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domingo, 12 de julho de 2026

Rakvere e Viljandi, herança hanseática em duas jóias da Estónia


Torres de Viljandi

A Estónia tem grandes afinidades com a Finlândia, como é natural. A língua não é parente próxima da russa mas sim do grupo finlandês (fino-úgrico), com muitas influências germânicas, e escreve-se em alfabeto latino. Tal como o Sámi, da mesma familia, usa muitas vezes palavras compostas extensas :

põllumajandusministeerium = ministério da agricultura

hibrīdlietojumprogrammatūra = software híbrido

Pretpulksteņrādītājvirziens = sentido directo (ou anti-horário)

Esta agregação lembra-me também as línguas dos inuit / esquimós

Já aqui divulguei Saaremaa, a grande e bela ilha do Báltico, Pärnu, um porto da Liga Hanseática, e Narva, a desgraçada cidade-fronteira com a Rússia, tantas vezes ocupada e reconquistada por diversos povos ao longo da História.

Gosto muito da Estónia, em parte pela música - Arvo Pärt, Pärt Uusberg, os maestros Järvi, coros como o Kammerkoor Head Ööd - mas mais ainda pela dimensão modesta na paz e tranquilidade da planura, da sua História no Báltico associada à Liga Hanseática, da coragem com que assumem a sua independência.

Rakvere

No Nordeste da Estónia, a leste de Tallin, esta pequena cidade interior de 15 a 20 000 habitantes mantém um reduzido núcleo antigo, duas igrejas banais, dois museus pobres, e ruínas do Castelo medieval. Mas alguns tesouros.

Pikk tänav, a rua Longa.

A Velha Rakvere é quase só uma rua, a Rua Longa, Pikk Tänav. Está bordejada de casas de madeira - não as medievais, que arderam, mas as que foram construídas desde o final do século XVIII, com a chegada do progresso moderno. 

O cruzamento central da Pikk, um prédio icónico, nº 15

Mesmo em frente, o nº 17 da Pikk é de 1887, a imitar o chalet suíço.

Pikk tänav 15, prédio comercial de 1908, agora uma Galeria de Arte.

Em 2020 uma vasto programa de restauro deu nova vida à rua: madeiras recuperadas, nova pintura, esplanadas

A fundo, a torre da Igreja da Trindade


Pikk 3, alojamento e restaurante numa casa de 1865. 

A casa mais antiga da cidade fica na Pikk tänav, nº 21, uma das que datam ainda dos finais do século XVIII:


Uma das casas do séc. XVIII mais visitadas é o nº 50:


Funciona como Casa-Museu da cidade.



Outra casa histórica fica na rua Tallinna, a primeira casa da cidade em pedra calcária; é uma residência aristocrática de 1793, também convertida em espaços de galeria para exposições.

Casa Rehbinderi, Tallinna tn. 5


Igreja da Natividade (ortodoxa)




Altura para um mapa de referência.


O mais notável cidadão , celebrado em escultura de rua, é Arvo Part.


Em 1949, na era soviética, para disfrutar de sinfonias emitidas na Rádio da Estónia que eram transmitidas em altifalantes na praça central de Rakvere, o jovem Arvo Pärt pedalava na sua bicicleta à volta da praça. Em 2010, nos 75 anos de Pärt, foi ali  instalada esta escultura "Rapaz de Bicicleta a ouvir Música".

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O Castelo de Wesenberg e o Tesouro de Rahkla

O castelo sobre Rakvere Vallimägi, o Monte das Muralhas, onde começou a povoação.

Wesenberg foi o primeiro nome germânico do povoado que viria a ser Rakvere, fundado por cruzados dinamarqueses durante o período Hanseático. O castelo foi começado no século XIII (cf. documento de 1252), e completado pela Ordem Teutónica no século XIV. Os direitos de Cidade Hanseática foram concedidos por Lübeck em 1302, plenos direitos aliás pela importância da cidade fortificada na rota para o interior a partir do Báltico.


Rakvere é a cidade capital distrital do Condado de Lääe-Viru. Mais a sul, em Rahkla, escavações arqueológicas revelaram em 2023 um conjunto de 23 taças de bronze do século XIII (1220 - )  das quais nove com fundo gravado são únicas na Europa. O local e a data conferem com a Batalha de Wesenberg, no início da era Hanseática. O achado está agora nas salas de exposição do Castelo de Rakvere.


Guerreiros, batalhas, soldados a lutar com sereias, seres mitológicos, virtudes e pecados... há quem relacione com Ulisses e a Odisseia.

