domingo, 26 de janeiro de 2025

Batumi, porto e cidade vibrante do Mar Negro, na admirável Geórgia

Há meses publiquei um post sobre a fascinante Mtskheta, agora dou a ver a Geórgia mais rica, moderna e europeia: uma cidade da Belle Époque renovada, animada, limpa e apetecível, a sul da indigente costa russa: Batumi.

Convém começar por insistir : a Geórgia fez parte do império romano alargado, foi bizantina e manteve-se europeia resistindo a persas, mongóis, turcos e russos. É um país de contrastes violentos entre as aldeias isoladas nas montanhas do Cáucaso e as cidades cosmopolitas da planície e do mar, cidades quentes de clima sub-tropical; e de contrastes também étnico-culturais - matriz cristã ortodoxa, fortes heranças turcas e russas, espírito aberto e civilizado europeu. Actualmente está em convulsão devido à situação geoestratégica; sente-se irmã de armas da Ucrânia e aspira à União Europeia - seria muito bem vinda, mas complicaria muito a gestão das relações com o império agressivo de Moscovo.

Batumi é desde os Gregos (Batumi <- Bathys, porto) um dos raros portos de águas profundas na costa leste do Mar Negro. Nos primeiros séculos da nossa Era mandavam os Romanos e o Imperador Adriano mandou fortificar o porto. Quatro séculos depois seria abandonado a favor do Forte de Petra mais a sul, já sob Justiniano. Mas a região Adjari, ou Adjara, era disputada também pelos Persas, que várias vezes a tomaram aos Romanos, até à vitória definitiva de Roma em 628; logo vieram turcos e árabes juntar-se à disputa. Durante o período Bizantino, é fortalecido o poder da Igreja Ortodoxa que seria consolidado no século XI. A cidade viveu um período de calma e expansão até à anexação pelo Império Russo e depois pela URSS de 1879 a 1991, instalando-se na Geórgia um regime fantoche corrupto que levou Batumi a uma quase ruína. Agora brilha como capital da Adjara.

A Praça da Europa



A sala de visitas de Batumi é a Praça Europa, e a sua incrível estátua de Medeia, homenagem ao passado Grego: esta é a cidade do Tosão de Ouro ! O rio Rioni que os Argonautas subiram fica um pouco mais a norte.


A praça central de Batumi recebeu o nome da aspiração Georgiana: a Europa. É um vasto espaço com arquitectura eclética em torno, mas o que sobressai é este 
prédio do antigo Banco Nacional, situado na principal rua da cidade ao passar pela Praça: a avenida Memed Abashidze. 

 
Também há fartura de fontes para amenizar os mais quentes dias sub-tropicais.

O Relógio Astronómico


Na Torre do antigo Banco Nacional, este relógio astronómico é uma modernice requintada, sinal de novo-riquismo entusiasmado com a Europa. Feito por encomenda na Alemanha em 2010, inspirado no famoso relógio histórico de Praga.


Ainda no edifício do Banco Nacional , a ' КНИГИ ' (= Livros) conhecida agora como restaurante BK, para casamentos e outras celebrações, tem uma janela em vitral com um caixilho redondo de madeira que não é nada vulgar.


O vitral representa cenas religiosas bíblicas.

É o nº 25 da Memed Abashidze.

Batumi foi visitada por escritores, artistas e exploradores nos séculos XIX e XX: para além do norueguês Knut Hamsun, que fez uma longa viagem por toda a Geórgia, também aqui estiveram por exemplo Alexandre Dumas, Vítor Hugo e John Steinbeck.

Quase todos referem que o pior de Batumi é o clima, quente e húmido (80-90%), muitas vezes desagradável - a roupa colada ao corpo. Os ventos do Mar Negro ficam bloqueados pelo Cáucaso, o que resulta numa extrema pluviosidade. Também era um problema até ao século passado a frequência de infecções e doenças tropicais.


Os quarteirões da cidade antiga, um quadriculado de ruas, são os que estão próximos do porto, com maior relevância para as ruas perpendiculares à costa, que correm leste-oeste e se inundam ao fim da tarde das cores quentes do pôr-do-sol. Abundam as varandas cobertas em ferro forjado, uma das características mais pitorescas da cidade.

