos armazéns onde uma maré de luz desce através do tecto vidrado da galeria; ficava plantado diante dos cartazes multicolores que, aos milhões, nos são lançados aos olhos anunciando os vinte-e-quatro espectáculos e os inúmeros concertos quotidianos. Ao cair a noite, os fogos mágicos do gás iluminaram de repente este encantamento, as fachadas vivamente aclaradas de baixo parecem transparentes, as vitrinas desaparecem, os objectos expostos ganham relevo, como que reflectidos por espelhos para o meio da rua; e foi nessa altura que o nosso italiano perdeu a contenção. Ma questo è una cosa divina ! "
(...)

"Mal saltava da cama, pelas nove da manhã, já se encontrava num magnífico café, revestido de frescos ao gosto da moda, sob revestimento de vidro, de lambris dourados, com jornais de grande formato e um nobre garçon  a curvar á esquerda e à direita entre os habitués, com uma soberba cafeteira de prata na mão. Ali, instalado confortavelmente num divã estofado, degustava como um sibarita uma enorme chávena de café-crème, lembrando-se com pena das lamentáveis salas obscuras e atarracadas dos cafés italianos e da sórdida bottega onde se é servido em copos mal lavados."
(...)

"Do restaurante, corria para o espectáculo, indeciso sobre a escolha do teatro, pois cada um tinha a sua celebridade, actor ou autor, cada um oferecia sempre novidades, desde o drama descabelado até ao vaudeville espirituoso, desmiolado como os próprios franceses, renovado diariamente, criado em três minutos de tempo livre, desopilante de ponta a ponta graças à inesgotável graça dos comediantes."
(...)

"Fazer suceder num só e mesmo dia o despreocupado passeio às comoções violentas da alma, o prazer dos olhos à tensão do espírito, o vaudeville ao sermão, o turbilhão dos jornais ao das Câmaras, o impacto dos concertos aos aplausos nas salas de cursos, o barulho das ruas à cintilação etérea do ballet - que vida inebriante para um jovem de vinte e cinco anos ! Não a trocava por nenhuma outra. Paris era mesmo o sítio mais belo do mundo. Que prazer habitar no coração da Europa, onde mesmo simplesmente caminhando nos sentimos mais crescidos em importância, nos reconhecemos como membros da grande sociedade universal ! "

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Como o compreendo. Talvez hoje Paris não seja essa cidade privilegiada, talvez Itália tenha reconquistado outro brilho universal. E também Gogol nos orienta nesse sentido: o príncipe finalmente acaba cansado, a cidade do frenesim cultural torna-se irritante e fútil, o corpo e a alma pedem repouso - antes desfrutar do Património, da História, das raízes, num sítio de permanência mais que de devir:
- é Roma que chama.


Lá regressado,

(...) " O príncipe mergulhou na contemplação da Cidade Eterna, que se desenrolava a seus pés num deslumbrante panorama. Igrejas e monumentos, agulhas e cúpulas formavam sob os raios de fogo do sol poente uma massa cintilante donde emergiam, solitários ou agrupados, os telhados e as estátuas, os terraços e as galerias. Através dessa fantasmagoria resplandecente, caprichosa como uma lanterna perfurada, dos campanários e dos domos, avistavam-se ora ao perto as formas sóbrias de um palácio, ora adiante a abóbada achatada do Panteão, mais ao longe o contorno esculpido da coluna de Marco Aurélio, sustendo a estátua de S. Paulo, e à direita os edifícios do Capitólio encimados de corcéis e estátuas. Ainda mais à direita, o gigantesco Coliseu dominava um oceano luminoso de telhados; e mesmo ao fundo, um novo amontoado de paredes, casas, cúpulas e pátios, a flamejar sob uma luz incandescente. Nas 'villas' mais afastadas de Ludovisi e Médicis, a negra folhagem dos carvalhos quase petrificados dava uma nota sombria, enquanto os pinheiros mansos de troncos elegantes estendiam por cima uma abóbada de verdura. Banhadas numa luz fosfórica, as montanhas ao fundo espraiavam-se numa cadeia azulada, diáfana, etérea. Nenhuma palavra, nenhum pincel teria sabido mostrar o encadeado dos planos, a harmonia suprema do conjunto."

À beira disto, extasiado, Gogol conclui (também com alguma ironia) :
- qual Annunziata, qual destino secreto, qual Universo, que nada...

Numas poucas dezenas de páginas, fui transportado numa viagem intensa como poucas, através de lugares, de tempos e de pertenças, num enredo amoroso de príncipe e princesa que afinal é amor pela cidade mágica a que pertencem. Fiquei desejoso de lá voltar, a esses sítios.

Lido em tradução francesa, mas foi agora publicada uma edição portuguesa. 


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