sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Passeio entre matizes outonais no Parque


Parque da Cidade, 17h, sol baixo de Outono. Tapete fofo de folhas - plátano, choupo, carvalho, amieiro, magnólia. 



Do pálido ao verde-escuro, passando por todos os dourados e verdes.





Olhando para baixo, a tapeçaria que o sol tece:




Voici que la saison décline,
L’ombre grandit, l’azur décroît,
Le vent fraîchit sur la colline,
L’oiseau frissonne, l’herbe a froid.


Victor Hugo, Feuilles d'Automne


                                         Time hurries on
                                         And the leaves that are green  

                                         turn to brown
                                         And they wither in the wind
                                         And they crumble in your hand

Paul Simon



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

As democraduras, invenção de fim-de-século consolidada no século XXI


Democradura, palavra inventada pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano e também título de um livro:
La Democrature: Dictature camouflée, Démocratie truquée
Max Liniger-Goumaz

Sim, sim, vai-se a eleições aparentemente livres, há partidos e tudo; mas só um tem possibilidade de vencer, e depois tenta eternizar-se no poder e dominar todos os meios produtivos e informativos. Exemplo: um recente estudo sobre liberdade informativa põe a Turquia de rastos; depois do golpe, a entourage de Erdogan tudo controla, tudo corrompe, trata qualquer oposição com violência, ódio, desprezo.

Mas assim é também no Congo de Kabila, na Angola de Eduardo dos Santos,  na Rússia de Medelev/Putin, assim na Bolívia de Morales, na Cuba dos Castros, assim na Venezuela de Chávez/Maduro, e vários da Ásia central (Cazaquistão,...) e do Sul. Até o Irão embarca na imagem de democradura, com eleições, mas esse ainda é medieval, cultiva o atraso com afinco.

Às antigas ditaduras militares golpistas sucederam as democraduras civis legitimadas pelo voto. À "ameça comunista" ou à "ameaça fascista" que justificavam as ditaduras, sucedem as teorias da conspiração: existe um complot, um eixo do mal, uma conspiração enfim, venha ela de Madrid, Washington, Miami, Londres, Adis Abeba, Moscovo, União Europeia ou até Lisboa. Daí a 'suspensão' da democracia.

Na Rússia, Putin sucede a Medvedev sucede a Putin ....Na Bolívia, Evo Morales vai para o quarto mandato sucessivo, tendo para isso alterado a Constituição, modelo adoptado também por Mugabe no Zimbabwe, no poder há 36 anos por via eleitoral, ou Nazarbayev no Cazaquiatão há 18 anos, e por quase toda a Ásia central onde as ditaduras se procuram disfarçar (mal). "Que é que querem mais? Fomos a votos, ganhamos." E viva o fingimento, o verbo actual é 'fingir'.

Era preciso que a UN / ONU definisse democracia e ditadura, tornasse claro quem está em regime de liberdade autêntica e quem em regime de semi-liberdade condicionada. Liberdade não é beber coca-cola ou usar mini-saia, ter carro ou conseguir passar nos jornais (porque os jornais já são semi-livres, condicionados); nem sequer basta ter acesso às necessidades básicas, saúde e escola. Urge definir democracia como o regime onde há liberdade e impunidade de denunciar, sobretudo de denunciar abusos de poder.

Lista de Democraduras (provisória - aceitam-se sugestões):

Angola, Bolívia, Cazaquistão, Congo, Cuba, Rússia, Turquia, Venezuela, Zimbabwe.


Não incluí as pseudo-democracias islâmicas, que cumprem 'tudo' (!) menos a igualdade de direitos de género e de etnia, os direitos sindicais, a liberdade de vestuário... nem incluí a democracia indiana com as suas castas... nem os países sob ameaça bélica, de democracia semi-suspensa, como Ucrânia ou Arménia...