Avenida Abashidze

Dessas ruas, a mais notável é a Memed Abashidze, com cerca de 4 km desde a promenade marítima, passando pela Praça Europa e a Torre do Relógio e continuando como longa rua comercial e residencial. No século XIX era o centro bulicioso da cidade, onde tudo se passava e onde moravam as famílias ricas; agora enche-se de esplanadas, de cafés e restaurantes.


O primeiro troço da rua para quem vem do lado do mar é o mais rico em varandas.


Memed Abashidze foi um leader independentista da Adjara, perseguido pelo regime soviético. Uma das casas onde viveu fica aqui:


A casa chama a atenção pela bela varanda metálica em azul celeste.


O Cinema Apollo


No nº 17 fica o Cinema Apollo, que o regime soviético demoliu; desde a independência, foi fielmente reconstruído, mantendo-se como sala de cinema.


A Memed Abashidze entra lateralmente pela Praça Europa. O nº 22 é o prédio de prestígio que ali faz esquina com a rua Gamsakhurdia, que se verá mais adiante.


Foi a Casa de Sabaev, de 1903-1904, localmente conhecida como Prédio dos Atlantes, os Titãs que sustentam o mundo.


É agora a sede administrativa do Governo Provincial de Adjara.



Ao longo da Praça Europa, a rua passa pela Torre do Relógio e sai em grande com mais dois prédios notáveis.

Há uma florista, um café e um restaurante.

O prédio nº 34-36 foi a primeira farmácia, construída no fin de siècle (XIX), o melhor período de toda a Batumi. O escritor norueguês Knut Hamsun, que visitou a cidade em 1899 durante a sua longa e atribulada viagem ao Cáucaso, relata que em estado febril procurou remédio nessa farmácia.


Arquitectura requintada de inspiração francesa.



Continuando pela Memed Abashidze, mais acima:


A casa nº 49 é o Teatro das Marionetas, ou Teatro Infantil, do início século XX, patrocinado pelo independentista Memed Abashidze. Como represália, foi fechado durante o poder russo e usado como a 'Casa dos Professores'.


Actualmente continua a oferecer espectáculos e actividades variadas para crianças.

Outra rua: A Konstantine Gamsakhurdia atravessa a Memed Abashidze numa das esquinas da Praça, no sentido norte-sul; é uma animada e agradável avenida, pela sombra das árvores ao longo dos largos passeios e pelas lojas de prestígio. É profundamente europeia no ambiente cosmopolita de comércio, cafés e restaurantes, como o Café Literaturuli !

No Café Literário.


Decididamente gostam de café e de livros, boa razão para que se vá a Batumi. Uma surpresa. Na esquina final com a Avenida Rustaveli fica o Coffeetopia, sítio chique com esplanada.

 K. Gamsakhurdia nº6



Tem vista para a Fonte de Neptuno, em frente, mais uma imitação de mau gosto (da fonte de Bolonha).


Ao aproximar-se do passeio marítimo, cruza-se com a grande avenida Rustavelli:

Konstantine Gamsakhurdia ao cruzar a Av. Rustaveli - cidade mediterrânica.

Na Rua Parnavaz, bem no centro histórico, a igreja mais bonita de Batumi ocupa uma esquina entre prédios modernos: St. Nikoloz, ou S. Nicolau.


Igreja ortodoxa grega de S. Nicolau

Foi construída pela comunidade grega da cidade, e terminada em 1865.


É a mais antiga de Batumi, obra de um arquitecto austríaco no estilo neo-bizantino, com as paredes exteriores pintadas em faixas vermelho e branco. 

Mosaico na esquina exterior.


O interior é rico em ícones do séc. XIX.




Ainda não disse, mas digo agora: infelizmente, Batumi está recheada de mamarrachos modernistas, muitos deles em forma de torre ao arranha-céus, que a desfeiam tanto mais quanto se encontram dispersas tanto pelas avenidas da beira - mar como pelas ruas da parte velha. Um novo-riquismo de gosto desagradável, como se tivesse havido ânsia de parecer moderna à força.

Museu  de Arte de Adjara

Um edifício de 1883, no século mais pujante de Batumi.


No cimo das escadas, a peça central é uma escultura.


Ninfa e um pequeno Fauno, 1853 , mármore de Emilio Santarelli , escultor de Florença.



