domingo, 8 de junho de 2014
Sibelius, um finlandês impetuoso e empolgante
Música para um domingo de Junho.
Sibelius foi sempre controverso, havendo desde quem o endeuse a quem denuncie a sua obra como pobre, convencional e irrelevante. Na maioria dos casos, há preconceitos em jogo, em particular das correntes modernistas. Seja como for, é justamente um dos orgulhos dos finlandeses, e conseguiu tanspor para música os ambientes e estados de alma nórdicos.
Um dos discos que colocaria entre os 10 melhores de todos os tempos é a gravação da 2ª e 5ª sinfonias por Colin Davis e a LSO. Volto a ele com frequência, e o entusiasmo nunca mingou.
Além de brilhante sinfonista, Sibelius era um excelente violinista (embora não virtuoso) e compôs em 1903 um invulgar concerto para esse instrumento, ora melancólico ora impetuoso. É o brilhante 3º movimento, allegro ma non tanto, que hoje deixo aqui, uma espécie de cavalgada vertiginosa em forma de polca em ritmo 3/4 que à primeira 'vista' nada parece ter de nórdico - mais parece o avançar das hordas mongóis de Kublai Khan ou música para o Palio de Siena, excitante até ao fim. Disse Sibelius que o compôs como uma dança esvoaçante sobre a vastidão da paisagem finlandesa.
Será a dança feérica das auroras boreais ?
Abre nas cordas de graves da orquestra, simulando percussão, para uma entrada súbita do violino, que não mais se calará, obsessivo, imparável, exuberante, heróico.
[Claro que compensa regular o volume upa upa ]
Joshua Bell, dir. Esa Pekka Salonen
David Oistrach, dir. Gennady Rozhdestvensky
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Hercules de Handel na Ópera da Bastilha (2004) - Bohlin, DiDonato et alli
Já 'toda a gente' deve ter visto o Hercules que William Christie dirigiu na Ópera da Bastilha com Joyce DiDonato e Ingela Bohlin. Está editado em DVD.
O canal Mezzo tem andado a passar esse registo e num destes dias consegui vê-lo na íntegra. Deve ter sido memorável para quem assistiu - há muito não via uma récita tão magnífica. As Arts Florissants de Christie estão ao seu melhor nível - insuperável - e o canto é desempenhado por vozes que é um permanente gosto ouvir; além das duas protagonistas, destaco o Hyllus de Toby Spence. A encenação não é a meu gosto, sobretudo a lata de crude (?) azul e amarela, mas já se viu pior; e a teatralidade dos cantores transmite uma intensidadade rara, com destaque para a excelente actriz que é DiDonato.
O tema é o ciúme, o mais absurdo e doentio, que mata aquele que se ama. Handel descreve os estados de alma (a personagem de Dejanira é uma obra-prima) com uma precisão e sensibilidade que me espantam, tendo em conta a época e a personalidade dele. São de sobra os momentos de antologia, escolhi colocar aqui alguns que me tocaram mais.
Hercules, HWV60, de Handel
Ópera da Bastlha, 2004
Les Arts Florissants, dir. William Christie
Iole - Ingela Bohlin, soprano
Lichas - Malena Ernman, mezzo-soprano
Hercules - William Shimell, baritone
Hyllus - Toby Spence, tenor
Dejanira - Joyce DiDonato, soprano
Ária "Begone, my fears, fly hence, away"
Côro "Jealousy! Infernal pest"
Fantástica a opção cénica aqui, de arrepiar a música.
Joyce, Joyce, não há igual.
A famosa "Where shall I fly"
Finalmente,
A Iole de Ingela Bohlin, a soprano surpresa !
Uma ária simplesmente genial...
Justiça foi feita a mais uma bela ópera, injustamente menorizada, do caro Sassone.
domingo, 1 de junho de 2014
O café do Jardim Botânico de Akureyri
Mais um dos meus sítios improváveis.
Akureyri fica muito perto do círculo polar, a 65º N de latitude. Não são de esperar jardins botânicos e muito menos cafés ao ar livre.
Pois... mas mais uma vez, é de coisas assim que se faz o gosto que ainda vou tendo pela raça: um sítio que é um sucesso de civilização. Ver para crer.
Akureyri tem a sorte de gozar um clima relativamente ameno para aquelas paragens, mas mesmo assim, numa ilha sem floresta, feita de terrenos ermos, pedregosos ou lamacentos, quando não de lavas, e de muito frio e neve, que Jardim Botânico pode haver?
Este:
O 'Lystigarður Akureyrar'
Delphinium
Capuchinha e Lobélia
Delphinium de coração preto
Delphinium branco
Amor-perfeito
Colombina (Aquilegia)
Dictamus Albus (Fraxinela, Sarça ardente)
Flôr do cardo
Morango sivestre
Papoilas
Tristonha e cinzenta, a Islândia ?
O ' Café Björk '.
Esplanada a 65º N.
A janela panorâmica do Björk, em sintonia com os caules de árvores circundantes
Depois disto tudo quis saber alguma coisa de Akureyri. Não é nada de especial, cidade piscatória de que sobram algumas casas de madeira do estilo nórdico tradicional; mas, que tem Akureyri no centro e que é a maior atracção, onde se reúne toda a gente sobretudo em dias soalheiros ? O edifício mais icónico?
Um café ! O Bláa Kannan :
O centro de Akureyri "é" o Café Bláa Kannan (Caneca Azul).
Estou conquistado !
A primeira vez que li o nome 'Akureyri' foi no Tintin, "A Estrela Misteriosa" :
Akureyri, um dia destes, vou aí provar uns cafezitos.
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* 'A Islandia', de J L Borges :
De las regiones de la hermosa tierra.
Que mi carne y su sombra han fatigado.
Éres la más remota y la más íntima,
Última Thule, Islandia de las naves.
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