Outra lista é a das ditaduras puras e duras. Essa parece agora mais curta: Coreia do Norte e China e alguns africanos. Triste consolo.

Ah Europa, por mais mal que de ti digam, que luminoso oásis ! Não é uma organização deficiente nem líderes fracos que fazem uma democracia sadia, mas que diferença mesmo assim, és o modelo, o 'standard', para avaliar outros regimes. E que luminosa a tua extensão aos antípodas.
'Euro-Oceanic Democratic Community'


Amaldiçoados sejam pois os que nos querem fora da Europa.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Visita a Joan Miró em Serralves, † BPN


Depois da romaria inicial, pude enfim ir à Casa de Serralves ver as obras de Miró da colecção do ex-BPN que pelos tortuosos acasos da vida ficaram - parece - ao cuidado da autarquia do Porto. Provavelmente teremos estar gratos a um enorme conjunto concorrente de circunstâncias - ambição e falência do BPN, Christie's, Estado português, Parvalorem, Rui Moreira, e sei lá quem mais. Fico baralhado, mas tamanha confusão ao fim e a cabo produziu algo que me apraz saudar: obras de Arte do grande Joan Miró na geralmente tacanha e provinciana cidadezita onde moro. Vivam as trapalhadas, então.


Lá em cima , 'Toile brûlée',1973

Não é uma colecção, já se sabe; o BPN, com a mania das grandezas associada à má gestão, adquiriu entre 2000 e 2006 um "fundo de stock", talvez para abrir um museu BPN em Portugal. A sorte (para mim) é que inclui obras do melhor período de Miró.

A abrir:

' Tête', 1937


Uma das mais notáveis é esta obra, utilizada no folheto e na publicidade:

'Le chant des Oiseaux à l'Automne', 1937

'Personnage et étoiles dans la nuit', 1965, vale milhões.

'Peinture', de 1936, outra que vale milhões. Gosto, mas pouco.

'Personnage et oiseaux', 1965. Adoro. O traço a sobrepor-se às manchas de côr numa dinâmica de fantasia, quase bailado.

e o meu favorito:

' Signes et figurations', 1935



------------

Que balanço? As melhores safras são dos anos 30 e dos anos 60. Cinco ou seis magníficas obras de arte que felizmente cá ficaram, o resto bem se podia ter vendido.

Agora, os toques de vinagre.

O tão gabado trabalho do Siza parece, como quase sempre, de uma grande vulgaridade. Tapou as janelas com cortinas, óbvio, e mandou fabricar uns painéis, olha a grande coisa, não ia estragar as paredes. É que não se vê mesmo que pudesse ser de outra forma. Mesmo assim, há salas onde os reflexos são de mais e a luz de menos.

Uma irritação, grrrrr, aliás duas: essa coisa de "os Mirós", por favor, que tuga. Alguém diz os Paulas Regos ? os Miguel Ângelos? os Rafaeis? os Da Vincis ? falámos de quê, da família? Se querem abreviar, é os Miró.

Pior, sim ainda piorrrr, é a história do 'catalão'. Miró é um pintor ESPANHOL, essa é a sua nacionalidade de facto, àgora catalão. Ou vamos dizer o beirão Cargaleiro, o sãotomense Almada Negreiros? Hergé, autor de BD valão ? Brel, chanteur flammand?

diz a Wikipedia: 
Joan Miró i Ferrà (...) was a Spanish painter, sculptor, and ceramicist born in Barcelona.
Joan Miró i Ferrà  (...) fue un pintor, escultor, grabador y ceramista español.

e muito bem

O artigo do Expresso é particularmente irritante nestas calinadas, tanto mais que o autor, Celso Martins, nitidamente enviesado, salienta duas obras sem interesse nenhum e nem refere as mais notáveis, desvalorizando o conjunto que preferia ter sido vendido. Enfim. Não vai ficar em Lisboa.

'Personnages dans la nuit', 1968

Catálogo aqui.