Algumas obras, imagens obtidas no site:

"Velhos", de Gigo Gabaszwili, pintor Georgiano, 1862-1936

Radish Tordia, "Rapariga de branco", 1992

Zaur Tsudlaze, Porto de Batumi, 2003

Rusudan Petviashvili ´Regret´, 2000


Em Batumi há também um excelente Museu Arqueológico com os achados de escavações em sítios próximos - a colónia Grega de Pichvnari, a fortaleza Romana de Gonio, e na região de Kobuleti vestígios desde a Idade da Pedra.

Jardim Botânico de Batumi


O Jardim Botânico é um espanto; ocupando uma encosta íngreme sobre o Mar Negro, tem uma enorme variedade de flora, uma das mais extensas do mundo - árvores e plantas exóticas da Ásia (incluindo Himalaias), América do Sul, Oceânia, Mediterrâneo e Cáucaso.


Foi inaugurado em 1912 pelo botânico Andrey Krasnov (1862-1914), da Universidade de Kharkiv, tem mais de 1 km2, e visita-se a pé por uma rede de caminhos.



Em Batumi há animação e vontade de civilização, as gentes vivem em democracia mesmo que o regime seja fantoche e corrupto. Esta dualidade existe há muito na Geórgia, é quase um hábito, mas nestes dias os habitantes mostram uma crescente vontade de mudar para melhor.




















domingo, 12 de janeiro de 2025

Crimeia: palácios, castelos, falésias, Scitas, Persas, Gregos, Romanos, Mongóis, Tártaros, Turcos, Cossacos, Russos - e Ucranianos


Que tem a Crimeia para ser tão desejada? 

Fortaleza e Castelo Genovês do séc. XIV, costa sul da Crimeia.

A Crimeia é de quem a apanhar, como a outra pomba; ao longo da História foram muitos os seus ocupantes, deve ser um dos territórios europeus que mais vezes mudou de 'dono'. Para não recuar mais atrás, o reino civilizado mais antigo foi o dos Scitas*, seguiram-se Persas, Gregos, Romanos, Varângios do Rus', Turcos, Mongóis da Horda, Tártaros, Turcos de novo, russos** e Ucranianos. A juntar também uma vaga de intensa imigração Arménia. Devo estar a falhar algum. Terra cosmopolita por excelência, portanto, à custa de sucessivas colonizações, migrações, invasões e conflitos.

Iphigenia em Táurida é um drama de Eurípedes, posto em ópera - uma bela ópera ! - por Gluck em 1779; quando a ouvi, não fazia ideia de que Táurida é a ' Taurica ' grega (Taurikḗ), nome que davam à península da Crimeia. Que tenha sido objecto de uma peça de teatro clássico é prova da importância que o território tinha para os Gregos; a colónia mais importante ali era Tauric Chersonesus, actual Sevastopol !

Portanto, e antes de mais, a Crimeia é Europa, muito Europa. Quando chegaram os russos durante a monarquia czarista, só procuravam as praias e os bosques, foram construindo palácios de férias, ou villas de vilegiatura, para membros da alta nobreza czarista, e depois para quadros VIP soviéticos (Estaline...), e depois ainda para oligarcas corruptos... Quase todos, gente criminosa com sorte.

Vou começar em VI A.C., quando ainda os humanos eram 'puros' e 'duros'. O Império Scita existiu entre os séculos VII e III AC, nas estepes Pônticas à volta do Mar Negro. Os Scitas eram um povo nómada de origem persa, não edificaram cidades relevantes, mas tiveram um papel importante na Rota da Seda entre a Grécia e a China, via Índia. Houve convivência pacífica com as colónias que os Gregos ali instalaram desde o séc. VII AC.

O Império Scita expandiu-se para Sul com a conquista da Assíria, coisa de pouca dura; no século VI A.C. houve escaramuças com as tropas aqueménidas de Dario I, mas o império só foi desmantelado com a conquista dos Romanos no século I A.C.

O Kurgan (túmulo) de Kul-Oba,cave funerária de um rei Scita na Crimeia.(400-350 AC), perto de Kerch.

Vaso Scita desenterrado em Kul-Oba

Espada Scita em ouro.

Os Scitas foram notáveis pela produção de artefactos em ouro, alguns estão exibidos em museus da Ucrânia, outros surripiados pelos russos durante a invasão. Há sítios arqueológicos ao longo do rio Dniepre, com destaque para Zaporizhzhia.