As cenas gravadas podem referir-se à Batalha de Wesenberg (1268), que opôs os ordem reinante de cruzados dinamarqueses a uma tentativa de invasão russa liderada por Dmitri, Príncipe de Vladimir, filho de Alexandre Nevsky; tentativa que fracassou embora o resultado da batalha tenho sido inconclusivo, ambos os exércitos dizimados. As taças poderão ser uma prenda do Rei da Dinamarca aos leais súbditos, levada pelos cruzados.




A Sul da Estónia, a outra bela cidade histórica é

Viljandi 

Cidade importante com mais de 18 000 habitantes, que já esteve ligada ao Báltico nos tempos em que integrava a Hansa.

Praça Johan Laidoneri, no centro antigo de Viljandi.

A cidade, integrada na Ordem Livónia desde 1224, fazia parte da rede de cidades Hanseáticas, através do comércio fluvial desde Pärnu por uma rota de rios e lagos. Viljandi tornou-se membro da Liga logo no início do séc. XIV; na Idade Média os níveis de água estavam bastante acima dos actuais, e Viljandi beneficiava de estar conectado com o Báltico por uma via navegável. 

O canal Pärnu-Viljandi, navegável há alguns séculos, tem trajectos intransponíveis.

As mercadorias descarregadas em Pärnu seguiam em barcas de fundo chato — 'lodi', 'lodja' ou 'lodhia'— que percorriam essa via nos dois sentidos. Traziam sal, têxteis flamengos, vinho e metais, e retribuíam com madeiras, cera, e armazenamento para as rotas interiores, leste e norte da Europa

O 'lodi' deriva das embarcações viking que desciam os rios a partir do Báltico.

O período dourado da Liga Hanseática termina no séc XVII com as guerras entre a Polónia, a Suécia e a Rússia; a Estónia foi invadida e a Ordem Livónia reinante derrubada. Submetida à Suécia e depois à Rússia, Viljandi progrediu sobretudo no século XVIII no reinado de Catarina II, com melhorias urbanas substanciais, com a construção de novos prédios no estilo clássico. É esse núcleo, quase todo das primeiras décadas desde 1800, que constitui o pequeno centro histórico.


Notam-se aqui e ali influências da Liga Hanseática, sobretudo em torno da Praça Johan Laidoneri e da Rua Lossi (rua do Castelo), próximos da linha de água.

Início da rua Lossi, nº 1-5

Lossi Tänav começa perto do lago, junto às ruínas do Castelo.

Lossi, 5

Ao chegar à Praça Laidoneri, juntam-se alguns dos prédios classificados :


Lossi 11

A casa  em Lossi 11, ido nício do sec XIX, foi contruída em toros de madeira.


Praça Johan Laidoneri

A torre do depósito de água , de 1911, é o ex-libris de Viljandi. 30 metros de altura, construída em tijolo à maneira do Báltico. 

O prédio nº 10 da Praça é o museu, Viljandi Muuseum



É um modesto museu regional, etnográfico, instalado no prédio da antiga Farmácia do séc. XVIII.


Vitrinas da Idade Média.


Nõiakivi (pedra de feitiço) , séc. XVI

O Disco de Rattama é uma pedra redonda e furada gravada com sinais estranhos e indecifráveis que se supõe relacionados com ritos mágicos. Parece datar do séc. XVI ou XVII.

Pendente em prata  do séc. XVI, provavelmente obra de fabrico local.

Não é mau viajar assim na minha idade, aprendo muito, as imagens sugerem lugares onde gosto de imaginar que estive.

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Saber mais:

domingo, 5 de abril de 2026

Klaipėda, a bela Lituana

O antigo moínho de arroz do séc. XIII foi convertido no Hotel "Old Mill", obra de arquitectura moderna.

A Lituânia é o maior mas provavelmente o mais frágil dos Estados Bálticos: além do escasso  território, tem uma economia e uma cultura incipientes, não goza da vizinhança fronteiriça de nenhum estado rico - tem uma fronteira deplorável com a Bielorrússia e uma fronteira terrível com Kaliningrado, e está muito mais afastada da Escandinávia do que as mais sortudas Estónia e Letónia. O estéril e muito perigoso corredor Suwalki separa-a da Polónia, é de pouco uso. A melhor rota de entrada e saída é pela costa marítima, pouco extensa comparada à dos vizinhos. É nessa costa que se encontra Klaipėda. Soube há pouco que um contingente português vai participar em exercícios num local próximo de Klaipéda - sinal do alerta europeu contra o perigo russo.


Klaipėda, Lituânia
População: ~160 000


Foi fundada em 1252 por cavaleiros da Ordem Teutónica e por cruzados de Lübeck (7ª cruzada), com o nome de Memel (Memelburg). Mas a designação actual (Caloypede e depois Cleupeda) já estava em uso em 1413, e em plena era hanseática. Memel refere-se às margens do rio, Cleupeda ao terreno pantanoso; pois Klaipėda está também na foz arenosa de um rio, o Danė.

