sábado, 9 de agosto de 2014
Memórias: os livros de História da Hachette
Devo (entre muitas outras coisas) à minha tia preferida ter-me revelado as maravilhas da História num manual escolar francês (ela era profundamente francófila) da Hachette, dos autores F. Durif e P. Labal.
A paginação soberba, inovadora
Era um livro magnífico, o manual para a 'classe de 6eme' de 1964, encadernado em capa dura acetinada (já por si um regalo) e que ao folhear transmitia aos dedos um toque aveludado de papel impresso que nunca voltei a sentir noutros livros. E um odor a tinta muito particular...
As ilustrações - sobretudo os desenhos e esquemas, que agora se chamam 'infografias' - eram um deslumbre: as casas romanas vistas por dentro, o Fórum, o exército romano... O texto, empolgante, estimulava a imaginação.
Sim, este volume era dedicado à História de Roma, e de tal modo seduzia pela forma e pelo texto que o devo ter lido dezenas de vezes. Ainda está aqui preciosamente guardado, pouco acima do sítio de onde escrevo.
Nada que se pareça com as aulas de História no Liceu, chatérrimas, discursivas, e com um manual árido que quase só falava dos nossos feitos e heróis descobridores, os padrões em África, as vitórias sobre os indígenas e outras secas.
Páginas duplas sobre arte, aqui a abóbada romana.
Entretanto, fascinado, corri alfarrabistas e mais tarde a internet para arranjar outros volumes, e lá consegui - 6eme, 5eme, 4eme, 3eme. Havia páginas sublimes, como as seis (6 ! ) dedicadas à pintura holandesa, coisa nunca vista por cá. Continuaram assim até ao fim dos anos 70.
6, 5, 4
Páginas do Hachette de 6eme sobre o Egipto
Foi com desgosto que constatei que depois, já há muitos anos, a Geografia passou a estar incluída, partilhando metade do manual e dando cabo da sedução. É uma completa idiotice, essa mania recente de História e Geografia serem uma espécie de disciplina única que partilham horário lectivo.
Basta olhar para o aproveitamento - notas muito altas a Geografia, muito baixas a História - para se perceber qual era a intenção: de facto a Geografia é uma área de conhecimento fácil, dada às 'novas pedagogias', quase só descritiva e memorizável, enquanto a História é bem difícil, exige raciocínio, entendimento apurado, capacidade de análise e de reflexão.
E, apesar do que disse acima, também os Hachette falavam de Portugal, de forma bem mais arejada, assim:
A perspectiva diferente - que os portugueses mais não faziam (mais não queriam) que tomar o lugar dos árabes nas rotas de comércio. Não conseguindo fechar o Mediterrâneo, tomam Ormuz para fechar o Golfo Pérsico. Mas a cadeia de portos de apoio desde Lisboa a Macau era demasiado extensa e começou a ser desmantelada pelos rivais...
terça-feira, 5 de agosto de 2014
De Stanford, um 'andante tranquillo' para um Verão suave.
Ultimamente tenho trabalhado bastante aqui para o Livro, agora deu-me a preguiça. Este é um post preguiçoso.
Aqui fica, de Stanford, o 3º andamento da Sinfonia nº 1:
Gosto muito da elegância e fluência com que este andante se desenvolve, começando mais melancólico para depois, ao minuto 3.55, adquirir outro ritmo mais gracioso e uma orquestração enriquecida, antes de terminar com as madeiras a dar um toque pastoril. Deixa-me uma sensação agradável de tranquilidade e completude.
Charles Villiers Stanford (1852 - 1924) é o mais conhecido compositor clássico irlandês. Nasceu em Dublin e foi educado em Cambridge antes de estudar música em Leipzig e Berlim. Sendo profundamente vitoriano, afastou-se das correntes modernistas, ficando fiel ao classicismo de Brahms e Mendelssohn, cujas obras dirijia frequentemente como maestro, à frente da orquestra do Royal College of Music.
sábado, 2 de agosto de 2014
La Siesta
Tempo de sesta, então.
A hora sexta dos romanos, contada a partir do nascer do Sol, correspondia ao meio-dia.
O historiador medievalista Jacques Le Goff, recentemente falecido, explicava que a Igreja, que tinha imposto o seu tempo litúrgico às sociedades medievais marcando-lhes o ritmo com o toque dos sinos (invenção dos séculos VI e VII), irá, a partir do séc. XII, sofrer a concorrência do "tempo dos mercadores", tempo laico, tempo do trabalho assalariado, tempo urbano, marcado pela torre do relógio cívico. Na sua opinião, o deslizar da hora dita "nona", a hora da pausa e da refeição na alta idade Média onde se situava à volta das catorze horas, é efectuado em aproximação ao meio-dia ("sexta"), permitindo a jornada dupla de trabalho.
Durante os séculos XVII e XVIII, o almoço ainda é servido entre as onze e o meio dia, e só no séc. XIX se atrasa de novo para entre o meio-dia e a uma.
A referência mais antiga parece ser a do monje Bento de Nursia (480-543), fundador dos beneditinos e inventor de relógios, que no Regulamento da Ordem escrevia:
“Desde Pascua hasta el catorce de septiembre, desde la mañana, al salir de prima, hasta aproximadamente la hora cuarta, trabajen en lo que sea necesario. Desde la hora cuarta hasta aproximadamente la hora de sexta, dedíquense a la lectura. Después de Sexta, cuando se hayan levantado de la mesa, descansen en sus camas con sumo silencio, y si tal vez alguno quiera leer, lea para sí, de modo que no moleste a nadie."
E assim o 11 de Julho, celebrando São Bento, celebra também o patrono da sesta !
No meu caso, tendo deixado de me regular por jornadas ou sequer pelo relógio, almoço quando calha, tarde, e a quebra que se segue, o calor ajudando, pede sesta lá pelas 15 ... ou mesmo mais tarde.
Le Hammack, Gustave Courbet.
Afternoon Nap, Harry Mitten Wilson
La Siesta, Van Gogh, inspirado por Millet
A sesta de um homem, de boca aberta a ressonar, não é tão estética - deixo aqui o meu sofá preferido, mas vazio. Ma méridienne, quoi !
"Laissez-vous aller, allongez-vous, ne résistez pas à l'appel de la sieste, à ce plongeon voluptueux dans le sommeil diurne! Dormez, rêvez, rompez les amarres avec la rive du quotidien chronométré! Décidez de votre temps, siestez!"
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