A Chersonesus Taurica

 
Ruínas de Chersonesus, Crimeia: a 'Basílica 1935', bizantina do século VI.

Chersonesus deu origem ao nome 'Kherson' da actual cidade Ucraniana; mas a sua localização é junto a Sebastopol. Fundada no séc. VI AC, foi a principal colónia grega (depois romana) na península, e capital da Táurida. Para os gregos, era um importante porto para o transporte de trigo, a produção mais preciosa da região.

Há um 'feeling' mediterrânico nesta costa sul. 

Não há muito, a ocupação russa, empenhada em apagar a história, construiu no local um grande anfiteatro aberto, feioso de moderno, em cima das ruínas! Barbaridade? Têm feito muito pior que isso.

Outras colónias relevantes eram, mais a leste, Pantikapaion, um porto estratégico, e Theodosia, fundada por Mileto no séc. VI A.C., que rebaptizada Kaffa viria a ser um porto importante e o términus europeu da Rota da Seda.

Ruínas da Panticapaeum romana.

Entre 47 AC e ca. 340 DC, a Crimeia esteve integrada no Império Romano. Vespasiano, em 66 DC, ocupou o campo militar Scita de Charax, que se tornaria a principal povoação fortificada, centro de defesa contra investidas Scitas. Localizada perto do famoso "Ninho da Andorinha", a sua missão era proteger o porto comercial em Chersonesus, de onde se exportava trigo, cerâmicas, tecidos, vinho, e se traficavam escravos. Contudo, a maior cidade romana estava em Olbia, na foz do Dniepre.

O Anfiteatro Romano em Chersonesus, destruído pelos russos.

A Crimeia aquiriu importância maior sob o domínio Turco-Bizantino no século VII-VIII. O regime Khazar (turcos nómadas) estabeleceu capital na cidade fortificada de Doros, (antiga Theodora). O Império Khazar, de que pouco se fala, estendia-se no auge desde as estepes do Don até às montanhas do Cáucaso; dominou a Rota da Seda e estabeleceu a conexão entre o Rus' de Kiev a Norte, o Médio Oriente persa e a China.

Fortaleza turca de Mangup, em Dora.

A relação entre povos era ambígua, turcos e bizantinos partilhavam terras e negócios, sobretudo após a queda do Império Romano do Oriente (1204). Começou então um período pacífico, em que a poderosa Génova chegou até estes confins por via das Cruzadas, e lá permaneceu desde o século XIII até à segunda metade do séc. XV. Em 1260, conseguiu direitos exclusivos de comércio marítimo no Mar Negro, e os genoveses estabeleceram capital em Kaffa, a Theodosia grega. O comércio de sedas, metais nobres e especiarias animou a cidade e tornou-a apetecível.

A Fortaleza de Sudak, bastião de defesa da presença Genovesa.
.
Fortaleza de Kaffa e templo arménio do séc. XIV.

Durante o século XIII a Crimeia e a costa do Mar Negro foram um ponto de passagem fulcral para a Ásia; entre outros, o pai e o tio de Marco Polo passaram por aqui de viagem para a China. 

Sudak e Kaffa eram as principais colónias genovesas.

Embora intensa, a presença genovesa foi de curta duração, pouco mais de 30 anos; estavam a c,hegar a Horda dos Mongóis. A sua primeira investida ainda foi rechaçada, mas outras se seguiriam, e o célebre Cerco de Kaffa terminou, ao fim de 3 anos de resistência tenaz, em desastre total: a Peste Negra serviu de aliada aos Mongóis e a cidade foi dizimada em 1346.

 O exército Mongol atacando a fortaleza de Kaffa.

Em 1475 completou-se a invasão e conquista Mongol / Otomana pela Horda Dourada (Ulus Ulus) com a instauração de um regime de tirania baseado no tráfico de escravos. O Khanato turco-mongol da Crimeia, sediado em Bakhchysaray, iria permanecer até 1783, violento e punitivo, um regime fanático islâmico como alguns de agora.

Teve um destino semelhante ao que causou: desde o século XVII que as rotas de negócios dos turcos vinham sendo assoladas por raids de cossacos, que conseguiram conquistar Kaffa / Theodosia com uma frota de pequenos barcos.

A conquista de Theodosia pelos cossacos.