Ponte Biržos, Ponte da Bolsa sobre o Danė

A ligação a Lübeck permaneceu quando a cidade foi integrada no reino da Polónia, e depois no reino da Suécia, mas sempre vinculada à Liga Hanseática. A história de Klaipėda é uma tumultuosa sucessão de pertenças: depois da Suécia foi ocupada pela Alemanha, pela Rússia... hoje, o porto marítimo mantém a vitalidade de outras eras - estratégico no Báltico oriental, é o principal porto livre de gelos no Inverno -, e a cidade ganhou maior dimensão, com quase 200 000 habitantes e uma Universidade. O porto é talvez a principal fonte financeira da Lituânia.


A entrada mais aliciante é pela Ponte da Bolsa seguindo pela Tiltų gatvė, Rua da Ponte. Estamos de imediato no núcleo antigo, e logo ali podemos optar pelo cais, onde não faltam esplanadas e atractivos, ou seguir em frente pela rua da Ponte, ladeada de casas do séc. XVIII.


A casa com nº 1 foi construído em 1915 no estilo Arte Nova, com uma varanda de esquina famosa com trabalho em estuque. De início foi o Memel Bank. agora é o Café Vero.


Para começar bem a visita...

Acontece que o nº 10 da rua Tiltų , logo a seguir,  é também um café ! Mas o requinte é outro.




Também sui generis é o prédio nº 13, com um bonito trabalho em tijolo.

No 13 , outro restaurante


Várias ruas perpendiculares atravessam a Tiltų, mas o bairro histórico concentra-se num quarteirão que começa na esquina com a rua Didžios Vandens, uma das mais importantes.


Uns metros adiante uma viela à esquerda, a Vežėjų gatvė, e depois a Bažnyčių g. e a Daržų g. , constituem o essencial do núcleo do séc. XVIII. 

Rua Vežėjų


Bažnyčių , 11

São muitas as casas de enxamel com traves de madeira horizontais, verticais e diagonais, no estilo tradicional prussiano 'Fachverk'. O espaço entre as traves era preenchido com pedras, tijolos, barro, fibras ou pedaços de madeira. Devido a incêndios e às guerras, as poucas que sobram são já do dos séc. XVIII-XIX, com restauros mais recentes.

Teatro Kukielkowy , de marionetas


E mais ao fundo na rua Daržų

Daržų g. 1

A maior surpresa está numa viela em L , a Bažnyčių g. lateral à Didžios Vandens uns metros mais adiante, que é o coração do bairro. Os acessos são por túneis no piso térreo das casas. É quase uma pátio enclausurado.


Era aqui que se situava a Igreja de Klaipéda, destruída; também era lugar do mercado, com casas de comerciantes do séc. XVII - XVIII; agora é um espaço cultural e turístico.

Pátio dos Artesãos, galeria


Centro de Arte / Museu KKKC, numa das casas históricas mais cuidadas.

Suponho que por esta altura já ninguém duvida do prazer de visitar Klaipéda. Daqui até à Praça do Teatro ainda se passa noutros exemplos dispersos de Fachverk, primeiro na rua Aukštoji e a seguir pela Sukilėlių , ambas ainda bonitas ruas históricas.

Aukštoji nº 1 

Este "arranha céus" de enxamel ainda é mais impressionante visto das traseiras na rua Didžios Vandens nº 2.



Aukštoji 6,7

Aukštoji nº 7

Em direcção à Praça desviamos para a rua Sukilėlių

Sukilėlių 18

Residência Fachverk do séc. XVIII, foi a residência do mestre carpinteiro.


A rua Sukilėlių conduz à Praça do Teatro, o 'centro' de Klaipéda, e a fonte costuma ser usada como 'ex-libris'. É dedicada ao poeta local Simon Dach.




Em frente ao Teatro, a estátua no pedestal é a de Taravos Anikė, ou Ännchen von Tharau, a quem o poeta Simon Dach nascido em Memel dedicou um apaixonado poema.


No lado oposto da praça, esplanadas junto da esquina com a rua Sukilėlių.


Pronto. Estou convencido. Ia lá se pudesse.

O veleiro Meridianas, navio-escola construído na Finlândia, é um dos símbolos de Klaipėda. Está atracado no cais do Danė.


Contrariamente à maioria das cidades históricas na Europa, não há uma única igreja antiga notável. São todas feias, TODAS. E os museus também são irrelevantes.




Só a resistência da Ucrânia garante a segurança deste país.