segunda-feira, 24 de abril de 2017

Uma rua do Porto: a Mártires da Liberdade, entre duas Praças.


Não sou nenhum entusiasta do Porto, nunca apreciei a tradicional sujidade e desleixo, muito menos a linguagem 'vernácula' e atitudes brejeiras; mas tenho de reconhecer que muita coisa mudou, para melhor; a cidade está mais luminosa e bem cuidada - nos arredores do hotéis, sobretudo dos melhores ; está mais convivial e desfrutada mesmo à noite - mas só à volta dos bares de tapas e petiscos; bebe-se melhor, com muita escolha - mas come-se mal, à base de enchidos, comida enlatada e processada, como a maldita "francesinha" ou o horrendo chouriço assado, a não ser que se paguem fortunas pela cuisine gourmet; está mais limpa, finalmente !, mas vêm os grafiteiros sujar o que foi limpo; tem comércio mais variado, muitas lojinhas pequenas, familiares, mas muitas delas vendem lixo sob regateio e é-se mais bem servido num centro comercial.

Um destes dias tive um compasso de espera de três horas e fui da Praça da República, onde desagua a rua dos Mártires da Liberdade, escura, feiosa, descendo até à Praça Carlos Alberto e dos Leões - ou seja: desde um local ainda envelhecido e degradado até um foco alto do turismo, um Porto cosmopolita no sentido lowcost & airbnb.

Depois regressei, e fui rua acima fazendo fotos, a começar na Praça dos Leões; estava um dia glorioso de Primavera e apetecia gostar da cidade.

Os Leões no alto dos Clérigos, com a Lello, a Torre e as Galerias, é um dos sítios 'diferentes' que o Porto oferece.

A frente de cafés, no lado nascente; agora há também quartos para turistas.

O jardim de Carlos Alberto, numa praça agradável. A fachada era do Hospital da Ordem do Carmo, vai ser mais um Hotel de luxo.

Casas recuperadas.


ex-Escola nº 130, freguesia da Vitória.

À saida da Praça para a rua Mártires da Liberdade, a Companhia União de Crédito Popular, agrupando penhores e ourivesaria, desde 1875. Tem 60 000 clientes, mais que nunca.

A primeira surpresa rua adentro será a Livraria Poetria, nas Galerias Lumière (onde 'dantes' funcionou uma sala de bom cinema, o Lumière). As Galerias foram recuperadas recentemente, com espaços comerciais simpáticos à volta de um 'comedouro' central, tudo limpo e arejado.


Livraria Poetria

Montra : livros dos bons, sem atender às vendas nem às modas. Clássicos. Gostei muito e comprei o nº2 da Tlön, pequena edição colectiva de poesia.
Grande título, Tlön !

Logo acima, o sítio mais culto da rua: a Livraria Académica, alfarrabista de grande tradição na cidade.


Entra-se circunspecto, como em local sagrado.

Prateleiras preciosas, e bonitas !


A Livraria Académica foi fundada em 1912 e para aqui transferida em 1913.
Fica de frente para o Largo Alberto Pimentel:


O Largo é o passeio em frente à Fonte das Oliveiras, construída em 1718. Foi remontada neste local em 1823. O elemento decorativo é uma concha que envolve um golfinho.


Um pouco mais acima, numa zona manhosa abandonada ao entulho e onde estacionam carros (mesmo sendo zona pedonal), outro alfarrabista !
http://homemdoslivros.blogspot.pt/

A nova  Homem dos Livros; muito se lê por aqui, será de ter moradores acima dos 50, ou por ter algumas escolas superiores por perto ? Uma delas é de enfermagem, outra de jornalismo, gente pouco dada às letras.

Para variar, outra lojinha antiga, bem antiga,  que já existia quando por ali andei também a estudar numa Faculdade já transferida para outro lado: o Mercado de Cedofeita. Não falta nada.


Alternam fachadas feias ou decadentes com outras bem interessantes.


O 218 tem um portal precioso em madeira decorada, art-déco suponho. É o V5 Bar, com música ao vivo - abre à noite:

E daqui para cima, num ambiente feio e velho, reinam as lojas de velharias.


bric a brac

Numa esquina, a melhor cafetaria/confeitaria da rua - a Confeitaria Royal:

Lá tomei o meu cafézito. As glórias são 'especialidade'.

Continuando a subir a rua,  muitas varandas de ferro corridas, estilo das casas pobres do porto de séculos passados.


E de repente toda aquela estreiteza sombria desagua na luminosa (mas feia) Praça da República e o seu amplo jardim central.

Palmeiras num jardim pouco cuidado, torres da Lapa ao fundo.

Dos bancos à antiga portuguesa gosto, do jardim nem por isso.

Numa praça feia, o correr de fachadas mais interessante é na ala nascente.


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E mais uma vez uma nota literária a terminar: a revista Tlön.
http://tlonrevistaliteraria.blogspot.pt/
Tlön, planeta fantástico imaginário de Jorge Luis Borges, é agora também uma revista literária de periodicidade semestral. Nº1 dedicada ao Sonho, nº 2 à Infância.


Hei-de seleccionar um poema para publicar aqui no Livro.




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