Os Czares, tal como a Europa Cristã, odiavam o regime do Khanato da Crimeia, e quando rebentou a guerra Russo-Turca em 1735, as tropas russas, muito melhor equipadas, entraram na Crimeia e levaram tudo à frente até ao mar. A 19 de Abril de 1783, a Crimeia passou a ser russa e cristã, e o tráfico de escravos terminou. Esta invasão foi, ao contrário da que agora corre, um imperativo de Civilização !

Catarina II desembarcou na Crimeia nesse mesmo ano de 1783, com aparato e uma marcha triunfal. Estabeleceu uma frota russa no Mar Negro que garantia o controle total da navegação, e com todo este abuso de poder desencadeou a segunda guerra Russo-Turca de 1787-1792, em que os Turcos viriam a perder toda a esperança de reaver a Crimeia.

A Sebastopol de Catarina a Grande 

Começou então a supervalorizaçã da Crimeia como estância de luxo, pérola do Mar Negro para gozo do topo da hierarquia russa.

Os Palácios

Quase todos são alcandorados na encosta litoral do sul, próximo de Yalta, a zona de veraneio favorita dos russos desde o século XIX.

1 Livadiya


Construído no estilo do renascimento italiano, foi inspirado na arquitectura branca do sul de Espanha, em calcário de Inkerman (pedra local com incrustações).

Oferecido como prenda pelo czar Romanov II à esposa doente, tornou-se residência familiar dos czares na península, como retiro de Verão. Foi sendo objecto de ampliações e restauros.


Durante a historica Conferência da Paz em Yalta, a delegação russa ficou alojada no Palácio Livadiya.

2 Massandra


No século XIX, a Crimeia foi entrege para governar ao Principe Vorontsov. Fascinado pelo lugar, Vorontsov contratou em 1881 uma equipa de arquitectos franceses para lhe desenhar um château ao estilo Louis XIII. Acabado apenas em 1900, teria um futuro negro: na era soviética, seria esta a dacha de férias de Estaline.

3 Alupka (palácio Vorontsov)

Mandado construir também pelo príncipe Vorontsov em 1828, ficou pronto vinte anos depois. Imita o estilo revivalista inglês, baronial e neo-gótico, mas também recorre a alguns exotismos de mau gosto, como as fachadas mouriscas.

 Aqui ficou alojada a delegação britânica a Yalta, incluindo Winston Churchill.


" Meio gótico, meio mourisco, tinha por trás os picos das montanhas mais altas da Crimeia, nevadas no Inverno. Leões esculpidos em mármore branca guardavam a entrada, e para lá do pátio há um parque botânico de plantas sub-tropicais. "

-  Escreveu Winston Churchill, hóspede durante a Conferência de Yalta.

A grande escadaria dos leões

Uma opulência mediterrânica

Terraços, jardins, pátios, arvoredo 

Sala Azul

Um dos acrescentos ao edifício original deu lugar a um arruamento celebre, a Passagen Shuvalov, a lembrar uma rua medieval.


4 'Ninho de Andorinha' (Lastivtchine hnizdo)

Este é o mais famoso ex-libris da Crimeia.


É um castelo neo-gótico como o nosso palãcio de Sintra, muito mais feio mas situado na berma de um promontório 40 metros acima do mar, na costa Sul da Crimeia, entre Yalta e Alupka e perto das ruínas do castro romano de Charax.


Antes de 1912 havia uma estrutura acastelada em madeira, conhecida como "Ninho de Andorinha". Foi comprada por um rico industrial alemão que em seu lugar construiu o actual castelo de pedra, desenhado pelo escultor russo Leonid Sherwood. Após décadas de abandono, em 1967 um arquitecto local reforçou restaurou o edifício.



«««««««««««««««««»»»»»»»»»»»»»»»»»

Suponho que por esta altura já é bem claro porque a Rússia fez questão de invadir a Crimeia e chamar-lhe sua. É uma penísula admirável, tem a localização estratégica de fechar o mar de Azov, e é de grande riqueza patrimomial e histórica.


O famoso leão dormente da Crimeia (Palácio Alupka)

Tantas gentes andaram por aqui!

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------

*  Escrevo Scita e não Cita como é norma.

** russo com letra pequena é intencional. É preciso que a rússia seja pequena.








sábado, 4 de janeiro de 2025

2025 em música : a minha escolha em 7 CDs


Já não se compram CDs, ouço e leio por aí; na verdade, o negócio continua bom, a edição vai de vento em popa, vendem-se milhões dos mais populares - apesar de estarem no Spotify - e quanto às gravações clássicas estão muito bem e recomendam-se. Aparelhagens sofisticadas de alta fidelidade com leitor de CD também vão sendo produzidas com regularidade: ainda há pouco a Roksan apresentou um novo par muito elogiado.

Haja música e estamos salvos.

1 Começo pelo disco da quadra natalicia que mais gostei de ouvir, o My Christmas de Diana Damrau, de 2022, CD duplo !

Não faltam discos de 'Carols' com coros de Catedral, mas é raro uma diva soprano gravar uma colecção que vai do Adeste Fideles ao lindíssimo Stil Still Still, passando o pelo First Nowell. Quase tudo em alemão, na voz firme e poderosa de Damrau. Uma colecção impressionante.

 
Still, still, still / Von Himmel hoch, da komm ich her / ...

2 Outra soprano, Regula Muhlemann, gravou o CD Fairy Tales em que canta numa voz de safira bem afiada árias onde existe fantasia nalguma forma - histórias de fadas ou sereias ou magia.

Começa com a Canção à Lua da Rusalka de Dvorak, e é logo um deslumbramento de voz. Impressionante a maleabilidade, o alcance e o domínio; se amadurecer bem, vai ser a soprano da década.

Depois de Dvorak, seguem-se Verdi, Purcell, Mendelssohn, Grieg e a Canção de Solveig:

3 Passando a música mais séria, Mark Padmore com o English Concertt dirigido por Andrew Manze gravaram As Steals the Morn.


'Enjoy the sweet Elysian grove' , ária da Alceste de Handel: :

O ponto alto do disco, a terminar, é uma ária a que já aqui me referi como uma das que mais aprecio em Handel: 'As Steals the Morn', de L'Allegro, Il Pensiero ed il Moderato, cantada com Lucy Crowe.

4. 'Concerti Brillanti ' é um belíssimo CD de Jan Vogler, violoncelista alemão, com a orq. de câmara de Munique dirigida por Reinhard Goebel, o exímio dirigente da Musica Antiqua Koln.

Os concertos são de Bach, Graf, Hasse e Haydn. Como seria de esperar, o de Haydn é o mais apelativo, até por ser uma première mundial ! Grande música, sem dúvida.

5. Descobri que a 7ª de Beethoven por Andrew Manze e a NDR Radiophilarmonie é fenomenal ! 

Não têm conta as orquestras alemãs de prestígio e excelência - as de Berlim, a de Leipzig, a de Dresden, as de Munique, Colónia, Bremen, Stuttgart...  Esta NDR é de Hannover, e desde que contratou o maestro Andrew Manze, tem sido um vê se te avias de boas gravações. Primeiro, um ciclo completo de Mendelssohn que é para mim uma referência. Neste disco, a 7ª de Beethoven é mais estrondosamente fantástica e bem dirigida que a também de alto nível 5ª. 

6. E viva Rossini - The Rossini Project (2019)

Pela Orchestra della Svizzera Italiana (OSI), dirigida por Markus Poschner.

Muita gente se equece de Rossini quando se aborda o génio criativo na música; eu sou bem capaz de passar horas a ouvi-lo, e já nem falo de óperas completas: as muitas Aberturas e Sinfonias, as Sonatas, as Cantatas e o Stabat Mater... Quem melhor lhe prestou homenagem foi talvez Roberto Chailly quando gravou um duplo CD com a National Orchestra de Washington, já em...; esteve até há pouco em curso outra homenagem, o Rossini Project, de que foram editados dois CD-livros cartonados; no primeiro, estão Sinfonias e árias para tenor.

7.  Andrea Oliva / Angela Hewitt  : Bach em flauta e piano  (2013)

Termino da melhor maneira:


Uma jóia requintada, estas Sonatas para Flauta de Bach, obras profanas (graças a ... ) de Bach; são diálogos delicados entre dois executantes de excepção,
 construídos no rigor clássico do século XVIII. Logo a primeira, a BWV 1031, deixa-nos num estado de beatitude face a coisas profanas geniais. Cinco estrelas, ou seis.

Aqui fica o Allegro Assai da sonata BWV 1035. 

Feliz 2005 !